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Maio 2002
Ano IV - nº 45

CERÂMICA POPULAR DO NORDESTE

Trabalhar o barro e transformá-lo em objetos de utilidade ou peças decorativas, moldá-lo e dar-lhe destinação especial, tem sido tarefa do homem nos diferentes ciclos de sua evolução. Diz-se mesmo que a cerâmica é a mais antiga das artes. O fato é que em escavações e descobertas tem a ciência encontrado na cerâmica um eficiente auxiliar nos estudos que visam ao conhecimento dos costumes e das épocas. Aí está a cerâmica do Marajó – o livro do barro – na expressão de Raimundo de Morais, "em cujas páginas selvagens escreveu a história da nação..."

Nas placas de argila flui uma força inventiva, inscreve-se um caráter peculiar a cada gente, originando maneiras distintas de utilizá-lo. Tem-se a cerâmica de qualidade superior produzida, em grandes fábricas, sob rigor técnico absoluto e a ingênua ou popular, onde se manifestam os rudimentos espontâneos de uma arte sem preconceito através da poesia rude da alma do povo. Aí perpassa um sopro de mundos embrionários alimentados por sentimentos sem derivações profundas; reflexos sim, de necessidades imediatas, noções superficiais de mentes incultas ou dominadas pela superstição.

No Brasil, nas feiras típicas do interior, é comum a exposição de cerâmicas, cuja procedência se denuncia sempre pela qualidade da argila e o acabamento das peças, concorrendo certas diferenças aí encontradas não só para identificar os autores como também para granjear-lhes a preferência. Alguns se dedicam somente ao fabrico de bonecos, como ocorre com Vitalino, em Caruaru – Pernambuco. Em Nazaré – Bahia, há os especialistas em "caxixis", louça em miniatura, cuja venda só se verifica na Sexta-Feira Santa, constituindo, assim uma prática que o sertanejo soma a outras atividades de fundo religioso nesse dia.

Sem desprezar outras cerâmicas em cujo rol poderíamos incluir a de Belém, Pará, onde a influência portuguesa é bem manifesta, merecendo, todas, observações que enriqueceriam de mais pormenores estas notas, salientaremos a "louça de barro" de Granja, no Ceará, não pelo que ela representa na economia local, mas porque nela apuramos o que aqui vai descrito. É uma cerâmica de rotina: potes, panelas, alguidares, moringas, pratos e vasos, a variedade toda de vasilhas indispensáveis à cozinha pobre. Tomar parte na sua confecção principalmente as mulheres, tendo meninos como auxiliares para serviços de menor responsabilidade.

Embora oferecendo aspecto pitoresco, onde os indivíduos formam um conjunto cheio de movimento e graça no sentido plástico das figuras dispostas ao acaso, o trabalho da "louceira" é penoso e antiquado, resultando num esforço que a desgasta muito cedo. Nas mãos, sempre mergulhadas no barro úmido, o reumatismo é freqüente e a pele, enrijecida, adquire consistência incômoda. Mal amanhece põe-se a trabalhar até quando anoitece, continuando ainda noite adentro na arrumação de peças concluídas ou fazendo vigília ao forno aceso na "queima" de outras já enxutas.

Os instrumentos de trabalho da louceira pouco variam e se resumem no seguinte: alguns cacos de cuia, uma quicé de arco de barril, sabugos de milho... e uma tábua manejável onde assenta a peça em execução. Completa esse precário arsenal uma tigela com água.

Tem começo a faina quando o barro fica no "ponto" depois de suficientemente triturado, os torrões transformados em pasta uniforme, macia e branda. (Essa tarefa é feita por um caboclo jovem que revolve o barro com uma enxada e o esmaga com a planta dos pés num saracoteio constante). Esfregando o incipiente material de sua arte na tábua manejável, a louceira obtém pequenos rolos compactos, sem veios, e vai aglutinando-os em círculos ou obedecendo a um sentido especial da peça em que trabalha, até atingir o "arremate" de uma jarra ou uma bilha etc., que põe num jirau ao lado para secar. Os cacos de cuia são cortados em rodelas, facilitando assim o seu manejo, e servem para alisar o barro dando uniformidade à superfície das paredes. Com os sabugos de milho, entretanto, a louceira faz ranhuras na parte externa das peças (jarras, de preferência), produzindo-lhes uma textura áspera que lhes dá maior resistência.

A "queima" é uma das fases mais delicada da louceira. Trata-se de evitar a todo custo que as peças se quebrem quando são arrumadas no forno. Nessa ocasião amontoam-se ao lado grandes feixes trazidos das matas pelo marido ou homens mais idosos, cuja ocupação principal é a pesca ou os serviços pesados, a "frete". Também as mulheres, muitas vezes, em bandos, atacam as capoeiras a facão e foice, trazendo para casa amarrados grotescos de garranchos que avultam em suas cabeças. É a lenha que as labaredas consumirão até que as peças fiquem rubras. A seguir e depois de esfriadas lentamente recebem elas o acabamento final: leves desenhos de singela geometria onde formas repetidas e ritmadas predominam. Os motivos preferidos: folhas e flores. A tinta aí empregada é obtida de bastões de "toá" - corruptela de tauá – xisto argiloso – de cor vermelha e altamente indelével que a louceira dissolve em água comum... e aplica diretamente com os dedos.

Atravessando gerações e sem que se tenha conhecimento do seu início naquela terra, a cerâmica granjense já se tornou tradição no lugar, atraindo a preferência dos compradores dos municípios circunvizinhos.

(Em Revista Brasileira de Geografia, ano 16, nº 4)


(Leite, Francisco Barbosa. Em Tipos e aspectos do Brasil, p.221–222)

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