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CERÂMICA POPULAR
DO NORDESTE |
Trabalhar o barro e transformá-lo em
objetos de utilidade ou peças decorativas, moldá-lo e dar-lhe destinação especial, tem
sido tarefa do homem nos diferentes ciclos de sua evolução. Diz-se mesmo que a cerâmica
é a mais antiga das artes. O fato é que em escavações e descobertas tem a ciência
encontrado na cerâmica um eficiente auxiliar nos estudos que visam ao conhecimento dos
costumes e das épocas. Aí está a cerâmica do Marajó o livro do barro na
expressão de Raimundo de Morais, "em cujas páginas selvagens escreveu a história
da nação..."
Nas placas de argila flui uma força inventiva, inscreve-se um caráter peculiar a cada
gente, originando maneiras distintas de utilizá-lo. Tem-se a cerâmica de qualidade
superior produzida, em grandes fábricas, sob rigor técnico absoluto e a ingênua ou
popular, onde se manifestam os rudimentos espontâneos de uma arte sem preconceito
através da poesia rude da alma do povo. Aí perpassa um sopro de mundos embrionários
alimentados por sentimentos sem derivações profundas; reflexos sim, de necessidades
imediatas, noções superficiais de mentes incultas ou dominadas pela superstição.
No Brasil, nas feiras típicas do interior, é comum a exposição de cerâmicas, cuja
procedência se denuncia sempre pela qualidade da argila e o acabamento das peças,
concorrendo certas diferenças aí encontradas não só para identificar os autores como
também para granjear-lhes a preferência. Alguns se dedicam somente ao fabrico de
bonecos, como ocorre com Vitalino, em Caruaru Pernambuco. Em Nazaré Bahia,
há os especialistas em "caxixis", louça em miniatura, cuja venda só se
verifica na Sexta-Feira Santa, constituindo, assim uma prática que o sertanejo soma a
outras atividades de fundo religioso nesse dia.
Sem desprezar outras cerâmicas em cujo rol poderíamos incluir a de Belém, Pará, onde a
influência portuguesa é bem manifesta, merecendo, todas, observações que enriqueceriam
de mais pormenores estas notas, salientaremos a "louça de barro" de Granja, no
Ceará, não pelo que ela representa na economia local, mas porque nela apuramos o que
aqui vai descrito. É uma cerâmica de rotina: potes, panelas, alguidares, moringas,
pratos e vasos, a variedade toda de vasilhas indispensáveis à cozinha pobre. Tomar parte
na sua confecção principalmente as mulheres, tendo meninos como auxiliares para
serviços de menor responsabilidade.
Embora oferecendo aspecto pitoresco, onde os indivíduos formam um conjunto cheio de
movimento e graça no sentido plástico das figuras dispostas ao acaso, o trabalho da
"louceira" é penoso e antiquado, resultando num esforço que a desgasta muito
cedo. Nas mãos, sempre mergulhadas no barro úmido, o reumatismo é freqüente e a pele,
enrijecida, adquire consistência incômoda. Mal amanhece põe-se a trabalhar até quando
anoitece, continuando ainda noite adentro na arrumação de peças concluídas ou fazendo
vigília ao forno aceso na "queima" de outras já enxutas.
Os instrumentos de trabalho da louceira pouco variam e se resumem no seguinte: alguns
cacos de cuia, uma quicé de arco de barril, sabugos de milho... e uma tábua manejável
onde assenta a peça em execução. Completa esse precário arsenal uma tigela com água.
Tem começo a faina quando o barro fica no "ponto" depois de suficientemente
triturado, os torrões transformados em pasta uniforme, macia e branda. (Essa tarefa é
feita por um caboclo jovem que revolve o barro com uma enxada e o esmaga com a planta dos
pés num saracoteio constante). Esfregando o incipiente material de sua arte na tábua
manejável, a louceira obtém pequenos rolos compactos, sem veios, e vai aglutinando-os em
círculos ou obedecendo a um sentido especial da peça em que trabalha, até atingir o
"arremate" de uma jarra ou uma bilha etc., que põe num jirau ao lado para
secar. Os cacos de cuia são cortados em rodelas, facilitando assim o seu manejo, e servem
para alisar o barro dando uniformidade à superfície das paredes. Com os sabugos de
milho, entretanto, a louceira faz ranhuras na parte externa das peças (jarras, de
preferência), produzindo-lhes uma textura áspera que lhes dá maior resistência.
A "queima" é uma das fases mais delicada da louceira. Trata-se de evitar a todo
custo que as peças se quebrem quando são arrumadas no forno. Nessa ocasião amontoam-se
ao lado grandes feixes trazidos das matas pelo marido ou homens mais idosos, cuja
ocupação principal é a pesca ou os serviços pesados, a "frete". Também as
mulheres, muitas vezes, em bandos, atacam as capoeiras a facão e foice, trazendo para
casa amarrados grotescos de garranchos que avultam em suas cabeças. É a lenha que as
labaredas consumirão até que as peças fiquem rubras. A seguir e depois de esfriadas
lentamente recebem elas o acabamento final: leves desenhos de singela geometria onde
formas repetidas e ritmadas predominam. Os motivos preferidos: folhas e flores. A tinta
aí empregada é obtida de bastões de "toá" - corruptela de tauá xisto
argiloso de cor vermelha e altamente indelével que a louceira dissolve em água
comum... e aplica diretamente com os dedos.
Atravessando gerações e sem que se tenha conhecimento do seu início naquela terra, a
cerâmica granjense já se tornou tradição no lugar, atraindo a preferência dos
compradores dos municípios circunvizinhos.
(Em Revista Brasileira de Geografia, ano 16, nº 4)
(Leite, Francisco Barbosa. Em Tipos e aspectos do Brasil, p.221222) |
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