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Maio 2002
Ano IV - nº 45

O EITO E A SENZALA
(Na mata pernambucana – 1816)

Estas impressões figuram nas Notas dominicais, de L. F. de Tollenare, francês que depois de uma estada em Portugal viajou em 1816 para Pernambuco – a fim de negociar em algodão – passando-se depois para a Bahia e retornando à Europa em 1818.


No Engenho Salgado. – Domingo, 8 de dezembro de 1816. – O negociante a quem fui particularmente recomendado no Recife me recebeu em sua casa e me tem tratado com uma hospitalidade de que este país e muitos outros oferecem poucos exemplos. Nenhum estrangeiro é admitido nas famílias portuguesas, e eu inspirei-lhe bastante confiança para que me introduzisse na sua. Quaisquer que sejam as diferenças de maneiras, nada pode me fazer esquecer que recebo da sua parte um tratamento tão afável quão desusado geralmente. Dele experimento, sobretudo neste instante, um efeito que o coloca muito acima de quantas festas me pudessem ter sido oferecidas. Meu hóspede, o senhor R..., percebendo o desejo que eu nutria de ver, mais cedo ou mais tarde, o interior das terras do Brasil, sem hesitar em propôs acompanhá-lo ao meu engenho Salgado, onde acabo de chegar.

Os meus negócios permitindo esta ausência, aceitei o seu oferecimento com sofreguidão igual à urbanidade que o ditou.

Eis-me, pois, fora dos lugares sujeitos à influência da Europa. Conquanto um pouco atordoado pela viagem, a fidelidade que me prometi para as minhas notas, e a idéia de que as primeiras impressões são sempre dignas de nota, me faz pegar da pena para consigná-las.

Partimos anteontem, a cavalo, do Recife; aproveitando um belo luar, nos pusemos a caminho um pouco antes de meia-noite e chegamos aqui às sete horas e meia da manhã, tendo percorrido dezesseis léguas, de duas mil toesas, com os mesmos cavalos e sem repousar em tão curto espaço de tempo. Pouco direi das coisas do caminho; durante a noite vê-se pouco ou mal. Saímos pelo aterro dos afogados e seguimos a princípio para o sudeste através de uma planície de areia, coberta de mangues e freqüentemente alagada pelo mar; aqui e ali víamos algumas miseráveis palhoças; dizem que servem de refúgio a salteadores; mas, nós e os nossos negros íamos fortemente armados.

A três léguas do Recife paramos, durante um quarto de hora, em um pequeno povoado, à beira mar, chamado Boa Viagem. Os crioulos brasileiros, reservando o dia para dormir, estavam reunidos em frente às suas casas para gozar da frescura da noite. As raparigas cantavam e as mulheres dançavam ao som das suas canções. A dança parecia muito com a dos negros, pelo menos quanto à expressão lasciva. Esta boa gente nos recebeu com muita cordialidade, e nos forçou a aceitar um gole de genebra.

Depois de Boa Viagem fizemos cerca de duas léguas ao longo da praia; os nossos cavalos se espantavam algumas vezes com o ruído das vagas, que vinham se quebrar sobre o recife, o qual aparecia, de tempos em tempos, perto da costa. Deixamos em seguida o mar e nos dirigimos para Oeste, seguindo uma estrada, ou antes, uma vereda na floresta. Amiúde urgia abaixar a cabeça sobre o pescoço dos cavalos a fim de evitar os galhos que se cruzavam; um dos nossos negros foi violentamente contundido por um deles. Em certos caminhos profundos havia apenas espaço para a passagem de um cavaleiro; nós atravessamos assim dois vaus e três pontes perigosas lançadas sobre pequenos rios; um deles era o rio Santo Ângelo.

Por espaço de seis léguas observei um só lugar habitado: era uma distilação de aguardente; apenas o grilo rompia a solidão com o ruído das suas asas, e os pirilampos lançavam uma claridade fosforescente tão viva que teria permitido ler-se.

Ao romper do dia encontramos algumas mulheres crioulas, mulatas e negras que vinham de noite do fundo das florestas para ouvir missa no engenho Garapu, onde chegamos às cinco horas e meia e nos demoramos um quarto de hora. Este engenho é movido por água. A roda é de pás muito estreitas no máximo dez a doze polegadas, e tem vinte e cinco pés de diâmetro!!! Depois de ter atravessado algumas montanhas, descemos a planície e vimos ainda dois engenhos. Um deles tinha uma belíssima casa de moradia.

Desde o Recife até Salgado (nome do engenho do senhor R.) por espaço de quinze léguas, encontramos apenas um povoado, três engenhos, uma distilação e algumas miseráveis cabanas de taipa ou de folhagem.

Estas cabanas são habitadas por mulatos e negros livres que cultivam um pouco de mandioca e raramente bananas; algumas vão às vezes oferecer os seus serviços nos engenhos como em um estado que se chamaria de miserável, se se pudesse ser miserável sob um clima que não exige, por assim dizer, nem vestuário nem abrigo sobre uma terra virgem, que remunera com profusão o mais ligeiro trabalho, em meio de florestas abundantes em frutos deliciosos. É verdadeiramente ali que convém à indolência estabelecer o seu domínio.

O espetáculo de engenho é bem diferente. Aqui, nada de apatia; tudo é trabalho, atividade; nenhum movimento é inútil, não se perde uma só gota de suor.

À primeira vista o estabelecimento parece bastante com uma das grandes herdades de Beauce. Os edifícios cercam um grande pátio de sessenta toesas de comprido sobre trinta e poucas de largo. Vê-se em primeiro lugar uma extensa construção ao rés do chão, tendo em frente uma galeria sustentada por colunas; é a senzala dos negros, deserta durante as horas de trabalho. Vêem-se apenas errar sob o alpendre uma ou duas negras que acabam de dar à luz; são dispensadas do trabalho por alguns dias; amamentam os filhos concebidos na escravidão, que serão escravos e que o senhor poderá vender amanhã.

Da senzala domina-se a planície onde se cultiva a cana. O calor é de 27 a 28º, o sol abrasador; vejo expostos aqui ao seu ardor trinta negros e negras curvados para a terra, e excitados a trabalhar por um feitor armado de um chicote que pune o menor repouso; ali oito negros vigorosos cortam as canas que cinco raparigas enfeixam; os carros, atrelados de quatro bois, vão e vêm dos canaviais ao engenho; outros carros chegam da mata carregados de lenha para as fornalhas. Tudo é movimento.

Próximo à senzala acha-se o engenho; assenta sobre um terraço e o seu teto repousa sobre pilares; oito cavalos, estimulados pelos gritos de quatro moleques, fazem-no girar. Em um cercado contíguo estão cem cavalos de reserva para as mudas; aproximam-se todos da construção em que estão as caldeiras a fim de se abeberarem n’água em que se deitam as espumas açucaradas de que gostam extraordinariamente. São cinco raparigas negras que apresentam a cana (vi também empregar negros neste mister) aos cilindros verticais da moenda; as suas formas esbeltas e flexíveis se desenham com elegância a cada um dos seus movimentos; mostram-se alegres; o seu trabalho é penoso, muito menos, porém, do que o campo, porquanto estão ao abrigo do sol. É preciso que pelo menos uma dentre elas tenha certo grau de inteligência para julgar quando a cana tem passado pela moenda o número de vezes suficiente, e que não contém mais caldo. Comparo a sua sorte à das jovens empregadas no serviço de fiação nas nossas tecelagens de algodão; alguns negros descarregam a canas chegadas do campo e as colocam ao alcance das mulheres; outros transportam em grandes cestos e espalham no terreiro o bagaço inútil da cana, que não é usado como combustível.

O edifício que encerra a moenda contém igualmente a importante dependência das caldeiras, onde é cozido o caldo e se forma o açúcar. O mestre refinador é um homem livre; tem às suas ordens cinco negros robustos que vivem, como ele, em meio de um vapor ardente; agitam o mel com grandes colheres. O fogo das fornalhas é alimentado dia e noite e mantido durante os cinco meses que dura a safra. Dois negros colocados em frente às bocas alimentam o fogo com lenha verde; outros transportam as formas para a casa de purgar, que é também dirigida por um mulato livre. Este tem sob suas ordens dois homens para a refinação e dois outros para esgotar o mel que vai juntar-se em um reservatório comum. Esta dependência é silenciosa e escura, necessitando de uma temperatura fresca; comunica com a em que se despejam as formas contendo o açúcar acabado. Ali os pães cristalizados e purgados são quebrados; separam-se as qualidades, e espalha-se o açúcar, para secar ainda, sobre duas plataformas móveis que podem ser recolhidas com facilidade em caso de mau tempo; depois pila-se e encaixota-se o açúcar, sendo esta a última operação. É o administrador geral do engenho que tem a inspeção imediata desta dependência.

Esta exposição do fabrico do açúcar é bem sucinta; mas, voltarei ao assunto quando tiver melhor examinado os detalhes; vou continuar com a descrição geral de todo o estabelecimento.

Visitei o alpendre em que se descasca, raspa, espreme e torra a mandioca; é junto à cozinha onde se preparam as rações e à despensa onde são distribuídas. São as negras mais idosas ou de menos confiança que se acham deste lado. Em redor deste quarteirão alimentar tripudiam os moleques e molecas inteiramente nus. De noite vão dormir na senzala com as mães; mas, durante o dia recebem ali uma alimentação abundante e quase que à discrição. Aliás, o que se não lhes dá eles o furtam a seu risco e perigo.

O senhor se interessa por esta miuçalha, sua esperança, e prefere os negros nascidos no país aos africanos; não desdenha mesmo de agradá-los com a ponta da bengala e de brincar com eles como se faz com os cãezinhos ou os macaquinhos, como os quais um tanto se parecem pelos gestos, as atitudes, a malícia e a inocente familiaridade.

Os rapazes mais crescidos, que, porém, ainda não têm vigor bastante para o trabalho, vão cabriolar no meio dos cavalos ou mergulhar no rio que corre ao pé do engenho; freqüentemente, de boa vontade ou por imitação, procuram prestar pequenos serviços, carregando alguns objetos.

Há na casa das caldeiras um negro soberbo, José Cambinda; a sua fisionomia é nobre e interessante; tem um filho de dois anos que já anda e não se afasta dele mais de seis passos durante o trabalho.

Vê-se brilhar-lhe nos olhos o amor paternal, e involuntariamente pergunta-se do que não seria ele desculpável se o senhor viesse a lhe arrancar o filho pra vender.

Mas, deixemos o extemporâneo papel de filantropo especulativo; não sucede coisa semelhante na nossa Europa para o serviço dos soberanos, de quem os plantadores são aqui a imagem?

Em meio de todo esse movimento, procuro e dificilmente encontro a expressão do pesar e do sofrimento. Em toda a fábrica, que se compõe de cento e vinte a cento e trinta indivíduos, não descubro mais do que três ou quatro fisionomias sinistras, cujo olhar revela o desejo da vingança. Os que trabalham no campo parecem embrutecidos; entre os ocupados no engenho alguns mostravam-se afeiçoados.

As faltas são punidas com açoites dolorosos, que não parecem ter outro efeito além do físico; além disto só os vi aplicar a jovens estouvados de dezessete a dezoito anos, que por toda a parte da Europa teriam merecido e recebido um castigo ou uma repreensão. Fala-se rispidamente a todos os negros; mas, não vejo levantar-se a chibata, senão raramente e sobre os fracos. Entretanto toda esta gente está armada de facas. Foices e instrumentos aratórios que se podem transformar em armas; cem negros poderiam facilmente massacrar os dois brancos que os governam e fugir para as matas; à primeira vista a facilidade de semelhante revolta é verdadeiramente aterradora; mas, os senhores de engenhos se acostumam à idéia deste perigo, como os marinheiros ao do Oceano.

Acabam de trazer um negro que havia fugido para o mato há cinco dias. Estava em um estado lastimável; não tinha tido o instinto de se alimentar de frutos silvestres; havia furtado algumas raízes verdes de mandioca e ousara comê-las; as pernas, o tronco e o rostos tumefatos anunciavam que ele tinha sofrido muito; estava em um estado de baixa humilhação e de apatia que inspirava compaixão. Não sofreu severa correção devido ao seu estado doentio; receio, porém, que isto aconteça quando se restabelecer. O cirurgião que foi chamado me disse que atribui o estado do fugitivo a ter comido terra; assegura-me, bem como o plantador, que os negros, por preguiça ou por desespero, sabem muito bem tornar-se doentes por este processo que os faz inchar e freqüentemente morrer. Estas suspeitas são confirmadas pelo entorpecimento do pulso; informam-me que a moléstia ocasionada pelo envenenamento pelo suco da mandioca se manifesta por uma desigualdade de aceleração considerável das pulsações. O senhor R., no começo do seu estabelecimento, perdeu vários negros que se tinham envenenado com terra, e os faz vigiar cuidadosamente quando manifestam sintomas de melancolia.


(Tollenare, L. F. de. Em Bruno, Ernani Silva (org.). Os canaviais e os mocambos; Paraíba, Pernambuco e Alagoas, p.55)

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