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Maio 2002
Ano IV - nº 45

CABRA-CABRIOLA

Havia uma mulher que tinha três filhos de tenra idade, e saindo sempre à noite para angariar meios de subsistência para eles, recomendava-lhes, muito insistentemente, que se prevenissem contra as astúcias da cabra-cabriola, não abrindo a porta senão a ela própria, cuja voz e toada particular perfeitamente conheciam.

Certa noite, porém, chega o monstro, bate à porta, e ignorando o acordo estabelecido, pede como se fosse a mãe das crianças, que a deixem entrar; mas, falando naturalmente com a sua voz forte, grossa e horrível, nada conseguiu com suas artimanhas, e saiu desesperada, bramindo:

Eu sou a cabra-cabriola,
Que come meninos aos pares,
E também comerei a vós,
Uns carochinhos de nada.

Retrocede depois, oculta-se, e aguarda a volta da mulher, e com semelhante artifício aprende-lhe a toada, e repara bem no seu metal de voz.

No dia seguinte vai à casa de um ferreiro, manda bater a língua na bigorna, e conseguindo assim modificar a sua voz, tornando-a mesmo igual à da mãe dos meninos, vem à noite, espreita a sua saída e depois bate à porta, cantarolando a conhecida toada:

Filhinhos, filhinhos,
Abri-me a porta,
Qu’eu sou vossa mãe;
Trago lenha nas costas,
Sal na moleira,
Fogo nos olhos,
Água na boca,
E leite nos peitos
Para vos criar.

E as pobres crianças, na persuasão de que era a sua própria mãe que assim lhes falava, abrem pressurosas e alegres a porta, e inopinadamente acometidas pela esfaimada cabra-cabriola, são todas devoradas por ela.


(Costa, Francisco Augusto Pereira da. Folclore pernambucano)

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