|
|
Havia uma mulher que tinha três filhos de
tenra idade, e saindo sempre à noite para angariar meios de subsistência para eles,
recomendava-lhes, muito insistentemente, que se prevenissem contra as astúcias da
cabra-cabriola, não abrindo a porta senão a ela própria, cuja voz e toada particular
perfeitamente conheciam.
Certa noite, porém, chega o monstro, bate à porta, e ignorando o acordo estabelecido,
pede como se fosse a mãe das crianças, que a deixem entrar; mas, falando naturalmente
com a sua voz forte, grossa e horrível, nada conseguiu com suas artimanhas, e saiu
desesperada, bramindo:
Eu sou a cabra-cabriola,
Que come meninos aos pares,
E também comerei a vós,
Uns carochinhos de nada.
Retrocede depois, oculta-se, e aguarda a volta da mulher, e com semelhante artifício
aprende-lhe a toada, e repara bem no seu metal de voz.
No dia seguinte vai à casa de um ferreiro, manda bater a língua na bigorna, e
conseguindo assim modificar a sua voz, tornando-a mesmo igual à da mãe dos meninos, vem
à noite, espreita a sua saída e depois bate à porta, cantarolando a conhecida toada:
Filhinhos, filhinhos,
Abri-me a porta,
Queu sou vossa mãe;
Trago lenha nas costas,
Sal na moleira,
Fogo nos olhos,
Água na boca,
E leite nos peitos
Para vos criar.
E as pobres crianças, na persuasão de que era a sua própria mãe que assim lhes falava,
abrem pressurosas e alegres a porta, e inopinadamente acometidas pela esfaimada
cabra-cabriola, são todas devoradas por ela.
(Costa, Francisco Augusto Pereira da. Folclore pernambucano) |
|