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Antigamente as mulheres
foram em busca de milho, mas acharam pouquíssimo, somente algumas espigas cada uma.
Levaram depois um menino e desta vez foram mais afortunadas, porque acharam uma grande
quantidade de milho e no mesmo lugar o socaram para fazer pão e bolo para os homens que
tinham ido à caça.
O menino conseguiu subtrair grande quantidade de milho em grão e, para esconder o furto
às mulheres, encheu umas taquaras que preparou de propósito em grande quantidade.
Voltou à sua cabana; tirou o milho e o entregou à avó, dizendo: Nossas mães lá no
bosque fazem pão de milho: faze um para mim, porque quero comê-lo com meus amigos.
A avó o satisfez. Quando o pão estava pronto, ele e seus amigos comeram; depois cortaram
os braços e a língua da avó, para que não manifestasse o furto cometido e não se
opusesse a quanto tinha determinado fazer. Para o mesmo fim, cortaram a língua de um belo
papagaio doméstico, e puseram em liberdade todos os pássaros criados na aldeia.
Tinham resolvido fugir para o céu, temendo a ira de seus pais e mães. Dirigiram-se para
a floresta, chamaram o piodduddu, "colibri"; e colocaram-lhe no bico a
ponta de uma compridíssima corda, dizendo-lhe:
- Pega, voa e amarra a ponta sobre este cipó e a outra extremidade que amarraremos na
perna, prenderás lá em cima, no céu. Procura prendê-la solidamente numa árvore grossa
de lá.
O colibri fez como lhe foi dito. Então os meninos, um depois do outro, foram subindo,
primeiro pelo cipó, servindo-se dos nós que ele naturalmente possui, como de escada;
depois se penduraram na corda, que o pássaro tinha colocado na extremidade do cipó.
Então as mães voltaram e, não achando os filhos, perguntaram à velha e ao papagaio:
- Onde estão os nossos filhos! Onde estão nossos filhos? Mas nem a velha, nem o
papagaio deram-lhes respostas. Uma delas saindo ao aberto, viu uma corda que chegava até
as nuvens, e agarrada na mesma uma longa fila de meninos, que escalava o céu.
Ela avisou as outras mulheres e todas correram para a mata e começaram a chamar os
meninos afetuosamente, para que descessem, mas eles não lhes deram ouvido e continuaram a
subir. Então as mães começaram a chorar e a esconjurar que descessem e voltassem a
habitar com elas. Mas os meninos não só se fizeram de surdos aos pedidos de suas mães,
mas até se apressaram em subir.
Então aquelas mulheres, vendo que inúteis eram seus rogos, começaram também a subir
pelo cipó e, terminada tal ascensão, treparam pela corda, com o fim de alcançar seus
filhos.
O menino que tinha roubado o milho se colocou último da fila, e foi, portanto, o último
a chegar ao céu; quando chegou, viu que na corda, uma depois da outra, estavam agarradas
todas as mulheres; então cortou a corda, e todas aquelas mulheres caíram
desajeitadamente em terra, onde se mudaram em animais e feras.
Esses meninos desnaturados, como castigo da sua monstruosa maldade e ingratidão, foram
condenados a olhar todas as noites fixamente a terra, para ver o que aconteceu às suas
mães. Seus olhos são as estrelas.
[1] Lenda publicada pelos Padres A
Colbacchini e C. Albisetti em Os bororós orientais (Companhia Editora Nacional,
Coleção Brasiliana, São Paulo, 1942, p.218-219)
(Em Costa e Silva, Alberto (org.). Lendas do índio brasileiro)
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