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Maio 2002
Ano IV - nº 45

A FESTA DO DIVINO E CORPUS CHRISTI

No domingo de Pentecostes celebram a festa do Espírito Santo. Muito antes desse dia, e a fim de angariar fundos com que atender às despesas, bandos precatórios percorrem as ruas da cidade. Nessas procissões, os pedintes levam uma capa vermelha sobre os ombros e conduzem grande número de estandartes sobre os quais vai uma pomba bordada e circundada por um halo de glória. Esses estandartes entram pelas portas e janelas das casas e o povo os beija freqüentemente; os pedintes levam bandejas de prata e sacolas de seda onde vão depositando as esmolas as pessoas que beijam o emblema. A aproximação desses augustos personagens é anunciada por um grupo de negros maltrapilhos que, com seus rudes instrumentos, servem a igreja durante o dia e o teatro à noite.

Coletas dessa natureza são muito freqüentes nas cidades brasileiras visto como há sempre uma festa em perspectiva. Em geral, conduzem nessas ocasiões, uma pequena imagem do santo cujos festejos pretendem realizar, como argumento decisivo em favor da esmola. Os devotos apressam-se em beijar a imagem, e às vezes, chamam as crianças para fazerem o mesmo. Esses pedintes bem como as "beatas", tornam-se por vezes tão importunos quanto os mendigos, antes de serem alojados na Casa de Correção.

Em certas regiões do interior tais bandos precatórios adquirem aspecto peculiar e grotesco. Sob o título de "foliões cavalgatas", descreveu-os o falecido senador Cunha Matos. Afirma ele em seu Itinerário ter encontrado um desses bandos precatórios entre os rios São Francisco e Paranaíba, composto de cinqüenta pessoas tocando violinos, tambores e outros instrumentos a fim de despertar a liberalidade, senão a devoção do povo. Para receber o que quer que se lhes quisesse dar - porcos, galinhas, etc. - iam prevenidos com mulas e sacos de couro.

No relato de sua viagem pelo Alto Amazonas, diz o Tenente Smith - "Encontramos uma canoa que seguia rio acima, ao som de tambores e enfeitada com bandeiras; os nossos barqueiros pediram licença para se aproximar dessa embarcação que, como viemos a saber, conduzia uma "divindade", isto é, uma coroa de prata dourada, ornamentada com fitas. Tratava-se de um bando precatório religioso. Os nossos remadores se persignaram, beijaram a coroa e nos convidaram a fazer o mesmo. Excusamo-nos a isso, mas, seguindo o costume, demos algumas moedas de cobre e o pessoal da canoa cantou-nos um hino."

Durante as celebrações da festa do Espírito Santo, costumam levantar sobre um mastro o conhecido emblema do Divino descendo sob a forma de uma pomba. Lá fica durante meses como entre nós permanece o barrete da liberdade depois dos festejos de 4 de julho.

A procissão de Corpus Christi é diferente de quase todas as outras. A única imagem que sai é a de São Jorge, cujo nome consta do calendário como sendo do "defensor do Império". O santo é conduzido a cavalo, em uniforme militar e protegido por pesada armadura; aos lados vão diversas pessoas, a fim de evitar alguma queda. O jovem imperador acompanha a procissão sem chapéu, levando uma vela como o faziam os seus piedosos antepassados; acompanha-o a corte, os cavaleiros das ordens militares e a Câmara Municipal em trajo de gala com suas insígnias e distintivos. Quando o imperador sai, nessas ocasiões, os moradores das ruas por onde ele deve passar empenham-se em forrar as janelas e sacadas de suas casas com sedas e damascos.


(KIDDER, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanências nas províncias do sul do Brasil; Rio de Janeiro e província de São Paulo..., p.139-141)

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