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Maio 2002
Ano IV - nº 45

A FESTA DO DIVINO
(Corte)

Até o ano de 1855, nenhuma festa popular no Rio de Janeiro foi mais atraente, mais alentada de satisfação geral.

Referem antigos cronistas, que as festas do Divino foram instituídas em Portugal pela Rainha Santa Isabel e escritores do século XVI as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto na sua Imagem da vida cristã.

Não abandonando nunca as suas terras natalícias, mas viajando em nossos climas, esses folguedos impregnaram-se aqui de aromas sutis, expandiram-se em manifestações mais variadas, tendo como figurantes troncos primitivos ou seus descendentes imediatos, que deviam entrar por algumas coisas na metamorfose do molde metropolitano, sempre uniforme e monótono nos Açores, Coimbra, etc.

E que não só a linguagem, porém os usos e costumes europeus, passando-se para a América, adquiriram mais suavidade e riqueza.

Na época em que fazemos passar esta festa (1853-1855), em três freguesias desta capital armavam-se impérios e coretos: - na do Espírito Santo, na de Mataporcos, na de Santana, no campo do mesmo nome, e na Lapa do Desterro, que representava a freguesia da Glória.

As músicas de barbeiros, que eram compostas de escravos negros, recebendo convites para as folias, ensaiavam dobrados, quadrilhas, fandangos...

O povo, prelibando delícias infalíveis, passeava no campo, assistindo à edificação das barracas, à construção do império e dos coretos, à colocação das bandeiras e das arandelas, e ao orlamento de copinhos de cores, com que fantasticamente iluminava-se a frente da igreja de Santana, mais tarde demolida para fazer-se a Estação da Estrada de Ferro de Pedro II.

Quarenta dias antes do domingo do Espírito Santo, a banda dos pretinhos, precedendo ruidosa turma, parava no Largo da Lapa, defronte de um império de pedra e cal, que existia no lugar onde atualmente levanta-se um prédio de dois andares - e aí tocava escolhidas peças de seu resumido repertório.

Ao passo que a música extasiava os circunstantes e reunia toda a gente, dois negros possantes perfuravam o chão com alavancas pesadas e pontudas. Findo esse trabalho, fincava-se o clássico mastro, encimado por uma pomba de madeira recentemente prateada, flutuando um pouco abaixo a bandeira do Divino, com as suas douraduras brilhantes e seus matizes vivíssimos.

E a foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros feriam os seus instrumentos, e os foliões, que até então conservavam-se quietos, misturavam aos sons da instrumentação marcial o rufo acelerado dos tambores, os tinidos dos ferrinhos, o tropel das castanholas e o chocalhar dos pandeiros, com que acompanhavam as suas cantigas:

A pombinha vai voando,
A lua a cobriu de um véu,
O Divino Espírito Santo
Pois assim desceu do céu.

Os foliões eram rapazes de nove a dezoito anos, trajavam igualmente, cantavam quadrinhas ajustadas no religioso motivo, pedindo pelas ruas da cidade esmolas para as despesas do culto.

Dois irmãos da confraria os acompanhavam, vestidos de opa. Um conduzia pela mão o imperador, que era um menino de oito a doze anos, vestido de casaca vermelha, calção e chapéu armado; outro, com uma espécie de custódia, no centro da qual havia uma pomba esculpida, adiantava-se para as pessoas que a beijavam, e, apresentando uma sacola de belbutina encarnada, recolhia as esmolas dos devotos.

Nos ranchos, um rapazola ia com a bandeira, sendo as vestimentas de todos casaca e calção escarlates com galões de ouro, colete de seda branca debruado de cores, sapatos baixos de fivela, chapéu de feltro de copa afunilada e abas largas, ornado de fitas, distinguindo-se o porta-estandarte por vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flores, pregado no chapéu, de forma diferente.

E a folia dobrada, pulando, brincando, dançando, cantava:

O Divino pede esmolas
Mas não é por carecer,
Pede para esp’rimentar
Quem seu devoto quer ser.

Meu Divino Esp’rito Santo,
Divino celestial,
Vós na terra sois pombinha,
No céu pessoa real.

A folia de Mataporcos, reproduzindo cerimonial idêntico, tomava para outras bandas, aguçando a curiosidade dos habitantes do bairro, que chegavam à porta e às janelas para vê-los e ouvi-los:

Andamos de porta em porta
De todos os moradores,
Pra festejar o Divino,
Cobri-lo de flores.

O Divino Esp’rito Santo
Hoje vos vem visitar,
Vem pedir-vos uma esmola
Pra seu império enfeitar.

Depois destes e de um sem número de versos, o irmão de opa, erguendo a bolsa em que os devotos osculavam a imagem simbólica, a retirava, ao tinir das moedas de prata ou de cobre, que caíam, dos contribuintes piedosos e francos.

Diariamente saíam esses alegres e festivos grupos, visitando cada qual a sua paróquia.

Os foliões de Santana eram mais avultados, descreviam mais amplo itinerário, recolhiam maiores donativos.

Antecedidos sempre pela música de barbeiros, acompanhando com instrumentos múltiplos as suas tradicionais canções, a colheita das esmolas estabelecia relações diretas com as maravilhas dos festejos.

E os foliões, contentes da lida, arrufavam, correndo com o dedo, os leves pandeiros, batiam ferrinhos, rufavam tambores, bailando em infantis descantes:

O Divino Esp’rito Santo
É pobre, não tem dinheiro,
Quer forrar o seu império
Com folhas de cajueíro.

Rua abaixo, rua acima,
Ruas de cantos a canto,
Rua que por ela passa
O Divino Esp’rito Santo.

Os impérios e coretos, fabricados de sarrafos e lona pintada, estavam a concluir-se; nas barracas do campo, os carpinteiros e pintores, trepados em escadas, pregavam tábuas, estendiam dísticos, miravam os painéis que reproduziam grosseiramente as representações do interior; e, por entre os galhardetes, as bambinelas, troféus e bandeiras, avistavam-se, em desenho flamante e incorreto, cenas acrobáticas, um bezerro de cinco pernas, trabalhos de equilíbrio, exercícios eqüestres, etc.

O campo de Santana sintetizava o grosso da função. Na direção da rua de São Pedro, em frente ao quartel, alongava-se uma linha de barracas com as suas cumeeiras, que semelhavam à noite pirâmides de fogo ou tetos incendiados; e nos portais da rua e aos balcões, os vendedores de sortes, de entradas e de comidas, estendiam o braço, gesticulavam, gritavam como possessos, ensurdecendo os transeuntes.

As músicas estrondavam de dentro, as famílias e o povo formigavam defronte, e como uma chuva de pirilampos que se abatesse dos ares, as lanterninhas de folha com vela de vintém, das quitandeiras sentadas, faiscavam ao largo, alumiando nos tabuleiros e bandejas os louros manauês, as cocadinhas brancas e os bolinhos de aipim, feitos com esmero e asseio pelas laboriosas e inestimáveis doceiras daquele tempo.

Desde o escurecer, era realmente deslumbrante aquele cenário. Naquela praça enorme, a fileira das barracas parecia um muro alvo lavrado pelas chamas; a multidão com suas vestimentas pitorescas, apinhada no chafariz que aí existia, ou movendo-se em grupos, lembrava um quadro de mestre da escola veneziana; ao ombro das montanhas descansava a abóbada do firmamento, e a Igreja de Santana, com a sua torre caiada, destacava-se ao fundo, num céu calmo e estrelado.

O famoso império, o coreto e o palanque do leilão, ao lado do templo, cintilavam de luzes, agitavam os bambolins.

Os espetáculos nas barracas constituíam o divertimento predileto de metade do público, que os freqüentava com assiduidade.

A cavalgada de um dos circos de cavalinhos preludiava, ao mesmo tempo que as folias, a Festa do Divino.

Todas as manhas, a partir das onze horas, a troupe exibia-se nas ruas, com seus cavalos de raça, seus artistas adestrados.

O pessoal completo da companhia, em garbosos ginetes enfeitados de fitas, passeava pela cidade, anunciando o espetáculo da noite.

Precedidos por dois clarins, o bando entrava ordinariamente pela rua de São Pedro, caminhando a passo e avivando a atenção.

Airosamente inclinadas em selins de banda, duas dançarinas de corda, fantasiadas com luxo, refreiavam cavalos fogosos, fustigando-os oportunamente.

A estas sucediam-se vários artistas vestidos como nos circos, tendo por selins o acolchoado especial adotado para os exercícios eqüestres.

Dentre eles gozavam de merecida celebridade o português Jacinto, que pulava por dentro de arcos, e seu irmão, vulgarmente conhecido por Bem-te-vi, ginasta assombroso e incessantemente vitoriado nos saltos mortais por sobre sete e nove cavalos.

Fechando o préstito, vinham dois macacos banzando de um lado para outro em dois lindos pequiras, o diretor da companhia, e o palhaço Joaquim, por antonomásia - o Faceirice.

Vestido de clown, de costas para o pescoço de uma égua baia, de pé e fazendo trejeitos, o gracioso palhaço arrastava após si uma ranchada de moleques, que, tumultuosos, batendo palmas compassadas, estabeleciam com ele extravagante diálogo e formavam coro.

E o Faceirice, dominando de toda a altura o seu numeroso séquito, erguendo as mãos, arregalando os olhos, escancarando a boca pintada de vermelho, ao soar dos guizos de suas mangas de bicos e de seu chapéu de pierrot, principiava:

- Moleque!...

- Sinhô!

- A moça é bonita?

- É, sim sinhô...

- Tem vestido de babado?

- Tem, sim sinhô...

- Rapadura é coisa dura?

- É, sim Sinhô...

E assim por diante, terminando isto pelo invariável estribilho:

- Ora, bate, moleque! ora, bate, coió!

Com o fim de manter a ordem, um ou mais pedestres, munidos de grossas chibatas, guarneciam a onda, distribuindo às vezes perdidas lambadas, que moderavam os excessos de entusiasmo dos dilettantis em alarido.

Quando as luminárias acendiam-se, o campo regorgitava de curiosos e de gente que comprava sortes, ceiava nas barracas, caminhava ao acaso e recebia entradas.

Na sua tribuna aérea, o Chico-Gostoso apregoava ofertas, improvisava versos patuscos, com a sua opa escarlate, com a sua salva de prata:

Quem tiver o seu segredo
Não conte à mulher casada,
Que a mulher conta ao marido,
O marido à camarada...

- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, dou-lhe tudo desta vez! - Eram as palavras que os ecos espalhavam pelo espaço, com as gargalhadas da multidão, que aplaudia-lhe as lembranças felizes e o logro dos - segredos.

As bandas de música faziam-se ouvir por toda a parte. Os saltimbancos, aos gritos nos circos, provocavam "bravos" e palmas dos espectadores em delírio.

Nas barracas de MM. Bertheaux e Maurin, a ginástica e os quadros ao vivo, de reproduções históricas, tornavam-se tentação irresistível para as pessoas que, depois de apreciarem as magistrais execuções da banda de fuzileiros, que tocava na varanda, iam deleitar-se a mais não poder, em presença dos proclamados quadros impressionistas.

Não menos freqüentada era a barraca de M. Foureaux, com as suas cenas mímicas, suas pirâmides humanas, seus volteios eqüestres, onde os artistas Carlos Varin e Batista Foureaux executavam exercícios de bolas, equilibravam-se em garrafas, desempenhando igualmente, admiráveis evoluções em argolas volantes.

Esta companhia contava em seu grêmio duas estrelas de considerável grandeza - M.lles Jeni e Serafina.

Muitas coroas lhes foram atiradas aos pés, muitos amores adejaram tímidos por sobre as suas formas cinzeladas, muito poeta inspirou-se no seu olhar encantador.

É de boa fonte esta quadra, que lhes encarecia o mérito:

A Jeni, sempre aplaudida,
Fará passos graciosos;
Serafina, sobre a corda,
Seus saltos dificultosos.

Não obstante todos esses sucessos, a barraca das Três Cidras do Amor levava de vencida a todas as outras, não só pela originalidade das representações, mas ainda pela variedade e distinção de seus freqüentadores.

E quem a freqüentava?

A plebe e a burguesia, o escravo e a família, o aristocrata e o homem de letras.

Nos anais das nossas festas populares, a barraca do Teles, ficará solitária no merecido renome.

A barraca das Três Cidras do Amor, ou barraca do Teles, campeava em último lugar, quase fronteira do império.

O seu aspecto era modesto, o letreiro que a entesteirava era ilustrado de três cidras monstruosas, pintadas a óleo nas duas extremidades, e um triângulo de pequenas bandeiras, enfiadas numa corda, formava-lhe o frontão simples e alígero.

No salão regular e pouco confortável, em longos bancos fixos e toscas varandas, instalavam-se, nas noites de récita, centenas de espectadores, ávidos de emoções agradáveis.

Por ocasião dessa festa compreende-se que todos procuravam divertir-se, entrando os espetáculos do Teles no número de suas procuradas distrações.

O cenário da barraca não era extenso; proporcionalmente dividido, somente uma quarta parte destinava-se ao célebre teatrinho de bonecos, restando as demais para as representações de comédias, cantorias de duetos, mágicas e ginástica.

Na companhia não havia damas: para desempenhar tais papéis, dois ou três rapazolas imberbes vestiam-se de mulher, salvando com habilidade a ilusão cênica.

O que é verdade, é que o galã Pimentel, o Mondar, o Vasques e Pinheiro Júnior tiveram como seu primeiro mestre o empresário das Três Cidras do Amor, e quando de lá saíram foi para entrar no caminho da arte, das letras e da glória.

O Teles era um homem de estatura regular, acaboclado, cheio de corpo e pernas inchadas. Gozando dos favores públicos, simpatizado geralmente, engraçado a fazer rir as pedras, os seus espetáculos arrastavam a maior concorrência.

Muitas noites, Magalhães, Gonçalves Dias, Porto Alegre, José Antônio, o bacharel Gonçalves, Paula Brito, a Petalógica em peso ia apreciá-lo, coroá-lo em cena, no debique mais inofensivo e insuflador.

A João Caetano chamava ele de colega, consultava a respeito da compreensão da arte, sobre os trajos dos personagens e interpretação das partes.

Uma vez o impagável Teles, assistindo à representação da Nova Castro, depois de felicitar o imortal ator que desempenhara o papel de dom Pedro, disse-lhe no camarim, no intervalo de um dos atos:

- O senhor agradou-me tanto, que deu-me vontade de imitá-lo. Mas, como vestir-me para disfarçar o defeito das pernas?

- Colega, de botas e batina, respondeu-lhe João Caetano.

À noite, a feira do campo excedia-se em marés de povo no fluxo e refluxo, em vozerias dos pregoeiros, em luzes, músicas e divertimentos.

O estalo dos chicotes nos circos, o repique dos sinos de Santana, ao terminar o Te-Deum, as pachouchadas do Chico-Gostoso apregoando um pão-de-ló ou uma galinha, e a multidão em tropel que acompanhava ao império o imperador do Divino, o Porta-estoque e os foliões no centro de quatro varas encarnadas, imprimiam a essa festa um cunho de relevo brilhante, como as esculturas arquitetônicas da Idade Média.

O teatro do Teles era iluminado a velas e a azeite; pagava-se 500 réis de entrada, incluindo neste preço o bilhete da rifa; tinha, além da orquestra para a grande divisão do cenário, uma outra de violão, flauta e cavaquinho, que tocava oculta, quando dançavam os bonecos.

Depois da ouverture - uma valsa ou uma polka - subia o pano. Como introdução, à noite artística, o Teles esquipaticamente vestido, aparecia, engolia espadas, comia fogo, fazia mágicas...

E nem lhe faltavam aplausos e muitos agrados.

Descendo o pano e subindo de novo, representava-se O Judas em sábado de Aleluia, por exemplo: havia ginástica, cantava-se a ária do capitão Matamouros ou coisa semelhante, como conclusão da primeira parte da récita.

O Teles, nas comédias do sublime Pena tinha seu valor, por isso que era um homem totalmente inculto e gracioso, como os protagonistas das comédias de costumes do Moliére cá da terra.

A maior soma de seus triunfos não consistia propriamente nessas cenas de sobra originais do nosso teatro nacional, porém no dueto O meirinho e a pobre, O miudinho e na dança de bonecos, entremeada por ele de chulas lascivas, de repentes petulantes, de saracoteios inimitáveis.

Quando o Teles transpunha o palco, encasacado de meirinho, e começava, desenrolando uma corda, ao avistar a pobre:

Tanto pobre na cidade
Não ‘stá má vadiação...

o auditório enchia com uma gargalhada o recinto, a rapaziada aclamava o artista, João Caetano batia palmas vitoriando-o.

Isso deveras o animava, pois retribuindo com o seu esforço a generosidade pública, despicava-se no fado do fim do ato, bamboleando, cantando, requebrando-se, puxando a fieira, ondulando as nádegas a extenuar-se, aos - Bravo do Teles! - Corta jaca! - Mete tudo! - Bota abaixo! - da multidão calorosa, que ria-se, gritava, batia com as mãos até os derradeiros rumores desse dançado tradicional e eletrizante do povo brasileiro.

Em um desses momentos, coroou por pândega o gênio de nossa cena dramática ao saudoso histrião, de quem tão vivas recordações ainda persistem na lembrança de tantos contemporâneos que o conheceram e apreciaram.

Com a inconstância das bandeiras ao vento, as peças na barraca variavam, e com elas todo o espetáculo. Era imutável, porém, a representação dos bonecos, que constituía a segunda parte do espetáculo.

Justamente nisso brilhava o nosso Teles por seu espírito e mostrava real habilidade. O povo, que retirava-se nos intervalos, precipitava-se na ocasião do sinal para o espetáculo dos bonecos. Amainado o tumulto, o Manezinho arpejava lá dentro no seu violão, o Zuzu feria com a palheta as cordas do cavaquinho e o Ferreira tangia a sua flauta sonorosa...

Levantava-se o pano, e ao som de plangente melodia, cantava o Teles:

Abra-se o céu,
Rasguem-se as nuvens!
Apareça a cena
Cheia de luzes!...

É inútil descrever a impressão produzida entre os espectadores, desde que se erguia a cortina, desde que retalhavam o ar, a desaparecer nas bambolinas, os cordões motores das saltitantes figuras.

Iniciava quase sempre essas récitas A roda de fiar, diálogo entretido pela Fiandeira e o Caboclo, personagem forçado a todas as representações.

O Caboclo, que era o fiel reprodutor das pachouchadas do Teles, crescia do tablado, vestido de calça branca, camisa arregaçada, colete encarnado, pulando-lhe à cinta uma cabacinha, e munido de um facão, que agitava continuamente, nas danças, nas ameaças, nas investidas, conforme as situações.

Na Roda de Fiar ele entrava, irritando a pequena boneca em seu trabalho.

A Fiandeira, cantando:

Não bula com a roda
Que ela é de fiar...

O Caboclo:

Não seja teimosa
Que há de apanhar.

- En... en! minha dona!... bradava ele, perseguindo a interlocutora, que se punha de pé: ‘Stou todo arrispiado!!

E muito dito chistoso e muito verso de sentido equívoco acudiam em turbilhão ao Caboclo e à Fiandeira, que acabavam brigando e fazendo as pazes, aos requebros da chula, às ovações da platéia.

Em seguida à Roda de fiar vinha A criação do mundo, drama de enredo complicado e riquíssimo em disparates. Os protagonistas denominavam-se: O Caboclo, o Padre Eterno, Adão, Eva, Caim, Abel, o Sacristão e Sinhá Rosa.

Por esta distribuição pode-se calcular o ideal do autor. Apanhando reminiscências, apenas arquivamos na memória um ou outro lance, que nos ficou por causa dos versos.

As figuras bailavam desde o começo, o diálogo corria pouco interrompido, o Caboclo entusiasmava com os seus repentes.

Com o imprescindível facão, traquinas e sempre disposto, arreliava ele as suas donas, e, no paraíso, recostado a uma árvore, implorava por Sinhá Rosa, quando ela sumia-se nos bastidores:

Rosinha da saia curta,
Barra de salta-riacho,
Trepa aqui neste coqueiro,
Bota estes cocos abaixo!

Então, Eva queixava-se a Adão, revelando-lhe a tentação da serpente, ao que este soltava:

Grande pinheiro, tão arto
Que dá pau para cuié!
Quem quisé vê mexerico
Vá na boca de muié.

A história intrincava-se; Caim matava Abel; havia desaguisado; e o Padre Eterno, numa apoteose de nuvens de pasta de algodão, descia do céu, intervinha beneficamente no conflito, finalizando o drama por um cateretê, em que o Padre Eterno dançava com Sinhá Rosa, aos peneirados do Caboclo, que, dando umbigadas, sapateando, bradava:

- Quebra, Sinhá Rosa!... Rebola, minha Malmequeres!...

E palmas repetidas, bulha incessante, bravos e risadas, partiam ardentes. Arriava-se o pano, sucedendo após minutos um jongo de autômatos negros, vestidos de riscado e carapuça encarnada, que, ao ferver de um batuque rasgado e licencioso, cantavam o estribilho, que ainda é popular.

Dá de comé!
Dá de bebê!
Santa Casa é quem paga
A você!

- À cena o Teles! - Bravo do Teles! - À cena! - partiam da platéia, ao que ele atendia, e, reverentemente comovido, murmurava, adiantando-se e inclinando a cabeça:

- Obrigado, meu povo.., obrigado...

* * *

 

- Desta vez não fiz pechincha,
Descobriu-se a ladroeira!...

Assim exclamava o Chico-Gostoso da grade do seu tablado dos leilões, sendo surpreendido numa escamotagem de prendas.

E uma trovoada de risos e uma pateada geral antepunham-se à imperturbabilidade do capadócio leiloeiro.

- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Psiu! Psiu!!

O povo:

- Bravo! bravíssimo!

Chico-Gostoso:

- Toca a música!

O povo:

- Ainda não! ainda não!...

Chico-Gostoso:

- Tenho dois mil réis pelo porquinho... quem dá mais?

Um homem:

- Dou mais meia pataca...

Chico-Gostoso:

- Pois o coré é seu... Toca a música!!.

O povo:

- Bravo! bravo do Gostoso!

* * *

No império, o imperador, com o seu manto verde e sua coroa dourada, dominava no meio de sua corte...

Nas noites de fogo, a afluência aumentava, as famílias aguardavam, sentadas em esteiras, por essa radiante conclusão dos festejos, e magníficas ceias, trazidas de casa, as congregavam expansivas.

Depois da meia-noite queimava-se a primeira roda: formavam-se partidos para saber-se quem venceria, se a fortaleza ou as fragatas: as moças gostavam dos girassóis e da lua, os meninos da mulher que mija fogo e do barbeiro, e a rapaziada tinha como o melhor as vaias e os "fora" ao fogueteiro, que andava em verdadeira roda-viva.

Ao arder a derradeira peça, quando lia-se no transparente em cifras cambiantes - Glória ao Divino - a turba saía das barracas, os sinos repicavam, o acampamento levantava-se, os aplausos redobravam, e a multidão pouco a pouco dispersava-se.

Não faltavam comentários divertidos, ao toque das serenatas, aos últimos episódios da função.

Eis o que era naquele tempo a festa popular do Divino, quando a nossa sociedade não tinha a pretensão de querer impôr-se pela decadência de seus costumes e pelo enervamento de seu senso religioso.


(Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil, p.117-126)

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