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Amanheciam as folhas de canela, verdes e
cheirosas, espalhadas pelo passeio da rua.
Era o sinal promissor para a vizinhança e os transeuntes. O alvoroço em quase todas as
casas. As idas e vindas de mocinhas e as conversas de janela a janela das matronas. Entre
senhorias:
- É, sim.
- Aonde?
- No palácio do bispo. Às 7 horas. Papai recebeu convite.
- Vocês vão?
- Vamos; não está vendo meus papelotes?
- Nem tinha reparado. Pois eu tenciono ir é ao sereno. Deve estar muito bom. Casamento de
luxo!
- Os carros das cachoeiras estão todos alugados. Seu Sacramento tomou conta do
jantar, imagine! Banquete... Eu avalio os vestidos ricos que aparecerão!
- O seu de que cor é?
- Um verdezinho-claro. Ficou bonito. Quem fez foi madame Piegeon. Quer ver?
Entre matronas:
- A Leonor passou a perna em Alzira, hein?
- É verdade. Alzira ficou na bagagem. Também o noivo dela não ata nem desata! Vai para
três anos que não são noivos. Enxoval pronto; ele bem colocado naquela fábrica.
Esquisito mesmo!
- Olhe, não diga nada a ninguém, não, porém, Chico me contou que esse rapaz tem uma bicha
lá para São José. Uma pardinha a quem fez mal e de quem já tem dois filhos.
- Jesus! Que desgraça! Então é por isso mesmo que ele não se casa.
- Leonor, sim, teve sorte. Noivo médico e direito. O doutor Ferreira gaba muito ele.
Está feito na vida. Inda por cima casado com moça rica...
- Se tiver juízo...
O dia inteiro é de preparativos e de azáfamas. Entram embrulhos de vestidos, caixas de
champanhas, tabuleiros com bolos enfeitados, cadeiras emprestadas, ramos de flores. De
quando em quando, pelas amas ou pelas pessoas mais íntimas, sabe-se na rua de novidades
da "casa do casamento". A noiva está muito alegre; Dona Sinhá é que chora com
saudades da filha; o vestido uma lindeza, chegou da costureira indagorinha; a
capela de laranjeiras também é moderna, nunca se viu igual, veio de Paris; eles casam e
vão morar num chalezinho novo, na rua da Intendência; às três horas a noiva foi tomar
banho, começou a vestir-se; o civil será às 5; já há convidados lá...
E de fato param carros à porta e descem senhores de casaca, de claque, acompanhados de
senhoras e mocinhas de vestidos de seda.
- O juiz chegou... Estão-se casando... Ela disse que sim com uma graça!... D. Sinhá,
coitada, chorando sempre... Tem gente assim!... Estão amarrados, minha gente!... Agora,
só com a morte...
Eram essas as novidades que corriam. De boca em boca. Escurecera. Ia sair o casamento para
o religioso.
- Este é que é o sério comentou dona Marocas, muito beata.
- Pois o outro é que vale replicou o doutor Brito, de idéias anticlericais.
Vão-se enchendo os carros estofados a casimira branca e com boleeiros de sobrecasacas
claras. Muita casaca elegante feita agora e muitas outras achamboadas traindo os anos de
existência. Penteados caprichosos, cachos impecáveis de alto preço e bom gosto. E uma
mistura perturbadora de perfumes parisienses nos ares.
Parte do cortejo. A noiva vai com a madrinha, dona Rosa de Amorim. O noivo, no cupê
enfeitado de flores de laranjeiras, com o padrinho, o coronel Loyo. A vizinhança aponta
quase todos os convidados, dando-lhes nomes de relevo no Recife da época.
- Menina, gente lorde mesmo!
- Só faltou o bispo dom Luís.
- E não é ele que vai casar?
- O quê!
Os carros rodam estrepitosamente pelo antigo e áspero calçamento do Recife.
E o cortejo por entre alas de povo ingressa por um dos portões do palácio do bispo,
deixando os convivas e os noivos à porta principal do edifício todo iluminado. Folhas de
canela pelo vestíbulo, pela escada, pela capela. Espetáculo imponente de luxo, de
graça, de emoção. Muitas luzes lá dentro. O altar, um verdadeiro ninho de rosas.
Almofadas de veludo nos degraus. As alianças numa salvazinha de ouro.
O povo, cá em baixo, espera a saída e comenta sempre:
- A noiva é bonitinha.
- Pena não ser um pouco mais alta.
- Ele é que é um vara-pau.
- Não acho. Homem deve ser assim. Marca nanico, não para mim.
- O buquê está uma riqueza! Só queria arranjar um cravo...
- Lá no sereno eu acho que consigo. Tem uma colega minha no casamento.
- Embarcam para a Europa na semana que entra. No Nile.
- Isso é que se chama gozar, hein? Também com tanto dinheiro! Só se fossem
sovinas...
- Este casamento botou num chinelo o do filho do senador Abreu.
- Igual a este só o da filha do Governador com aquele moço da Paraíba, um muito
simpático e que fez figura na Academia.
- João Pessoa.
- Sim, esse menino.
Um rumor nas escadarias do palácio. Descem mostra de vestidos lindíssimos. E de rostos
também bonitos.
Atrás desciam os noivos, já de braços dados, também, em toda a plenitude da mocidade,
da elegância e do júbilo.
Crianças apanhavam a longa cauda da noiva. Retomam os carros.
Rodam de novo para o chalé da rua da Intendência.
O cupê nupcial fecha o préstito, de acordo com a inovação. Outrora ia à frente.
Calçadas cheias. O sereno domina.
Chuvas de pétalas à entrada dos noivos. Entram. Senta-se a noiva ao sofá da moderna
mobília austríaca. Sala luxuosa. Tapetes, cortinados, espelhos dourados, panos de
croché pelas cadeiras. Pela porta aberta avista-se o quarto nupcial. A toalete povoada de
biscutis, frascos de extrato, vasos de pó-de-arroz, jarros com flores. E a cama,
com cortinado de rendas pendendo da cúpula e madeira, forrada de colcha azul-claro.
O sereno principia a tarefa habitual:
- Aquela casaca do doutor Serapião está pedindo aposentadoria...
- Foi de D. Pedro II...
- E o penteado de dona Noca?
- Da minha idade e de cabelos pretos...
- A cama dos noivos é azul. Está vendo? Não gosto. Mau agouro...
- Oxente! Que tem a cor da cama com o resto, hein?
- Minha mana casou-se numa cama assim e foi aquela infelicidade. Até a separação.
- Pudera, não! Ela é que tem mesmo a culpa. Quem não sabia a boa bisca que era o
Zezinho de seu Zumba? Um gênio aferventado e além do mais gostando de "andar
no aguaceiro"... Enganou-se porque quis... Depois, viu-se nas amarelas.
- Olhe, por favor, não fale de minha mana, não, ouviu?
- Desculpe. Não sabia que aquela princesa...
- Minha gente não arenguem aqui, não. Isso de cama azul ou cor-de-rosa é questão
de gosto. O resto são busões. Além disso, quem fez a cama dessa noiva foi a tia,
dona Caetanina, uma senhora tão feliz com o marido...
- Eu bem que sei. Ele só anda atrás das quengas...
- Vão distribuir os cravos. Xi! Logo a emproada da Elisinha. Não me dou com ela desde o
Colégio Eucarístico. Uma assanhadinha de marca.
- Eu peço um para você. Deixe ela passar perto da janela.
- Não diga para quem é. Tira logo o efeito. Aquilo tem olho de sapiranga...
- Tem mesmo uns zoiões...
- Crescem em tudo que é dos outros. Por isso nunca ajeitou um casamento.
- Está até falada...
- No meu tempo o noivo também levava buquê.
- O quê, dona Nanoca?! De verdade?
- E então? Janjão levou um até bem bonito. O porta-buquê era dourado.
- Meu Deus! Que papel! Deveria ter ficado um calunga de fogo de vista. Todo afiambrado, de
buquê, com aquele bigodão!...
- Menina, deixe de risadas, ouviu? Janjão não é seu "bumbum de jaleco", não!
- E ele se sentou no sofá junto da senhora, como se usava?
- Sentou-se, sim. E então? Havia de ficar corrupiando pela casa? Nem assentava num noivo.
Um ato sério?
Em surdina:
- Esse Janjão sempre foi apombocado...
- Com certeza casou-se de capela de flor de laranjeira...
Alto:
- Eu estouro de rir, comadre Angelina. Você é o diabo em figura de gente.
- Me deixe que eu já não posso me agüentar.
- Mulher não se casa com carrapato porque não sabe qual é o macho.
- Uma verdade, aqui para nós.
- Quem é aquele babaquara de balandrau? Um de cavanhaque?
- Sei, não. Cara nova no Recife.
- Ele entrou de braço com aquela moça alta e magricela de vestido cor de pérola.
- Um bacalhau de porta de venda. Para ser mulher dele é muito nova ainda.
- Talvez filha.
- Ou neta...
- Tem cada cara aí dentro. Repare a água morna da dona Bitoquinha. Mal vestida e sempre
besta. Parece que tem na barriga os contos de réis do marido.
- Nem por isso liga a ele. Olhe o bredozinho dela com o fona do Joãozinho do coronel
Cazuza.
- Aquele não dá água a pinto...
- Você que diga, hein? Tomou uma paixão quando levou o corte...
- Hoje nem me lembro que existe, banga!
Uns saem do sereno já saciados de tesourar ou invejar os noivos. Outros se aproximam mais
das janelas preenchendo as vagas. A rua da Intendência vai perdendo o rumor da festa,
esvaziando-se, voltando a calma, ao silêncio, à tristeza do costume. Os boleeiros
cochilam nos carros esperando os fregueses.
Dentro da casa o vaivém continua. Sons de cristais que se chocam em saúdes. Hip...
hip... hurras!... Garrafas de champanha desarrolhadas com propósito de fazer barulho.
Vêm bandejas à sala. Limpam-se beiços molhados de espuma. Olhos tomam brilho de maior
alegria e animação. A ternura de dona Bitoquinha para com Joãozinho do coronel Cazuza
toma ponto. Até o noivo se debruça por detrás do sofá e diz um segredo à noiva que
sorri.
- Olhe isso, olhe isso!
Gritam muitas vozes do sereno. E acrescentam maldosos:
- Está falando boneco, hein?
- Inda é cedo...
- Eu vou dizer ao pai da moça...
- Minha gente, os noivos estão caindo de sono... Estão abrindo a boca.
Psiu. Conselhos:
- Deixem de pilhérias!
- Uns moços brancos!
- Olhe as famílias...
Um senhor de idade metido numa casaca meio ruça, fecha a cara, torce o bigode branco e
sentencia:
- Hoje não há mais educação... Esses rapazes são uns verdadeiros moleques de rua...
- Olha a casaca do homem!
- Quem foi o defunto, hein? Foi o avô torto?
Uma família retira-se do sereno. A mãe diz às filhas:
- Começam as inconveniências...
Saem também alguns convidados. Despedidas. Abraços, beijos, votos de felicidades.
Segredinhos. As mocinhas levam os cravos mordidos pela noiva. Outras deixaram
clandestinamente alfinetes fincados à colcha azul da cama nupcial. O uso deles, depois,
será um eficaz chamariz de casamento.
O sereno diminuiu bastante. Restam apenas agarrados às janelas moradores das
vizinhanças. Não querem perder um detalhe. Umas criadinhas do palacete da esquina. Uns
estudantes da república da rua do Aragão.
E é de um deles que parte a última frase de espírito e de malícia:
- Seus noivos durmam direitinho...
(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus, p.75) |
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