Ir para a página principalRetornar para Festança

Maio 2002
Ano IV - nº 45

UM SERENO DE CASAMENTO

Amanheciam as folhas de canela, verdes e cheirosas, espalhadas pelo passeio da rua.

Era o sinal promissor para a vizinhança e os transeuntes. O alvoroço em quase todas as casas. As idas e vindas de mocinhas e as conversas de janela a janela das matronas. Entre senhorias:

- É, sim.

- Aonde?

- No palácio do bispo. Às 7 horas. Papai recebeu convite.

- Vocês vão?

- Vamos; não está vendo meus papelotes?

- Nem tinha reparado. Pois eu tenciono ir é ao sereno. Deve estar muito bom. Casamento de luxo!

- Os carros das cachoeiras estão todos alugados. Seu Sacramento tomou conta do jantar, imagine! Banquete... Eu avalio os vestidos ricos que aparecerão!

- O seu de que cor é?

- Um verdezinho-claro. Ficou bonito. Quem fez foi madame Piegeon. Quer ver?

Entre matronas:

- A Leonor passou a perna em Alzira, hein?

- É verdade. Alzira ficou na bagagem. Também o noivo dela não ata nem desata! Vai para três anos que não são noivos. Enxoval pronto; ele bem colocado naquela fábrica. Esquisito mesmo!

- Olhe, não diga nada a ninguém, não, porém, Chico me contou que esse rapaz tem uma bicha lá para São José. Uma pardinha a quem fez mal e de quem já tem dois filhos.

- Jesus! Que desgraça! Então é por isso mesmo que ele não se casa.

- Leonor, sim, teve sorte. Noivo médico e direito. O doutor Ferreira gaba muito ele. Está feito na vida. Inda por cima casado com moça rica...

- Se tiver juízo...

O dia inteiro é de preparativos e de azáfamas. Entram embrulhos de vestidos, caixas de champanhas, tabuleiros com bolos enfeitados, cadeiras emprestadas, ramos de flores. De quando em quando, pelas amas ou pelas pessoas mais íntimas, sabe-se na rua de novidades da "casa do casamento". A noiva está muito alegre; Dona Sinhá é que chora com saudades da filha; o vestido uma lindeza, chegou da costureira inda’gorinha; a capela de laranjeiras também é moderna, nunca se viu igual, veio de Paris; eles casam e vão morar num chalezinho novo, na rua da Intendência; às três horas a noiva foi tomar banho, começou a vestir-se; o civil será às 5; já há convidados lá...

E de fato param carros à porta e descem senhores de casaca, de claque, acompanhados de senhoras e mocinhas de vestidos de seda.

- O juiz chegou... Estão-se casando... Ela disse que sim com uma graça!... D. Sinhá, coitada, chorando sempre... Tem gente assim!... Estão amarrados, minha gente!... Agora, só com a morte...

Eram essas as novidades que corriam. De boca em boca. Escurecera. Ia sair o casamento para o religioso.

- Este é que é o sério – comentou dona Marocas, muito beata.

- Pois o outro é que vale – replicou o doutor Brito, de idéias anticlericais.

Vão-se enchendo os carros estofados a casimira branca e com boleeiros de sobrecasacas claras. Muita casaca elegante feita agora e muitas outras achamboadas traindo os anos de existência. Penteados caprichosos, cachos impecáveis de alto preço e bom gosto. E uma mistura perturbadora de perfumes parisienses nos ares.

Parte do cortejo. A noiva vai com a madrinha, dona Rosa de Amorim. O noivo, no cupê enfeitado de flores de laranjeiras, com o padrinho, o coronel Loyo. A vizinhança aponta quase todos os convidados, dando-lhes nomes de relevo no Recife da época.

- Menina, gente lorde mesmo!

- Só faltou o bispo dom Luís.

- E não é ele que vai casar?

- O quê!

Os carros rodam estrepitosamente pelo antigo e áspero calçamento do Recife.

E o cortejo por entre alas de povo ingressa por um dos portões do palácio do bispo, deixando os convivas e os noivos à porta principal do edifício todo iluminado. Folhas de canela pelo vestíbulo, pela escada, pela capela. Espetáculo imponente de luxo, de graça, de emoção. Muitas luzes lá dentro. O altar, um verdadeiro ninho de rosas. Almofadas de veludo nos degraus. As alianças numa salvazinha de ouro.

O povo, cá em baixo, espera a saída e comenta sempre:

- A noiva é bonitinha.

- Pena não ser um pouco mais alta.

- Ele é que é um vara-pau.

- Não acho. Homem deve ser assim. Marca nanico, não para mim.

- O buquê está uma riqueza! Só queria arranjar um cravo...

- Lá no sereno eu acho que consigo. Tem uma colega minha no casamento.

- Embarcam para a Europa na semana que entra. No Nile.

-
Isso é que se chama gozar, hein? Também com tanto dinheiro! Só se fossem sovinas...

- Este casamento botou num chinelo o do filho do senador Abreu.

- Igual a este só o da filha do Governador com aquele moço da Paraíba, um muito simpático e que fez figura na Academia.

- João Pessoa.

- Sim, esse menino.

Um rumor nas escadarias do palácio. Descem mostra de vestidos lindíssimos. E de rostos também bonitos.

Atrás desciam os noivos, já de braços dados, também, em toda a plenitude da mocidade, da elegância e do júbilo.

Crianças apanhavam a longa cauda da noiva. Retomam os carros.

Rodam de novo para o chalé da rua da Intendência.

O cupê nupcial fecha o préstito, de acordo com a inovação. Outrora ia à frente.

Calçadas cheias. O sereno domina.

Chuvas de pétalas à entrada dos noivos. Entram. Senta-se a noiva ao sofá da moderna mobília austríaca. Sala luxuosa. Tapetes, cortinados, espelhos dourados, panos de croché pelas cadeiras. Pela porta aberta avista-se o quarto nupcial. A toalete povoada de biscutis, frascos de extrato, vasos de pó-de-arroz, jarros com flores. E a cama, com cortinado de rendas pendendo da cúpula e madeira, forrada de colcha azul-claro.

O sereno principia a tarefa habitual:

- Aquela casaca do doutor Serapião está pedindo aposentadoria...

- Foi de D. Pedro II...

- E o penteado de dona Noca?

- Da minha idade e de cabelos pretos...

- A cama dos noivos é azul. Está vendo? Não gosto. Mau agouro...

- Oxente! Que tem a cor da cama com o resto, hein?

- Minha mana casou-se numa cama assim e foi aquela infelicidade. Até a separação.

- Pudera, não! Ela é que tem mesmo a culpa. Quem não sabia a boa bisca que era o Zezinho de seu Zumba? Um gênio aferventado e além do mais gostando de "andar no aguaceiro"... Enganou-se porque quis... Depois, viu-se nas amarelas.

- Olhe, por favor, não fale de minha mana, não, ouviu?

- Desculpe. Não sabia que aquela princesa...

-
Minha gente não arenguem aqui, não. Isso de cama azul ou cor-de-rosa é questão de gosto. O resto são busões. Além disso, quem fez a cama dessa noiva foi a tia, dona Caetanina, uma senhora tão feliz com o marido...

- Eu bem que sei. Ele só anda atrás das quengas...

- Vão distribuir os cravos. Xi! Logo a emproada da Elisinha. Não me dou com ela desde o Colégio Eucarístico. Uma assanhadinha de marca.

- Eu peço um para você. Deixe ela passar perto da janela.

- Não diga para quem é. Tira logo o efeito. Aquilo tem olho de sapiranga...

- Tem mesmo uns zoiões...

- Crescem em tudo que é dos outros. Por isso nunca ajeitou um casamento.

- Está até falada...

- No meu tempo o noivo também levava buquê.

- O quê, dona Nanoca?! De verdade?

- E então? Janjão levou um até bem bonito. O porta-buquê era dourado.

- Meu Deus! Que papel! Deveria ter ficado um calunga de fogo de vista. Todo afiambrado, de buquê, com aquele bigodão!...

- Menina, deixe de risadas, ouviu? Janjão não é seu "bumbum de jaleco", não!

- E ele se sentou no sofá junto da senhora, como se usava?

- Sentou-se, sim. E então? Havia de ficar corrupiando pela casa? Nem assentava num noivo. Um ato sério?

Em surdina:

- Esse Janjão sempre foi apombocado...

- Com certeza casou-se de capela de flor de laranjeira...

Alto:

- Eu estouro de rir, comadre Angelina. Você é o diabo em figura de gente.

- Me deixe que eu já não posso me agüentar.

- Mulher não se casa com carrapato porque não sabe qual é o macho.

- Uma verdade, aqui para nós.

- Quem é aquele babaquara de balandrau? Um de cavanhaque?

- Sei, não. Cara nova no Recife.

- Ele entrou de braço com aquela moça alta e magricela de vestido cor de pérola.

- Um bacalhau de porta de venda. Para ser mulher dele é muito nova ainda.

- Talvez filha.

- Ou neta...

- Tem cada cara aí dentro. Repare a água morna da dona Bitoquinha. Mal vestida e sempre besta. Parece que tem na barriga os contos de réis do marido.

- Nem por isso liga a ele. Olhe o bredozinho dela com o fona do Joãozinho do coronel Cazuza.

- Aquele não dá água a pinto...

- Você que diga, hein? Tomou uma paixão quando levou o corte...

- Hoje nem me lembro que existe, banga!

Uns saem do sereno já saciados de tesourar ou invejar os noivos. Outros se aproximam mais das janelas preenchendo as vagas. A rua da Intendência vai perdendo o rumor da festa, esvaziando-se, voltando a calma, ao silêncio, à tristeza do costume. Os boleeiros cochilam nos carros esperando os fregueses.

Dentro da casa o vaivém continua. Sons de cristais que se chocam em saúdes. Hip... hip... hurras!... Garrafas de champanha desarrolhadas com propósito de fazer barulho. Vêm bandejas à sala. Limpam-se beiços molhados de espuma. Olhos tomam brilho de maior alegria e animação. A ternura de dona Bitoquinha para com Joãozinho do coronel Cazuza toma ponto. Até o noivo se debruça por detrás do sofá e diz um segredo à noiva que sorri.

- Olhe isso, olhe isso!

Gritam muitas vozes do sereno. E acrescentam maldosos:

- Está falando boneco, hein?

- Inda é cedo...

- Eu vou dizer ao pai da moça...

- Minha gente, os noivos estão caindo de sono... Estão abrindo a boca.

Psiu. Conselhos:

- Deixem de pilhérias!

- Uns moços brancos!

- Olhe as famílias...

Um senhor de idade metido numa casaca meio ruça, fecha a cara, torce o bigode branco e sentencia:

- Hoje não há mais educação... Esses rapazes são uns verdadeiros moleques de rua...

- Olha a casaca do homem!

- Quem foi o defunto, hein? Foi o avô torto?

Uma família retira-se do sereno. A mãe diz às filhas:

- Começam as inconveniências...

Saem também alguns convidados. Despedidas. Abraços, beijos, votos de felicidades. Segredinhos. As mocinhas levam os cravos mordidos pela noiva. Outras deixaram clandestinamente alfinetes fincados à colcha azul da cama nupcial. O uso deles, depois, será um eficaz chamariz de casamento.

O sereno diminuiu bastante. Restam apenas agarrados às janelas moradores das vizinhanças. Não querem perder um detalhe. Umas criadinhas do palacete da esquina. Uns estudantes da república da rua do Aragão.

E é de um deles que parte a última frase de espírito e de malícia:

- Seus noivos durmam direitinho...


(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus, p.75)

Topo

Jangada Brasil © 2002