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Maio 2002
Ano IV - nº 45

SOBREMESAS E FRUTOS TROPICAIS: BACURI

À sobremesa é que se vê a superioridade da cozinha amazônica sobre a baiana. Ademais, sobre a cozinha das diferentes regiões do Brasil: seja a pernambucana, a mineira ou a gaúcha.

É que a todos elas falta a matéria-prima do a paladar, a variedade, a originalidade, a singularidade e o exotismo dos frutos em que é rica a pomicultura, ou melhor, o pomar silvestre do Extremo-Norte.

Além dos frutos que são verdadeiros “pratos”, como o açaí, a bacaba, o piquiá, a pupunha e pripriá, a Amazônia oferece-nos uma surpreendente feira de produtos que são metade flor, metade alimentos, com os quais se delicia o paladar dos nativos, dos turistas, e até o dos convivas dos grandes centros urbanos.

É tão especial e substancioso o sabor de certos frutos tropicais, que Nunes Pereira coloca os carás, as castanhas (além da do Pará, existe a sapucaia), a pupunha, a sorva, o tucumã, o umari e o uxi na rubrica dos alimentos.

É o caso do bacuri, que o Barão do Rio Branco adotou como sobremesa dos grandes banquetes oficiais do Itamarati e de que era apreciador nato.

Sua preferência levava-o a tornar-se um exímio propagandista das excelências dos frutos tropicais, por ele considerados não só uma dádiva da terra, mas um manjar dos céus.

Outros ministros vieram depois, e, imitando-o, adaptaram-se às suas escolhas e opções, adotando o bacuri como sobremesa oficial a serviço do interesse público e da degustação dos convivas internacionais.

Nenhum, porém, foi tão fiel à presença daquela compota acidulada nos banquetes diplomáticos do Itamarati.

Anote-se, entretanto, em favor da benevolência de seu paladar, que o fruto em calda, enlatado para exportação, está longe de ser o pomo dourado que acode cientificamente pelo nome de Platonia insignis e pertence, na botânica, à família da gutiferáceas.

Quando o embaixador Assis Chateubriand fazia vir abacates do Rio de Janeiro, laranjas e mangabas da Bahia, mangas de Pernambuco, cajus do Ceará, abacaxis do Nordeste e sapotilhas do Norte para excitar o apetite de seus convidados da corte de Saint James, esqueceu de convocar o bacuri, que constituía a sobremesa oficial de Juca Paranhos; mas ainda que se lembrasse dele, não o teria senão em conserva.

Porque o bacuri fresco não emigra. É uma fruta delicada e perecível, cuja degustação só é permitida em seu habitat. Tem que ser apanhada e comida no mesmo dia. Apesar da casca resistente que a protege, é sensível ao tempo; e em vinte e quatro horas perde a frescura imaculada de sua polpa, azedando e apodrecendo rapidamente.

É encontrado nas canoas do Ver-o-Peso e nas quitandas de Belém em paneiros esguios, vendidos a bom preço. Porque a maior parte da safra é disputada pelas fábricas de doces em calda, que fazem dele seu melhor produto de exportação.

O bacuri passa por ser um fruto que tem gosto de flor. Essa, pelos menos, a impressão colhida entre os seus degustadores, isto é, entre aqueles que o provam sob a forma de compota.

Saboreando o fruto fresco, a impressão é diferente. Quebrada a carapaça que o envolve, o bacuri nos aparece na plenitude de sua composição, provocando água na boca pelo perfume que exala em seu contexto original: o caroço vestido de branco e revestido de duas membranas que se despregam como pétalas liriais de um seio materno.

É talvez por essa razão que os naturais chamam de mãe ao caroço que guarda as cartilagens a ele aconchegas. E apelidaram de filhos as polpas móveis que cobrem o caroço acetinado. Espécie de bislíngua, aquela planta herbácea, cujas folhas dobradas dão a idéia de duas línguas juntas.

Só os que provaram o fruto despregado da casca é que podem atestar o sabor especial do bacuri, sobretudo das duas hastes brancas que se desprendem do caroço para o paladar dos naturais. Constitui um privilégio que a natureza nos oferece a degustação dessas polpas aciduladas. Nada existe de parecido como tentação e gosto de pecar.

Se a Amazônia, em vez de ser o inferno verde, tivesse sido o paraíso, seria com o bacuri e não com a maçã que a serpente teria provocado o desejo de Adão. Porque no bacuri é que se encontra resumido o mundo: a inocência e o pecado, a mãe e os filhos.

Quem prova o fruto fresco saboreia os dois e pode ter a noção exata do que é a carnação de ambos como capricho e requinte na Pomona Amazônica.

As fábricas de doces só aproveitam em calda os filhos do bacuri, que são aquelas pétalas açucaradas que vemos boiando nas latas que mal conservam o provocante perfume dos frutos apanhados.

As boas donas de casa e doceiras de Belém, como a saudosa dona Pequenina Cacela, conseguiram multiplicar o valor do bacuri em sorvetes, cremes e pudins de uma finura inigualável.

Outra senhora paraense, dona Marianinha Campos, esposa do ex-deputado, Epílogo de Campos, faz milagres com a polpa do bacuri no artesanato de sua cozinha. Não constitui irreverência dizer-se que o Epílogo se elegeu e reelegeu em sua terra natal com o caldo do tucupi, o torresmo do pirarucu e os pudins de bacuri e cupuaçu que ele e seu irmão Hermínio Pessoa colocavam na balança eleitoral do Estado.


(Orico, Osvaldo. Cozinha amazônica)

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