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Quão diferentes desses homens
de caixas envidraçadas às cabeças, inexpressivos, carrancudos, ásperos! Talvez sejam
bonitas as guloseimas que levam para vender, porém faltam-lhe aquele jeito, aquela
doçura, habituais das antigas boleiras do Recife.
Existia entre elas e as crianças, suas melhores freguesas, um entendimento perfeito.
Dir-se-ia com maior justeza uma atração.
A boleira e a criança completavam-se.
Uma queria bem à outra. Pouco a pouco ia desaparecendo da parte da vendedora o mero
interesse do lucro, substituído pelo repontar do afeto. "Meu freguesinho" ou
meu "Ioiôzinho" chamava assim a mulher aos pequenos clientes. E todos os dias
já os esperava avistar nas calçadas de casa, de roupas mudadas, sob a vigilância das
armas, com uns vinténs nas mãos para a compra de bolos do costume. Se não os via,
assustava-se. Indagava por eles. Sabendo-os doentes, entristecia, aconselhava meizinhas,
pedia a Nosso Senhor para pô-los logo bons.
Por sua vez a criança criava amizade à "freguesa dos bolos". Festejava-a.
Sabia-lhe o nome. E pelas festas, entre os presentes que o pai adquiria nas lojas havia um
corte de vestido ou um xale para a humilde vendedora.
Hoje, o homem que apregoa bolos, nas ruas, é um revoltado, é um impaciente, é um
revolucionário. Quando não é um tuberculoso ou um sifilítico.
As boleiras de outrora eram mulheres sadias, robustas, sexagenárias, de sangue limpo e de
espírito calmo. Sempre sorridentes, bondosas, mansas. De chita de bolinhas ou de
bichinhos, com a rodilha alvíssima, o tabuleiro asseado. Traziam ao ombro um banco de
abrir.
O tabuleiro fazia gosto. Tirava-lhe a tampa de flandres e o aroma dos bolos se espalhava
pela casa inteira. Do fundo do quintal os meninos acudiam.
- Sinhá Generosa está aí!
- Mamãe, me dê um vintém!
E os olhos infantis namoravam os pastéis de nata, os cocorotes, as fatias de pão-de-ló,
bons-bocados, os ciúmes, as cocadas, os pés-de-moleques... Tudo separado por espécies.
Saborosos, convidativos. A escolha tornava-se difícil para uma criança gulosa.
A família não ignorava de onde provinham esses bolos. Gente sem doenças, mãos sem
feridas, vasilhas especiais. Manteiga inglesa da boa. Formas bem lavadas. Ovos de quintal.
Não havia perigo nem repugnância.
Bolos de vintém, de quarenta réis. O tostão ainda valia muito. Raros os meninos que
dispunham de um níquel.
E mesmo sem ele comiam à vontade.
A ponto de vovó advertir:
- Vocês comem tanta cousa doce que um dia botam lombrigas pelos olhos...
[1958]
(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus, p.96) |
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