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Maio 2002
Ano IV - nº 45

HISTÓRIA DE TOINHO E MARIQUINHA
(Jé. Bernardo da Silva)

111
Pois disse a médica: senhores
vou dizer-vos a verdade
acho que a moça não pode
expôr-se à maternidade
porém que se pode casar-se
com mais dois anos de idade.

112
O noivo disse ao barão:
- Nós poderemos casar
ela fica em sua casa
caso o senhor aceitar

Conservando o seu estado
e eu irei passear.

113
O barão lhe respondeu:
- De muito gosto eu aceito
a vossa boa concórdia
eu fico bem satisfeito
ela fica em nossa casa
vosso plano está direito.

114
Mariquinha quando soube
que ia sempre se casar
e vendo que com seu plano
não pôde nada arranjar
achou que fosse um propósito
e cuidou d’o protestar.

115
Porém foi repreendida
pelos gritos do barão
dizendo: quero que cases
com o doutor alemão
e se me contrariares
eu dar-te-ei a maldição.

116
Ouvindo isto Mariquinha
quase tem um passatempo
derramou um pranto amargo
e chegou-lhe o sofrimento
como não teve remédio
aceitou o casamento.

117
No outro dia às seis horas
Mariquinha se casou
o alemão com três dias
para a Europa embarcou
e sua jovem consorte
na casa dos pais ficou.

118
Porém antes de partir
disse ele a Mariquinha
– Tome posse dos meus bens
porque és esposa minha
fez do barão seu tutor
e não disse quando vinha.

119
Quando houve o casamento
apenas faltava um mês
para Toinho chega
segundo a jura que fez
e saber-se o que é dele
na casa do português.

120
Toinho quando entrou
naquela sociedade
com dois anos já contava
com grande felicidade
pois ganharam 3 mil contos
e era dele a metade.

121
Quando faltavam dois meses
para o tempo completar
que Toinho à Mariquinha
tinha jurado a voltar
disse o caso ao patrão
e tratou de se arrumar.

122
O português entregou-lhe
todo seu lucro direito
não pediu-lhe que ficasse
por ver que não era aceito
porém ficou de Toinho
muito amigo e satisfeito.

123
Com mil e duzentos contos
Toinho se embarcou
com vinte dias e meio
no Recife então chegou
faltando apenas dez dias
para o tempo que marcou.

124
Quando chegou no Recife
a um velho perguntou
pela jovem Mariquinha
o velho lhe explicou
dizendo: fazem dez dias
que esta moça casou.

125
Toinho com esta nova
ficou quase alucinado
disse ao dono do hotel
que estava encomodado
então trancou-se no quarto
passou a noite acordado.

126
Quando o dia amanheceu
Toinho se levantou
lembrou-se de ir visitar
ao coronel Ioiô
Joaninha quando viu ele
de contente aí chorou.

127
Toinho no mesmo dia
pediu a mão de Joaninha
o coronel não pôs dúvida
deu o sim porque convinha
mesmo já estava ciente
da fortuna que ele tinha.

128
Toinho no outro dia
uma cartinha escreveu
e mandou a Mariquinha
com o anel que foi seu
Mariquinha deu um gemido
quando o anel conheceu.

129
Correu ligeira a seu quarto
levando a carta na mão
beijou-a antes de abrir
porém quando leu então
banha a carta de lágrimas
nascidas do coração.

130
Na carta ia o seguinte:
- Como está tudo acabado
mando-lhe então seu anel
antes que seja cobrado
e por ser a testemunha
que seu amor foi quebrado.

131
Senhora eu nunca pensei
que fosse assim iludido
sinto ter deixado a terra
aonde eu tinha nascido
e passar a mocidade
num ermo desconhecido.

132
E quem foi a causa disto?
Foi a senhora e mais nada
porque jurou esperar-me
mas, encontrei-a casada...
Não pensei que sua jura
fosse tão cedo quebrada.

133
Talvez a senhora zomba
da grande miséria minha
por me ver eu lastimar
a minha sorte mesquinha
porém hei de conformar-me
no santo amor de Joaninha.

134
Mariquinha lendo a carta
pôs a mão no coração
e disse: Jesus clemente
tende de mim compaixão
defendei-me da loucura
com a vossa proteção.

135
Escreveu logo a Toinho
onde lhe fez o pedido
que viesse à meia noite
no seu portão escondido
que ela lhe contaria
tudo que foi concedido.

136
Mandou dizer que casou-se
mas pra ele era solteira
porque lhe tinha jurado
esperá-lo a vida inteira
e ele caiu num erro
em julga-la tão grosseira.

137
E que ele se dignasse
vir ouvi-la em confissão
que depois ele daria
a ela absolvição
e trouxesse com que matá-la
se não lhe desse o perdão.

138
Quando assinou a carta
disse pra sua criada
– Vá entregar a Toinho
em casa de sua amada
pra ela saber que eu
por ele fui desprezada.

139
Toinho por um desprezo
mandou a negra voltar
então quando Mariquinha
viu sua carta voltar
pos a mão na cabeça
sem querer pôs-se a chorar.

140
Sua mãe chegou-se a ela
e perguntou-lhe o que tinha
Mariquinha respondeu-lhe
Chora a desgraça minha
ninguém procure saber
deixem eu chorar sozinha!

141
Continuou exclamando:
Jesus tende piedade
vede que sou castigada
com tanta barbaridade!
Fazei que Toinho saiba
que não lhe fiz falsidade!

142
Com poucos dias depois
Toinho então casou-se
Mariquinha chorou muito
mas, depois resignou-se
com seis meses mais ou menos
com Toinho encontrou-se.

143
Disse ela: adeus Toinho
deixe que eu te cumprimente
não tenha nojo da mão
desta infeliz inocente!...
Toinho sentiu cair
na mão, dela um pranto quente.

144
Toinho então perguntou-lhe:
- O que é isto Mariquinha?
Disse ela: não te digo
porque hoje é de Joaninha
porém, cometeste um erro
devolvendo a carta minha.

145
E se deseja saber
toda minha falsidade
procure a doutora Rosa
que mora nesta cidade
e diz-lhe como te chama
que saberás a verdade.

146
Dizendo isto saiu
temendo que alguém a visse
então Toinho lembrou-se
do amor da meninice
procurou ligeiramente
a doutora que ela disse.

147
Toinho então quando soube
do que tinha se passado
deu-lhe um desmaio forte
que ficou quêdo e prostrado
não morreu porque a médica
lhe prestou grande cuidado.

148
Ao melhorar escreveu
uma carta a Mariquinha
dizendo: hoje um veneno
vingará a falta minha
de eu devolver tua carta
sem ler o que ela continha.

150
Dizendo isto retirou-se
Mariquinha então foi ler
o que ele tinha escrito
com todo o corpo a tremer
caiu-lhe a carta da mão
vendo que ele ia morrer.

151
Mariquinha quase louca
escreveu muito veixada
outra carta pra Toinho
e disse a sua criada:
- Leva a sua carta a Toinho
pra eu ficar descansada.

152
A criada facilmente
com Toinho se encontrou
ao sair duma farmácia
onde um veneno comprou
chegou-se a criada a ele
e a carta lhe entregou.

153
Na carta ia o seguinte:
- Toinho eu me ofereço
ser tua como jurei
porque inda te obedeço
a fim de não te matares
porque assim enlouqueço.

154
E quero que venhas hoje
ao portão da minha casa
mas que seja à meia noite
que te esperarei sozinha
pois eu tenho confiança
aquela mesma que tinha.

155
Toinho lendo esta carta
ficou mais tranquilizado
e quando foi à meia noite
chegou no ponto marcado
Mariquinha não faltou
tinha por ele esperado.

156
Toinho ao chegar disse:
- Me perdoa Mariquinha
porque tu és inocente
e toda culpa é minha
de ter sido tão ingrato
pra quem tanto amor me tinha.

157
Eu quero hoje a teu lado
findar a minha existência
já que fui tão castigado
pela mão da providência
e só sentia morrer
sem teu perdão de clemência.

158
Mariquinha respondeu-lhe:
- Quero pedir-te um favor
que não procures morrer
pra eu não morrer de dor
porque assim ficarei
sem teu braço protetor.

159
Porque eu fiz uma jura
de pôr um crime em ação
o qual te digo: é matar
a esse monstro alemão
que quis casar-se comigo
vendo a minha oposição.

160
Como eu tinha jurado
de ser a tua consorte:
porém a fatalidade
envolveu a minha sorte
eu jurei a Deus provar-te
que minha jura foi forte.

161
Tu és bastante feliz
pois casaste com Joaninha
a quem desejo que pagues
o amor que ela tinha
e deixa que eu vá sofrer
minha desgraça sozinha.

162
E te peço quando vires
minha grande desventura
visita a minha prisão
porque cumpri minha jura
e trabalha como amigo
a bem da minha soltura!

163
Toinho aí abraçou-a
e beijou a sua mão
dizendo: minha querida
nunca irás a prisão
sou eu quem vou combater
em frente desse alemão.

164
Mariquinha perguntou-lhe
– Como desejas assim
e que queres tomar um crime
que só assenta pra mim?
Pois juro, se tu morreres
o alemão terá fim.

165
Porque nasci pra viver
do amor dum brasileiro
juro nunca aceitar
o amor desse estrangeiro
e hei de morrer também
quando matá-lo primeiro.

166
Toinho disse: querida
vamos ter precaução
aguardemos a chegada
do maldito alemão
pra então podermos pôr
o nosso plano em ação.

167
Por hora devemos ter
semelhante paciência
muita resignação
e pedir à providência
para nos favorecer
sobre toda resistência.

168
Passava de uma hora
Toinho se despediu
abraçou a Mariquinha
e para casa partiu
com tanta felicidade
que nem a mulher o viu.

169
Com quatro meses depois
Joaninha caiu doente
de uma febre terrível
então morreu de repente
Toinho ficou viúvo
e o alemão inda ausente.

170
Com poucos dias depois
o alemão embarcou-se
na barca Vila Bougogwe
cuja barca naufragou-se
e o alemão afogou-se.

171
Quando chegou a notícia
que ele tinha morrido
Mariquinha chorou muito
com pena do seu marido
mas pena teve do ouro
que no mar ficou perdido.

172
O barão foi o que mais
sentiu este incidente
pois seu genro acabar-se
assim desastradamente
nas águas do oceano
e da esposa ausente.

173
Mariquinha e Toinho
escreveu com atenção
dizendo fique ciente
que o maldito alemão
há dias serviu de pasto
nos mares ao tubarão.

174
Ambos estamos viúvos
e temos grande riqueza
podemos então casar
vendo que a natureza
faz isto para saber
de nós quem tinha firmeza.

175
Assim que Toinho leu
a carta de Mariquinha
arrependeu-se de tudo
que feito com ela tinha
apenas disse: já sei
ela nasceu para ser minha.

176
Com quatro meses depois
Toinho casou com ela
Ambos com vinte e dois anos
levando véu e capela
até hoje não houve mais
outra união como aquela.

177
Descrevi neste livrinho
a maior realidade
quem o ler com atenção
embora contra a vontade
há de dizer que a sorte
é a coluna mais forte
da nossa felicidade.


(Em Souza, Osvaldo de. Música folclórica do médio São Francisco. p.62-80)

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