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HISTÓRIA DE
TOINHO E MARIQUINHA
(Jé. Bernardo da Silva) |
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Toinho todos os dias
com Mariquinha falava
e ela lá da escola
com ele se namorava
pois só tomava um assento
que visse onde ele estava.
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Mais o patrão de Toinho
uma filha também tinha
muito rica e muito linda
quase como Mariquinha
batizada por Joana
e a chamavam de Joaninha.
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De Toinho e Mariquinha
ela tinha a mesma idade
porém mais desenvolvida
e com mais vivacidade
e assim que viu Toinho
tomou-lhe grande amizade.
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Quando Toinho almoçava
Joaninha estava a seu lado
para servi-lo na mesa
lhe mostrando todo agrado
e olhando frente a frente
com seu olhar namorado.
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Na mesma escola defronte
Joaninha também estava
e pra ver também Toinho
um bom lugar procurava,
Mariquinha viu Joaninha
a Toinho namorava.
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Mariquinha então irou-se
e achando o caso sério
lhe veio logo o ciúme
com o seu soberbo império
pois o amor verdadeiro
ama com este mistério.
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Um dia então Mariquinha
foi relembrar a Toinho
que ele tinha jurado
que era dela sozinho
mas que outra namorada
o botava um descaminho.
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Toinho então respondeu-lhe
Eu me lembro Mariquinha
que jurei a Deus de ser teu
e numa amei a Joaninha
só tu, és minha querida
e toda esperança minha.
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Eu te amo e tu me amas
ela me ama também
porque já pediu a mim
que eu não amasse a ninguém
eu já pude conhecer
que aqui eu não vou bem.
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E eu tenho já um projeto
de ir procurar minha vida
com a confiança em Deus
em terra desconhecida
porém só faço a viagem
se for por ti concedida.
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Mariquinha disse: Vai
que ficarei te esperando
embora que eu enlouqueça
ou morra por ti chorando
porém foge de Joaninha
porque ela está te amando.
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Toinho então respondeu-lhe:
- O meu plano está formado
de ir para o Amazonas
para o centro desse estado
trabalhar nos seringais
que me dará resultado.
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Porém ainda desejo
te ouvir outra vez jurar
que tua mão será minha
e a outro não hás de amar
daqui até cinco anos
enquanto aqui não voltar.
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Porque só com cinco anos
é que estarei aqui.
Ainda não te escrevendo
nunca digas que morri
só assim irei ciente
que teu amor não perdi.
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Mariquinha então lhe disse:
- Eu juro não te deixar
nem esquecer-te um só dia
nem também a outro amar
e enquanto tu não voltares
eu por ti hei de chorar.
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Pois só tenho quinze anos
e tu tens a mesma idade
com vinte então casaremos
no furor da mocidade
mas, se não voltares logoNós casaremos mais tarde.
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Que tu não fosses embora
seria a vontade minha
porém vejo que é preciso
visto o amor de Joaninha
embora eu fique chorando
a tua ausência sozinha.
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Toinho pediu as contas
a seu patrão nesse dia
o patrão lhe perguntou
que motivo era que havia
Toinho disse porque
ir embora pretendia.
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Assim que Joaninha soube
que Toinho ia embora
retirou-se para um quarto
e chorou mais de uma hora
e Toinho indo cear
então ela saiu fora.
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Vendo então Toinho só
Joaninha lhe perguntou
se ele ia ausentar-se
Toinho lhe disse: Vou...
Joaninha saiu chorando
e uma carta deixou.
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A carta dizia assim:
- Toinho meu coração
fica partido de dores
com esta separação
melhor era tu matar-me
que te daria perdão.
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A causa desta partida
bem sabes que ignoro,
e despedir-me de ti
não posso, porque mui choro
é teu o meu coração
eternamente te adoro.
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Toinho pra onde vais
sou incapaz de saber
e sem eu te perguntar
tu não ousas me dizer?
Basta isto para mais
aumentar meu padecer.
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- Nunca amei a ninguém
essa foi a primeira vez
juro que quando voltares
inda me acha solteira
se não casar-me contigo
não há mais quem eu o queira.
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- Talvez partas com desgosto
de mim pobre inocente
aceita pois um abraço
já que no tempo presente
não tenho forças pra ir
dar-te o pessoalmente.
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Hoje ninguém mais inveja
a minha sorte mesquinha
aí vai um crucifixo
junto com esta cartinha
é testemunha do amor
desta infeliz Joaninha.
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Toinho abriu a carta
e leu a primeira linha
pegando na cruz e disse:
- Cruz que foste de Joaninha
sois testemunha de que
eu nasci pra Mariquinha.
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Toinho disse consigo:
- Dessa forma está bem
não respondo essa carta
só porque não me convém
pra Joaninha não saber
que eu já amo a alguém.
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Basta saber Mariquinha
pra onde pretendo ir
quando faltavam três horas
para o navio partir
chegou então Mariquinha
pra dele se despedir.
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Quando Toinho avistou-a
quase dar lhe um passatempo
Mariquinha abraçou-o
com profundo sentimento
ambos ainda fizeram
outro novo juramento.
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Exclamou ela chorando:
- Oh! Que momento cruel
Toinho levas contigo
meu nome neste anel
que é outra testemunha
desse meu amor fiel.
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Toinho então recebeu
com muita satisfação
por despedida ainda
beijou-lhe a mão
cujo beijo trepassou
da menina o coração.
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Partiu então o navio
pras terras do Amazonas
pra no seu gelado seio
composta de muitas zonas
degredar um coração
de quem as mágoas são donas.
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Entrando no Amazonas
Toinho por sua vez
saltou no rio Madeira
aonde passou um mês
depois deste empregou-se
na casa dum português.
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Então este português
era um velho solteiro
dono de dois seringais
muito rico em dinheiro
era quem movimentava
o comércio do Madeira.
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Num barracão deste velho
Toinho foi empregado
com a maior confiança
ganhando um bom ordenado
então depois de dois anos
tinha cem contos ganhado.
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O português quando viu
sua grande habilidade
fez com que Toinho entrasse
com ele em sociedade
pois nunca viu tanta prática
num rapaz daquela idade.
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Logo no primeiro mês
que tinha principiado
naquela sociedade
conheceu o resultado
e o velho português
cada vez mais animado.
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Toinho tinha desejo
de a Mariquinha escrever
porém podia o barão
suas cartas receber
portanto nunca escreveu-lhe
para o barão não saber.
90
Mariquinha por Toinho
rezava a Deus todo dia
porque no seu pensamento
Toinho sempre existia
Toinho por sua vez
dela nunca se esquecia.
91
Mariquinha então dizia:
- Santo Deus sacramentado
concedei vida a Toinho
onde ele está desterrado
dai-lhe firme pensamento
que ainda não foi desprezado.
92
Quatro anos já faziam
que Toinho estava ausente
Mariquinha de saudade
chorava constantemente
jurando à sua criada
de amá-lo eternamente.
93
Veio então naquele tempo
um engenheiro alemão
morar dentro do Recife
parede e meia ao barão
o qual vendo Mariquinha
ficou louco de paixão.
94
Esse alemão era um moço
com vinte anos de idade
era também milionário
por sua capacidade
não foi custoso ao barão
tomar-lhe grande amizade.
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O barão Maximiano
era muito interesseiro
só tomava por amigo
a quem tivesse dinheiro
achou então um amigo
naquele rico engenheiro.
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O alemão quando soube
que Maximiano tinha
quatro mil conto de réis
e de herdeiro Mariquinha
pediu ela em casamento
porque assim lhe convinha.
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O barão ficou contente
deu logo o sim que queria
porque viu que o alemão
uma fortuna trazia
e deu parte a Mariquinha
transpassado de alegria.
98
Mariquinha respondeu-lhe
Mas é preciso eu pensar
porque estou muito moça
nunca procurei amar
vivo cheia de ilusões
Não pretendo me casar.
99
Tu tens desenove anos
lhe respondeu o barão
por isto eu te prometi
ao engenheiro alemão
e minha palavra é firme
hei de ver esta união.
100
Mariquinha era educada
não tentou-lhe responder
mesmo pensou que se opondo
o pai podia conhecer
do amor dela a Toinho
e a faria padecer.
101
O pai vendo ela calar-se
ficou com muita alegria
e deu parte a sua esposa
do bom negócio que havia
e o tempo do casamento
combinou noutro dia.
102
Então depois deste dia
ninguém via Mariquinha
pois sempre se conservava
dentro de um quarto sozinha
somente para chorar
a sua sorte mesquinha.
103
Chorando dizia ela:
Jesus filho de Maria
mandai que Toinho chegue
antes que venha esse dia
ou então tirai-me a vida
por vossa bondade pia.
104
Quando faltava dez dias
pro dia do casamento
Mariquinha disse aos pais
desfazendo o fingimento
uma história mentirosa
motivando impedimento.
105
Porque disse ela a seus pais
eu para não casar me oponho
por causa de uma visão
que esta noite eu vi em sonho
que eu não podia ser mãe
e eu acho isto medonho.
106
O noivo era dotado
de muita superstição
a mesma crença habitava
no espírito do barão
então ficaram pensando
no aviso da visão.
107
O barão pensou e disse:
- Pode o sonho não ser nada
porém vou mandar chamar
uma médica examinada
pra saber se Mariquinha
não poderá ser casada.
108
O noivo disse: eu concordo
essa sua opinião
porque é este o estilo
no casamento alemão
lá a mulher só se casa
tendo forte construção.
109
Mariquinha então sabendo
que médica o pai pretendia
mandou-lhe sua criada
contar-lhe em carta o que havia
a médica ficou ciente
pra mentir no outro dia.
110
Estando ciente a médica
deu a sua opinião
comprada por Mariquinha
essa enganou o barão
sendo também enganado
o engenheiro alemão.
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