| Sobre o café, os relatos
populares verossímeis ou fantasiosos não são abundantes como os que se
relacionam com outros assuntos. Para coletá-los, entrevistamos diversos contadores de
estórias, homens, mulheres, procurando, na medida do possível, conservar-lhes o estilo e
o vocabulário, para que não perdessem o sabor original. 
Eu saí da minha casa às 6 horas da tarde, da colônia do café, pra vim na sede
vê a namorada. E então, quando eu cheguei nas três portêras, que fica bem no meio do
cafezal, já tava bem escuro. Nisso, eu vi um cavaleiro que lá vinha vindo, mais nunca
chegava perto de mim. Eu andano, ele andano, parecia que ele andava pra trais. Esse
cavaleiro eu nunca vi ele. Eu tinha um farolete que clareia no chão. Eu num vi na de
siná de rasto. Ele vinha de encontro.
Lá vô andano, andano, andano. E logo me deu um meio medo, pensano na vorta pelo caminho.
Cheguei na casa da namorada e por ali fiquei até às 9 horas, 9 e meia. E sempre pensano
no que tinha visto pra trais do caminho. Me deu até vontade de posá, mas era vergonha e
eu não disse nada do que tinha visto.
Fiz um bruto dum charuto de paia, pus no canto da boca e acendi. Agora dá pra chegá em
casa. Chegava na porta, entrava pra dentro. Chegava na porta, vortava prá dentro. O pai
da moça disse:
- Ocê tá cum medo?
- Não... é meu costume... Ainda tem café ainda aí?
- Tem.
Aí, mandô a moça na cozinha buscá o café. Eu tomei uma xícara de café e logo saí.
Aí, lá e vinha vindo, pitano, pitano. Veio um vento frio nas minhas costa: "Mas,
aqui estô cum Deus e o Anjo da Guarda", foi só do que me lembrei. Essa ocasião,
tinha erva cidrêra prantada no carriadô... As erva fazia baruio e me assutava. Corria
largatixa nas fôia do café... me assustava. "Hoje tô pirdido aqui", maginei.
Logo o cigarro pagô. Tirei a binga ôtra veis, a binga num quiria pegá. Mas, sigurança,
tinha uma caxa de fósfro. Risquei o fósfro, vento pagô. Tava tudo danado. Fui na binga
outra veis, até gastá, acabá cum a pedra. Nessa hora, eu num vi nada, nem estrela, nem
nada. Só vi quano incostô uma mão no meu peito. Assustei. Mas eu lembrei que tinha Deus
cumigo.
Uma voz mi disse:
- Afasta no vão do café.
Eu fastei. Na chegada da ponte, vi um baruio no carriadô de baxo, justamente no carriadô
transfomadô, qui sai na colônia de cima, e vi um baruio muito usado: plac, plac, plac...
Eu tanquei o relógio do borso: era 11 horas da noite. Só vi um clarão no carriadô. Vi
um monstro dum bicho que nunca vi na minha vida: a orelha tinha mais de um metro, o olho
era mais grande que uma roda de carroça e clareava igual uma lamparina. E os dentes,
clarinho; a língua vermelinha e grande, que arrastava no chão. O focinho tinha mais de
um metro. Tinha o corpo curto. Eu num pude conhecê, embora ele tivesse passado
divagarinho. Só se ra um "encanto", porque num me fêis nada. Cheguei em casa
cum medo!... Aquela noite num pude durmi. Aí, chegô de manhã cedo. Minha mãe
pirguntô:
- Mais qui hora ocê chegô onte?
- Era umas onze e meia, mãe. Vô contá o que acunteceu cumigo na estrada, a sinhora num
vai acreditá.
Contei tudo e ela num acreditô. Aí, eu disse para ela:
- Acredita só quem vê.
Isso cunteceu fais uns doze ano. É um caso acunticido mesmo. É uma assombração muito
rigorosa.
(Contado por Pedro Pereira, fazenda Auxiliadora, Restinga. 1966)
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OUTRO CAUSO
Certa vêis, um home foi visitá o seu cumpadre que morava notra fazenda. Pra isso,
ele tinha que passá no meio do cafezal.
O cumpadre Mané João bem que tinha avisado inhantes qui, quando ele fosse, num passasse
por uma certa rua do café, que tava assinalada de vermêio, porque da meia-noite pra
diante aparecia naquele lugá um home de barba bem grande, de zóio de vidro e com uma
capa preta.
O cumpadre qui ia visitá num importô com o aviso e dexô pra passá nesse lugá bem à
meia-noite. Quando ele foi chegano perto da táli rua do café, sintiu um arripio muito
grande, por corpo todo, e começô a suá frio. Daí a pôco, onde tava a mancha vermêia,
foi formano um home, tal qual o cumpadre Mané João tinha falado. E esse home começô
intão a corre atrais do visitante e esse, tremeno, correu pra casa do cumpadre, que tava
sabeno do caso. Ele, então acendeu uma luiz bem forte e o bicho vortô correno e sumiu no
mato.
Dispois dessa, nunca mais o cumpadre visitante quis abusá das coisa qui os ôtro falava.
(Contado por Trífinis da Silva, Fazenda Nossa Senhora Auxiliadora, 1966.
Restinga)
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OUTRO CAUSO
Duma família qui tinha cinco fio home, eles fôro apagá um fogo no meio do
cafezá. Então, quando eles vinha de vorta, era meia-noite, eles viu um bode bem no meio
do café. Eles, então, quís pegá o bode e ficaro correno em cima desse bode, pra pegá.
Quando eles tava peganum-pega, o bode passô perto dum deles e falô:
- Ocêis qué mi pegá? Eu sô o capeta.
Eles sairo correno pru café abaxo, que nem num tinha graça. Quando chegaro em casa,
acordaro todo mundo, mais eles num cunsiguia falá nada, por causa do susto. Só no ôtro
dia é que eles pôde contá o que acunteceu cum eles lá no meio do café. |
CAUSO ACUNTICIDO
NA FAZENDA MONTE BELO
Diz que uma mulher tava cum vontade de comê carne
de carnêro. O marido dela então falô:
- Nóis vamo robá.
Aí, ia passano um home pra í pra venda. Quando ele viu aquele fantasma, saiu correno.
Chegô na venda e contô pro pessoali. Todos fôro vê. Nisso, eles chegavam na cruis, via
e saía correno.
Chegô um alejadim na venda e falô: - Eu tenho corage di i vê, mais só si arguém me
levá, pois eu num posso andá, como é qui eu vô?
- Eu te levo nas costa, disse um deles.
Saíram. Quando fôro chegano, a muié pensô que era o marido que vinha vino cum o
carnêro nas costa. Ela intão perguntô:
- Tá gordo ou tá magro?
Aí, o home jogô o alejadim no chão e saiu num carrerão. O alejadim num podia corrê,
intão saiu rolano no cafezal abaxo e se escondeu debaixo dum pé de café. A mulher
gritava:
- Num corra, sô gente, num sô fantasma.
Mas num ficô ninguém. E cum todo aquele baruio, o marido num pôde pegá nada e os dois
vortaro pra casa sem tê podido robá o carnêro.

Um caipira foi na cidade fazê compra. Entrô numa loja e viu um "sutien".
Resorveu comprá ele pra sua muié. Chegano em casa, quando entregô o presente, disse:
- Oia, muié, o que qui eu trôxe procê. É um cuadô de café pregado um no ôtro.
A mulher, quando viu, falô:
- Que que é isso, véio, ocê num cunhece as coisa. Isso num é cuadô nem nada, isso é
"sutien" de muié.
Alguns dias dispois, o caipira vortô na cidade e foi ôtra veis naquela loja. Lá
chegano, viu umas luva na vitrina. Pensô: dessa vêis a moça vai me pagá.
Entrô e pergunto pra balconista o que era aquilo.
São luvas, respondeu ela.
O caipira, sorrindo, falô:
- dessa veis ocê num mi tapêia, não. Isso aí é "sutien"di vaca".
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Dois home muito sabichão, fôro procurá um lugá
pra estudá o tempo. Chegaro na fazenda de uma viúva e acharo o lugá bão. Então,
pediro comida e posada por arguns dia.
Um dia, o tempo manheceu limpo, sem nem uma nuvem no céu. De repenti, o burro da viúva
sortô um rincho e ela correu na janela. O burro sortô outro rincho, na direção do lado
de escondê o sóli.
A viúva, então, botô toda a fazenda num baruião. Mandô chamá os que tava no cafezá,
mandô guardá o café no terrêro e recoiê a lenha.
Os dotôre então dissero:
- Pruquê isso tudo, dona?
- Mais ocêis num tão veno qui vai chovê?
Os home fôro buscá os apareiamento, oiaro o tempo, oiaro i dispois viraro pra
fazendêra:
- Dona, nossos aparêio dissero qui num vai chovê não.
Mais o meu disse que vai...
Quedê o seu?
A viúva apontô pro asno e, enquanto os da cidade ria, ela cuntinuô com a trabaiêra.
Di repenti, foi aquele aguacêro, qui Deus mandô.
Os dotôre então dissero:
- Aparêio bão é esse mesmo.
Quisero comprá ele da viúva, mais ela disse:
- Óia, eu num tenho marido pra mi ajudá, só tenho esse aparêio.
E num vendeu.
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PURO
Ó seu Rosa, deseja o café com pinga ou sem pinga?
Sem café, minha senhora.
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CAFÉ CONOSCO
Um cumpadre foi na casa do outro cumpadre. Conversaro, conversaro. Dispois o
visitante quis í simbora, mas o cumpadre num dexô. Insistiu mesmo prele ficá e
pra tomá um cafezim.
Disse:
- Fica cumpadre, pra tomá um café conosco.
O visitante aceitô o convite e esperô o café, que veio simples, embora, ele pensasse
qui vinha acumpanhado di quitanda.
Então pirguntô:
- Uai, cumpadre, cadê o nôsco?
(Marconi, Marina de Andrade. Folclore do
Café. p. 118 123) |