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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

Já se alastrou intensamente por todo o Brasil, sobretudo na zona central, o tema do café, como parte importante de simples trova ou cantigas de desafio.

Não são muitas, nem primam sempre pelo método, as nossas coletâneas gerais ou regionais, quer de prosa, quer de versos anônimos, irrompidos da imaginação do povo.

É, talvez, incompleta a respiga que fiz. Servirá, porém, para demonstrar que a Coffea arabica está bem naturalizada no Brasil e permitirá a futuros colecionadores que a matriculem em lugar de destaque de antologias especializadas, com os acréscimos, variantes e correções, que se lhes tornarem possíveis...

José Bonifácio, o moço, na longa poesia O tropeiro (Primeiras trovas burlescas, de Getulino, pseudônimo de Luís Gama, ed. de 1861, p.245-252), põe na boca do cozinheiro da tropa esta quadrinha:

Vamos depressa
Tomar café;
Depois veremos
Quem bate o pé.

Parece que os tropeiros que mais bebiam a estimulante infusão resistiam melhor às fadigas das marchas estiradas.

Nos Cantos populares do Brasil, de Sílvio Romero .(2ª ed., 1897), só se me deparou uma referência, que vem no ABC do lavrador, colhido no Ceará (p.103-104), em quadra fraca e mal rimada:

Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo,
Para não passar tão mal

No Cancioneiro do Norte (1903), do poeta.e folclorista paraibano Rodrigues de Carvalho, achei três cantigas compridas, das quais destaco as estâncias em que figura o café.

Da Infelicidade de um agricultor (p.19-19):

Usei de plantar café,
Quando nasceu foi andu;
Botou fruta de jacu
E semente de inhoré.
Sei que a sorte não me quer,
Por essa maneira assim;
Eu plantei um gergelim,
Deu um puro carrapicho.
Isto é por um capricho
Que a sorte vem contra mim.

Das Cantigas de cabeceira (p.149):

Esse é Manuel Cabeceira,
De Cabeceira Manuel;
Eu faço pirão de homem,
Com farofa de mulher.

Com u’a mão quebro bolacha,
Com a outra tomo café.
Tenho um ditado no mundo,
Que diz que - só e só é.

Da poesia Rio Preto, nome de um temível bandido do sertão da Paraíba (p.177-178), notando-se que os dois primeiros vence estão errados, escusando-se apenas o inicial pela pronúncia popular "subidelegado":

Senhor subdelegado,
Venha tomar café comigo,
Pois, enquanto eu me vir solto,
Serei um seu bom amigo;
Só depois de me ver preso,
Serei um meu inimigo.

F. A. Pereira da Costa, no seu Folclore pernambucano (1908), inseriu duas genuínas poesias populares, no estribilho das quais entra o café, como acontece quando é tomado após os pratos de resistência. Reproduzo-as integralmente, pois são curtas e não merecem ser mutiladas.

A primeira é uma "chula", de que há variantes, entre outras de Sergipe (ver Sílvio Romero, op.cit., p.62-63). Ei-la, tal qual a consignou o escritor pernambucano (p.452):

O padre foi dizer missa,
Na capela de Belém.
Em vez de dizer: - Oremus,
Disse: - Maricas, meu bem!

Café, chocolate,
Farinha de pau,
Bolachinha doce,
Que vem de Macau.

O padre, quando namora,
Passa logo a mão na c’roa.
Namora, padre, namora,
Que Roma tudo perdoa!

Café, chocolate,
Farinha de pau.
Bolachinha doce
Que vem de Macau.

A segunda é um "lundu", mais caracteristicamente brasileiro que a "chula" anterior. Ei-lo (p.156-157):

Branco diz que negro bebe,
Bravô, sinhazinha,
Negro bebe agoniado.
Quando negro vai na venda,
Bravô, sinhazinha,
Acha copo já moiado.
Café cum chiculate,
Farinha riá pau,

Mulata bonita,
Toca birimbau!
Quem não toca riá fero,
Toca riá pau!
Menina de Afogados,
Bravô, sinhazinha,
Tem a perna de socó;
Pru riba tanta farofa,
Bravô, sinhazinha,

Pru baxo mulambo só.
Café cum chiculate,
Farinha riá pau,

Mulata bonita,
Toca birimbau!
Quem não toca riá fero,

Toca riá pau!

Cumpre-me explicar que, na linguagem prosaica popular, fonte em que se dessedentam os menestréis anônimos do sertão e até os bardos das cidades cultas, as expressões "café com leite" e "café com chocolate" têm acepções translatas, que demandam dilucidação. Assim, chama-se vulgarmente "café com leite" tanto a mulata, quanto o casal de preto e branca, aplicando-se a denominação de "café com chocolate" ao par formado por preto e mulata.

Entre nossas inúmeras produções bárdicas - que surgem com paternidade conhecida, mas, se caem no gosto do povo, como quê se anonimizam, tornando-se tradicionais - somente descobri duas em que o saboroso líquido da rubiácea aparece secundariamente.

A primeira é da Lira de Apolo (1905) e vem num "lundu", intitulado Tem paciência, com que João de Souza Cunegundes visou a satirizar algum empavonado senador da época. Eis a estância (p.33-34), em forma de diálogo entre a mulata, antiga amante do empavonado político, e este:

- Nhonhô cantava modinhas,
Eu fazia o cafezinho,
Ele dava cafunés,
Eu pagava num beijinho...
- Mas, nhonhô, vancê que tem,
Que já não fala ao seu bem?
- Tem paciência, meu amor,
Agora sou senador!

A outra pertence à Lira brasileira (1908), e ou é da lavra de Catulo Cearense ou foi por ele. colecionada. Na extensa poesia Carta original (p.39-40) entrou o café, como creio, apenas por exigência de rima:

Sem crenças, perdida a fé,
Descreio do mundo até!
Quantas saudades, olé!
Da casinha de sapé!
A sombra do grande ipé,
Deitado, a tomar café,
Na esteira de catolé,
De tua morada ao pé,
A vida mais feliz é
Deu.me agora na maré
De me entupir de rapé,
Só de saudades, bofé,
Já pareço um jacaré,
Andando sempre pra ré,
Neste andar de pangaré!

Nos "autos" setentrionais, aparece também a rubiácea, como se vê da quadra seguinte:

- Mestre Domingos,
Cadê sua muié?
- Tá na beira do fogo,
Torrando café...

São de 1916 as Mil quadras populares brasileiras (Contribuição ao folclore), recolhidas e prefaciadas por Carlos Góis. Nessa publicação, que abrange rimas tradicionais de todos os rincões do país e à qual apenas faltou qualquer coordenação, ou pela procedência regional, ou pelos "motivos" (como a que fez, em 1919, Afrânio Peixoto, nas Trovas populares brasileiras), encontram-se algumas referentes à negra e estimulante bebida, tão predileta da nossa gente sertaneja, quanto da que mora nas cidades.

A primeira (p.38) é fluminense, convindo notar-se que o nosso povo inculto, por sistemática aversão às vozes proparoxítonas, não diz "xícara" e sim "xicra", que é como se deve ler no terceiro verso, a fim de não destoar da métrica dos restantes:

A bandeira aqui chegou,
Um favor quer merecer:
Uma xícara de café,
Para os foliões beber.

A segunda (p.46) e a terceira (p.188) são mineiras:

As flores do cafeeiro
São branquinhas, a cair...
Não fiques triste, menina,
Quando me vires partir.

- Paulista, de onde é que vem?
- Eu venho do Sincorá.
- Paulista, vancê se apeie,
Que o café mandei coá.

Não traz indicação de origem a última, que, entretanto, embora sem a delicada nota emocional da segunda acima citada, é expressiva da galantaria espontânea dos nossos patrícios do hinterland:

Menina dos olhos pretos,
Sobrancelhas de retrós,
Dá um pulo na cozinha,
Vai quentar café pra nós.
[1]

Ao talentoso médico, doutor A. Americano do Brasil - ilustre goiano, que já representou na Câmara Federal, com assinalado brilho, a terra do berço -, deve-se um Cancioneiro de trovas do Brasil central (São Paulo, 1925). Apesar de poucas páginas de crítica ou interpretação, é uma das nossas melhores coletâneas de rimas populares e constitui inestimável contribuição para o quase abandonado folclore pátrio, porquanto é a primeira e única antologia, que conheço, das produções poéticas tradicionais do coração territorial do nosso país. Em obra assim concernente à grande zona cafeeira, não podia eu deixar de colher grande número delas, inspiradas pelo ouro vegetal. Vou concatená-las.

Do Desafio I (p.74):

- Ê baliá!
Quem não tem chocolateira,
Não bebe café, nem chá!

- Ê baliá!
Eu tenho chocolateira,
O café eu vou torrá.

Note-se que os nossos sertanejos (nisso acompanhados pela própria gente das cidades adiantadas) não se importam com a diferenciação que existe entre "chaleira", "chocolateira" e "cafeteira". Este último vocábulo não é empregado por eles. Na "chaleira" é que se aquece tudo, menos o chá; e na "chocolateira" quase nunca se prepara o chocolate e sim o café. Dessa perda do valor etimológico das palavras há exemplos em barda, que justificam aquelas aparentes aberrações. Um deles é o verbo "embarcar", aplicado hoje a veículos que rodam sobre trilhos na terra firme. E quantas vezes não tenho ouvido de roceiros a frase "andar a cavalo num burro"!

Do Desafio III (p.87):

- Que o arroz já tá nas vasía
Para engordar as muié,
É coisa mais do que clara,
Porém não vejo o café.

- Porém não vejo o café,
Porque o doce está vasqueiro,
E a fruta custando caro,
Pra mode imposto em vendeiro.

Na quadra da resposta, observa-se o emprego de "doce", em lugar de "açúcar". Aquele termo é preferido a este, no linguajar dos nossos caipiras.

A poesia tradicional As duas innãs (p.137), da qual há variantes, merece ser reproduzida integralmente:

- Lá vem vindo um cavaleiro,
Ó filha, vai ver quem é.
- É o vosso bom Joãozinho,
Quem já vem tomar café.

Saiu a filha mais velha
Com sua fala maciosa:
- Joãozinho, casa comigo,
Que sou a mais carinhosa.

Saiu a filha mais nova
Com sua fala maciazinha:
- Joãozinho, casa comigo,
Que sou a mais bonitínha.

- Minha mãe, nos casa logo,
Quando somos raparigas:
O milho plantado tarde
Nunca dá boas espigas

Há tanta coisa nesse poemeto: o café, pretexto para o namoro; as duas irmãs disputando o mesmo noivo, e aqui, em vez de Joãozinho requestar a sua Joaninha, como dizia Schopenhauer, é o contrário que ocorre; e, finalmente, a sabedoria empírica, confirmada pela erudição moderna, de que saem engoiados e degêneres os rebentos de velhos...

Ouça-se este Recorte (p.192), de um sertanejo que se julgava na Turquia, senão influenciado por leitura da Bíblia, em que abundam patriarcas polígamos e um rei Salomão que a todos levou as lampas em matéria de femealidade:

Eu também vou casar já,
Com uma dúzia de muiés:
Três Chiquinhas, três Aninhas,
Três Teresas, Três Zabés

Três para coser a roupa,
Três para lavar meus pé,
Três pra anelar meu cabelo,
Três para me dar café.

Na silva de quadras, vejam-se mais estas duas (p.231 e 234):

Me deram jantar, café,
E cigarro. Cigarrei.
Enfiei a mão na algibeira,
Tirei dinheiro e paguei.

Ouvi tropel de biscoito,
Ouvi xícaras tinir
Paciência, companheiros,
Que o café não tarda a vir.

De todas as poesias da coletânea do doutor A. Americano do Brasil, a mais interessante, com relação ao café, é a que se canta num "recortado" (v. p.279-280), variante do "batuque":

Café requentado
É coisa à toa.
Torra, soca,
Morena, e coa.

Café requentado
É coisa à toa.
Café requentado
Eu não o quero;

Esperar fazer outro,
Eu não o espero.
Torra, soca,
Morena, e coa.

Café requentado
É coisa à toa.
Vamos tomar
O café com broa

Cornélio Pires, em sua Seleta caipira (1926), inseriu, à p.46, o seguinte expressivo soneto, epigrafado Ideal de caboclo: [2]

Ai, seu moço, eu só quiria,
Pra minha filicidade,
Um bão fandango por dia
E um pala de qualidade;

Porva, espingarda e cutia,
Um facão fala-verdade,
E u’a viola de harmonia
Pra chorá minha sodade;

Um rancho na bera d’água,
Vara de anzó, poca água,
Pinga boa e bão café;

Fumo forte, de sobejo
Pra compretá meu desejo,
Cavalo bão e muié...

No seu Folclore brasileiro (1926), Daniel Gouveia teve a feliz idéia de dar assento aos apodos que sofrem certos nomes próprios batismais por parte da chocarrice sertaneja, e muitos já enquadrados na corrente tradicional popular. Assim, em relação ao nome "José", registrou ele o seguinte (p.7):

José Perequeté,
Tira bicho do pé.

Conheço este apodo, com um verso a mais, corriqueiro entre a garotada das cidades mineiras:

José Perequeté,
Tira bicho do pé,
Pra tomá com café!

Nas suas Tradições e reminiscências paulistanas (São Paulo, 1921), Afonso A. de Freitas conta a história de Zé Prequeté e registra (à p.36) esta quadrinha popular:

O Zé Prequeté,
Tira bicho do pé,
Pra comê com café,
Na porta da Sé!

Nos Contos inéditos (Uberaba, s.d.) - interessante coletânea em que Crispiniano Tavares aproveitou muito do que viu e ouviu nos sertões de Minas Gerais e de Goiás, por onde andou longos anos como engenheiro, encarregado de várias comissões técnicas -, deparou-se-me o seguinte "recortado", em que um violeiro-cantador de Torres do Rio Bonito, aldeola goiana, fez referência ao café, por ocasião de uma festa pública do Divino Espírito Santo (a pontuação e a disposição das quadrinhas foram melhoradas por mim):

Não te dou chá,
Porque não tem.
Queres um beijo?.
Vem cá, meu bem!

- Até no alto
Eu vou contigo,
Do alto pra lá,
Não tem perigo!

Ah! Quanto a isso,
Muito obrigado...
Não te dou café,
Que não tem torrado.

- Serviço bonito
É o da mulhé:
Sentada na porta,
A fazê croché.

Choquei galinha,
Nasceu peru:
Vendi mestiço,
Comprei zebu.

- A porta abre,
A janela cai;
A cabra morre,
A morena sai.

E terminou:

Este mundo nasceu à toa,
Deste oco ninguém sai.
Minha mãe morreu sem dentes,
De tanto mordê,meu pai.

Parece-me que a colheita do café, ao norte do Brasil, bastante se assemelhava à vindima portuguesa. Dava ensejo a muito namoro e a ouvir-se, antes de decorrido um ano, muito choro de criança nova no mundo. Daí a seguinte quadra, repontada, segundo me informou ilustre senador norte-rio-grandense, na zona cafeeira da Paraíba, donde migrou para outros pontos do Brasil, e que nunca vi estampada em coletâneas:

Quem tivé fia bonita,
Não mande apanhá café
Si fô minina, vem moça;
Si fô moça, vem muié.

Quer ao norte, quer ao centro, quer ao sul do Brasil, têm-se empregado mulheres na apanha do café, ou por serem mais ágeis e jeitosas do que os homens, ou por exigirem menor salário. Houve até quem (o doutor Domingos Jaguaribe) se lembrasse de educar macacos para semelhante serviço... Em certos lugares, onde as cerejas da rubiácea são primeiro arrancadas dos galhos para o chão, munem-se as colhedoras de um tamis leve e grosseiro, que conduzem às costas, e destinado a limpar os frutos, antes de encherem com eles os grandes balaios ou cabazes, nos quais é transportado para a seca nos terreiros o café em polpa. Deu isso origem a uma quadra popular, que registra aquele costume e revela o erotismo lírico do nosso mestiço. Também não consta ainda de coletâneas impressas:

Eu quisera sê penera,
Na coieta do café,
Para andá dipindurado
Nas cadera das muié.

Um prezado amigo meu, cultor das nossas tradições, forneceu-me a seguinte quadra popular, que ele ouviu na Bahia, e em cujo verso derradeiro há, evidentemente, um jogo de palavras com o verso antecedente:

Parece história, parece,
Mas fantasia não é:
A vaca branca dá leite,
E a preta é que dá café.

Melo Morais Filho, em sua excelente obra Festas e tradições populares do Brasil, refere (p.120) como é que se comemorava, na cidade do Salvador, a vitória de 5 de julho de 1823. A Coffea arabica não era refugada do interessante festejo popular, conforme se vê da narração do escritor acima citado:

"Como vivo simulacro da entrada do exército, o carro da bagagem primava pela originalidade. Era uma monstruosidade ambulante, coberta de folhas de café, trazendo mantimentos e frutas para as forças desprovidas. Aos tirantes deste ajustava-se gente de toda casta, cantando e tirando versos em estilo fácil e gracioso:

Vai o carro da bagagem
Carregado de ananás
A mulher que não tem homem
Vive sempre dando ais..."

Cornélio Pires, em Mixórdia (São Paulo, 1927), insere algumas poesias sertanejas ou rimas de estilo sertanejo, nas quais figura o líquido da rubiácea abissínia.

O canto de saída dos foliões da festa do Divino Espírito Santo é o seguinte (p.56-57):

Deus lhe pague suas esmola,
Todas elas in gerá:
O Divino Esprito Santo
É quem há de lhe pagá.

Destas prata, destes oro,
Destes papel em milhão,
Nunca vos há de faltar
Dinheiro nas vossas mão!

Deus lhe pague sua pinga,
Que nos refrescô por drento.
O Divino Esprito Santo
Hai de dá o pagamento.

Deus lhe pague sua comida
E também o bão café;
No céu haveis de comer
Com Jesus de Nazaré...

No Batizado do sapinho, que é longo, acha-se a seguinte oitava (p.207-208):

Nesses treis divertimento,
Divirta no quá quisé:
No terrero, tem o samba;
No salão, o bate-pé;
No terrero da cozinha,
Tem a dança do soaré.
- E o sapo não esquecia
De corré pinga e café.

Na Moda da viúva, que também é comprida, há as duas seguintes oitavas, em cada uma das quais entrou a bebida tirada da Coffea arabica.(p.227-228):

Num levó muita demora,
Apareceu ua criada
C’ua bandejinha branca
E duas xicra pintada,
Pra bebê café cum leite,
Cum doce de bão-bucado
E uas bulachinha doce,
Cuberta de açucarado.

Eu oiei na cara dela,
Fiquei muito invergonhado;
Meu braço pegô tremê,
Que ficô disguvernado;
Minha xicra de café
Derramô mais de metade;
E meu coração batia,
Cumo o baque do machado...

Num estudo notável, tanto pela pesquisa, quanto pela erudição, intitulado A voz dos campanários baianos e inserto nos Anais do Arquivo Público da Bahia (v.24, p.260), o doutor J. da Silva Campos consigna a seguinte observação:

"Os sinos de São Francisco, segundo uma outra graçola popular, diziam assim, quando repicavam:

Café com pão,
Café com pão,
Bolacha não!

Paulo Gustavo (pseudônimo do já consagrado poeta Euclides Mendes Viana) põe na boca de um gavroche carioca a seguinte cantiga (ver Jornal do Brasil, 7 de fevereiro de 1937), depreciativa de um filho da China, aqui proprietário de uma casa de pasto:

Lá vem o China,
Na ponta do pé.
Lig, lig, lig, lig, lig, lé!
Dez tões, vinte pratos,
Banana e café!
Lig, lig, lig, lig, lig, lé!

Hermeto Lima (ver Jornal do Brasil, 14 de março de 1937), em interessante crônica sobre A praça Tiradentes, conta o seguinte:

No café do Braguinha, muitos anos depois Café Criterium, reuniam-se diariamente médicos, advogados, homens de letras e de teatro. O Braga, um português gordo, baixo e atarracado, era de uma bondade extrema e de uma atraente simpatia. Dotado de alguma inteligência, era amigo dos escritores e íntimo de João Caetano. Por sua influência junto ao grande trágico, foram representadas peças de autores ainda então desconhecidos. Os anúncios do café do Braguinha, que começavam sempre por - A fama do café com leite -, eram feitos pelos homens de letras que freqüentavam a casa. Dizem que Machado de Assis e Laurindo Rabelo foram autores de muitos desses anúncios, que enchiam as colunas dos jornais do tempo. Estávamos então no tempo dos lundus, e um desses anúncios foi posto em música e cantado. Começava assim:

O Braga, dono de fama,
Participa à freguesia
Que descobriu um café
Que cura a paralisia.

E terminava sempre com o estribilho:

E o Braguinha,
Sempre cortês,
Com todo o gosto
Serve o freguês.

Entrou, finalmente, o licor da planta abissínia na composição de três sonetos, cujos versos terminam quase todos pelas mesmas palavras, e que, por isso mesmo, constituem o curiosíssimo "soneto elástico", de autoria incerta, mas desde muito vindo a lume em páginas de almanaques populares, e cujo enredo é o que passamos a expôr.

Certo estudante enviou à sua pretendida a seguinte

Declaração

Assim como o inglês adora o chá;
Como o homem da roça ama o café;
Como o moleque quer o buscapé.
E o baiano aprecia o vatapá;

Assim como o melado ama o cará;
Como o vigário gosta de rapé;
Como o soldado preza o seu boné,
E o poeta estima e louva o sabiá;

Assim como a criança ama o cri-cri;
Assim como o careca ama o chinó,
E o marinheiro adora o parati;

Como o guloso anseia o pão-de-ló
Assim também te adoro muito! xi!
Casa comigo, ó bela, e verás só!

A menina leu atentamente os singulares versos do estudante apaixonado e deu-lhe a seguinte

Resposta

Sem ser inglesa, tomo também chá;
Sem ser roceira, gosto do café;
Sem ser moleque, adoro o buscapé;
Sem ser baiana, como vatapá;

Sem ser melado, gosto do cará;
Sem ser vigário, tomarei rapé;
Sem ser soldado, já usei boné;
Sem ser poetisa, adoro o sabiá;

Sem ser criança, brinco com cri-cri;
Sem ser careca, tenho o meu chinó;
Sem ser marujo, estive em Parati;

Sem ser gulosa, como pão-de-ló
Mas casar com você, que asneira! xi!
Procure alguma tola, ou viva só!

O estudante achou graça no revide, e já se preparava para dirigir mais algumas rimas à sua benquerida; quando recebeu do pai da mesma o seguinte

Recado

Tu sabes que o inglês adora o chá,
Assim como o roceiro ama o café,
E que o moleque estima o buscapé,
Tanto quanto o baiano o vatapá;

Tu sabes que o melado ama o cará
E que os vigários gostam de rapé,
Assim como o soldado ama o boné
E o inspirado poeta o sabiá;

Tu sabes que a criança ama o cri-cri,
Que o careca faz uso do chinó
E que o marujo bebe parati;

Sabes que ama o guloso o pão-de-ló
Mas não sabes, talvez, que resolvi
Dar-te uma boa sova de cipó...


Notas:

1. Em interessante crónica, intitulada O nosso café, firmada por Marina e vinda a lume no Jornal do Brasil de 28 de outubro de 1937, deparou-se-me a seguinte boa variante da quadra acima:

Menina dos olhos pretos,
Sobrancelha de retrós,
Põe a chaleira no fogo;
Pra fazê café pra nós

Encontra-se também, como averiguei, na coletânea de A. Americano do Brasil, Cancioneiro do Brasil central.

2. Verifiquei depois que o soneto em questão já havia saído na Musa caipira (São Paulo, 1910, p.9-10), do mesmo autor.


(Magalhães, Basílio de. O café, na história, no folclore e nas belas artes p.117-132)

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