Enquanto dou os retoques
finais no glossário de Termos e expressões regionais que estou organizando,
passarei às mãos do meu prezado amigo doutor Osvaldo Cabral algumas crendices e
superstições por mim registradas no lugar denominado Rio Branco, hoje pertencente ao
recém-criado município de Guaramirim. Fiel às exigências de quem registra folclore,
procurarei consignar com a maior fidelidade o que ouvi no contato prolongado que tive com
a gente que me forneceu as notas que se seguem:
RaioO raio é uma espécie de machadinha de pedra, arremessada do céu, durante
as trovoadas. Achá-lo é muito fácil. Basta cavar sete palmos (influência da
profundidade das covas de defuntos?) ao redor do obstáculo sobre o qual cai o raio e
certamente se encontrará a machadinha. Cheguei a ter nas mãos um "raio", que o
"dono" dizia ter apanhado entre as raízes de um coqueiro, fendido durante uma
tempestade. Pareceu-me um utensílio de índios, talvez um pouco menos trabalhado. Lembra
vagamente uma machadinha de pedra, com o fio quebrado em toda a sua extensão.
Diamante
Acredita-se que a natureza já fornece o diamante lapidado e que essa preciosa gema
possui intensa luz própria. Se não fosse o encantamento, qualquer pessoa podia achar um
diamante, por que o lugar onde ele se encontra (em terra seca e não nos leitos dos rios)
é assinalado por uma chama viva que, todavia, mantém sempre a mesma distância do
observador, por mais que este lhe vá ao encalço. Quando sucede que o afortunado
desencanta a pedra e põe-lhe a mão, ainda assim não pode se considerar dono dela,
porque o diamante tem artes com o diabo e desaparece, se não tiver sido batizado. Em
compensação, o batismo é muito fácil e pode ser feito por leigo: põe-se o diamante na
boca três vezes e se repete: "Diamante, eu te batizo em nome do Padre, do Filho e do
Espírito Santo. Amém". Legítimo batismo cristão e na verdade não aceito por
todas as pessoas interrogadas. Muitos velhos sabiam que o diamante precisa de ser batizado
mas ignoravam a maneira de fazê-lo. De que é indispensável pô-lo três vezes na boca,
ninguém duvida.
A crença geral de que a preciosa concentração de carbono possui luz própria é também
assinalada em ingênuas histórias de príncipes e princesas encantadas. onde a
iluminação profusa é fornecida por grandes diamantes.
A lenda do fruto do xaxim
De todas as lendas que ouvi, uma das mais complicadas é sem dúvida a que passarei a
expôr. Entre a gente do campo, tocar sanfona é uma arte altamente invejada. Não são
raras as histórias de tocadores que chegaram a fazer pactos com o diabo em troca de
habilidade no teclado de uma acordeona e que depois de bailes memoráveis
"estouraram", ficando no salão apenas o cheiro forte do enxofre.
Pois bem. Aprender a tocar gaita exige muita coragem, mas é coisa ligeira. Numa noite de
véspera de São João o candidato a gaiteiro pega o instrumento e demanda mato a dentro
somente parando "em lugar onde não se ouça o cantar do galo". Nessa altura o
valente sertanejo procurará um pé de xaxim e se sentará debaixo do mesmo, aguardando
pacientemente que chegue a meia-noite. É nesta hora que sucede o maravilhoso. No exato
momento em que se anuncia o novo dia de São João, o pé de xaxim deixa cair sobre o
suplicante um fruto e com este dotes artísticos solicitados ao Batista. É questão de
paciência e coragem...
Contra a fumaça
As crianças lançam sorte a fim de ver para que lado vai a fumaça, dizendo estes
versinhos: "Espeto ferrugento, da capa do vento, de lá ou de cá, Martim
bufá". A cada palavra o que recita aponta alternadamente para si e para cada um dos
circunstantes. Assim, por exemplo: "Espeto", indica o seu próprio peito,
"ferrugento", aponta para o outro, "da capa", novamente o dedo acusa
do recitante, "do vento", mostra o parceiro. A fumaça irá para o lado daquele
a que tocou a última palavra: "bufá".
Se o atingido for esperto, usará este preventivo: "Fumaça prá lá, santinha prá
cá..."
E fica nada feito.
Contra cobra
Esta oração: "São Bento, cobra prá mim não tem dente. Água benta tá na pia,
Jesus Cristo no altar. Cobra, abaixa a cabeça que eu quero passar."
Mas, supondo que, por esquecimento o roceiro não recite a oração milagrosa e o ofídio
o ataque, então o remédio é mais difícil: consiste em apanhar a mesma cobra que
provocou a picada, antes que o réptil entre nágua, tirar-lhe o fígado e dá-lo,
guisado, ao doente. É um porrete.
Gambá gordo gambá magro
O gambá é um prato saboroso que paga pesado tributo aos caçadores. É preciso,
porém, ter em mente que a sua engorda, bem assim o seu emagrecimento, não se fazem por
etapas. São fenômenos repentinos. Na noite de quarta-feira de cinzas, o mal cheiroso
marsupial passa por um ribeirão, em cuja água molha a cauda. Amanhece gordo.Também, na
noite de São João o gambá molha novamente no mesmo ribeirão, e... amanhece magro. De
modo que não é aconselhavel apanhar essa caça, senão no intervalo compreendido entre
as duas citadas noites.
Ovo goro
O ovo goro (ovo não fecundado, retirado na ninhada no oitavo dia de encubação) não
deve ser comido por jovem imperbe. Se o fizer, nunca mais lhe nascerá barba.
Benditos e malditos
A corruíra ou curreca foi abençoada por Nossa Senhora, porque, quando a Santa
Família empreendeu a fuga para o Egito, foi essa minúscula ave que tomou a si a tarefa
de apagar na areia as pegadas dos retirantes. Nunca vi uma criança por mais travessa, que
tivesse coragem de abater com o seu bodoque uma corruíra. Nossa Senhora castiga... Pelo
contrário, o bem-te-vi é amaldiçoado, porque ao invés de auxiliar os santos foragidos,
gritava do alto das árvores para os esbirros de Herodes "bem te vi".
Maldito é também o linguado. Quando Santa Maria perguntou-lhe se a maré estava cheia, o
peixe, em lugar de responder, fez uma cara de deboche (a mesma que tem hoje) e repetiu a
pergunta ao invés de dar-lhe solução: "linguado, a maré tá cheia?" Foi a
conta. Nunca mais se endireitou...
A mula não sofre a dor do pasto como recompensa por ter servido de montaria à Virgem e
ao Menino.
Sinal dos tempos
Sete anos antes de acabar o mundo não nascerão mais crianças nem os galos cantarão.
Enquanto esses dois fenômenos continuarem correndo, pode-se garantir que o mundo terá
ainda, pelo menos, sete anos de existência. Não nascerão crianças nesse período,
porque Deus Nosso Senhor não deseja julgar inocentes no Juízo Final.
Quanto ao cantar do galo... Bem. Isso já é outra história...
[1950]
(SILVEIRA JÚNIOR. Em Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore)