Ir para a página principalRetornar para Palhoça

Maio 2001
Ano III - nº 33

MÊS MARIANO

O mês mariano, cantado e festivo, nas residências familiares do antigo Recife constituía um motivo de encanto religioso e um chamariz profano de namoros.

Houve algumas dessas devoções famosas, atraentíssimas. Para elas era mister um convite pessoal, porque naquele tempo não fosse nada fácil penetrar os umbrais de um lar. Carecia-se de fiador e dos bons. Mas, obtendo-se o almejado ingresso tinha-se onde passar distraído todo o mês de maio, freqüentando-se o culto à Maria.

A concorrência escolhida, as moças bonitas, as vozes entoadas, os acompanhamentos afinados, as músicas sacras deliciosas, e depois, quase sempre, ceias apetitosas - ceias das de outrora: de garfo.

Isso sem falar nos casamentos e noivados que se esboçavam, dando em resultado tantos jovens da atualidade. Eles poderão se rir, diante da um álbum de velhas fotografias, das figuras que os pais fariam hoje com aqueles trajes compridos e pesados, sem se lembrarem de que essa indumentária, tão elegante na época, muito ajudou a vinda deles ao mundo.

Na rua da Conceição, sobretudo, existiu uma família bastante devota do mês mariano. E sabia sê-lo com esplendor, realce e bom-gosto. Em muitos outros pontos da cidade "cantava-se mês de maio", congregando parentes e amizades das redondezas ou mesmo de muito distante.

Com antecedência, correndo março ou abril, preparavam-se vestidos e ternos. Comparecia-se aos ensaios. Aprontavam-se rosas de pano, enfeites de papel-lata, tufos de tarlatanas, bandeirinhas de seda, resplandores de lantejoulas, castiçais de vidro, velas de cores. Encomendavam-se flores naturais.

E antegozava-se o êxito:

- Este ano Luisinha vem cantar.

- Então vai ser uma beleza mesmo. Com aquela voz!

- Papai quer ver se chama dona Lisá Diniz para tocar, e o irmão dela, o Carlos, com a flauta. Dois artistas de valor! Imagine!

— Ninguém dá no mês de maio daqui. Esse pessoal rabeia mas apanha sempre.

- Todas as cantadoras são escolhidas. Não acontece aquilo da casa de dona Nanu. Você se lembra?

- Me deixe, Nazinha! Quando começaram a cantar e eu ouvi aquela voz fanhosa:

Virge soberana
Sois uma arta rosa!
Dentre as mais fulôres
Sois a mais formosa.

- Eu fiquei besta, minha negra! Tapei a boca para não estourar! Como se chama para cantar uma taboca rachada daquelas!

Na primeira noite, cedinho, a casa se enche.

O altar está armado na sala de frente todo cheio de flores e de luzes. Afastaram para isso os dunquerques de pedra mármore, as cadeirinhas douradas com estofos de gorgorão verde, mudaram de lugar os etagêres enfeitados de calunguinhas e jarros. Foi preciso até tirar da parede o grande espelho de moldura oval com uns florões no alto.

Do lustre que pende do forro estão acesos todos os bicos com camisinhas incandescentes. E o vento brincando com os pingentes de cristal executa um trecho musical.

Janelas abertas. Cortinados bem afastados. E o sereno lá fora, travesso, irreverente, malicioso.

Os donos da casa acolhem as visitas. As moças vão lá para dentro e voltam sem chapéus, endireitando as tranças ou os cocós, fincando melhor os grampos nas madeixas.

Explicações de retardos:

- Quase não vinha, meu bem. Zezinho chegou mais tarde para jantar, perto de cinco e meia! Tivemos de nos preparar às carreiras para não perder o trem da Linha Principal de 6:50. Corremos até à estação da Casa Forte... Ele já vinha apitando...

- Eu, também cheguei agora porque o diabo do bonde pregou na subida da ponte da Madalena. E cadê que saía? Trouxeram duas sotas e nada. Os burros não tinham força, coitados!

- Não dão de comer aos animais! Essa companhia só se pegando fogo nisso tudo. Cada vez pior. Nunca mais construiu uma linha. A do hospital Pedro II ficou em projeto para o dia de São Nunca.

- Também com esse governo de ladrões!

Acordes ao piano. Vão começar. Movimento de atenção, de preparo. Escolha de lugares.

Os rapazes procuram ficar perto ou defronte de quem lhes convém.

- Iaiá, você começa.

- Eu não presto para tiradeira.

- Então, Dondôzinha.

- Votes!

- Por quê? Tão entoada! Pensa que me esqueci do presepe em casa do comendador Morais?

- Milu é que é tiradeira de verdade.

- Só mesmo eu!

E procura se esconder entre as companheiras. O jogo de empurra prolonga-se. Ninguém quer iniciar a reza.

- Se Santa estivesse aqui já se tinha principiado. Aquela não tem vergonhas...

Uma voz no sereno:

- Bonito elogio!

- A dona da casa intervém:

- Vocês já viram o luxo dessas meninas? Pois quem vai tirar é Joaninha.

A filha obedece, embora fazendo um gesto de acanhamento.

Tudo se anima. As vozes alteiam-se, clarificam-se, adoçam-se. Há expressão nos cânticos. Há ternura, emoção. Entoa-se o

No céu, no céu,
Com minha mãe estarei.

Entoa-se a ladainha.

E ao terminar, desculpas:

- Eu estava tão rouca.

- E eu sem me lembrar direito dos versos. Me atrapalhando.

Um estudante de Direito, todo de preto, alto, louro, madrigalesco:

- Cantou como um rouxinol.

- Ou como um pavão?

- Não diga isso. Acredite que fiquei extasiado. Uma garganta de ouro... Vou escrever um soneto.

- Sério?! Não mangue de mim!

- As velhas amas da casa, de vestidos de chita nova, saem da sala e vão cuidar da ceia.

No intervalo há recitativos. O estudante louro tem "um jeito" para recitar! Uma das moças toca a Dalila. O poeta recorre a um confrade antigo:

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! Não seja já...

ou A doida de Albano:

Anda cá, meu filho, escuta,
És amigo de tua mãe?

As matronas limpam os olhos.

As moças enternecem-se.

A cantadeira da "voz de rouxinol" compreende os versos de amor. São para ela.

Dançava-se também. Com o cerimonial da época de se tirar a dama numa reverência, e de se ir levá-la ao sítio de onde saíra, com outra reverência. Dançavam-se as polcas, os pas-de-quatre, os schotishes, as valsas do tempo, com as músicas de Artur Lima, Nuno Guedes, Raul Morais, Alfredo Gama. Pares afastados, dedos nas cinturas, mão nos ombros dos cavaleiros. Todavia, um floretear de frases. Aqui, uma declaração de amor. Ali, uma combinação de passeio ao Dérbi. Acolá, uma ciumada:

- Eu bem que vi você indagorinha num "bredo" medonho com Alice. Fiquei mesmo "abafada"...

- Meu anjo, que calúnia! Eu que te amo acima de todas as mulheres!

- Eu sei.., eu sei... Pois fique sabendo: se vir outra vez você se derreter com Alice, não tenho mais "banda" com ninguém, e dou-lhe um "corte" de verdade. Está ouvindo?

No meio da valsa, a dona da casa anuncia:

- Minha gente, a ceia!



(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus)

Topo

Jangada Brasil © 2000