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Maio 2001
Ano III - nº 33

SUPLÍCIO DOS ANJINHOS

Na construção dos navios para a Costa, tinha-se sempre em vista a economia das proporções, o aproveitamento das insignificâncias de lugar, atendendo-se unicamente ao maior número possível de mercadoria que pudessem conter.

Assim, em gradação crescente, eram comuns as divisões e as subdivisões, isto é, havia compartimentos para homens, mulheres, e crianças, levando em consideração relativamente a estas a idade e por conseguinte os tamanhos.

Portas com enormes ferrolhos, grades de ferro xadrezadas e espessas fechavam as enxovias flutuantes, de onde uma vez por dia vinham os escravos acima afim de respirar o ar livre, descendo uma hora depois.

Quando os carregamentos excediam a lotação dos brigues, expostos aos ventos e as tempestades, os escravos mansos ocupavam a proa e a popa, acontecendo neste caso a perda de quase metade da carga, que a desoras atirava-se ao oceano ou era arrebatada pelas vagas que varriam os tombadilhos.

E os escravos, atopetando os porões, acorrentados dois a dois, desaparecidos para melhor dizer naquelas sepulturas movediças, começavam a viagem em que novos horrores iam alargar ainda mais o círculo pavoroso de seus sofrimentos e de seus martírios.

Deixando o porto, os marinheiros, os oficiais, o médico e os capitães do tráfico repimpavam-se sob a tolda, enquanto que lá embaixo a sufocação e os soluços, o desespero e o choro, as preces e as maldições esbarravam nas paredes infectas daqueles cárceres agitados, ao estouro da vaga que se partia em lamentos e à serenidade do céu que não ouvia das alturas os gritos dos desgraçados.

Para que as ondas em turbilhão não inundassem o interior dos navios, as escotilhas eram muitas vezes fechadas, interceptando a passagem do ar às vítimas que abafavam.

Essa cena vulgaríssima durante as tormentas, não demovia sequer o capitão a ordenar que viessem para o convés, temendo a revolta contra os marinheiros, a vingança do oprimido contra o opressor.

Nos dias bonançosos, porém, a música tocava na proa e a oficialidade precisava desaborrecer-se da viagem.

Entre os povos bárbaros os cantos e as danças têm tais atrativos, que uma das manifestações sensíveis do seu mais alto regozijo consiste no balanço da alma ao ritmo das toadas nativas, acompanhadas do movimento do corpo, cadenciado e próprio.

Os negreiros avesado às navegações da Costa, socorriam-se deste meio para alegrar os negros que sucumbiam nostálgicos, fazendo-os conduzir à tolda aos dez e aos vinte.

Quando os carregamentos iam além da capacidade dos brigues, considerando igualmente como medida higiênica, a ronda chegava até cem, que vinham respirar mais livremente, abrindo maior espaço à circulação aérea nos compartimentos internos.

Por tardes alternadas, a um momento dado, um marinheiro dirigia-se à ré, chegava o morrão a uma peça, a tripulação punha-se em atividades, encontrando-se os marujos, aqui e mais longe, subindo e descendo, armados de facas, espadas e chicotes.

De repente, como de sepulturas que se abrissem, um ar fétido girava no ambiente de bordo, à vozerias confusas e tinidos de correntes.

Os gonzos rangiam nas portas de ferro, e os primeiros fantasmas da escravidão, evocados dos infernos negreiros, ressuscitavam do abismo para as danças ao estalar do chicote, que, na fase do tráfico, expandiam as mágoas do africano, distante dos seus e da pátria.

E a aragem marinha, desflorando com a ponta da asa a narina incendiada e negra dos cativos, alentava-lhes pouco a pouco a chama da vida.

Suplicio dos anjinhos
III

O tombadilho guarnecido de escravos, que olhando para o mar, entristeciam-se ainda mais com saudades de seus desertos, projetava o escuro daquelas sombras nas ondas crespas que fulgiam em rebanhos da trilha do brigue, e entornava nas asas da viração o primeiro sinal da música para a dança.

As negras, tendo ao colo os filhinhos, sentavam-se nuas em volta do camarote do comandante, que, severo e em palavras breves, garantia a sua autoridade, presidindo à ordem dos pares acorrentados, que entrariam no baile negreiro.

O chicote vibrado pelos marinheiros, endurecidos e insensíveis aos sofrimentos, dava ânimo aos misérrimos africanos, porque a dor também alenta o infeliz para maiores dores.

A flauta, o tambor e a rabeca, preludiando juntos uns sons discordantes, dispunham os negros para a festa e para a morte, à vista da oficialidade sentada em um banco que circulava o mastro grande.

A dança tinha de começar, para o que a escravatura batia compassando as primeiras palmas, esperando o aviso definitivo do piloto, que estava repimpado ao lado do médico, cantarolando, rindo-se às gargalhadas dos males que lhe não pertenciam, das penas que não eram suas.

Então, esse personagem, acostumado às depravações e às orgias de bordo, mandava que dois da ronda saltassem à frente, e os casais de cativos, em algazarra, em gritos bárbaros, chocalhando as correntes, lançavam-se delirantes às danças horríveis, como uma procissão de loucos que tripudiassem por sobre ruínas fumegantes.

– Batam palmas! Abram roda! Bradava o capitão e os oficiais do brigue, rindo satânicos, entre as baforadas do cachimbo e o tocar de copos cheios de vinho, em alegres saúdes.

– Se o carregamento chegar são e salvo ao Rio de Janeiro, não há dúvida que esta será uma das nossas melhores viagens!

- Depois de passarmos a linha, a certeza será maior; por enquanto, nem a nostalgia, nem a sublevação, nem a peste tomaram a seu cargo dizimar-nos a mercadoria.

– É a nossa boa estrela, doutor. Apesar das precauções e do trato, seiscentos e vinte quatro negros na barriga de um navio é carne bastante para produzir uma indigestão: adianta o capitão enxugando de todo a segunda garrafa.

– Cantai, miseráveis! Dançai! Batei palmas! Exclamava o contra-mestre, seguido dos marinheiros, tangendo rijo o açoite nas nádegas ensanguentadas dos bailadores em tropel.

E a música tocava mais estridente; do porão e da tolda eram mais pungitivos os lamentos, ao tom das vagas e das cantinelas, dos brindes e da embriaguez.

Ao comércio de escravos a perversidade ligava-se de tal modo que a música e das danças, outrora o bem supremo do lar selvagem, longe de requintar-lhe o gozo, avivavam-lhe mais a saudade do passado e o infortúnio do presente.

Enquanto a ronda fervia tumultuária, os meneios lúbricos despertavam os aplausos da equipagem; grupos havia que estacavam a instantes, como que sonhando com a cabana de seus desertos e os clima sempre meigos de suas palmeiras natais.

E um olhar dos negros desdobra-se melancólico por sobre o oceano, menos longo do que a sua agonia, menos profundo do que os seus pesares.

– Que a dança referva, que a música não cesse, que o chicote estale, embora se percam algumas gotas de sangue, que tributaremos ao mar! Era a voz do capitão, embaraçada pelo álcool em doses progressivas.

– Diz bem, comandante, as negras são lascivas, os negros ardentes, e esse divertimento pátrio os reanimará durante a viagem.

– Depressa! Adiante! Repetiam os marujos chicoteando a turba que dançava alegre, vertiginosa, descansando em raros intervalos.

Nisso dois escravos, ligados pela mesma corrente, pararam ofegantes. Seus olhos acenderam-se como chamas, e seus membros tremiam em um calafrio horroroso.

Dentro em pouco, ao ranger do navio embalado pelas ondas, dois corpos rolavam no oceano abraçados com a morte.

Na luta desesperada, naquele transe que vai da vida ao último instante, os suicidas escarneciam da escravidão, alteando nas vagas o facho da liberdade.

Os marinheiros, que os tinham visto, continuaram marcando a dança, e os oficiais, nas calmarias de fogo, cismavam apenas nas odaliscas da noite, ao fresco dos ventos, e ao calor dos licores.

Momentos havia em que o bando fantástico rodopiava tão veloz como um tufão de demônios à beira de um abismo.

O sol, que ia no crespúsculo, palhetava de clarões rubros o convés, onde o sangue coagulado ou correndo em fios parecia roto colar de rubis.

Os tubarões, companheiros inseparáveis da navegação da Costa, cresciam aos flancos do brigue, farejavam o ar, aos dez, aos cem, aos mil...

À amurada de proa, algum tempo, uma criança preta, como que espreitando o horizonte, descobria no mar um espetáculo estranho e sinistro.

As vagas atropelavam-se fragorosas...um rastro de espuma era vermelho de sangue... e surgindo do profundo e mergulhando após, os dois cadáveres rolavam no torvelinho, coroados de tubarões vorazes que roíam-lhes o crânio e despedaçavam-lhes os membros.

Visões noturnas, aparições aéreas, sonhos febris vinham à mente dos que estavam nos cárceres dos porões, enquanto os seus companheiros de destino prolongavam em cima a vida respirando o ar puro, ao lado do suplício e da escravidão.

– Música! Mais música! Bradava o capitão, dirigindo-se aos menestréis navais, que se esbofavam no baile dos negros.

E os sapateados, os roncos, as toadas bárbaras, as palmas a compasso, e o retinir dos ferros acompanhavam os movimentos dos escravos na ronda fantástica, que fazia estremecer o soalho escorregando de sangue e da poeira das águas.

Os monstros do mar, arreganhando os dentes, caminhavam no rastro do navio, acostumados às refeições de carne humana que lhes prodigalizavam os negreiros.

Como se a vida não lhes fosse mais do que uma sombra entre dois abismos, os africanos muitas vezes cantavam e riam contentes dominando o horror de seus dias.

O brigue navegava calmo e nem uma vela atada aos mastros fazia-o jogar à queda dos ventos.

O entusiasmo da oficialidade, fitando a escravatura luzidia, tocava a seu auge, e o comandante agarrava-se com os santos de sua devoção para que o carregamento chegasse sem avarias, por isso que a sua comissão o compensaria largamente dos labores da travessia.

De repente um trilar de apito despertou os nautas negreiros da doce ilusão de suas cismas, fazendo-os crer em uma insurreição a bordo.

Os marcantes do baile fizeram parar as danças, os marinheiros tiraram da cinta a faca pontiaguda, os escravos afastaram-se em grupos para o centro do convés, e uma salva de artilharia atroou os ares.

Os negros, amedrontados, abaixaram-se, acocoraram-se trêmulos, ao passo que a marinhagem disponível descera ao porão, seguida do comandante que esbravejava, pensando nos prejuízos prováveis.

Aproximando-se das grades de ferro da enxovia, sentiu que se escapava de dentro um odor infecto e característico, notando igualmente a vozeria dos negros que apontavam para a escuridão, espavoridos e chorando.

O capitão, chamando o intérprete do cativeiro, soube que três escravos para se libertarem do cativeiro, haviam na noite antecedente revirado a língua contra a epiglote, suicidando-se.

A podridão era insuportável...a decomposição cadavérica, unida ao bafio das dejeções e dos vômitos, acendiam o desespero e a febre em parte da mercadoria.

É possível que o motim fosse resultante do delírio.

Metidos em forma, ao mando do capitão, os marujos transpuseram o infernal recinto, guiados pelo contra-mestre que suspendia na frente uma lanterna de azeite de peixe.

À passagem destes, os gemidos e o choro das crianças eram compungidores.

Como de um túmulo, retirados aqueles mortos, os marinheiros os carregaram à tolda.

As luzernas, penduradas de há pouco nas vergas, iluminavam com clarões de fogo aquela cena fúnebre.

E os três cadáveres, erguidos à altura da fronte pelos marinheiros possantes, foram lançados ao mar, que fechou-se sobre eles como um abraço materno.

Nesse momento, os ecos, desflorando o cabeço das ondas, levaram para bem longe os lamentos dos africanos, que carpiam, acorrentados no tombadilho e ao pranto das estrelas, a escravidão da vida e a liberdade da morte.

(MORAES FILHO, Melo. Festas e tradições populares do Brasil)

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