Desde que aprendesse os trabalhos caseiros
próprio à mulher sertaneja, dona de casa, fosse qual fosse a idade, estava a moça boa
de se casar, como no tempo estaria o rapaz que desse conta de erguer na palma da mão à
cavalgadura, ou de conduzir aos ombros assentada no banco da roda a eleita do coração.
Assim falam os antigos.
E o costume não vai longe. Em 1930 assisti a um casamento cuja noiva mal se avizinhava da
puberdade. Tinha ela apenas doze anos e carregava nos olhos o brilho da inocência.
Mas sabia fiar e tecer.
Ainda nos dias que correm, ao aprontar a filha para o matrimônio, dá-lhe o pai uma roda
de fiar.
É o dote.
Vê-se por aí que a menina-barranqueira logo se interessa pelo ofício, tendo na mãe a
mestra exímia com quem muito cedo aprende a tocar o fuso, girar a bolandeira e tirar
barrigas às linhas. Familiariza-se de tal sorte com o funcionamento da roda, que aos sete
anos de idade lhe conhece toda a nomenclatura e sabe corrigir ou localizar desarranjos.
Engenho dos mais simples, a roda de fiar, ou simplesmente roda, consta de três partes
propriamente dita e o mecanismo de fiar. Este se constitui de uma peça de metal, o fuso,
uma de madeira, com asas, chamada de gavião ou pomba, um eixo de couro, móvel em torno
do fuso, preso a duas rodelas formando carretel. Para acolher o cordão ou o relho de
couro cru que vem da bolandeira, como esta a rodela que lhe defronta na mesma linha
também possui um rasgão no topo da circuferência. Fixa ao fuso, alguns milímetros mais
atrasada, outra rodela existe, chama de tempero [1], que, com
sua vizinha, a rodela mestra, é provida de pequeno vinco por onde tangência um cordel,
espécie de freio. Destina-se, vê-se logo, a regular o giro da pomba, obrigando esta a
"engulir" mais ou menos depressa a maçaroca. Cada ponta do fuso encaixa-se numa
orelha de sola, ambas presas a dois moirões que nascem no banco, na extremidade direita.
Pelo veio, também se apoia a bolandeira num moirão rasgado, mais grosso que os
primeiros. Um relho, ou tira de pano, ou corda, liga o veio ao tira-pé, também chamado
de pedal.
Além da roda às vezes chamada engenho-de-fiar, com certeza por influência baiana
possui a fiandeira peças auxiliares, entre elas o descaroçador, que é uma
espécie de engenhoca, destinado, como o nome diz, a libertar o capucho [2] de suas
sementes ou caroços. Compreende ele dois cilindros de madeira ou moendas, cada um dos
quais por uma manivela governado. Um dos cilindros superpõe-se ao outro, ambos dispostos
na horizontal, assim mantidos pelos respectivos eixos, que se assentam em moirões presos
a um banco de quatro pernas. Põem-se em movimento fazendo girar, em sentido opostos, as
manivelas, de jeito que os cilindros mastigam a lanugem e engolem-na, em seguida, limpa
dos caroços, porque o intervalo entre aqueles é inferior à grossura da mais ínfima
semente.
Um balaio e um arco parecido com o de atirar flechas, completam os apetrechos da
fiandeira. Com o arco batem a lanugem, afofando-a e limpando-a . No balaio depositam o
algodão batido para alimentar o fuso.
Quando desejam linha para rendas e costuras, ou para tecidos de boa qualidade, ou
simplesmente querem torcar pavios de candeia, nestes casos a fiandeira recorre ao fuso,
peça que se constitui de cabo e rodela, ambos de madeira. Há fusos trabalhados com
esmero, de aroeira ou de braúna, outros grosseiros, às vezes improvisados com rodelas
de cuia, ou de sabugos.
Não quer isto dizer que a roda não se torce boa linha. Há mulheres senhoras da arte,
famosas em fiar fios finos e fortes. Neste particular soem escolher o algodão
"crioulo", cuja lanugem melhor se presta ao descaroçamento e à torcedura.
Cheio o carretel da roda a fiandeira o esvazia formando novelos de uma quarta, que é o
mesmo que um oitavo de quilograma, conforme vimos no segundo asterisco deste opúsculo. O
cálculo é feito por estimativa, abarcando-se o novelo com as "chaves-da-mão".
Aqui tem de se levar em conta a prática da fiandeira, uma vez que essa medida varia de
indivíduo para indivíduo. Não obstante, medem com incrível precisão.
A produção também varia, o que é óbvio, de conformidade com a qualidade da fibra e
prática da fiandeira. Podem fazer meia quarta de linha a fuso por dia de trabalho, e
quarta e meia de linha puba [3] se fiar à roda. O algodão
"crioulo", ainda inteiro [4], dá vinte e cinco por cento
de linha, isto é, dois novelos ou meia libra desta obtém-se com um quilo do primeiro.
Atualmente não sei quanto pedem por um novelo de linha-de-algodão [5]. Há
quinze anos pagava-se mil e duzentos réis por uma quarta de linha puba.
Em torno da fiação criaram lendas e superstições as mais esquisitas.
Dizem que a pessoa que morre devendo linha, de quando em quando sua alma vem fiar a
cabeça do credor. Acreditam, mais, que está sujeito a ver livusia quem fiar de noite.
Conta-se, por exemplo, que duas comadres, fiandeiras, tinham o mau hábito de fiarem
juntas até altas horas da noite. Certa vez uma delas viajou e por lá morreu. E à noite,
iradamente, sua alma veio ter à porta da comadre:
- Abra! Abra a porta! Abra, quiô quero fiá prá me aliviá das chama do fogo ardente!
A comadre teve medo e começou a rezar o credo-em-cruz. Nesta altura ouviu-se forte estalo
na casa, o qual se seguiu de blasfêmias as mais terríveis, no fim das quais disse a
finada:
- Foi tua valença, disgraçada! Aqui atráis fica uma lembrança prá tu nunca mias fiá
dinoite, apois as noite num é prús vivo!
E no dia seguinte, atrás da casa, foram encontrar o presente, um quarto de defunto
fresco.
Notas:
[1]
Tempero Pequena roda presa ao ferro ou fuso, entre as asas do
gavião ou pomba, da roda de fiar, destinada a regular a torção da linha e sua entrada
para o carretel.
[2]
Capucho Capulho. Porção de algodão que se apanha com o polegar
e o indicador. A lanugem do algodoeiro.
[3]
Puba Qualidade da linha de algodão pouco torcida, destinada ao
fabrico de redes, mantas, cobertores e coxinilhos.
[4]
Inteiro O animal que não se castrou. Algodão não descaroçado.
[5]
Linha-de-algodão Linha fiada ao fuso, ou à roda de fiar.
(MARTINS, Saul. Artes e
ofícios caseiros) |