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Maio 2001
Ano III - nº 33

FIAÇÃO

Desde que aprendesse os trabalhos caseiros próprio à mulher sertaneja, dona de casa, fosse qual fosse a idade, estava a moça boa de se casar, como no tempo estaria o rapaz que desse conta de erguer na palma da mão à cavalgadura, ou de conduzir aos ombros assentada no banco da roda a eleita do coração.

Assim falam os antigos.

E o costume não vai longe. Em 1930 assisti a um casamento cuja noiva mal se avizinhava da puberdade. Tinha ela apenas doze anos e carregava nos olhos o brilho da inocência.

Mas sabia fiar e tecer.

Ainda nos dias que correm, ao aprontar a filha para o matrimônio, dá-lhe o pai uma roda de fiar.

É o dote.

Vê-se por aí que a menina-barranqueira logo se interessa pelo ofício, tendo na mãe a mestra exímia com quem muito cedo aprende a tocar o fuso, girar a bolandeira e tirar barrigas às linhas. Familiariza-se de tal sorte com o funcionamento da roda, que aos sete anos de idade lhe conhece toda a nomenclatura e sabe corrigir ou localizar desarranjos. Engenho dos mais simples, a roda de fiar, ou simplesmente roda, consta de três partes propriamente dita e o mecanismo de fiar. Este se constitui de uma peça de metal, o fuso, uma de madeira, com asas, chamada de gavião ou pomba, um eixo de couro, móvel em torno do fuso, preso a duas rodelas formando carretel. Para acolher o cordão ou o relho de couro cru que vem da bolandeira, como esta a rodela que lhe defronta na mesma linha também possui um rasgão no topo da circuferência. Fixa ao fuso, alguns milímetros mais atrasada, outra rodela existe, chama de tempero [1], que, com sua vizinha, a rodela mestra, é provida de pequeno vinco por onde tangência um cordel, espécie de freio. Destina-se, vê-se logo, a regular o giro da pomba, obrigando esta a "engulir" mais ou menos depressa a maçaroca. Cada ponta do fuso encaixa-se numa orelha de sola, ambas presas a dois moirões que nascem no banco, na extremidade direita. Pelo veio, também se apoia a bolandeira num moirão rasgado, mais grosso que os primeiros. Um relho, ou tira de pano, ou corda, liga o veio ao tira-pé, também chamado de pedal.

Além da roda – às vezes chamada engenho-de-fiar, com certeza por influência baiana – possui a fiandeira peças auxiliares, entre elas o descaroçador, que é uma espécie de engenhoca, destinado, como o nome diz, a libertar o capucho [2] de suas sementes ou caroços. Compreende ele dois cilindros de madeira ou moendas, cada um dos quais por uma manivela governado. Um dos cilindros superpõe-se ao outro, ambos dispostos na horizontal, assim mantidos pelos respectivos eixos, que se assentam em moirões presos a um banco de quatro pernas. Põem-se em movimento fazendo girar, em sentido opostos, as manivelas, de jeito que os cilindros mastigam a lanugem e engolem-na, em seguida, limpa dos caroços, porque o intervalo entre aqueles é inferior à grossura da mais ínfima semente.

Um balaio e um arco parecido com o de atirar flechas, completam os apetrechos da fiandeira. Com o arco batem a lanugem, afofando-a e limpando-a . No balaio depositam o algodão batido para alimentar o fuso.

Quando desejam linha para rendas e costuras, ou para tecidos de boa qualidade, ou simplesmente querem torcar pavios de candeia, nestes casos a fiandeira recorre ao fuso, peça que se constitui de cabo e rodela, ambos de madeira. Há fusos trabalhados com esmero, de aroeira ou de braúna, outros grosseiros, às vezes improvisados com rodelas de cuia, ou de sabugos.

Não quer isto dizer que a roda não se torce boa linha. Há mulheres senhoras da arte, famosas em fiar fios finos e fortes. Neste particular soem escolher o algodão "crioulo", cuja lanugem melhor se presta ao descaroçamento e à torcedura.

Cheio o carretel da roda a fiandeira o esvazia formando novelos de uma quarta, que é o mesmo que um oitavo de quilograma, conforme vimos no segundo asterisco deste opúsculo. O cálculo é feito por estimativa, abarcando-se o novelo com as "chaves-da-mão". Aqui tem de se levar em conta a prática da fiandeira, uma vez que essa medida varia de indivíduo para indivíduo. Não obstante, medem com incrível precisão.

A produção também varia, o que é óbvio, de conformidade com a qualidade da fibra e prática da fiandeira. Podem fazer meia quarta de linha a fuso por dia de trabalho, e quarta e meia de linha puba [3] se fiar à roda. O algodão "crioulo", ainda inteiro [4], dá vinte e cinco por cento de linha, isto é, dois novelos ou meia libra desta obtém-se com um quilo do primeiro.

Atualmente não sei quanto pedem por um novelo de linha-de-algodão [5]. Há quinze anos pagava-se mil e duzentos réis por uma quarta de linha puba.

Em torno da fiação criaram lendas e superstições as mais esquisitas.

Dizem que a pessoa que morre devendo linha, de quando em quando sua alma vem fiar a cabeça do credor. Acreditam, mais, que está sujeito a ver livusia quem fiar de noite. Conta-se, por exemplo, que duas comadres, fiandeiras, tinham o mau hábito de fiarem juntas até altas horas da noite. Certa vez uma delas viajou e por lá morreu. E à noite, iradamente, sua alma veio ter à porta da comadre:

- Abra! Abra a porta! Abra, quiô quero fiá prá me aliviá das chama do fogo ardente!

A comadre teve medo e começou a rezar o credo-em-cruz. Nesta altura ouviu-se forte estalo na casa, o qual se seguiu de blasfêmias as mais terríveis, no fim das quais disse a finada:

- Foi tua valença, disgraçada! Aqui atráis fica uma lembrança prá tu nunca mias fiá dinoite, apois as noite num é prús vivo!

E no dia seguinte, atrás da casa, foram encontrar o presente, um quarto de defunto fresco.


Notas:

[1] Tempero – Pequena roda presa ao ferro ou fuso, entre as asas do gavião ou pomba, da roda de fiar, destinada a regular a torção da linha e sua entrada para o carretel.

[2] Capucho – Capulho. Porção de algodão que se apanha com o polegar e o indicador. A lanugem do algodoeiro.

[3] Puba – Qualidade da linha de algodão pouco torcida, destinada ao fabrico de redes, mantas, cobertores e coxinilhos.

[4] Inteiro – O animal que não se castrou. Algodão não descaroçado.

[5] Linha-de-algodão – Linha fiada ao fuso, ou à roda de fiar.

(MARTINS, Saul. Artes e ofícios caseiros)

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