Estranho movimento, singulares
espetáculos tinham por teatro as praias da costa dÁfrica, quando o Rio de Janeiro
armava os navios do tráfico para as viagens da morte e da escravidão.
Os mercados de Serra Leoa, de São Luís, da Gâmbia, de Angola, de Luanda e de Benguela
burburinhavam da multidão inumerável de vítimas, protegidos por tantos outros fortes
que a Inglaterra, a França, a Dinamarca, a Holanda, a Espanha e Portugal sustentavam
naqueles sítios, com o fim de garantir-lhes o torpe comércio.
E aqueles mercados retiniam de cantos e danças dos prisioneiros de guerra, chocalhavam
nas cadeiras sopesadas pelos escravos que marchavam à frente dos condutores de caravanas,
tornando-se admiráveis ao estrondo das revoltas heróicas e inglórias dos pobres
selvagens contra as covardias de seus algozes e da civilização.
Para reprimir as sublevações que se iniciavam nos desertos, os piratas punham em
prática meios de segurança e de defesa, cada qual mais desumano e feroz.
Não bastavam aos negros os longos dias de caminho à insolação e à sede, ao desabrigo
e à fome. A tirania dos traficantes, visando apenas o lucro dos carregamentos, desde bem
longe martirizava os infelizes, atando-lhes aos pulsos pesadas correntes e ao pescoço
gargalheiras de ferro.
Ao gancho rompente dos colares malditos não era raro ver-se ligado o braço do escravo
que, durante a vigília e o sono, lamentava-se e gemia na dor do suplício.
Mais comumente à beira do mar e dos rios estabeleciam-se os populosos mercados negreiros,
os grandes centros onde vinha reunir-se o que o roubo, o incêndio, as devastações e as
deslealdades haviam colhido para o cativeiro.
Ao lado da mercadoria negra, o fumo e a aguardente, velhas roupas de teatro e cacos de
espelho, fieiras de miçangas e trapos vermelhos expunham-se a todas as vistas, convidando
os régulos e chefes bárbaros, a mãe e o filho, o parente e o amigo à traição e a
infâmia, isto é, à entrega de seus súditos ou das pessoas mais caras, em troca da
embriaguez ou de adornos fatais.
E os tocadores de flauta, executando suas músicas à entrada dos bazares e distantes
provocavam as famílias negras que afluíam para escutá-los, seguindo-se a isso o cerco, o
aprisionamento e o cativeiro.
De estratégias não se valiam os brancos para realizar o crime que flagelava a
África!...
De tudo quanto a imaginação pode compreender de mais pérfido e a tirania de mais
horroroso, lançava-se mão a todo instante...
Às vezes, quem atravessava os desertos, via nas sombras umas flamas mal extintas que se
avivavam isoladas.
Sobre elas um silêncio de sepulcro estendia-se como uma mortalha envolvendo um corpo sem
vida.
Aqui e ali, porém, cadáveres de velhos africanos e de crianças pretas jaziam esparsos,
volteados por aves de rapina que os devoravam e feras que latiam.
A quem havia perdido a pátria e a liberdade, que mais esperar do destino senão o último
lance?
Os tratos cruéis, a fadiga e a saudade, atuando como fatores desse epílogo suspirado
pelo escravo, diminuíam os lucros da empresa, o que não pertubava a cobiça dos
negreiros, que se desenvolvia sem medida.
Aos que não sucumbiam no trânsito, lá estavam os depósitos que os aguardavam e os
porões das galeras que os transportariam à América.
Que importava aos condutores dos rebanhos de homens os gritos dos mártires, o pranto da
criança aterrorizada ao seio materno, a blasfêmia do sacerdote fetichista descrendo de
seus ídolos?
Os tambores e mais instrumentos músicos, à frente dos bandos, tocavam com frenesi
abafando-lhes as vozes e os encorajando na jornada; as promessas dos línguas,
comissionados para intérpretes, os calmariam nas sublevações em projeto; e à chegada
aos mercados a esperança os alentaria, porque mais alguns dias poderiam adormecer e
sonhar nas terras da pátria.
Se assim não fosse, o selvagem vitimaria o selvagem, o negro o branco, a pobre mãe
esmigalharia com as algemas o crânio do filhinho mamando-lhe à teta o leite e o sangue.
Era durante a noite que ao longo da Costa do Ouro os fachos de resina, os lampeões
multicores, as bandeiras, as sinfonias sem arte sobressaíam às portas dos bazares, que
se opulentavam na mesma linha dos vastíssimos mercados.
Capitões de navios, corretores, marinheiros, negociantes, luxuosas famílias sulcavam as
praias, oferecendo às dessemelhanças um espetáculo jamais visto, de tanta gente
diferente pelos costumes, tipo, modos, raça e linguagem, que vinha de terras longínquas
interessada pelo tráfico.
As frotas da escravidão aprumando a quilha, abicavam nos desembarques, descarregando
mercadorias e turmas de salteadores dissolutos e interesseiros.
Do interior, as caravanas nuas e tatuadas, de pescoço enfiado aos buracos de compridas
tábuas ou acorrentadas, chegavam deste ou daquele ponto, o que despertava dos traficantes
e do comércio em geral clamores alegres e gracejos sacrílegos.
No meio do concurso de músicas importunas misturavam-se com o pranto, os adeuses, as
imprecações dos escravos que tumultuavam nos horrendos depósitos, nas vésperas da
partida para o exílio de onde não voltariam mais.
A embriaguez e a luxúria, a rapina e a corrupção animavam os mercados em miríadas,
nas solenidades ásperas de suas festas e de suas orgias noturnas.
Dos diferentes gêneros de barracas que se levantavam para os divertimentos públicos, na
contigüidade da dor e das lágrimas, uma classe havia em que unicamente se executava o que
os traficantes chamavam dança negra.
Em cada uma o império da dissolução e do impudor planava incomensurável, de acordo
perfeito com o revoltante comércio da escravatura.
Era ao escurecer que a dança negra anunciava-se por uma orquestra desafinada, de
menestréis ambulantes, à porta dos bazares.
Os pilotos de brigues e os guias de caravanas, os capitães e as meretrizes, os
negociantes e as suas amásias, as freqüentavam assíduos, avigorando o escândalo e a
depravação com os licores fortes, com os vinhos abundantes que aí se vendiam por
fabulosas somas.
Justamente ao escurecer principiavam aqueles bailes, cuja tradição conserva ainda um
resto de homens que empreenderam viagem à Costa no tráfico dos negros.
Aqui e além, exibindo-se nas barracas aos aplausos dos mercadores e da maruja infrene, de
mulheres sem brio e de velhos devassos, negras de diversas tribos, ostentando formas
lascivas, apresentam-se para a dança.
Ao som de uma rabeca e de um pandeiro, de uma flauta e do tambor, as bailadeiras bárbaras
executavam dançados voluptuosos, tremendo-lhes o seio no tumulto das vagas agitadas das
paixões lúbricas...
E imitavam os animais imundos, requebravam os flancos acendendo a volúpia, soltavam
gritos em paroxismos histéricos, acordavam desejos amortecidos durante temporadas de mar
e ao gelo dos anos.
Toucadas de conchas, de pérolas, de rubis, as bailadeiras africanas mostravam os alvos
dentes transparecendo através de sorrisos convidativos, e para retribuirem as palmas dos
espectadores corruptos, atiravam com as pontas dos dedos estúpidos beijos e retiravam-se
tremendo com as ancas, sapateando, cantando cantigas monótonas.
E o deboche, a crápula desenfreada e louca ultimavam a dança negra, que serenava
por meia-noite, pela madrugada.
Nos depósitos dos cativos, os murmúrios pungitivos, os gemidos despedaçadores, o
soluço do infortúnio velavam hora por hora, momento por momento.
Entre algumas tribos esse caráter do sofrimento não se manifestava: a dor era surda,
profunda, silenciosa, transluzindo somente na expressão, nos gestos, no olhar. A força
de ser concentrado, o sofrimento aparentava indiferença e calma.
Por ocasião do embarque a população flutuante desaparecia aos poucos, escasseava como
por encanto, dando lugar a mutações de cenários e de espectadores.
Aos balcões dos depósitos os capitães negreiros, acompanhados de uma parte da
tripulação, assistiam à saída dos escravos, inscrevendo-os nos registros de bordo, os
despenseiros faziam o restante das provisões para os navios, os botes avizinhavam-se da
praia e os miseráveis escravos transpunhamm a porta da entrada, encaminhando-se para
fora.
E o chicote estalava, os ferros tiniam... Alguns matavam-se temendo o exílio; outros,
escapando à vigilância dos guardas, madrugavam enforcados nas palmeiras dos areais; e de
longe em longe, estirado no chão, um selvagem da África, estendia os braços, abraçando
pela última vez a terra da pátria...
E a frota negreira recebia a escravidão para povoar a América de Colombo, as florestas
da liberdade.
II
O painel de todas as agonias que se desdobrava naquelas praias povoadas de negros de
diversas tribos não podia ser mais pavoroso e revoltante.
Os mercadores brutais dirigindo o embarque de centenas de desgraçados, lá se achavam a
postos, protegidos pela marinhagem que escoltava os cativos e pelas correntes que os
supliciavam dia e noite.
Taciturnos até então, sombrios e resignados no prólogo do seu infortúnio, os míseros
africanos, deixando a pátria, rompiam com o tumulto o silêncio guardado.
Era no instante em que as lanchas encostavam às pontes para recebê-los, em que o
primeiro deles descia para ser transportado aos porões dos navios estanciados em curva.
Então gritos agudos feriam o espaço, a desesperação e o gemido faziam-se ouvir
atroadores, ao mesmo tempo que o chicote separava a mãe do filho, a esposa do marido, o
velho da criança, os conterrâneos da mesma aldeia, os sacerdotes do mesmo rito.
E a primeira leva abatia-se nos mares como uma nuvem, para reaparecer a bordo dos brigues
que desatavam as velas.
Mais longe, com os pulsos ensanguentados das cordas que os retinham, grupos havia que
imploravam a compaixão des seus fetiches, que se atiravam às vagas procurando a morte,
que rolavam na areia mordendo-se em fúria, que se abraçavam às árvores de onde eram
arrancados feridos.
E a segunda leva escurecia a transparência calma das ondas, crescendo nos tombadilhos
sinistros das galeras...
Depois, um marinheiro que mergulha surgindo do profundo com um escravo disputado à morte,
a mutilação de uma mesma família distribuída ao sul e ao norte, o adeus bárbaro do
selvagem às terras do seu berço, e, aqui e além, no mar e em terra, a gargalhada
satânica da loucura retinindo fúnebre como uma salva nos funerais de um povo.
Percorrendo o convés, os capitães assistiam ao embarque da carga, presidiam à chamada
da equipagem, enquanto que os dispenseiros, junto à escada de proa, conferiam a nota dos
remetidos para bordo.
Os gajeiros deste ou daquele brigue, tocando a sineta do rancho, levavam aos cães de
fila, acorrentados aos mastros, rações abundantes, amimando-os, açulando-os contra um
negro que passava, uma criança que cambaleava chorando...
E dentro em pouco os ecos acordavam aos latidos dos cães afeitos à guarda dos porões, a
arrastarem pelo pé o escravo que tentasse fugir ou lançar-se nágua.
Apenas subiam, os infelizes negros tinha de submeter-se à disciplina estabelecida no
tráfico.
Os marinheiros os despiam, os acorrentavam de pés e mãos, consentindo apenas que
conservassem uma tanga, mortalha grosseira e última de pudor.
Então o apito dava o sinal da forma, toda a tripulação alinhava-se nas amuradas,
empunhava espada e foices, seguindo a essa manobra a descida dos escravos aos porões,
divididos em obscuros cárceres, destinados a homens, mulheres e crianças, que só se
achavam juntos nas danças do convés.
Desde logo a face de azeviche do africano perdia a sua cor primitiva, a expressão
transformava-se, e seu olhar vivo e selvagem, acostumado, como as águias, a fitar o sol
dos desertos, cobria-se de um véu de sangue que lhe amortecia a luz.
Amontoados no fundo dos navios, devorados pelo calor e pela febre, feridos com as
correntes ao bulício do mar, os supliciados da liberdade atravessavam o oceano
empesteando as trevas.
Com mais largueza em um túmulo, aqueles deserdados da sorte vinham por tal modo oprimidos
que os tetos de suas prisões curvavam-lhes o corpo e a estreiteza dos pavimentos
forçava-os à imobilidade dos emparedados.
(MORAES FILHO, Melo. Festas
e tradições populares do Brasil) |