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Maio 2001
Ano III - nº 33

NA TERRA E NO MAR

Chicote e palmatóriaEstranho movimento, singulares espetáculos tinham por teatro as praias da costa d’África, quando o Rio de Janeiro armava os navios do tráfico para as viagens da morte e da escravidão.

Os mercados de Serra Leoa, de São Luís, da Gâmbia, de Angola, de Luanda e de Benguela burburinhavam da multidão inumerável de vítimas, protegidos por tantos outros fortes que a Inglaterra, a França, a Dinamarca, a Holanda, a Espanha e Portugal sustentavam naqueles sítios, com o fim de garantir-lhes o torpe comércio.

E aqueles mercados retiniam de cantos e danças dos prisioneiros de guerra, chocalhavam nas cadeiras sopesadas pelos escravos que marchavam à frente dos condutores de caravanas, tornando-se admiráveis ao estrondo das revoltas heróicas e inglórias dos pobres selvagens contra as covardias de seus algozes e da civilização.

Para reprimir as sublevações que se iniciavam nos desertos, os piratas punham em prática meios de segurança e de defesa, cada qual mais desumano e feroz.

Não bastavam aos negros os longos dias de caminho à insolação e à sede, ao desabrigo e à fome. A tirania dos traficantes, visando apenas o lucro dos carregamentos, desde bem longe martirizava os infelizes, atando-lhes aos pulsos pesadas correntes e ao pescoço gargalheiras de ferro.

Ao gancho rompente dos colares malditos não era raro ver-se ligado o braço do escravo que, durante a vigília e o sono, lamentava-se e gemia na dor do suplício.

Mais comumente à beira do mar e dos rios estabeleciam-se os populosos mercados negreiros, os grandes centros onde vinha reunir-se o que o roubo, o incêndio, as devastações e as deslealdades haviam colhido para o cativeiro.

Ao lado da mercadoria negra, o fumo e a aguardente, velhas roupas de teatro e cacos de espelho, fieiras de miçangas e trapos vermelhos expunham-se a todas as vistas, convidando os régulos e chefes bárbaros, a mãe e o filho, o parente e o amigo à traição e a infâmia, isto é, à entrega de seus súditos ou das pessoas mais caras, em troca da embriaguez ou de adornos fatais.

E os tocadores de flauta, executando suas músicas à entrada dos bazares e distantes provocavam as famílias negras que afluíam para escutá-los, seguindo-se a isso o cerco, o aprisionamento e o cativeiro.

De estratégias não se valiam os brancos para realizar o crime que flagelava a África!...

De tudo quanto a imaginação pode compreender de mais pérfido e a tirania de mais horroroso, lançava-se mão a todo instante...

Às vezes, quem atravessava os desertos, via nas sombras umas flamas mal extintas que se avivavam isoladas.

Sobre elas um silêncio de sepulcro estendia-se como uma mortalha envolvendo um corpo sem vida.

Aqui e ali, porém, cadáveres de velhos africanos e de crianças pretas jaziam esparsos, volteados por aves de rapina que os devoravam e feras que latiam.

A quem havia perdido a pátria e a liberdade, que mais esperar do destino senão o último lance?

Os tratos cruéis, a fadiga e a saudade, atuando como fatores desse epílogo suspirado pelo escravo, diminuíam os lucros da empresa, o que não pertubava a cobiça dos negreiros, que se desenvolvia sem medida.

Aos que não sucumbiam no trânsito, lá estavam os depósitos que os aguardavam e os porões das galeras que os transportariam à América.

Que importava aos condutores dos rebanhos de homens os gritos dos mártires, o pranto da criança aterrorizada ao seio materno, a blasfêmia do sacerdote fetichista descrendo de seus ídolos?

Os tambores e mais instrumentos músicos, à frente dos bandos, tocavam com frenesi abafando-lhes as vozes e os encorajando na jornada; as promessas dos línguas, comissionados para intérpretes, os calmariam nas sublevações em projeto; e à chegada aos mercados a esperança os alentaria, porque mais alguns dias poderiam adormecer e sonhar nas terras da pátria.

Se assim não fosse, o selvagem vitimaria o selvagem, o negro o branco, a pobre mãe esmigalharia com as algemas o crânio do filhinho mamando-lhe à teta o leite e o sangue.

Era durante a noite que ao longo da Costa do Ouro os fachos de resina, os lampeões multicores, as bandeiras, as sinfonias sem arte sobressaíam às portas dos bazares, que se opulentavam na mesma linha dos vastíssimos mercados.

Capitões de navios, corretores, marinheiros, negociantes, luxuosas famílias sulcavam as praias, oferecendo às dessemelhanças um espetáculo jamais visto, de tanta gente diferente pelos costumes, tipo, modos, raça e linguagem, que vinha de terras longínquas interessada pelo tráfico.

As frotas da escravidão aprumando a quilha, abicavam nos desembarques, descarregando mercadorias e turmas de salteadores dissolutos e interesseiros.

Do interior, as caravanas nuas e tatuadas, de pescoço enfiado aos buracos de compridas tábuas ou acorrentadas, chegavam deste ou daquele ponto, o que despertava dos traficantes e do comércio em geral clamores alegres e gracejos sacrílegos.

No meio do concurso de músicas importunas misturavam-se com o pranto, os adeuses, as imprecações dos escravos que tumultuavam nos horrendos depósitos, nas vésperas da partida para o exílio de onde não voltariam mais.

A embriaguez e a luxúria, a rapina e a corrupção animavam os mercados em miríadas, nas solenidades ásperas de suas festas e de suas orgias noturnas.

Dos diferentes gêneros de barracas que se levantavam para os divertimentos públicos, na contigüidade da dor e das lágrimas, uma classe havia em que unicamente se executava o que os traficantes chamavam dança negra.

Em cada uma o império da dissolução e do impudor planava incomensurável, de acordo perfeito com o revoltante comércio da escravatura.

Era ao escurecer que a dança negra anunciava-se por uma orquestra desafinada, de menestréis ambulantes, à porta dos bazares.

Os pilotos de brigues e os guias de caravanas, os capitães e as meretrizes, os negociantes e as suas amásias, as freqüentavam assíduos, avigorando o escândalo e a depravação com os licores fortes, com os vinhos abundantes que aí se vendiam por fabulosas somas.

Justamente ao escurecer principiavam aqueles bailes, cuja tradição conserva ainda um resto de homens que empreenderam viagem à Costa no tráfico dos negros.

Aqui e além, exibindo-se nas barracas aos aplausos dos mercadores e da maruja infrene, de mulheres sem brio e de velhos devassos, negras de diversas tribos, ostentando formas lascivas, apresentam-se para a dança.

Ao som de uma rabeca e de um pandeiro, de uma flauta e do tambor, as bailadeiras bárbaras executavam dançados voluptuosos, tremendo-lhes o seio no tumulto das vagas agitadas das paixões lúbricas...

E imitavam os animais imundos, requebravam os flancos acendendo a volúpia, soltavam gritos em paroxismos histéricos, acordavam desejos amortecidos durante temporadas de mar e ao gelo dos anos.

Toucadas de conchas, de pérolas, de rubis, as bailadeiras africanas mostravam os alvos dentes transparecendo através de sorrisos convidativos, e para retribuirem as palmas dos espectadores corruptos, atiravam com as pontas dos dedos estúpidos beijos e retiravam-se tremendo com as ancas, sapateando, cantando cantigas monótonas.

E o deboche, a crápula desenfreada e louca ultimavam a dança negra, que serenava por meia-noite, pela madrugada.

Nos depósitos dos cativos, os murmúrios pungitivos, os gemidos despedaçadores, o soluço do infortúnio velavam hora por hora, momento por momento.

Entre algumas tribos esse caráter do sofrimento não se manifestava: a dor era surda, profunda, silenciosa, transluzindo somente na expressão, nos gestos, no olhar. A força de ser concentrado, o sofrimento aparentava indiferença e calma.

Por ocasião do embarque a população flutuante desaparecia aos poucos, escasseava como por encanto, dando lugar a mutações de cenários e de espectadores.

Aos balcões dos depósitos os capitães negreiros, acompanhados de uma parte da tripulação, assistiam à saída dos escravos, inscrevendo-os nos registros de bordo, os despenseiros faziam o restante das provisões para os navios, os botes avizinhavam-se da praia e os miseráveis escravos transpunhamm a porta da entrada, encaminhando-se para fora.

E o chicote estalava, os ferros tiniam... Alguns matavam-se temendo o exílio; outros, escapando à vigilância dos guardas, madrugavam enforcados nas palmeiras dos areais; e de longe em longe, estirado no chão, um selvagem da África, estendia os braços, abraçando pela última vez a terra da pátria...

E a frota negreira recebia a escravidão para povoar a América de Colombo, as florestas da liberdade.

II

O painel de todas as agonias que se desdobrava naquelas praias povoadas de negros de diversas tribos não podia ser mais pavoroso e revoltante.

Os mercadores brutais dirigindo o embarque de centenas de desgraçados, lá se achavam a postos, protegidos pela marinhagem que escoltava os cativos e pelas correntes que os supliciavam dia e noite.

Taciturnos até então, sombrios e resignados no prólogo do seu infortúnio, os míseros africanos, deixando a pátria, rompiam com o tumulto o silêncio guardado.

Era no instante em que as lanchas encostavam às pontes para recebê-los, em que o primeiro deles descia para ser transportado aos porões dos navios estanciados em curva.

Então gritos agudos feriam o espaço, a desesperação e o gemido faziam-se ouvir atroadores, ao mesmo tempo que o chicote separava a mãe do filho, a esposa do marido, o velho da criança, os conterrâneos da mesma aldeia, os sacerdotes do mesmo rito.

E a primeira leva abatia-se nos mares como uma nuvem, para reaparecer a bordo dos brigues que desatavam as velas.

Mais longe, com os pulsos ensanguentados das cordas que os retinham, grupos havia que imploravam a compaixão des seus fetiches, que se atiravam às vagas procurando a morte, que rolavam na areia mordendo-se em fúria, que se abraçavam às árvores de onde eram arrancados feridos.

E a segunda leva escurecia a transparência calma das ondas, crescendo nos tombadilhos sinistros das galeras...

Depois, um marinheiro que mergulha surgindo do profundo com um escravo disputado à morte, a mutilação de uma mesma família distribuída ao sul e ao norte, o adeus bárbaro do selvagem às terras do seu berço, e, aqui e além, no mar e em terra, a gargalhada satânica da loucura retinindo fúnebre como uma salva nos funerais de um povo.

Percorrendo o convés, os capitães assistiam ao embarque da carga, presidiam à chamada da equipagem, enquanto que os dispenseiros, junto à escada de proa, conferiam a nota dos remetidos para bordo.

Os gajeiros deste ou daquele brigue, tocando a sineta do rancho, levavam aos cães de fila, acorrentados aos mastros, rações abundantes, amimando-os, açulando-os contra um negro que passava, uma criança que cambaleava chorando...

E dentro em pouco os ecos acordavam aos latidos dos cães afeitos à guarda dos porões, a arrastarem pelo pé o escravo que tentasse fugir ou lançar-se n’água.

Apenas subiam, os infelizes negros tinha de submeter-se à disciplina estabelecida no tráfico.

Os marinheiros os despiam, os acorrentavam de pés e mãos, consentindo apenas que conservassem uma tanga, mortalha grosseira e última de pudor.

Então o apito dava o sinal da forma, toda a tripulação alinhava-se nas amuradas, empunhava espada e foices, seguindo a essa manobra a descida dos escravos aos porões, divididos em obscuros cárceres, destinados a homens, mulheres e crianças, que só se achavam juntos nas danças do convés.

Desde logo a face de azeviche do africano perdia a sua cor primitiva, a expressão transformava-se, e seu olhar vivo e selvagem, acostumado, como as águias, a fitar o sol dos desertos, cobria-se de um véu de sangue que lhe amortecia a luz.

Amontoados no fundo dos navios, devorados pelo calor e pela febre, feridos com as correntes ao bulício do mar, os supliciados da liberdade atravessavam o oceano empesteando as trevas.

Com mais largueza em um túmulo, aqueles deserdados da sorte vinham por tal modo oprimidos que os tetos de suas prisões curvavam-lhes o corpo e a estreiteza dos pavimentos forçava-os à imobilidade dos emparedados.

(MORAES FILHO, Melo. Festas e tradições populares do Brasil)

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