Maio
2001
Ano III - nº 33 |
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A rua entrava no engenho ou o
engenho na rua. Nessa luta entre o urbano e o rural, os canaviais só paravam nos muros. A
nossa casa de oitão livre, bananeiras e galinhas no quintal, e pés de cróton no jardim,
já era uma usurpação no feudalismo dos banguês.
Mas em função dele quase tudo girava em derredor. Junto, moravam capitão Sabino e dona
Amélia, senhores de engenho e espécie de vigilantes da prevalência da casta.
Na esquina, defronte, dona Chicota e as irmãs, doceiras profissionais, a grosso e a
retalho. Logo de manhã, soltavam na rua mais de vinte moleques com os tabuleiros. O
próprio ar adocicava com os pregões e o cheiro das cocadas e alfenins.
Do outro lado da transversal, transposto o rego, onde Célia e Vanda, já meninas de
escola, e sem ligar as brigas da mãe, tomavam banho nuinhas, quando chovia, estava a
oficina do seu Quintino Italiano. Essa oficina era uma peça avançada dos engenhos. Quase
só funcionavam para eles. Fora, com as grandes bocas de ferro comendo a grama, as tachas
esperavam os consertos. Dentro, as rodas das moendas, e os canos de destilaria recebendo
solda.
Seu Quintino, com os auxiliares nativos, quase não dava vencimento ao serviço e o
serviço não podia exceder a época das moagens. Daí ter feito vir da Sicília, para
morar no quarto dos fundos e ajudar nas encomendas, o patrício Ambrósio, de fala mais
engrolada e inimigo da água e do sabão. Quando a vizinhança comentava a sujeira, Maria
Italiana zangava-se e defendia o marido. As palavras justificadoras foram as primeiras
compreensíveis que aprendeu em português. Exageros, exageros. Toda semana, o homem
passava um pano molhado nos pés.
Se a gente saía, também andava sobre garapa e açúcar. Na loja de Engênio Pimenta,
estava um centro de reunião de proprietários e produtores. Na farmácia de Artur Neves,
outro. Só se falava em política e safras.
De um lado da Estrada Nova, ficavam os armazéns, bem perto da estação. Os sacos
entrando e saindo para o embarque nos trens da Great-Western. Os preços regulavam a
opulência municipal. Num ano de alta, seu Melo, de Água Verde, tomou conta da praça:
botou no dedo um anel de vinte contos e comprou automóvel grande, com chofer e ajudante
de farda, para abrir a porta do carro e cumprimentar.
Isso quando os bons cavalos de sela estavam ainda no tempo de prestígio. Conforme o
porte, o passo e a qualidade dos arreios, indicavam as condições financeiras do dono,
talvez até mesmo para algum financiamento no Banco Popular. Daí o capricho para tê-los
cada vez mais gordos e meieiros, castanhos ou alazães, de frente aberta, mostrando logo o
que valiam.
Aos sábados, com a feira, o pátio atrás do mercado virava enorme cavalariça, bem
guardada. E a cidade povoava-se de rangidos e tabicas. Nos trânsitos para os negócios,
as conversas, ou o almoço no Hotel de Maçu, os cavaleiros iam mesmo atolados até as
coxas nas botas de cano longo e esporas faiscantes.
As latas de mel marcavam as cortesias semanais a domicílio.
Às vezes, a gente queria fugir um pouco desse mundo açucareiro. Mas, quando pensava em
outras coisas e chegava na praça, lá vinham os gritos dos moleques de dona Chicota:
- Ei! cocada, alfenim e caramelo!
(MOTA, Mauro. Em Brasil Açucareiro) |
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