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Maio 2001
Ano III - nº 33

BEIJU

Beiju, segundo os dicionários portugueses, é bolo feito de farinha de mandioca, muito fina. De uma forma geral é isso o beiju. O modo, porém, pelo qual é manipulado ou acondicionado, empresta-lhe várias denominações específicas e interessantes, como se lê em quase todos os velhos cronistas.

Raimundo de Morais cita os beijus preparados atualmente na Amazônia: o beiju-assu, o beiju-puqueca, o beiju curuíba, o beiju-cica e o beiju-membeca. O beiju-assu, diz esse escritor, é fino como um disco, branco como a lua; torrado ao forno, com manteiga, supera qualquer bolacha de água e sal das mais finas. O beiju-puqueca, mais grosso e mais úmido, é sempre envolto em folhas de bananeira, e o beiju-curuba recebe sempre da castanha de caju, um sabor novo e esquisito. O beiju-cica é delgado, seco e quebradiço, e o membeca, como o nome indica, é fofo e mole.

Rodrigues Ferreira, no seu Diário da viagem filosófica pela capitania de São José do Rio Negro, anotou, e com todo carinho, quase todas as variedades do beiju. O meticuloso Gabriel Soares já escrevia em 1587: "fazem mais dessa massa (raiz da mandioca ralada) depois de espremida, umas filhós, a que chamam beijus, estendendo-se no alguidar sobre o fogo, de maneira que ficam tão delgadas como filhós mouriscas, que se fazem de massa de trigo; mas ficam tão iguais como obréias; as quais se cozem neste alguidar, até que ficam muito secas e torradas".

Anchieta, também, em várias passagens de suas notáveis e valiosíssimas informações, refere-se ao beiju descrevendo-o como "mantimento de pouca sustância, insípido, mas são e delicado".

Beiju na língua geral é simplesmente mbeiú ou mbeyú e significa: o enroscado, o enrolado, o franzido. Como substantivo, designa o bolo ou filhó de farinha torrada. De mbeiú proveio o nosso beiju, aliás quase sem alteração alguma, pois o desaparecimento do m na ocorrência mb, é comuníssimo na vernaculização dos termos tupis.

Entre os numerosos termos brasílicos aproveitados pelos catequistas para fins religiosos, isto é, para traduzirem idéias e coisas do ritual cristão, aparece o mbeiú lembrando um dos mais altos e mais belos símbolos católicos: a hóstia.

Na Conquista Espiritual vem a expressão mbeyú robaçapyr, que significa o beiju santo, o bolo sagrado, ou melhor, a hóstia consagrada segundo a interpretação de Batista Caetano.


(AYROSA, Plínio. Em Revista do Arquivo Municipal de São Paulo)

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