Ir para a página principalRetornar para Colher de Pau

Maio 2001
Ano III - nº 33

O ALHO

alho.gif (4625 bytes)Quanto ao alho, foi ele encontrado em estado selvagem no deserto do Kirghistão, na Ásia Central, e desde muito cedo foi cultivado por antigos habitantes de outras regiões. Os povos do norte da Europa detestavam-no ao passo que os do sul o consideravam delicioso condimento.

Os lutadores gregos costumavam comer alho, a fim de adquirirem valor combativo.

Houve tempo em Roma em que o alho passara a simbolizar a vida militar. Nero, em determinados dias do ano, só se alimentava de alho porro, certamente para adquirir boa voz, pois atribulam tal propriedade ao bulbo dessa planta, e Vespasiano preferia que certo cortesão, em vez de recender a perfume, cheirasse a alho
[1].

Por outro lado, na mesma Roma, quem houvesse comido alho não podia entrar no templo de Cibele, e em Castela, o rei Afonso, fundador de uma ordem de cavalaria, estabelecera que os seus membros ficavam proibidos de comer alho e cebola, sob pena de serem afastados da corte pelo espaço de trinta dias.

Horácio, porque, segundo se presume
[2], apanhara violentíssima indigestão, após haver tomado parte, em casa de Mecenas, num festim cujas iguarias, se achavam excessivamente temperadas com alho, - escreveu e dedicou ao seu amigo e protetor o Epodo III, que transcrevemos aqui na tradução de José Agostinho de Macedo [3]:

Se há parricida que do pai caduco
O sangue derramasse,
Alhos coma somente, que a cicuta
É menos venenosa.
Ó cegadores rústicos, vós tendes
Estômagos de ferro.
Que veneno cruel me despedaça
As torradas entranhas.
Atroz peçonha, víbora cruenta
Lançou nestes manjares
Ou deles foi maldita cozinheira
A pérfida Canídia
Quando o belo Jasão, dos argonautas
O condutor valente,
Foi subjugar os indomáveis touros,
Sob ignorado jugo,
Medéia os membros lhe banhou com o sumo
Dos alhos espremido
Antes que as rédeas aos dragões sanhudos,
Batesse sobre os ares,
Fugindo de Corinto, com tal sumo
Os vestidos molhava
Com que do leito seu vingava a afronta
Na rival inocente.
Jamais nos campos de Calábria, Sírio
Vomitou tanto fogo,
Jamais nas veias do valente Alcides
De Neso as vestiduras
Tantos acesos turbilhões lançaram
De chama abrasadora
E se veneno tal, teu gosto prende,
Verás, caro Mecenas,
Corno de ti fugindo a terna moça
Teus ósculos rejeita.

É crença muito difundida na Europa e na Africa, e também no Brasil, de que o cheiro do alho afugenta os malefícios da bruxaria; os marinheiros gregos costumavam pendurar nos mastros de seus navios uma réstia de alho, a fim de escaparem às tempestades; e as raparigas da ilha de Lesbos, para se verem a coberto do mau olhado, suspendiam alho à janela, juntamente com outras plantas
[4]. Em Portugal, "o alho é cousa de feitiço"; segundo se deduz de uma referência de Camilo Castelo Branco [5].

São vários os provérbios em que entra o alho: Falo em alhos, responde-me em bugalhos; alho e pimenta o fastio ausenta; em tempo nevado o alho vale um cavalo; o que mendiga tem fome e o que arrota alhos come; muitos alhos num gral se pisam mal; onde alhos há, vinho haverá; com alhos e pão vive o homem são; quem se pica, alhos come; se queres ser bom alheiro, planta os alhos em janeiro.

E entre as adivinhas, registra-se a seguinte:

Não come mas tem dente,
Tem barba e não é gente,

ou a variante:

Tem dente mas não come,
Tem barba mas não é homem

Existem na Espanha e na França adivinhas mais ou menos idênticas a essa variante, e quanto ao que respeita aos países hispano-americanos, Cecília Meireles cita a seguinte colhida por B. Martínez, na República Argentina
[6]:

Tengo cabeza redonda,
Sin nariz, ojos ni frente,
Y me cuerpo se compone
Tan solo de blancos dientes

Segundo João Ribeiro
[7], "o alho é símbolo de ironia e desdém". E acrescenta: "Alho, e bugalhos são cousas de nonada, Em outro tempo na Itália, nas corridas que se faziam por desporto, cabiam aos vencedores dois prêmios o pallio e a leitoa (unam porchettam) o que chegava por último ganhava um alho e assim é que Bartolomeu Veratti explica a ironia que se apegou à palavra e que se traduz em várias locuções".

Mas devemos acrescentar que o alho também significa vivacidade, esperteza, como se vê desta passagem de Camilo Castelo Branco
[8]:

"Cresceu (Manuelzinho) desenvouveu-se, e encantou seus pais com a viveza prematura. Era esperto como um alho - dizia a criada da cozinha, a boa Micaela, muito contra o melindre de dona Custódia, que não consentia fosse o filho das suas entranhas comparado a um alho..."

Derivados do termo alho existem os seguintes vocábulos: alhada, quantidade de alho, e também guisado preparado com muito alho; alhal, plantio de alho; alhas, adjetivo, folhas alhas, folhas secas de alho; alheira, planta cujo cheiro se assemelha ao do alho, e também chouriço temperado com muito alho; alheiro, o que vende e também o que planta alhos. E de formação erudita temos as palavras aliáceas ou ailóidias, subfamília das liliáceas, e aliáceo, adjetivo, próprio do alho, semelhante ao alho.

Alhada tem ainda o sentido figurado de enredo, embrulhada, citando o velho Morais o exemplo extraído de Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos: "meu pecado me meteu nesta alhada". E não indo tão longe, poderemos encontrar o mencionado termo neste passo de uma das obras de Ciro dos Anjos
[9]: "Continuei dizendo-lhe que, se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela, mandaria um bilhete à pequena comunicando-lhe que fora chamado à Grécia..."

O termo alho entra na formação dos nomes compostos - vinho-d’alhos, ou vinha-d’alhos, vinha-d’alho, vinadalho, molho para conservar carne, em que entram vinagre, alho e outros condimentos, e pau-d’alho.

fitônimo também aproveitado como topônimo em Pernambuco, onde existe a cidade de Pau-d’Alhos, e no Distrito Federal e São Paulo designando um morro e dois rios. Em Portugal encontram-se os topônimos Alhos, Alhos-Vedras e Carnache-dos-Alhos, bem como Alhadas, Alhadas-de-Baixo e Alhadas-de-cima.


--------
Notas:

[1]. Esse imperador muito se preocupava com o que dizia respeito às coisas relacionadas com o olfato. Em outra ocasião, admirando-se seu filho Tito houvesse sido criado um imposto sobre as latrinas de Roma, respondeu Vespasiano estendendo-lhe uma moeda à altura do nariz: Meu filho, o dinheiro não tem cheiro.

[2]. Les Auteurs Latins, par une Société de Professeurs et de Latinistes - Horace, Odes et Épodes, tome deuxiéme - L. Hachettee et Cie., Paris, 1847, p. 298, note 2.

[3]. Horácio, Epodos, Lisboa, 1806, in Horácio - obras completas, Edições Cultura, São Paulo, 1941, p. 126.

[4]. Luís da Câmara Cascudo, Dicionário de folclore brasileiro, Rio de Janeiro, 1954, v. alho.

[5]. Anátema, Lisboa, 8ª ed., p. 13.

[6]. Apud José Maria de Melo, Enigmas populares, Rio de Janeiro, 1950, p. 44.

[7]. Frases feitas, 1ª série, Rio de Janeiro, 1908, p. 53.

[8]. Op. cit. , p. 13

[9]. O amanuense Belmiro, Belo Horizonte, 1937, p. 204.


(PEREIRA, Carlos da Costa. "Da cebola e do alho". Em Boletim da Comissão Catarinense de Folclore)

Topo

Jangada Brasil © 2000