Quanto
ao alho, foi ele encontrado em estado selvagem no deserto do Kirghistão, na Ásia
Central, e desde muito cedo foi cultivado por antigos habitantes de outras regiões. Os
povos do norte da Europa detestavam-no ao passo que os do sul o consideravam delicioso
condimento.
Os lutadores gregos costumavam comer alho, a fim de adquirirem valor combativo.
Houve tempo em Roma em que o alho passara a simbolizar a vida militar. Nero, em
determinados dias do ano, só se alimentava de alho porro, certamente para adquirir boa
voz, pois atribulam tal propriedade ao bulbo dessa planta, e Vespasiano preferia que certo
cortesão, em vez de recender a perfume, cheirasse a alho [1].
Por outro lado, na mesma Roma, quem houvesse comido alho não podia entrar no templo de
Cibele, e em Castela, o rei Afonso, fundador de uma ordem de cavalaria, estabelecera que
os seus membros ficavam proibidos de comer alho e cebola, sob pena de serem afastados da
corte pelo espaço de trinta dias.
Horácio, porque, segundo se presume [2], apanhara violentíssima
indigestão, após haver tomado parte, em casa de Mecenas, num festim cujas iguarias, se
achavam excessivamente temperadas com alho, - escreveu e dedicou ao seu amigo e protetor o
Epodo III, que transcrevemos aqui na tradução de José Agostinho de Macedo [3]:
Se há parricida que do pai caduco
O sangue derramasse,
Alhos coma somente, que a cicuta
É menos venenosa.
Ó cegadores rústicos, vós tendes
Estômagos de ferro.
Que veneno cruel me despedaça
As torradas entranhas.
Atroz peçonha, víbora cruenta
Lançou nestes manjares
Ou deles foi maldita cozinheira
A pérfida Canídia
Quando o belo Jasão, dos argonautas
O condutor valente,
Foi subjugar os indomáveis touros,
Sob ignorado jugo,
Medéia os membros lhe banhou com o sumo
Dos alhos espremido
Antes que as rédeas aos dragões sanhudos,
Batesse sobre os ares,
Fugindo de Corinto, com tal sumo
Os vestidos molhava
Com que do leito seu vingava a afronta
Na rival inocente.
Jamais nos campos de Calábria, Sírio
Vomitou tanto fogo,
Jamais nas veias do valente Alcides
De Neso as vestiduras
Tantos acesos turbilhões lançaram
De chama abrasadora
E se veneno tal, teu gosto prende,
Verás, caro Mecenas,
Corno de ti fugindo a terna moça
Teus ósculos rejeita.
É crença muito difundida na Europa e na Africa, e também no Brasil, de que o cheiro do
alho afugenta os malefícios da bruxaria; os marinheiros gregos costumavam pendurar nos
mastros de seus navios uma réstia de alho, a fim de escaparem às tempestades; e as
raparigas da ilha de Lesbos, para se verem a coberto do mau olhado, suspendiam alho à
janela, juntamente com outras plantas [4]. Em Portugal, "o alho
é cousa de feitiço"; segundo se deduz de uma referência de Camilo Castelo Branco [5].
São vários os provérbios em que entra o alho: Falo em alhos, responde-me em bugalhos;
alho e pimenta o fastio ausenta; em tempo nevado o alho vale um cavalo; o que mendiga tem
fome e o que arrota alhos come; muitos alhos num gral se pisam mal; onde alhos há, vinho
haverá; com alhos e pão vive o homem são; quem se pica, alhos come; se queres ser bom
alheiro, planta os alhos em janeiro.
E entre as adivinhas, registra-se a seguinte:
Não come mas tem dente,
Tem barba e não é gente,
ou a variante:
Tem dente mas não come,
Tem barba mas não é homem
Existem na Espanha e na França adivinhas mais ou menos idênticas a essa variante, e
quanto ao que respeita aos países hispano-americanos, Cecília Meireles cita a seguinte
colhida por B. Martínez, na República Argentina [6]:
Tengo cabeza redonda,
Sin nariz, ojos ni frente,
Y me cuerpo se compone
Tan solo de blancos dientes
Segundo João Ribeiro [7], "o alho é símbolo de ironia e
desdém". E acrescenta: "Alho, e bugalhos são cousas de nonada, Em outro tempo
na Itália, nas corridas que se faziam por desporto, cabiam aos vencedores dois prêmios o
pallio e a leitoa (unam porchettam) o que chegava por último ganhava um alho e
assim é que Bartolomeu Veratti explica a ironia que se apegou à palavra e que se traduz
em várias locuções".
Mas devemos acrescentar que o alho também significa vivacidade, esperteza, como se vê
desta passagem de Camilo Castelo Branco [8]:
"Cresceu (Manuelzinho) desenvouveu-se, e encantou seus pais com a viveza prematura.
Era esperto como um alho - dizia a criada da cozinha, a boa Micaela, muito contra o
melindre de dona Custódia, que não consentia fosse o filho das suas entranhas comparado
a um alho..."
Derivados do termo alho existem os seguintes vocábulos: alhada, quantidade de alho, e
também guisado preparado com muito alho; alhal, plantio de alho; alhas, adjetivo, folhas
alhas, folhas secas de alho; alheira, planta cujo cheiro se assemelha ao do alho, e
também chouriço temperado com muito alho; alheiro, o que vende e também o que planta
alhos. E de formação erudita temos as palavras aliáceas ou ailóidias, subfamília das
liliáceas, e aliáceo, adjetivo, próprio do alho, semelhante ao alho.
Alhada tem ainda o sentido figurado de enredo, embrulhada, citando o velho Morais o
exemplo extraído de Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos: "meu pecado
me meteu nesta alhada". E não indo tão longe, poderemos encontrar o mencionado
termo neste passo de uma das obras de Ciro dos Anjos [9]: "Continuei
dizendo-lhe que, se me visse envolvido em semelhante alhada e quisesse sair dela, mandaria
um bilhete à pequena comunicando-lhe que fora chamado à Grécia..."
O termo alho entra na formação dos nomes compostos - vinho-dalhos, ou
vinha-dalhos, vinha-dalho, vinadalho, molho para conservar carne, em que
entram vinagre, alho e outros condimentos, e pau-dalho.
fitônimo também aproveitado como topônimo em
Pernambuco, onde existe a cidade de Pau-dAlhos, e no Distrito Federal e São Paulo
designando um morro e dois rios. Em Portugal encontram-se os topônimos Alhos,
Alhos-Vedras e Carnache-dos-Alhos, bem como Alhadas, Alhadas-de-Baixo e Alhadas-de-cima.
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Notas:
[1].
Esse imperador muito se preocupava com o que dizia respeito às coisas relacionadas com o
olfato. Em outra ocasião, admirando-se seu filho Tito houvesse sido criado um imposto
sobre as latrinas de Roma, respondeu Vespasiano estendendo-lhe uma moeda à altura do
nariz: Meu filho, o dinheiro não tem cheiro.
[2].
Les Auteurs Latins, par une Société de Professeurs et de Latinistes - Horace,
Odes et Épodes, tome deuxiéme - L. Hachettee et Cie., Paris, 1847, p. 298, note 2.
[3].
Horácio, Epodos, Lisboa, 1806, in Horácio - obras completas, Edições
Cultura, São Paulo, 1941, p. 126.
[4].
Luís da Câmara Cascudo, Dicionário de folclore brasileiro, Rio de Janeiro, 1954,
v. alho.
[5].
Anátema, Lisboa, 8ª ed., p. 13.
[6].
Apud José Maria de Melo, Enigmas populares, Rio de Janeiro, 1950, p. 44.
[7].
Frases feitas, 1ª série, Rio de Janeiro, 1908, p. 53.
[8].
Op. cit. , p. 13
[9].
O amanuense Belmiro, Belo Horizonte, 1937, p. 204.
(PEREIRA, Carlos da Costa. "Da cebola e do alho". Em Boletim
da Comissão Catarinense de Folclore) |