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Maio 2001
Ano III - nº 33

UM POEMA MATUTO

José de Carvalho, em seu trabalho intitulado Os jangadeiros cearenses em raid ao Pará, registra o seguinte exemplar da poesia matuta, sem porém, indicar sua autoria.

De Salomão a ciência
Eu já sei toda de có
Pai e mãe é muito bom
Barriga cheia é mió
Quem tem a barriga cheia
Tem pai e mãe e avó
Quem tem a barriga seca
Tá ruim que mete dó!

Por isto pede a teu Deus
Nossa Senhora do Ó
Se tens de ver outra seca
Tu fiques no mundo só
Sem teu pai e tua mãe
Tua mié, tua vó!

Defunto no cemitério
Só se alimenta de pó
Mas a gente não comendo
A tripa dá logo um nó
E faz uma roncaria
Que chega até no gogó

Fica o home sem talento
Sem força no mocotó
A língua fica pesada
E a vista bem zuruó!

Já corri da seca grande
Lá no sertão do Icó
Meu pai tinha seu gadinho
Meu avô era majó!
Mas bateu setenta e sete
Fiquemo tudo no pó

Vendemo tudo que havia
Até rede com lençó
Panela, prato, cuié
Só escapou urinó!

Uma preta, nossa escrava
Foi vendida pro Icó
A negra tinha um defeito
Quando paria era um só!
Mas quando se foi embora
Chorava de metê dó
Abraçada c’as menina
Com Chiquinha e com Biló

Comemo tudo no mundo
Lagartixa com mocó
Urubu e cascavé
Raiz de pau e cipó
Fiquemo tudo tão seco
Que ninguém tinha suó!

Saímo pra beira-má
Lá cheguei... mas tava só
Sem meu pai e minha mãe
Minha irmã, minha avó
Já tudo tinha morrido
Sem sepultura, no só

Cá comida do gunverno
Foi ficando mais mió
Bebi água da maré
Sargada como ela só
Mas então me deu um frouxo
Que a tripa virou bobó

E quando me alevantei
Só tinha pele e gogó
Parecia um esqueleti
Ou um calango cotó!

Vaso ruim não se quebra
Gente má, muito pió
Nem veneno de botica
Nem bebida de timbó
Eu tenho carne de cão
Tutano de caxingó!

Por isso é que sou dotô
Não há no mundo maió
Conheço toda a ciença
De Salomão e de Jó
Eu tendo a barriga cheia
Sou generá, sou majó
Sou padre dizendo missa
Sou bispo do artá-mó
O papa me beija a mão
E o reis faz muito mió
Me entregando o seu tesouro
De prata e de ouro em pó
Ninguém se meta comigo
Que sai de mal a pió!

De Salomão a ciença
Eu já sei toda de có
Pai e mãe é muito bom...
Barriga cheia é mió!


(CARVALHO, José. Os jangadeiros cearenses em raid ao Pará)

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