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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

De como, apicultor, o Joaquim Bentinho consegue abelhas que produzem o dobro das abelhas comuns.

Depois de um muchirão para barreamento da casa, reunidos, à tarde, no terreiro, joviais e bem dispostos, conversavam os caipiras sobre coisas diversas.

Persistindo no sistema de pregar praticamente, entre roceiros, coisas úteis á pátria, meti-me na conversa.

- Olhem: vocês que vivem em "suas" terras, devido à facilidade da vida no Brasil, não enxergam onde e como ganhar dinheiro...

- Isso é... Os intaliano, sim, são quatro pau de ambicioneiro... - interrompeu o Tuliano.

- Vocês procuram destruir as matas e capoeiras, fazem o serviço mais difícil que é desbravar a terra; plantam meia dúzia de vezes, ou nem isso, e largam o terreno justamente quando a cultura é mais fácil; a pretexto de que a terra está "safada" , cansada, vendem-se barato, no melhor "ponto" para o trabalho do italiano, que já a encontra preparada até para o arado...

- Isso é certo... - concordaram.

- Vocês vão acabando com as capoeiras e, no entanto, deixam o "cambará", a "vassoura", a "samambaia", a "guainxuma" e até o "sapé" invadir o terreiro, dando às casas uma feição de tapera...

- Vacê tem rezão...

- Destruam as pragas, limpem suas casas, barreiem-nas de novo, façam latrinas, porque o bichinho do amarelão entra pelos pés, e como vocês "armam laço" nos arredores da casa, a chuva semeia os bichinhos, lombriguinhas, nos arredores da casa...

- Já se viu! Isso nóis num sabia...

- Aproveitem o que o sítio pode dar. Olhem aquela baixada barrenta e aquele espigão de terra boa. Plantem milho, mandioca, abóbora, batata doce, criem porcos... plantem algodão...

- O diabo é as furmiga... se o guverno judasse um poco os póvre, nois cabava co elas: ansim cumo o guverno cabô cos gafanhoto, pudia cabá coas furmiga... O serviço é caro e nóis semo póvre e num podemo dexá a roça a perecê mode matá saúva...

- Vocês tem razão... Mas vão lutando... um dia, o governo se lembrará de vocês, não só para extorquir impostos e filhos para o serviço militar, que são desviados do trabalho, mas prestam grande auxílio ao país, e se desenvolvem...

- Mais quano vortum coa pélia fina e a mão sem calo, num querem mais sabê da inxada...

- Mas, vamos ao caso... Por exemplo: uma porca comum dá, no mínimo, dez capadetes por ano, castrando-se os leitões. A 50$ cada capadete, dá uma porca 500$ por ano! Vinte porcas e crias, cabem perfeitamente naquela baixada: são 10.000$000 por ano...

- Isso é... – concordavam todos.

- Tragam um punhado de mudas de eucaliptos e plantem nas terras inferiores e baixas; saneiem o sítio e ganhem dinheiro.

- Nha sim...

Bem faz o camponês estrangeiro que vem para o Brasil; tudo aproveita e, por isso, enriquece honestamente, relativamente em pouco tempo.

- Prefeitamente...

- Olhem: aqui há tantas flores silvestres. A criação de abelhas, por exemplo...

Neste ponto do sermão, o Joaquim Bentinho não pode mais conter-se e entrou com a sua.

- Táhi! Táhi! O que eu vivo dizeno! Inda ocês querem me relaxá, me perguntano cumo vai mea lavôra de abeias e as mea criação... de bespa!

- Ah! Intervim aprovador. Muito bem! Então vassuncê cria abelhas , Nho Joaquim?

- Deluvio! Tenho ua safra delas!

- E é coisa que dá lucro! Asseverei.

- Nem se fala! Negocião!

- As abelhas são operários que não exigem salário, e nos dão o mel e a cera, tão vendáveis... - considerei, todo metido a fazer frase...

- Num hai mé que chegue! Os buticario lambe tudo! Por cera intão são desesperado os negociante...

- E o lucro certo...

- Mais do que certo... E ói, moço, criação de abeia, pra mim dá mais lucro do que pros outro... Meu lucro é dobrado!

- Porque tem mêce mais lucro que os outros?

O caipira olhou para os companheiros: chegou-se a mim e, pegando-me docemente pela gola do paletó, segredou-me:

- A quistan é que eu tenho uas abeia de uma culidade que ninguém num tem iguar no mundo... são uas abeia noturna...

- Como?

- Minhas abeia tanto trabaiam de dia cumo de noite...

- Mesmo em noite escura?

- Quanto mais escuro que nem breu, mió! Elas vão campeá as frôr na escuridão e trais o mé...

- Desculpe, Nhô Joaquim; esta é forte de mais!... Abelhas voando em noite escura...

O caipira, revoltado ante a minha incredulidade, puxou-me pelo braço, arrastou-me para um canto do terreiro e, com grande mistério, abafando a voz, segredou-me:

- O segredo eu conto, só pra vassuncê... Num conte pra ninguém... Jure!

- Juro! Respondi, por troça.

- As abeia que eu tenho, que trabaiam de noite... ua inventiva minha... ua idéia que eu tive... são tudo mistiçada cum vagalume...

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De como o Joaquim Bentinho resolve o importante problema de engordar porco sem milho ou outro alimento, barateando o custo do toicinho

Estou estranhando hoje o Joaquim Bentinho: está tão quieto, sentado na tripeça, com a cara entre as mãos, cotovelos fincados sobre as coxas, olhos fitos no chão, meditativo, sorumbático, numa atitude de profunda locubração...

Ótimo modelo para um Pensador caipira...

Observo-o.

Ei-lo agora, que sorri. Um sorrisozinho irônico de desprezo.

Interpelo-o.

- Em que pensa, Nho Joaquim?

- Tava aqui fazeno uas cumeração...

Vacês, gente da cidade, são tudo dado a sabereta e no fim, pensano bem, nóis caipira, que num tivemo mestre nem escola rege, argua vêis semo mais fino que vacêis.

– A’s vezes... Mas, por que diz isso?

- Vacê strudia tava falano in criação de porco, que dá déis conto por ano... Mais num botô na conta a roçada, a queima, o prantio, a carpa, a coiêta e a bardeação.

– Mesmo assim dá muito lucro.

– Mais, porém, se pra vacê dá déis, pra mim dá vinte...

– Como assim?

- É que eu crio os porco e ingordo sem gastá nada...

– De que forma?

- Ahi é que tá a coisa, que eu digo que pra criá porco, vaceis da vila são mais bobo que nois.

– Explique-se...

– Eu num quis falá nada naquele dia, pra num dexá vacê mar... na vista dos outro caipira... Mais eu tava sirrino por drento...

– Mas vamos: o motivo...

– É que eu, prezembre, tenha ua porcada cumo num hai mais gordo...e num pranto um pé de mio!

- Então cria com ábobora, mandioca, inhame...

– Nada disso.

– Só se furta milho... o que eu não creio!

- Isso nunca! Protestou enfurecido. Sô povre, é verdade, mais tenho as mão limpo...

– Sei disso, tanto que sou seu amigo... consertei.

– Vacê que sabê cumo ingordo os porcos?

- Quero.

– É muito face...Vacê sabe que porco ingorda quano tá durmino... Quanto mais dorme, mais ingorda... ingorda de rachá!

- Sim.

– Puis eu, que num sô burro, arrezorvi a quistan de ingorda de porco sem cumida...

– Será possível?!

- Comprei ua sanfona, mandei inciná o Bastiãozinho a tocá e... vacê vá in casa cedo, a ua hora e de tarde... vá vê... É só eu gritá: - Bastião! Vá tratá dos porco! Bastiãozinho garra a sanfona, impuléra no morão da portera e garra gritá: - "Cumê... cumê... cumê..." A porcada vem tudo alegre do riberão e já vão deitano... Intãoce o Bastiãozinho chora na sanfona, duas, treis hora e a porcada ferra no sono e dorme o que dá o dia! Só para de durmi pra bebê água e já vortam co chamado do Bastião... Inté eu, quando tô sem que fazê durmo e tô ingordano...

– E de noite?

- De noite eles dormem por si...

Prá ingordá porco é o mió sistema!

De como um homem assustado
escapa de ser devorado por
onça pintada em plena mata...

- Pois meus amigos: o medo faz prodígios. Por causa do medo de morrer, aí um caiçara nhanpan, qualquer, é capaz de matar a faca ou a tiro o maior valentão.

- Num tem dúvida, aprovou o Joaquim Bentinho.

Nos apuro o medroso vira valente e o sojeito nos apuro sempre acha um jeito.

Eu já vi um voi brabo incambitá de atrais de um intrevado... quando o bicho ingarupô in riba dele, o tar pinchô as muleta e abrio a pala que-nem um veado...

- Há desses casos.

- O mió vô iê contá.

Quano nóis tava abrino ua labora nua mataria braba, eu fi ua ceva de passarinho dótra banda de ua gróta. Tava juntano que era ua buniteza.

Um dia incunvidei o compadre Norato pra i pombeá os tar.

Compadre é um home turrão cumo ele só. É que-nem pedra de fogo: vacê bóta náua, tira, inda tá moiada, vacê bate o fuzi, espirra fogo...
Fomo ino pra lá. As espingarda tavum cum carguica pra passarinho e nóis num levamo chumbo grosso.

No passá a grota, compadre me puxô pra frarda da camiza e preguntô baxinho:

- Cê viu?

- Vi...

- O que?

- Treis gatinho, fióte de onça pintada, que entraro naquela toca. Bamo simbóra.

- Simbóra, nada! Aquilo dá dinhero, rapais! Eu pégo os tarzinho e vô vende na vila, pra argum cometa, u intãoce pra cumpania de scavalinho que aparecê...

- Largue mão disso, compadre... ocê inda sae-se mar in buli co’as criança dos outro...

- Quá o que.. espere eu...

- O ‘i, compadre... eu já fui ranhado de onça nas cadera e... negócio de onça num é cumigo! Compadre, largue mão disso!

Aquilo quano dá na boca da toca, deitô de bruço e marguiô metade do corpo no buraco, que dava justo na grossura do corpo dele.

Intrô.. intrô... e ficô só co trazero pra fóra...

Forceja daqui, forceja dali, num sei se ele se inroscô nargua raiz de pau... quãno ele quis vastá... quem disse!

Quanto mais ele pererecava, mais terra caía lá drento, sapremano o corpo dele na toca!

Compadre garrô fungá feio... e eu uvi a fala dele que vinha de loonge:

- Me acúúúda compá... Eu safóóóóco...

Eu, resabiado que tava da onça mãe, garrei nas perna dele e aluitei um poder de tempo, de chascão in chascão.

Quá... tava difice! Fi os impussive pra rancá ele da toca...

- Ta ahi o que ocê quiria! Morrê intalado na toca de onça... Um cidadão cum óito famia!...

Quano eu se desanimei de ua e vi que num tinha reméde, cheguei mea boca pertico do buraco e gritei:

- A ‘me ... compadre... vacê descurpe... Tá chegano a hora da onça num é cumigo... descurpe compadre ... Eu tenho seis famia pra tratá i visti...

Só uvi no fundo da tóca um gemido feio.

Peguei na taquari, ponhei no ombro e sai.

Andei uas déis braça e parei um eito de tempo magino.

Digo: largá meu compadre intalado in tóca de onça... Cruis-canhoto! Bernucio! Inté é pecado!

- Mas onde é que esta a história do medo? Interrompi, impaciente, depois de tanto esperar.

- É agora: - maginei, maginei, e me veio no sintido ua lembrança de premera..

Larguei a espingarda no chão, e quano o compadre pensô que eu já tava longe, fui devagarzinho... devagarzinho... sem fazê buia, fui chegano... chegano... aperparei as unha e... sortei um bérro fóra no trazero dele...

Oi, cidadão! O compadre deu um arranco pra trais! Deu um prisco desta artura! Avuô da tóca e saiu desinbestado pro mato a dentro, campeano a casa... Nem me viu gargaiano prua banda!

- O medo deu-lhe o jeito para escapulir, hein!

- Isso! – No escurecê fui in casa dele, pra minti que na hora da intalação eu tinha ido in casa buscá inxadão...

Achei ele tudo esfolado, bufano de réiva...

- Isso num se fais!... Ocê é um porquera, compadre!

Me largá eu na tóca da oça... Tô lacrabado de unha de onça e das pintada...

E o Joaquim Bentinho, malicioso, piscou:

- Fazia mêis que eu num cortava as unha...

 

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De como o Queima-Campo descobre um bando de macacos "águias"

É sempre com grande emoção que leio as Viagens ao rio Araguaia e O selvagem, do maior do sertanistas da época, do grande patriota general Couto de Magalhães, precursor desse extraordinário patrício General Rondon.

Couto Magalhães que, com 24 anos de idade, governava províncias e foi o mais valente e tenaz sertanista, varejando o Brasil, pelo centro, de sul a norte, é uma das vítimas da ingratidão nacional: ainda não tem estátua.

Aqui, no terreiro da "fazenda Velha", ao pôr-do-sol, comecei a narrar aos caipiras os principais episódios da vida do grande patrício.

Falei sobre a sua energia fazendo navios atravessarem léguas e léguas por terra, sobre rodas, em picadões. Descrevi o seu convívio com os bugres do alto Pará, Goiás e Mato Grosso. Falei sobre suas caçadas e, quando descrevi o rio Paraguai, e falei sobre a voracidade das piranhas daquelas águas, que, em minutos, devoram um cão que caía da canoa ao passar um cardume, e estraçalham um boi, se o cardume é grande, o Joaquim Bentinho meteu a "colher torta" na conversa...

"Gato ruivo, do que usa cuida..." e o mentiroso, tomando pé na palestra, ajeitou o toco do cigarro atrás da orelha direita, e começou:

- Piranha? O rio tem muito... mais in lagôa! Chiii... é desperpósito...

- Mas o instinto nos irracionais é extraordinário. Os animais evitam os lugares...

- Isso é verdade! Interveio o Bentinho.

Eu já ponhei reparo... Nas Contenda, tem uma lagoão no meio do campo, aberano um matão de légua e tanto.

De sua feira andei caçano por lá, onde hai um mundaréu de caça de pelo... de pena nem é bão se falá: - tem minjolinho, batuira, iassanam, passoquinha, socó, socó-boi, frango d’água, cuierêro, garça, marrequinha, pato do mato, saracura...

- Eeeeh! Nho Joaquim... u bem que mecê fala de passarinho, u bem das piranha!

- Já vai... Arreparei no gado do campo quano vinhum vino bebê áua, na lagoa, e num pude se sigurá... Rolei de dá risada!

- Por que?

- A lagoa tinha mais piranha do que as paraguaia casteiana... Arreparei nos fucinho dos boi e garrei sirri; sirri tanto que inté os boi oiaro cum réiva pra mim...

Mas, por que se ria?

- A boiada do home tava tudo sem beiço... Tudo reganhado cumo coisa que tavum dano risada! Piranha tinha cumido os beiço do tar...

- Sim, senhor! Mas como é que você, há pouco, concordou que os animais sabem se defender?

- Isso agora que vai... eu tava lá; o sór tinha esquentado. Sentei nua sombra do lado do mato e de repente garrei escuitá um guaiú de macaco. Era ua prosarada de mico e eu se incoi e fiquei na tocaia.

Queria vê se os tar tavum sem fucinho u tudo manêta, cumido de piranha.

Num levô nem sete minuto, pareceu o bando... Mais fiquei xavié... Tavum tudo perfeito... Num tinha ninhum lejado!

Garrei espiá... Quiria vê os apuro dos tar no bebê áua. Eu bem que vi que as piranhas távum ferveno num cardume, reberberano no fundo dáua...

O’i ... vacê póde aquerditá! Foi a coisa mais esquisito deste mundo!

Os mico foro chegano, tudo de pésinho que nem gente, ficaro infilerado na bera dáua e cada um tirô de baxo do sovaco um canudinho de taquari, de parmo e tanto, e garraro chupá áua por canudo, sirrino do logro de pássaro nas piranha!

- Ora, essa!

- Sim, sinhor!

- De canudinhu...


(PIRES. Cornélio, Musa caipira; As Estrambóticas Aventuras do Joaquim Bentinho - o queima-campo)

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