Jangada Brasil – maio 2001 – nº 33 – Imaginário – Pequenas lendas da poranduba catarinense

PEQUENAS LENDAS DA PORANDUBA CATARINENSE

 

O Cabeleira

 

No penhascoso costão da enseada de Imbituba existe uma tenebrosa lapa a que dão o nome de “Buraco da Cobra”. Ali. – segundo diziam os antigos — se aninhava enorme e horrível serpente, dotada de farta cabeleira e que, à noite, fazia grandes estragos na criação das redondezas. No tempo em que existia naquele porto uma Armação de Baleias, havia um negro, empregado nela, que aos domingos e dias santos fugia de ouvir a missa para meter-se naquela furna e ali entreter-se em pentear e fazer tramas na cabeleira do apavorante monstro. Apontavam-no como feiticeiro e ter partes com o demônio, mascarado naquela horrenda e temível cobra. Um belo dia o negro e serpente desapareceram sem deixar vestígios.

O Sete-cuias

Contaram-me pescadores de Sambaqui e Ponta Grossa que, no pontal dos Ratones, por eles considerado assombrado, noite velha, ouvem-se rufos de misteriosos tambores e que também costuma aparecer um vulto negro a pedir, por acenos, passagem aos canoeiros que se avizinham e perlongam aquela estirada língua de areia. Acontece que, ao embarcar a estranha e silenciosa figura, a canoa se torna de tal maneira sobrecarregada, que não mais avança apesar das fortes e continuadas remadas do tripulante: começa a encher-se d’água e a afundar. Nessa ocasião o malvado negro, que é apelidado de “Sete-cuias” dá uma pavorosa risada e desaparece, deixando o mísero canoeiro a debater-se nas ondas.

O Minhocão

Quando visitei as praias de leste da ilha de São Francisco – Grande, Enseada, Ubatuba, Itamirim, Peroba, etc. – contaram-me os pescadores da região que, de longe em longe, sofrem aquelas ribas vários abalos, desmoronamentos, invasões do mar, alagamentos e subversões, etc., que atribuem à uma serpente marinha de formas colossais, que naqueles sítios cava longas galerias subterrâneas por onde o mar penetra com fúria, determinando tais acidentes. Certo sítio, onde existe um farolete, – que ruiu certa vez em conseqüência do afundamento do terreno, é chamado por isso Sumidouro. Tal serpente marinha é chamada Minhocão. Os silvícolas catarinenses já se referiam a ela, com o nome de Mboi-assu (cobra grande) e os terríveis efeitos de sua passagem.

A garrafinha
(Ilha)

Uma mãe perdera o filho pequenininho e, cheia de amargura e desespero, não cessava de praanteá-lo dia e noite. Vivia debulhada em lágrimas. Teve então um sonho em que lhe apareceu o fíihotinho amado, muito triste e aflito. Ela perguntou-lhe a razão daquela mágoa. – “Minha mãezinha, – respondeu a criança – porque não alcancei ainda entrar no reino da glória!…” – “Mas, como, meu filho, se és um anjo, puro, sem pecado?” — “Sim, mãezinha, devido às tuas contínuas e copiosas lágrimas…” “Eu te explico: Quando morre uma criança, ao chegar às portas da céu São Pedro entrega-lhe uma garrafinha para nela recolher as lágrimas de sua mãe: se estas forem tão abundantes que façam transvasar a garrafinha, não logrará gozar logo da bemaventurança eterna.

E é por isso que se aconselham às mães a se comedirem nas lágrimas aos filhos que morrem criancinhas.

A cigarra
(Ilha)

Diz o nosso povo que a cigarra é um animalzinho amaldiçoado, pois carrega com tremenda praga. Aconteceu que estando a mãe dela gravemente doente e desacompanhada, mandou-lhe um recado para que viesse fazer-lhe companhia e servir-lhe de enfemeira. A cigarra, muito foliona que era, não se condoeu da pobre senhora e mandou dizer-lhe que não podia atendê-la, pois estava comprometida a cantar num baile. A mãe, diante da desumana resposta da filha ingrata, ajoelhou-se, pôs-se de os olhos no céu e rogou-lhe terrível praga: “Deus permita que arrebentes de tanto cantar!”

E é por isso que a cigarra tanto se estofa no canto que acaba rebentando pelas costas.

 A lagoa do Bicho

À margem direita do rio Araranguá, cerca de dois quilômetros da sua foz, soergue-se do meio de vista planura arenosa imponente maciço de avermelhadas rochas sedimentares assaz antigas. Nossos antepassados chamaram-no – Conventos, tal a parecença encontrada, visto de longe e de certo ângulo, com uma dessas esbarrondadas e veneráveis construções monacais das passadas idades. A face do monolito gigante, que encara o nascente, é sulcada de gilvazes profundos, de rugas acentuadas, indicando, mui provavelmente, a galhardia com que afrontara em remotas eras as cóleras desabaladas do velho e sanhudo Oceano. Aquele que pelo lado do mar o contempla, altaneiro, senhoreando a planura escampa, toucando de buritis e botiás, verdadeiro penacho d’elmo truculento, tem a impressão de estar em face de um daqueles desabusados gigantes escaladores do Olimpo, de que nos fala a mitologia grega, ali petrificado e chumbado àquele solo adusto, inclemente, pela vontade dos deuses vingadores. Terminada a luta hercúlea, exaustiva, contra os escarcéus do mar antigo. Aquela imponente carcaça milenária atiram-lhe em cima avalanches de areia, com o propósito incontido de afogá-lo, de sepultá-lo para sempre. Puro engano! Crescem e se alteiam os comoros e a saunas, quais vagas desmedidas, em torno a rude peneda, mas não conseguem nunca dela aproximar-se. Largo fosso se cava em derredor dela, como uma zona neutra de respeito, de temor, a isolá-la. Soturna e mesquinha lagoa – suor daquela fronte vincada e adusta de lidador indomável – abre-se a leste e mescla suas águas esverdinhadas com as de uma outra que lhe demora ao ocidente. Esta é a chamada “lagoa do Bicho”, onde se aninha, segundo a crença popular, um animal misterioso, estranho, fantástico, aterrador, que espera até hoje quem quebre o seu encantamento.

 Lobishomem
(Ilha)

O lopishomem ou lambishome, como é conhecido entre a arraia miúda de Santa Catarina, é – segundo voz corrente – o primeiro ou o sétimo dos filhos de um casal, o qual tem um fado triste a cumprir. Tal qual a bruxa, para evitar-se essa desgraça, o irmão mais velho deve batizar o mais moço. A pessoa que carrega esse fado é, geralmente, de físico pouco agradável; magro, escaveirado, macilento, de olhos fundos e de cabelos fouveiros. Dizem que ele sai à noite e dirige-se para uma encruzilhada onde passa a espojar-se onde outro animal o tivesse feito. Dá-se aí a sua transformação tomando a forma de um animal, geralmente do cão. Passa então a percorrer, gemendo ou uivando pelos caminhos transmitindo infelicidade a todos que encontra. Dizem que sua sina é percorrer entre meia-noite e o primeiro canto do galo sete cidades. Os cães o pressentem de longe e ladram, atemorizados, à sua passagem.

Contaram-me praieiros de Canavieiras que existia no distrito de Ratones uma senhora casada que tinha um filho. Todos os dias, logo que o marido se ausentava, ia ela banhar a criança numa gamela. Ao fazê-lo, aproximava-se um bacorinho. que tentava morder o menino. Ela o enxotava, mas o animal teimava em voltar. Certo dia, ela não se conteve e bateu no bicho que, enfurecido, avançou para ela e pôs-lhe em tiras a saia de baeta. Ao levantar-se, na manhã seguinte, viu com grande assombro os dentes do marido cheios de fiapos da referida fazenda. Foi assim que ele, sendo um lobishomem, perdeu o encantamento.

Bruxas
(Ilha)

Quando de um casal nascem sete filhas, sem nenhum menino de permeio, a primeira ou a última será, fatalmente, uma bruxa. Para que isso não venha a acontecer faz-se mister que a mana mais velha seja a madrinha de batismo da mais moça. São apontadas como tal certas mulheres magras, feias, antipáticas. Dizem que têm pacto com o demônio, lançam maus olhados, acarretam enfermidades com os seus bruxedos, etc. Costumam transformar-se em mariposas e penetrar nas casas pelo buraco das fechaduras. Têm por hábito chupar o sangue das crianças ou mesmo de pessoas adultas, fazendo-as adormecer profundamente. A marca do chupão deixado na pele, chama o vulgo de “melancolia”. Para que as crianças não batizadas não sejam atacadas pela bruxas, deve-se à noite conservar a luz acesa no quarto. Sabe-se que uma mulher é bruxa, quando dá a apertar a mão canhota esquerda. Para se descobrir a bruxa que chupa o sangue da criança e ela logo apareça, soca-se, em um pilão a camisa da criança ou da pessoa por ela chupada. Ela logo se apresenta e pede para que não façam aquilo. Existe também uma oração contra elas; quem a possue consegue descobri-la e prendê-la e também não adormece quando ela à noite penetra em casa. A pessoa assim premunida toma, para prendê-la, de um tacho ou uma medida de alqueire e logo que a bruxa entra em casa, emborca o tacho ou a medida e ela fica incapaz de sair. Há ainda outro processo de identificar uma bruxa: vira-se a lingueta da fechadura de uma canastra. A bruxa, ao entrar em casa, a primeira coisa que faz é pedir para endireitar a lingueta.

Coisas do demo

Dizem que o diabo é preto, tem rabo, chifres, unhas compridas e pés de cabra: fede a bode e também a enxofre. Usa uma barbicha em ponta, quando em figura de gente e traz um chocalho ao pescoço. Afinal “o diabo não é tão feio como se pinta”, pois para poder tentar os mortais toma todas as formas, mas também “não faz graças para ninguém rir”. É conhecido por inúmeros apelidos: belzebu, bode, capeta, cão, canhoto, coisa-ruim, diacho, dianho, demo, demônio, espírito-mau, inimigo, lucifer, pé de pato, Pedro-Botelho, porqueira, quimbinga, satã, satanás, tinhoso, etc. etc. Cotam que ele pedira ao Padre-Eterno uma capa para esconder as suas deformidades, mas Deus-nosso-senhor presenteou-lhe apenas com uma muito velha e muito curta, pois quando pretende esconder os chavelhos aparece-lhe a cauda: quando tapa esta aparece-lhe aqueles. Afirmam outros sabidos que ele possui sete capas, que “tanto encapam como desencapam”. É raro ele andar só: anda acompanhado de um séquito de diabinhos e diabretes cada qual mais ladino e levado da carépa; mas vive sempre sob a vigilância constante de uma legião de arcanjos de espadas flamejantes. Só agora goza de uma folgazinha no dia de São Bartolomeu (24 de agosto) “quando anda às soltas”, armando grande temporal. Reside nas “profundas dos infernos” alimentando terríveis caldeirões de alcatrão a ferver. Costuma a aparecer à meia-noite na encruzilhada dos caminhos para pregar peças aos transeuntes, e também gosta de assustar as moças. É fama que tanto procurou ajeitar o nariz de sua própria mãe (Joana Padeira) que o pôs torto; e, por fim matou-a com um tiro partido de um cano de bota ou, segundo outros, com a tranca da porta. Afirmam que costuma ele carregar o corpo dos defuntos para seus domínios, deixando o caixão cheio de pedras. Não se deve falar sozinho nem beber água no escuro porque o faz com o diabo. É preciso que se note que “a gente trabalha para Deus e para o diabo”; que “vintém mal ganhado o diabo o leva” e que “na pataca do sovina (320 réis) o diabo tem três tostões (300 réis)”. Não se deve “ter partes” com ele e fugir dele “como o diabo da cruz”: nem “acender uma vela a Deus e outra a ele, pois o provável que ele lhe ronque nas tripas“. É aconselhavel “não dar esmola ao diabo nem fazer-lhe promessas”, nem “comer o pão que ele amassou”. “Quem anda em demanda com o diabo anda”. Há pessoas afoitas que chegam a “vender a alma ao diabo”; e outras. para encontrarem coisas perdidas ou alcançarem a realizacão de um desejo costumam amarrar o rabo do diabo, dando um nó num barbante. Não nos devemos benzer à primeira badalada do sino, pois esta, diz o povo, é a do diabo.

Mula-sem-cabeça
(Tijucas)

Acredita o nosso povo que as amásias ou concubinas de padres, quando morrem, transmutam-se (viram) em mula-sem-cabeça, isto é, neste animal desprovido dessa parte do corpo, mas podendo locomover-se facilmente e perseguir transeuntes fora de horas. Conhece-se a mulher que é manceba de padre pelas faíscas de fogo que se lhe desprendem dos calcanhares, quando caminha à noite. O padre que tem amante, antes de subir ao altar para dizer a missa, excomunga as mulheres… Para se descobrir se determinada mulher é amante do vigário, lança-se ao fogo um ovo enrolado em linha com o nome dela e reza-se por três vezes esta oração:

A mulher do padre
Não ouve missa
Nem atrás dela
Há quem fique…
Como isso é verdade,
Assa o ovo
E a linha fica…

Se for verdade o ovo fica cozido e a linha sem ser queimada.

Nota: O termo mula, antigamente, tinha o significado de “manceba”; e “cabeça’’ o de direção, chefia, senhorio… Daí, mula-sem-cabeça a amásia que não era “teúda nem manteúda”.

Boitatá

Dizem que é a alma de caboclo e costuma aparecer nos sítios em que qualquer compadre costuma ter tratos carnais com uma das suas comadres Não se lhe deve mostrar as unhas para não ser por ele perseguido. Para prendê-lo, ou afugentá-lo deve-se dizer: – Maria, vai buscar a corda do sino para prender o boitatá.

(BOITEUX, Lucas A. “Achegas à poranduba catarinense”. Em Boletim trimestral da sub-comissão catarinense de folclore)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.