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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
O MALFEITO E AS ARTES DE MARIA XANGÔ

O Malfeito

Há na comunidade a crença de que certas pessoas têm capacidade de fazer o malfeito para adversários, inimigos, pessoas decaídas do agrado do entendido. Muitas foram as pessoas que se referiram aos malfeitos e às artes de Maria Xangô. É, portanto, crença generalizada a existência de algo sobrenatural capaz de produzir prejuízo ao próximo. Podemos classificar em dois grupos distintos os manejadores da feitiçaria nesta região: os que fazem o malfeito e Maria Xangô.

Parece ser comum a prática do malfeito, não havendo especialização. Certas práticas feitas por pessoas mesmo leigas podem ser consideradas como malfeito. Algumas dessas práticas são tradicionais, e apontadas como sendo feitas por fulano e sicrano, assim estas duas fórmulas que algumas moças da comunidade já realizaram e cuja experiência apresentamos nas palavras dos nossos informantes: "A sogra de Mariazinha para que o noivo não desmanchasse o casamento, fez porcaria (ou malfeito) para o moço. Raspou o pelo do pé do pente (púbis) da filha, torrou-o bem e a noiva lavou as partes pudentas, com a água fez um chá ajuntando os pelos torrados e deu para o moço beber. O moço voltou e se casou com a moça. Ele é dominado pela mulher. Foi porcaria que a sogra fez para ele". Outra: "Quando a moça está com o incômodo do mês, recolher e colocar no bolo ou na comida. Comeu e já se sabe que ficam atrás da moça, casando, ficam dominados pela mulher". "A Zezé botou uma gota do incômodo no cuscuz para o Toinho, ela anda feito cachorrinho atrás dela". "No mungunzá da Maria Chagas tem baba dela, por isso que ela não dá conta de vendê o chá de burro que faz, todo mundo quer comprá ela aos sábados à noite".

O malfeito não é praticado tão somente pelas mulheres, também pelos homens. Em geral as mulheres o fazem em conexão com problemas amorosos. Já os homens parece que exclusivamente com o que se relacione a negócios.

Entre os fazedores de malfeito da atualidade não encontramos sequer uma referência acerca de algo produzido com o fito de matar o indivíduo. Pareceu-nos, pelas observações feitas, que os prejuízos não iam além de prender e amansar o esposo, no caso das mulheres ou atrasar e atrapalhar os negócios no caso dos homens.


As Artes de Maria Xangô

Conhecida e temida em toda a comunidade foi Maria Xangô. Morava do outro lado do rio. Quando alguém desejava algo mais forte do que apenas pequenos prejuízos ao próximo, mas seu aniquilamento completo, recorria à Maria Xangô. Durante muitos anos, ela foi respeitada em toda a região do baixo rio São Francisco. Nem os policiais queriam saber de negócios com ela recusavam-se a ir prendê-la em seu pequeno sítio no Brejão.

Um informante disse: "Conta-se que certa feita, um delegado de polícia mandou dois soldados para buscar Maria Xangô. Estes se opuseram, mas, o sargento os obrigou, foram buscar a pobre negra velha, tão temida. Ela os recebeu em sua casa, como estavam cansados deu-lhes água para beber e ofereceu-lhes farinha para um pirão d’água, enquanto abria um coco. Quando estavam para acabar de comer o pirão d’água, Maria Xangô disse aos soldados, ‘é bom levar um pouco desse pirão para o sargento, por enquanto ele só pode engolir pirão, logo nem isso’. Esperaram o sol declinar um pouco, colocaram Maria Xangô na canoa, levaram-na à presença do sargento-delegado. Ficou presa uns dias. Morreria de fome se não fosse a intervenção de várias pessoas levando o de comê à preta velha, pois o sargento disse que não a surraria porque era muito velha, mas a deixava sem comer para castigá-la. Passados alguns dias o sargento mandou soltá-la. Maria Xangô volta para o Brejão, e o sargento, poucos dias após essa prisão foi levado para Penedo, desacordado no fundo de uma canoa. Deu-lhe qualquer cousa na garganta, não podia engolir nada. Disso veio morrer".

Outro testemunho sobre Maria Xangô foi dado por Dorival: "Meu pai morreu de feitiço, foi a Maria Xangô que fez feitiço para ele". Quando Dorival narrava as fases da doença do pai que atribuía sua morte às artes de Maria Xangô, uma pessoa disse: "Lembra-se do Oscarlino? Aquele que trabalhava no posto fiscal, como guarda? Pois bem, certo dia prendeu a canoa de Maria Xangô. Não demorô mucho ele veio morrê. Coitado era moço mucho bom, mas por que foi besta de se metê a besta?"
Velho soldado do destacamento policial, o Quincas Correia, entrevistado a respeito de Maria Xangô, há pouco falecida, disse: "Cê tá besta, m’ermão, eu não, eu não que iria prendê aquela mulé, não". A narrativa longa do praça reformado, a respeito de alguns casos de Maria Xangô, foi concluída com o fato recente de enlouquecimento de um soldado que a empurrou, para andar mais depressa, por causa de seu passo trôpego de anciã. Continuou o informante: "Alvino aquele cabra da peste, era um soldado malvado. No dia que fazia um ano que a Maria Xangô tinha morrido, para comemorá tomô uma bebedera de se matá com o lenço. A bebedera foi tanta, tanta, que ele enlouqueceu".

"Maria Xangô entregou-se aos soldados porque ela quis", afirmou um informante, "pois ela tinha forças para se tornar invisível e caso ela quisesse, lá da outra banda do rio onde ela morava, podia fazer antes um servicinho e matar o delegado que mandou prender ela. Isso era tiro e queda. Estava nela querer".

Maria Xangô de cuja história de vida não nos foi possível arranjar mais detalhes, pois havia uma escusa que no fundo era um certo respeito medroso, relaciona-se com o que disse Lévy-Bruhl: (107) Des sociers peuvent aussi, s’il leurs plaît, se rendre invisibles. Ils savent, au besoin, s’élever dans les airs, monter jusqu’a la lune, descendre au fond de l’ocean, se rendre au pays des morts et en revenir. Rien ne leur est plus aisé que de faire mourir un énnemi qui habite au loin, et qui ne se doute rien, en dressant contre lui leurs batteries magiques, ou même para la seule force de leur volonté.

Na feitiçaria a magia simpática está presente. Qualquer parte ou objeto pessoal ou que apenas tocou a pessoa a quem se quer fazer mal, é o melhor elemento para ser utilizado na magia simpática. Quando nada disso é possível obter-se, é o suficiente fazer um boneco de cera ou mesmo de pano que ele representará a pessoa a quem se quer dirigir o mal. Maria Xangô fazia bonequinhas de pano. Onde ela espetasse um alfinete, era ali o local da doença, por causa daquilo morreria a pessoa. Ela botava sal em cima de um rastro, não precisava mais nada, a pessoa estava liquidada. Ela tanto sabia fazer "pelas direitas como pelas esquerdas". Mas, o que ela fazia, ninguém desmanchava. Muitas vezes ela botava dentro de um garrafa, tampava com madeira que apodrecesse logo na água do mar, soltava a garrafa no rio, na maré vazante. O rio levava para o mar. Lá no mar, a tampa com o vento se acabava e a água do mar entrava dentro do que ela fez, daí a razão de ninguém desmanchar o que ela fazia. Este malfeito era pior do que o que ela fazia com as areias do cemitério. Quando havia alguma sentinela e Maria Xangô aparecia, já se sabia que o defunto levava alguma coisa junto para a cova. Ela botava mesmo um objeto, um fiapo de cabelo, qualquer cousa que ninguém percebesse para ser enterrado com o defunto. Ninguém tinha coragem de impedir sua entrada na sentinela, são unânimes em afirmar, embora tivessem certeza de que ela, além de cumprir um ato de solidariedade humana, cantando e rezando pela alma do morto, trazia um despacho qualquer. Não demorava muito, outra pessoa era "empacotada"; às vezes estava com saúde, alegre e morria repentinamente. Era um feitiço de Maria Xangô. Ninguém duvidava.

Além daquelas formas usuais empregadas por Maria Xangô de preparar o malfeito, outras maneiras há de administrá-lo: na bebida (e nesta se destaca a cachaça, por causa de seu largo consumo), numa comida, num doce, num cigarro e até num aperto de mão pode-se transmitir um filtro, um feitiço. Das cousas feitas conseguimos apenas saber como são administradas, porém, não obtivemos dados a respeito do seu modus operandi, no organismo ou no psíquico da vítima.


(ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina rústica)

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