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O MALFEITO E AS ARTES DE MARIA XANGÔ
O Malfeito
Há na comunidade a crença de que certas pessoas têm capacidade de fazer o malfeito
para adversários, inimigos, pessoas decaídas do agrado do entendido. Muitas
foram as pessoas que se referiram aos malfeitos e às artes de Maria Xangô. É,
portanto, crença generalizada a existência de algo sobrenatural capaz de produzir
prejuízo ao próximo. Podemos classificar em dois grupos distintos os manejadores da
feitiçaria nesta região: os que fazem o malfeito e Maria Xangô.
Parece ser comum a prática do malfeito, não havendo especialização. Certas
práticas feitas por pessoas mesmo leigas podem ser consideradas como malfeito.
Algumas dessas práticas são tradicionais, e apontadas como sendo feitas por fulano e
sicrano, assim estas duas fórmulas que algumas moças da comunidade já realizaram e cuja
experiência apresentamos nas palavras dos nossos informantes: "A sogra de Mariazinha
para que o noivo não desmanchasse o casamento, fez porcaria (ou malfeito) para o moço.
Raspou o pelo do pé do pente (púbis) da filha, torrou-o bem e a noiva lavou as partes
pudentas, com a água fez um chá ajuntando os pelos torrados e deu para o moço beber. O
moço voltou e se casou com a moça. Ele é dominado pela mulher. Foi porcaria que a sogra
fez para ele". Outra: "Quando a moça está com o incômodo do mês, recolher e
colocar no bolo ou na comida. Comeu e já se sabe que ficam atrás da moça, casando,
ficam dominados pela mulher". "A Zezé botou uma gota do incômodo no cuscuz
para o Toinho, ela anda feito cachorrinho atrás dela". "No mungunzá da Maria
Chagas tem baba dela, por isso que ela não dá conta de vendê o chá de burro que faz,
todo mundo quer comprá ela aos sábados à noite".
O malfeito não é praticado tão somente pelas mulheres, também pelos homens.
Em geral as mulheres o fazem em conexão com problemas amorosos. Já os homens parece que
exclusivamente com o que se relacione a negócios.
Entre os fazedores de malfeito da atualidade não encontramos sequer uma referência
acerca de algo produzido com o fito de matar o indivíduo. Pareceu-nos, pelas
observações feitas, que os prejuízos não iam além de prender e amansar o esposo, no
caso das mulheres ou atrasar e atrapalhar os negócios no caso dos homens.
As Artes de Maria Xangô
Conhecida e temida em toda a comunidade foi Maria Xangô. Morava do outro lado do rio.
Quando alguém desejava algo mais forte do que apenas pequenos prejuízos ao próximo, mas
seu aniquilamento completo, recorria à Maria Xangô. Durante muitos anos, ela foi
respeitada em toda a região do baixo rio São Francisco. Nem os policiais queriam saber
de negócios com ela recusavam-se a ir prendê-la em seu pequeno sítio no Brejão.
Um informante disse: "Conta-se que certa feita, um delegado de polícia mandou dois
soldados para buscar Maria Xangô. Estes se opuseram, mas, o sargento os obrigou, foram
buscar a pobre negra velha, tão temida. Ela os recebeu em sua casa, como estavam cansados
deu-lhes água para beber e ofereceu-lhes farinha para um pirão dágua, enquanto
abria um coco. Quando estavam para acabar de comer o pirão dágua, Maria Xangô
disse aos soldados, é bom levar um pouco desse pirão para o sargento, por enquanto
ele só pode engolir pirão, logo nem isso. Esperaram o sol declinar um pouco,
colocaram Maria Xangô na canoa, levaram-na à presença do sargento-delegado. Ficou presa
uns dias. Morreria de fome se não fosse a intervenção de várias pessoas levando o
de comê à preta velha, pois o sargento disse que não a surraria porque era muito
velha, mas a deixava sem comer para castigá-la. Passados alguns dias o sargento mandou
soltá-la. Maria Xangô volta para o Brejão, e o sargento, poucos dias após essa prisão
foi levado para Penedo, desacordado no fundo de uma canoa. Deu-lhe qualquer cousa na
garganta, não podia engolir nada. Disso veio morrer".
Outro testemunho sobre Maria Xangô foi dado por Dorival: "Meu pai morreu de
feitiço, foi a Maria Xangô que fez feitiço para ele". Quando Dorival narrava as
fases da doença do pai que atribuía sua morte às artes de Maria Xangô, uma pessoa
disse: "Lembra-se do Oscarlino? Aquele que trabalhava no posto fiscal, como guarda?
Pois bem, certo dia prendeu a canoa de Maria Xangô. Não demorô mucho ele veio morrê.
Coitado era moço mucho bom, mas por que foi besta de se metê a besta?"
Velho soldado do destacamento policial, o Quincas Correia, entrevistado a respeito de
Maria Xangô, há pouco falecida, disse: "Cê tá besta, mermão, eu não, eu
não que iria prendê aquela mulé, não". A narrativa longa do praça reformado, a
respeito de alguns casos de Maria Xangô, foi concluída com o fato recente de
enlouquecimento de um soldado que a empurrou, para andar mais depressa, por causa de seu
passo trôpego de anciã. Continuou o informante: "Alvino aquele cabra da peste, era
um soldado malvado. No dia que fazia um ano que a Maria Xangô tinha morrido, para
comemorá tomô uma bebedera de se matá com o lenço. A bebedera foi tanta, tanta, que
ele enlouqueceu".
"Maria Xangô entregou-se aos soldados porque ela quis", afirmou um informante,
"pois ela tinha forças para se tornar invisível e caso ela quisesse, lá da outra
banda do rio onde ela morava, podia fazer antes um servicinho e matar o delegado que
mandou prender ela. Isso era tiro e queda. Estava nela querer".
Maria Xangô de cuja história de vida não nos foi possível arranjar mais detalhes, pois
havia uma escusa que no fundo era um certo respeito medroso, relaciona-se com o que disse
Lévy-Bruhl: (107) Des sociers peuvent aussi, sil leurs plaît, se rendre
invisibles. Ils savent, au besoin, sélever dans les airs, monter jusqua la
lune, descendre au fond de locean, se rendre au pays des morts et en revenir. Rien
ne leur est plus aisé que de faire mourir un énnemi qui habite au loin, et qui ne se
doute rien, en dressant contre lui leurs batteries magiques, ou même para la seule force
de leur volonté.
Na feitiçaria a magia simpática está presente. Qualquer parte ou objeto pessoal ou que
apenas tocou a pessoa a quem se quer fazer mal, é o melhor elemento para ser utilizado na
magia simpática. Quando nada disso é possível obter-se, é o suficiente fazer um boneco
de cera ou mesmo de pano que ele representará a pessoa a quem se quer dirigir o mal.
Maria Xangô fazia bonequinhas de pano. Onde ela espetasse um alfinete, era ali o local da
doença, por causa daquilo morreria a pessoa. Ela botava sal em cima de um rastro, não
precisava mais nada, a pessoa estava liquidada. Ela tanto sabia fazer "pelas direitas
como pelas esquerdas". Mas, o que ela fazia, ninguém desmanchava. Muitas vezes ela
botava dentro de um garrafa, tampava com madeira que apodrecesse logo na água do mar,
soltava a garrafa no rio, na maré vazante. O rio levava para o mar. Lá no mar, a tampa
com o vento se acabava e a água do mar entrava dentro do que ela fez, daí a razão de
ninguém desmanchar o que ela fazia. Este malfeito era pior do que o que ela fazia com as
areias do cemitério. Quando havia alguma sentinela e Maria Xangô aparecia, já se
sabia que o defunto levava alguma coisa junto para a cova. Ela botava mesmo um objeto, um
fiapo de cabelo, qualquer cousa que ninguém percebesse para ser enterrado com o defunto.
Ninguém tinha coragem de impedir sua entrada na sentinela, são unânimes em
afirmar, embora tivessem certeza de que ela, além de cumprir um ato de solidariedade
humana, cantando e rezando pela alma do morto, trazia um despacho qualquer. Não demorava
muito, outra pessoa era "empacotada"; às vezes estava com saúde, alegre e
morria repentinamente. Era um feitiço de Maria Xangô. Ninguém duvidava.
Além daquelas formas usuais empregadas por Maria Xangô de preparar o malfeito,
outras maneiras há de administrá-lo: na bebida (e nesta se destaca a cachaça, por causa
de seu largo consumo), numa comida, num doce, num cigarro e até num aperto de mão
pode-se transmitir um filtro, um feitiço. Das cousas feitas conseguimos apenas
saber como são administradas, porém, não obtivemos dados a respeito do seu modus
operandi, no organismo ou no psíquico da vítima.
(ARAÚJO, Alceu Maynard. Medicina rústica) |
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