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A ESTRANHA MEDICINA DOS EXCRETOS
O negro nem sempre tinha a
saúde cuidada pelo senhor. Daí lançar mão de tudo que se dizia então favorável aos
males do corpo. A medicina dos excretos dominava as senzalas, principalmente os escravos
que trabalhavam no campo na planta, limpa e corte de cana. Dominava entre aqueles
que trabalhavam nos baguês e na agricultura em geral.
A falta de médico e farmácia era absoluta. Aliás, não se deve estranhar isso não,
porque ainda hoje, mormente na Várzea, onde as usinas enriquecem os seus donos e tornam
cada vez mais miserável o operário rural, as nossas fábricas não se importam com a
saúde dos párias que morrem e que fazem o poder dos industriais. De modo que então,
mais do que agora, o escravo tinha de voltar-se para os remédios que a própria
experiência aconselhava como ótimos.
Assim é que os doentes de olhos, quando não se serviam de cuspo, se utilizavam da
própria urina para lavá-los de manhãzinha. As inchações eram curadas com emplastos de
fezes de vaca, enquanto a sezão desaparecia com o purgante de "batata, cabeça de
negro e urina de menino macho". Se eram as dores de estômago e fígado, tinham lá
sua receita: urina de dois dias, fermentada, além de um pouco de água morna para
temperar.
A impingem era curada pelos negros com o cuspo de quando acordavam e se levantavam antes
do sol nascer. Tinha assim mais força. A bosta de cachorro se tomava em forma de chá,
curando febre maligna, sarampo, aristim. Quando o escravo sofria um talho sangrento lhe
era aplicada bosta seca de burro. Nas feridas purulentas servia o emplastro de esterco de
boi.
Ainda agora se entopem de estrume as bicheiras do gado.
Com a chinica de galinha se curava panarício. Mário de Andrade salienta que ela também
se aplica nas dentadas de gente, "sendo que, além de cura, o remédio mágico
derruba os dentes de quem mordeu", parecendo até catimbó. E por falar nisso, no
caso de uma hemorragia, "tomavase o sangue de palavra" ato que
revestia a solenidade, com sinais cabalísticos e ao qual só recorre em circunstância
extrema.
A ingestão, o clister, misturas, pílulas, pós, emplastros, ungüentos, infusões
tudo era feito com urina ou bosta ou cuspo como elemento indispensáveis e preponderantes.
Para as dores na perna e no baixo ventre, nada com esterco de vaca ainda úmido (os
doentes de apendicite fariam melhor negócio não se arriscar a operações melindrosas),
aplicavam-no envolvido em folha de bananeira. Também servia em forma de cataplasma, nos
tumores testiculares, depois de passar pelo fogo cozinhando com farinha de mandioca.
O negro que sofresse de erispela ficaria na certa se usasse banhos de urina de mulher
grávida. Esses remédios escatófilos não eram discutidos porque os efeitos de sua
aplicação autorizavam a fé dominante. Mordeduras de cobra, lacrau, aranha caranguejeira
se curava era com esterco de bode misturado com banha de tatu. Fazia-se um chá que se
tomava com purga de efeito imediato.
Quando acontecia uma pessoa sofrer uma luxação a velha escrava da senzala vinha com um
novelo de linha e uma agulha, colocando-os sobre o lugar desconjuntado. Então fingia
coser atravessando a agulha no novelo em diversos sentidos, benzendo-se e dizendo em voz
baixa: "O que coso eu? carne quebrada, nervos tortos, já desconjuntado,
atufá". Botava um ungüento no qual entrava a urina de menino e azeite de dendê.
Essa operação de carne quebrada se faz ainda com ligeiras modificações.
Era o negro comumente atacado de desinteria, bouba, espinhela caída, bicho-de-pé, raro
sendo aquele que vomitava sangue. Tudo faz crer que a tuberculose não fazia muita
vítima. O famoso bicho-de-pé se tirava com espeto, faca de ponta ou rucega. E depois se
entupia o buraco com rapé ou cal de parede ou esterco de boi em pó.
Nas primeiras levas de estrangeiros, chegados em meados do século passado, dizem que foi
verdadeiramente lastimável o estado em que ficam galegos e italianos, com os pés, as
mãos, os joelhos, cotovelos, nádegas e até as faces crivadas do terrível parasita. O
bicho-de-pé é originário da África assemelhando-se a uma pulga pequeníssima
provocadora de extraordinária coceira local. Na Paraíba ele vive epidemicamente.
Os excretos exercem influência místicas. A febre aftosa não era então conhecida sob
tal denominação. Mas, pelas informações que temos não podia ser outra peste que, vez
por outra, atacava a criação com os mesmos sintomas. As reses não doentes traziam uma
cruz de cinzas na testa para se livrar da febre mortal. O mais interessante é que o sinal
era feito na manhã da sexta-feira, enquanto a cinza se originava de urina de menino,
esterco de morcego, além de água em que um coxo se tivesse banhado. São influências
demopsicológicas bem caracterizadas. Também para se evitar a varíola naquele dia, isto
é, sexta-feira, o escravo tomava chá de cebola branca temperado com urina de mulher
feita, fazia orações a São Sebastião e atochava os ouvidos com algodão embebido em
azeite de carrapato. O mal afugentava-se.
Aquele que tivesse culto aos astros, sofrendo de linfatite, com os gânglios enfartados,
em vez de tônicos podia "cortar a íngua à lua" que ficava inteiramente bom. E
que não se esquecesse de botar no café ou no primeiro líquido que bebesse de manhã
seguinte um pouco de fezes de carneiro pulverizadas.
Quando o negro se dava ao prazer noturno da caça ia com sua tanga ensopada no sangue ou
excremento de veado, porque assim a caça não se espantava; era surpreendida de cheio.
Aí não existe nenhuma influência estranha, desde que se sabe ser veado um admirável
farejador e que devia também sentir o cheiro de sarro de cachimbo (eis a receita: sarro,
fezes de porco e urina de gente) que o caçador trazia por trás da orelha, não se sabe
para que, talvez para ingerir em pequenas doses. A suposição não é incerta, pois se
sabe que o escravo, em tais condições, se alimentava com farinha, bebia água dosada com
urina nunca deixando de colocar num pau um pedaço de fumo mapinguinho. Isto ia com
homenagem ao sucesso da caçada, embora o cheiro que o caçador desprendia não fosse lá
dos melhores.
E por falar em cheiro, as negras que serviam a mesa da casa grande utilizavam esterco de
boi, cozinhando com folhas de hortelã, ou macaçá, ou manjericão, sabem para que?, para
evitar o excessivo budum dos sovacos.
Vê-se que o boi fornecia o maior e o melhor material para fazer face às necessidades dos
doentes abandonados dos senhores e que tinham na medicina dos excretos uma porta aberta
para a salvação do seus males nem sempre curáveis. As poias de bosta tinham ainda
outras aplicações que se presumiam úteis. Quando frescas as fezes de boi serviam para
os emplastros quando secas para fazer fogo, e, principalmente, para fins industriais pois
que era empregada até para refinação de açúcar nos banguês. Não eram todos os
senhores que se utilizavam delas para tal fim.
O meu informante, na sua linguagem popular, assinalava, "eram os esporas", que
significa dizer, os mais pegados ao dinheiro, os mais fonas, os mais chifres de cabra.
(VIDAL, Ademar. Costumes e práticas do negro. In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro) |
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