
Nas cidades, os castigos de açoites eram feitos
publicamente, nos pelourinhos. Eram colunas de pedra, velha tradição romana, que se
erguiam em praça pública. Na parte superior, esta colunas tinham pontas recurvadas de
ferro, onde se prendiam os condenados à forca. Mas o pelourinho tinha outros usos, além
do da forca. Nele eram amarrados os infelizes escravos condenados à pena dos açoites.
O espetáculo era anunciado publicamente pelos rufos do tambor. E grande multidão
reunia-se na praça do pelourinho para assistir ao látego do carrasco abater-se sobre o
corpo do próprio escravo condenado, que ali ficava exposto á execração pública. A
multidão excitava e aplaudia, enquanto o chicote abria estrias de sangue no dorso nu do
negro escravo...
A palmatória era outro instrumento de suplício muito empregado e suficientemente
conhecido para dispensar qualquer descrição. O castigo dos bolos que se tornara
também um método pedagógico, ainda hoje empregada em muita escola rural do Brasil,
consistia em dar pancadas com a palmatória nas palmas das mãos estendidas.
"Arrebentar a mão de bolos" era provocar violentas equimoses e ferimentos no
epitélio delicado das mãos.
Em alguns engenhos do Nordeste e fazendas do Sul, as crueldades de senhores de engenho e
feitores atingiram extremos incríveis: novenas e trezenas de matar;
anavalhamento do corpo, seguido de salmoura, marcas de ferro em brasa;
multilações; estupros de negras escravas; castração; amputação de seios; fraturas
dos dentes a marteladas... uma longa teoria de sadismo requintado. A conta é infindável.
Havia processos verdadeiramente chineses, como os da urtigas, os dos insetos, o da roda
dágua, a darmos crédito a testemunhos da época.
De um oficial de marinha ouviu o professor baiano Anselmo da Fonseca que "no Rio
Grande do Sul costumavam os senhores fazer atar os punhos de escravos por meios de cordas
e traves horizontais e mais altas do que a cabeça de modo que fiquem os membros
superiores dirigidos para cima, e sobre os corpos, inteiramente nus, untar mel ou salmoura
a fim de que miríades de insetos, como moscas, vespas, etc., os venham ferretear e
pungir!"
Sobre o castigo da roda dágua ainda o professor Anselmo da Fonseca transcreve uma
parte dos debates em sessão da Câmara dos Deputados de 27 de julho de 1871, quando
falava Benjamim Constant:
"Havia mesmo, dói-me dizê-lo máquinas movidas por água, de um outro algoz da
humanidade, com que se arrancavam as carnes desse ente (os escravo) duplamente
desgraçado.
O senhor Coelho Rodrigues Não digamos isto aqui na Câmara.
O senhor Duque Estrada Teixeira Fique consignado este estigma que o nobre deputado
lança à sua nação.
"O senhor Evangelista Lobato- Ele está contando a história do seu país".
A série de instrumentos de suplício desafia a imaginação das consciência mais duras:
o tronco, o vira mundo, o cepo, as correntes, as algemas, o libambo, a gargalheira, a
gonilha ou golilha, a peia, o colete de couro, os anjinhos, a máscara, as placas de
ferro...
O tronco foi instrumento usado em toda a América escravocrata para a contenção do negro
escravo. Como o cepo cubano, o tronco brasileiro consistia em um grande pedaço de madeira
retangular, aberto em duas metades, com buracos maiores para a cabeça e, menores, para os
pés e a mãos do escravo. Para colocar-se o negro no tronco, abriam-se as suas duas
metades e se colocavam nos buracos o pescoço, os tornozelos ou os pulsos do escravos ,
após o que eram fechadas as extremidades com um grande cadeado.
O tronco é um velho instrumento usado em muitos países, para os condenados de todas as
raças, e na própria África os negros o empregavam com fins penais. Depois da abolição
da escravatura no Brasil, o tronco ainda foi empregado em muitas fazendas , para a prisão
e castigo de ladrões de cavalo e de outros delinqüentes.
A finalidade principal do tronco era a contenção do negro escravo turbulento ou que
tivesse cometido qualquer falta. Mas converte-se também num instrumento de suplício se
levarmos em conta a imobilidade forçada que provocava o negro escravo e a impossibilidade
em que ficava de defender-se contra mosquitos, moscas e outros insetos, ou mesmo
satisfazer os atos elementares da vida fisiológica.
Uma variedade do tronco de madeira era um instrumento para fins análogos, todo feito de
ferro... o instrumento abre-se em duas metades, que se fecham por intermédio de um
parafuso numa das extremidades. Há nele buracos grandes e pequenos para os pés e para as
mãos. O vira-mundo era um instrumento de ferro, de tamanho menor, porém com o mesmo
mecanismo e as mesmas finalidades: de prender pés e mãos do escravo.
O cepo consistia num grosso tronco de madeira que o escravo carregava à cabeça preso por
uma longa corrente a uma argola que trazia no tornozelo.
Nesta série de correntes e argolas, estão o libambo, a gonilha, a gargalheira. Libambo
vem do quimbundo lubambo, corrente. Extensivamente é toda espécie de corrente
que prendia o escravo e, neste sentido, está descrito por vários historiadores. No
Brasil, porém, o libambo teve uma significação restrita: serviu para designar aquele
instrumento que prendia o pescoço do escravo numa argola de ferro, de onde saía uma
haste longa, também de ferro, que se dirigia para cima ultrapassado o nível da cabeça
do escravo. Esta haste ora terminava por um chocalho, ora por trifurcação de pontas
retorcidas... um antigo desenho feito por um artista popular alagoano, em 1888, mostra um
escravo, Isidoro, de Pilar, Alagoas, preso por correntes e com um libambo ao pescoço.
O castigo do libambo era para os negros que fugiam. O chocalho que dava sinal quando o
negro andava, queria indicar que se tratava de um escravo fujão. Assim também o libambo
das pontas retorcidas. Dizia-se que estas pontas tinham outra finalidade: era a de
prender-se aos galhos de árvores do mato, para assim dificultar a fuga do escravo.
Outros instrumentos que prendiam o pescoço era a gargalheiras, a gonilha ou galilha, de
que há vários feitios... Das gargalheiras partiam correntes que prendiam os membros do
negro ao corpo, ou servia para atrelar os escravos uns aos outros, nos transportes dos
mercados dos escravos para as fazendas ou, dentro destas, para os trabalhos vários.
Algemas, machos e peias prendiam mãos e pés do escravo. Havia-os de vários feitios,
para escravos fortes, para os molecotes, etc. a peia era quase sempre numa só perna e
prendia-se ao nível do tornozelo. O seu peso impedia que o escravo corresse, ou andasse
depressa, dificultando assim a sua fuga.
Os anjinhos eram instrumentos de suplício, como o vis-á-pression das colônias
francesas e inglesas que prendiam os dedos polegares da vítima em dois anéis que
comprimiam gradualmente por intermédio de uma pequena chave ou parafuso. Era um suplício
horrível que os senhores usavam quando queriam obter à força a confissão do escravo,
incriminado de uma falta.
A máscara era usada para o escravo que furtava cana, ou rapadura, ou que comia terra.
Era uma máscara de folha-de-flandres, que tomava todo o rosto, e vinha presa no occiput
por uns prolongamentos que se fechavam por um cadeado. Apenas alguns orifícios premitiam
a respiração. O escravo com a máscara não podia comer nem beber, sem permissão, e
ficava neste suplício muitas vezes dias inteiros. A placa de ferro prendia do pescoço
onde estava presa a uma golilha. Servia também para indicar o negro ladrão e fujão,como
num exemplo do Museu do Instituto Histórico Alagoano.
A fantasia de alguns fazendeiros provavelmente engendrou outros instrumentos de suplício
que escaparam a esta abolição muitos foram escondidos e enterrados, outros se
deterioraram, muitos foram vendidos como ferro velho...
(RAMOS, Artur. A aculturação negra no Brasil. In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro) |