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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
OS SERTANEJOS

Os habitantes mais afastados são tão indomesticáveis como a natureza selvagem em que vivem. As leis são mantidas muito frouxamente. A sociedade é mais patriarcal do que civil. O dono de um engenho ou de uma criação de gado é, praticamente, um senhor absoluto. A comunidade que vive à sombra de tão poderoso senhor constitui o seu séquito feudal; quando alguns desses homens conspiram, estão em condições de reunir no seu campo dezenas de vassalos e partidários, com o que, antigamente, perturbaram mais de uma vez a tranqüilidade da província com levantes, que deram grande trabalho ao governo.

As rendas da província, por isso, só podem provir das taxas de importação e exportação. É impossível a cobrança de impostos, por não haver cobradores bastante vigorosos para execitá-la. Há poucos anos foi lançado um imposto sobre os rebanhos de gado, e um lançador foi ao sertão a serviço do erário imperial. Foi agarrado, estripado e metido dentro do couro de um boi, com a cabeça saindo para fora. "Se o imperador deseja comer carne", disseram os sertanejos, "que o seu cobrador vá levá-la".

O provinciano pernambucano, quando vem à cidade, deixando o sertão para a sua feira semestral, desenvolve um notável esforço nesse empreendimento. A estrada principal que vai ter à capital passa perto de Cachingá, - asseado lugarejo que fica a duas ou três léguas de Recife. Fica escondida dos olhos do viajante que dela se aproxima por um comprido vale, coberto de laranjeiras e bananeiras. É a última parada dos sertanejos, antes de chegar ao mercado. Já perfez a cavalo uma viagem de doze dias, empoleirado num par de sacos de algodão, de forma quadrilonga, colocados paralelamente aos flancos do animal, seguido de sua tropa de uns doze cavalos ou mulas, carregadas, da mesma forma, de sacos de algodão ou açúcar. Um macaco, com um tamanco amarrado na cintura, vem montado, em lugar do cavaleiro, num dos animais; um papagaio, com sua respectiva dama, num outro; uma arara, com o pescoço bronzeado e uma como que casaca azul vivo, montando ainda outro. Um pelego de couro cru protege as roupas da chuva. Noite após noite dorme sobre a terra, ou suspenso na sua inseparável rede, suspensa entre duas árvores, apenas com o generoso céu estrelado servindo-lhe de coberta.

Cachingá, quieta e silenciosa de dia, torna-se barulhenta à noite; os sertanejos, em suas vigílias, enchem as vendas às centenas. Os primeiros raios da madrugada assistem a uma mistura de homens, cavalos e mulas estrompadas, macacos, papagaios e sacos de algodão e açúcar espalhados pelo chão. A caravana se põe logo em caminho. Cada sertanejo acorda seus animais, enfarda suas cargas, coloca-se atrás de sua montaria, agarra-lhe a cauda, põe um pé na junta posterior do animal, e pula nas suas ancas como se galgasse um lance de escada. Cada animal conhece a sua obrigação – já estando educado para isso – de colocar-se em leu lugar na tropa. Num instante a heterogênea cavalgada desce pelo vale do Capiberibe antes que o sol tenha evaporado as gotas de orvalho, que pareciam brincos pendentes das folhas dos espessos arbustos que se debruçam sobre a estrada. O sertanejo passa adiante, só se descobrindo diante do santo padroeiro de todos os cavaleiros (que está guardado numa caixa de madeira na entrada da ponte de Santo Antônio), e para finalmente, com suas diferentes mercadorias, mais morto do que vivo, na rua do Trapiche.

Pode-se apreciar agora figura do sertanejo. Em sua cabeça traz um chapéus de pindoba, com a forma de um pão-de-açúcar, acostumado a todas as variações do tempo. Sob as abas do chapéu de cada lado cai uma mecha de cabelo, e entre elas aparece, meio sombreado, um rosto magro e bronzeado, de traços portugueses e um olhar misto de curioso e de desconfiado. Veste uma camisa de algodão, com uma espécie de jaleco mal chegando aos cotovelos e desabotoado no pescoço, deixando o peito tisnado a descoberto, o outro caindo até os joelhos. Seus pés estão dentro de alguma coisa que na lista de atigos comerciais a estatística não poderia classificar nem como bota nem como sapatos.

De manhã cedo é a hora de trabalho em Recife. As ruas do comércio de açúcar estão repletas de uma espantosa mistura de cavalos, mulas, burros e sacos de açúcar; os negociantes em açúcar mostram delicadamente as suas amostras; fardos de algodão, cabaras em seu passeio matutino acompanhadas de toda a família; e quitandeiras fazendo seu eloqüente panegírico dos bolos, doces e laranjas do seu tabuleiro. E ainda por cima a enchente de cavalos e nukas carregados que entram pela rua do Trapiche. Os animais deitam-se para descansar, e o sertanejo, fatigado da caminhada da manhã, e antecipando a sesta da tarde, enrodilha-se para cochilar apoiando ao pescoço de sua montaria. Um lenhador, com dois feixes iguais amarrados de cada lado de um burro, rompe à força o seu caminho. É seguido de um vendedor de galinhas montado numa mula, com uma imensa cesta, cujo conteúdo é revelado por compridos pescoços de galinha esticados para fora, entre folhas de alface. As araras e os papagaios são os tenores do movimentado espetáculo, enquanto que as trombetas de meia dúzia de burros são os semitons baixos. No meio dessa Babel de sons, o sabiá – o mais doce da tribo dos cantadores alados do Sul, e rival do tordo e do poliglota do Norte – solta seus cantos apaixonados e melodiosos da janela de sua dona, ao lado de uma igreja toda caiada de branco.

Nenhuma cena de mercado pode exceder em variedade, confusão e interesse a de Recife, na época da safra do açúcar. Antes de meio-dia os atores mudam: os pretos ganhadores, nus até à cintura, correm apressadamente dos armazéns de açúcar para as barcaças, num trote rápido, seguindo o compasso exato de sua barulhenta música.


(KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. P. O Brasil e os brasileiros)

Ilustração de Marcos Jardim

Enfarda – Carrega.

Estrompadas – Fatigadas.

Flancos – O lado do corpo; Parte lateral do homem ou do animal; ilhargas.

Panegírico – Discurso em louvor de alguém; Elogio em geral.

Séquito – Comitiva; Grupo de pessoas que acompanham alguém por dever oficial ou cortesia.

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