Os habitantes mais afastados
são tão indomesticáveis como a natureza selvagem em que vivem. As leis são mantidas
muito frouxamente. A sociedade é mais patriarcal do que civil. O dono de um engenho ou de
uma criação de gado é, praticamente, um senhor absoluto. A comunidade que vive à
sombra de tão poderoso senhor constitui o seu séquito
feudal; quando alguns desses homens conspiram, estão em condições de reunir no seu
campo dezenas de vassalos e partidários, com o que, antigamente, perturbaram mais de uma
vez a tranqüilidade da província com levantes, que deram grande trabalho ao governo.
As rendas da província, por isso, só podem provir das taxas de importação e
exportação. É impossível a cobrança de impostos, por não haver cobradores bastante
vigorosos para execitá-la. Há poucos anos foi lançado um imposto sobre os rebanhos de
gado, e um lançador foi ao sertão a serviço do erário imperial. Foi agarrado,
estripado e metido dentro do couro de um boi, com a cabeça saindo para fora. "Se o
imperador deseja comer carne", disseram os sertanejos, "que o seu cobrador vá
levá-la".
O provinciano pernambucano, quando vem à cidade, deixando o sertão para a sua feira
semestral, desenvolve um notável esforço nesse empreendimento. A estrada principal que
vai ter à capital passa perto de Cachingá, - asseado lugarejo que fica a duas ou três
léguas de Recife. Fica escondida dos olhos do viajante que dela se aproxima por um
comprido vale, coberto de laranjeiras e bananeiras. É a última parada dos sertanejos,
antes de chegar ao mercado. Já perfez a cavalo uma viagem de doze dias, empoleirado num
par de sacos de algodão, de forma quadrilonga, colocados paralelamente aos flancos do animal, seguido de sua tropa de uns doze cavalos ou
mulas, carregadas, da mesma forma, de sacos de algodão ou açúcar. Um macaco, com um
tamanco amarrado na cintura, vem montado, em lugar do cavaleiro, num dos animais; um
papagaio, com sua respectiva dama, num outro; uma arara, com o pescoço bronzeado e uma
como que casaca azul vivo, montando ainda outro. Um pelego de couro cru protege as roupas
da chuva. Noite após noite dorme sobre a terra, ou suspenso na sua inseparável rede,
suspensa entre duas árvores, apenas com o generoso céu estrelado servindo-lhe de
coberta.
Cachingá, quieta e silenciosa de dia, torna-se barulhenta à noite; os sertanejos, em
suas vigílias, enchem as vendas às centenas. Os primeiros raios da madrugada assistem a
uma mistura de homens, cavalos e mulas estrompadas, macacos,
papagaios e sacos de algodão e açúcar espalhados pelo chão. A caravana se põe logo em
caminho. Cada sertanejo acorda seus animais, enfarda suas
cargas, coloca-se atrás de sua montaria, agarra-lhe a cauda, põe um pé na junta
posterior do animal, e pula nas suas ancas como se galgasse um lance de escada. Cada
animal conhece a sua obrigação já estando educado para isso de colocar-se
em leu lugar na tropa. Num instante a heterogênea cavalgada desce pelo vale do Capiberibe
antes que o sol tenha evaporado as gotas de orvalho, que pareciam brincos pendentes das
folhas dos espessos arbustos que se debruçam sobre a estrada. O sertanejo passa adiante,
só se descobrindo diante do santo padroeiro de todos os cavaleiros (que está guardado
numa caixa de madeira na entrada da ponte de Santo Antônio), e para finalmente, com suas
diferentes mercadorias, mais morto do que vivo, na rua do Trapiche.
Pode-se apreciar agora figura do sertanejo. Em sua cabeça traz um chapéus de pindoba,
com a forma de um pão-de-açúcar, acostumado a todas as variações do tempo. Sob as
abas do chapéu de cada lado cai uma mecha de cabelo, e entre elas aparece, meio
sombreado, um rosto magro e bronzeado, de traços portugueses e um olhar misto de curioso
e de desconfiado. Veste uma camisa de algodão, com uma espécie de jaleco mal chegando
aos cotovelos e desabotoado no pescoço, deixando o peito tisnado
a descoberto, o outro caindo até os joelhos. Seus pés estão dentro de alguma coisa que
na lista de atigos comerciais a estatística não poderia classificar nem como bota nem
como sapatos.
De manhã cedo é a hora de trabalho em Recife. As ruas do comércio de açúcar estão
repletas de uma espantosa mistura de cavalos, mulas, burros e sacos de açúcar; os
negociantes em açúcar mostram delicadamente as suas amostras; fardos de algodão,
cabaras em seu passeio matutino acompanhadas de toda a família; e quitandeiras fazendo
seu eloqüente panegírico dos bolos, doces e laranjas do seu
tabuleiro. E ainda por cima a enchente de cavalos e nukas carregados que entram pela rua
do Trapiche. Os animais deitam-se para descansar, e o sertanejo, fatigado da caminhada da
manhã, e antecipando a sesta da tarde, enrodilha-se para cochilar apoiando ao pescoço de
sua montaria. Um lenhador, com dois feixes iguais amarrados de cada lado de um burro,
rompe à força o seu caminho. É seguido de um vendedor de galinhas montado numa mula,
com uma imensa cesta, cujo conteúdo é revelado por compridos pescoços de galinha
esticados para fora, entre folhas de alface. As araras e os papagaios são os tenores do
movimentado espetáculo, enquanto que as trombetas de meia dúzia de burros são os
semitons baixos. No meio dessa Babel de sons, o sabiá o mais doce da tribo
dos cantadores alados do Sul, e rival do tordo e do poliglota do Norte solta seus
cantos apaixonados e melodiosos da janela de sua dona, ao lado de uma igreja toda caiada
de branco.
Nenhuma cena de mercado pode exceder em variedade, confusão e interesse a de Recife, na
época da safra do açúcar. Antes de meio-dia os atores mudam: os pretos ganhadores,
nus até à cintura, correm apressadamente dos armazéns de açúcar para as barcaças,
num trote rápido, seguindo o compasso exato de sua barulhenta música.
(KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. P. O
Brasil e os brasileiros) |


Enfarda Carrega.
Estrompadas Fatigadas.
Flancos O lado do corpo; Parte lateral do
homem ou do animal; ilhargas.
Panegírico Discurso em louvor de alguém;
Elogio em geral.
Séquito Comitiva; Grupo de pessoas que
acompanham alguém por dever oficial ou cortesia. |