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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
OS SENHORES BRANCOS E UMA NEGRA

(…) Na vida embarquei dez vezes. Pois bem. A décima viagem foi igual à primeira. Desde a hora em que pus o pé a bordo até ao momento de o pôr em terra, fui atacado de um mal indefinido, mas atroz. Há naturalmente alternativas para melhor ou pior. O estômago fica sempre embrulhado e a febre não me deixa nunca.

Fruchot prestou-me valioso socorro. Nossos camarotes comunicavam-se, e a cada lamúria partida do meu o antigo camarada corria para o meu lado. No primeiro dia senti horríveis cólicas; estendido na cama, fazia esforços vãos para encontrar uma boa posição, quando escutei altas vozes.

– Uma negra! Uma escrava! Ora essa! É a maior das indecências! Nunca se viu coisa igual, - gritavam com irritação.

– A senhora não é uma escrava. É livre como nós. E já pagou a sua passagem, está nas mesmas condições que os outros passageiros, - replicou uma voz que reconheci como a de Fruchot.

O alarido ia aumentando. Sempre as palavras – negra, escrava, pretensões vergonhosas, cruzavam-se com apóstrofes desprezíveis, orgulhosas, altivas, lançadas pelo meu amigo.

– A senhora ficará aqui, - continuou ele. – E se o seu vizinho se incomoda, que vá comer em outro lugar.

A palavra – cachorra – ressoou então.

Um timbre grave e doce, timbre de mulher, e uma acentuação mole, pastosa como o de um Incroyable do Diretório, que traía uma africana e não uma crioula, feriram meus ouvidos cheios de uma zoada esquisita.

Eis as palavras que o enjôo não me impediu de escutar:

- Ah! ah! o senhor Pé de Cumbo não receou chamar-me cachorra. Pois lhe vou ensinar o respeito que se deve ter às pessoas do meu sexo.

O tombadilho do navio foi sacudido, de repente, por pisadas apressadas que indicavam uma luta. Depois, risadas alegres, dominadas pelo som agudo de uma clarineta. O virtuose tocava, num movimento de marcha, a ária do Tambor Real.

Essa alegria, agravando o meu sofrimento, acabava de tornar o meu estado intolerável. Bati com força na separação de madeira para protestar contra o barulho. Fruchot apressou-se em atender ao meu chamado.

– Que pena que estejas deitado! – disse, mostrando-me uma cara de regozijo. Esta cena ter-te-ia curado, com certeza.

– Somente o repouso poderá curar-me. Faze calar todos esses tagarelas, eu te suplico, e, sobretudo, essa clarineta!

- O que quero é repouso e silêncio, - exclamei, desesperado.

– Se soubesses…

- Não quero saber de nada. Quero paz. Fruchot, meu bom amigo Fruchot, vê se consegues que eles se calem! Esta algazarra vai acabar de me matar.

– Calma, meu amigo. Eles vão calar-se, eles vão calar-se. Ah! ah! excelente farsa! Se tu pudesses ter visto, se…

- Paz! Oh! esta clarineta maldita!

Pouco depois todo o barulho tinha cessado. Os guinchos da clarineta e as risadas.

Soube mais tarde o que se passara.

Entre os passageiros havia um cabeleireiro e um português negociante de carne seca. Longe do meu pensamento, eu, modesto fabricante de fósforos, fazer pouco no industrial e no artista. Direi apenas que a educação desses dois senhores deixava muito a desejar.

Esses indivíduos, Fruchot, uma negra livre e eu constituíamos o pessoal pagante de bordo.

Apenas saímos da baía, tocaram para o jantar. Exceto eu, cada qual acorreu ao apelo. Logo que a negra se sentou à mesa, o negociante de carne seca e o cabeleireiro trocaram um olhar de espanto. Uma negra ao lado de brancos! Era um fato sem exemplo nas tradições coloniais. Houve protestos contra a monstruosidade e o negociante censurou vivamente o comandante a esse respeito.

Fruchot, interessado no debate, tomou o partido da passageira bronzeada.

O negociante, indignado com a afronta feita aos senhores brancos, não guardou reservas e aplicou à negra o epíteto esmagador de cachorra.

Era o mesmo que jogar pedras.

A negra, que até então não abrira a boca, fez um sinal ao meu amigo. Depois dirigiu-se ao negociante, proferindo as palavras que já repeti.

O capitão não podia esconder o seu embaraço. A preta encaminhou-se então gravemente para o negociante de carne seca, que a esperou de pé firme. Era um homem de pequena estatura, magro, seco, mas, como todos os colonos, enfatiados da superioridade que lhe dava, sobre as pessoas de cor, a brancura da pele.

A negra avançou para ele com intenções inequívocas. O português atirou-lhe um olhar desdenhoso que não produziu efeito.

– Vá aprender a viver com os porcos! – berrou ela.

E agarrando o português, levantou-o, apesar de seus gritos, até a balaustrada.

Foi então que o tumulto se tornou ensurdecedor. Pálido de medo, o português sentiu a sua audácia enfraquecer diante do perigo que o ameaçava. A sua resistência desesperada não pudera sobrepujar o vigor da negra. Esta, grande, de compleição robusta, parecia ter nas mãos uma criança. Pendurado na popa da embarcação, o negociante humilhou-se e pediu perdão.

A negra aproximou-o da cara, como teria feito a um boneco de Nuremberg, e percorreu toda a sua mesquinha pessoa com um olhar tão calmo que o fez estremecer. Depois, colocou-o sobre o convés.

– Dê-me o braço!- disse ela tranquilamente.

Não houve que hesitar. O negociante concertava o desalinho da vestimenta, enxugando as grandes gotas de suor que lhe escorriam da fronte. Esforçava-se por sorrir e, curvando o braço, ofereceu-o à sua perigosa inimiga.

A negra dignou-se aceitá-lo. Dirigiu-se afinal para a mesa com Sua Senhoria, o negociante de carne seca.

Durante a conclusão da paz, o cabeleireiro, músico como todos os seus colegas, correra para buscar a sua clarineta a fim de celebrar o vencedor. A força muscular da negra acabava de impor silêncio à voz ruidosa dos preconceitos.

Então, o artista, ameigando a atitude, levou à boca o instrumento e seguindo o par reconciliado entoou a contradança do Tambor Real.

Nada faltava ao sucesso da negra. O português tomou lugar à mesa, e a partir desse momento não teve senão atenções para com a valorosa senhora.


(EXPILLY, Charles. Mulheres e costumes do Brasil)

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