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OS SENHORES BRANCOS E UMA NEGRA
(
) Na vida embarquei dez
vezes. Pois bem. A décima viagem foi igual à primeira. Desde a hora em que pus o pé a
bordo até ao momento de o pôr em terra, fui atacado de um mal indefinido, mas atroz. Há
naturalmente alternativas para melhor ou pior. O estômago fica sempre embrulhado e a
febre não me deixa nunca.
Fruchot prestou-me valioso socorro. Nossos camarotes comunicavam-se, e a cada lamúria
partida do meu o antigo camarada corria para o meu lado. No primeiro dia senti horríveis
cólicas; estendido na cama, fazia esforços vãos para encontrar uma boa posição,
quando escutei altas vozes.
Uma negra! Uma escrava! Ora essa! É a maior das indecências! Nunca se viu coisa
igual, - gritavam com irritação.
A senhora não é uma escrava. É livre como nós. E já pagou a sua passagem,
está nas mesmas condições que os outros passageiros, - replicou uma voz que reconheci
como a de Fruchot.
O alarido ia aumentando. Sempre as palavras negra, escrava, pretensões
vergonhosas, cruzavam-se com apóstrofes desprezíveis, orgulhosas, altivas, lançadas
pelo meu amigo.
A senhora ficará aqui, - continuou ele. E se o seu vizinho se incomoda, que
vá comer em outro lugar.
A palavra cachorra ressoou então.
Um timbre grave e doce, timbre de mulher, e uma acentuação mole, pastosa como o de um Incroyable
do Diretório, que traía uma africana e não uma crioula, feriram meus ouvidos cheios de
uma zoada esquisita.
Eis as palavras que o enjôo não me impediu de escutar:
- Ah! ah! o senhor Pé de Cumbo não receou chamar-me cachorra. Pois lhe vou ensinar o
respeito que se deve ter às pessoas do meu sexo.
O tombadilho do navio foi sacudido, de repente, por pisadas apressadas que indicavam uma
luta. Depois, risadas alegres, dominadas pelo som agudo de uma clarineta. O virtuose
tocava, num movimento de marcha, a ária do Tambor Real.
Essa alegria, agravando o meu sofrimento, acabava de tornar o meu estado intolerável.
Bati com força na separação de madeira para protestar contra o barulho. Fruchot
apressou-se em atender ao meu chamado.
Que pena que estejas deitado! disse, mostrando-me uma cara de regozijo. Esta
cena ter-te-ia curado, com certeza.
Somente o repouso poderá curar-me. Faze calar todos esses tagarelas, eu te
suplico, e, sobretudo, essa clarineta!
- O que quero é repouso e silêncio, - exclamei, desesperado.
Se soubesses
- Não quero saber de nada. Quero paz. Fruchot, meu bom amigo Fruchot, vê se consegues
que eles se calem! Esta algazarra vai acabar de me matar.
Calma, meu amigo. Eles vão calar-se, eles vão calar-se. Ah! ah! excelente farsa!
Se tu pudesses ter visto, se
- Paz! Oh! esta clarineta maldita!
Pouco depois todo o barulho tinha cessado. Os guinchos da clarineta e as risadas.
Soube mais tarde o que se passara.
Entre os passageiros havia um cabeleireiro e um português negociante de carne seca. Longe
do meu pensamento, eu, modesto fabricante de fósforos, fazer pouco no industrial e no
artista. Direi apenas que a educação desses dois senhores deixava muito a desejar.
Esses indivíduos, Fruchot, uma negra livre e eu constituíamos o pessoal pagante de
bordo.
Apenas saímos da baía, tocaram para o jantar. Exceto eu, cada qual acorreu ao apelo.
Logo que a negra se sentou à mesa, o negociante de carne seca e o cabeleireiro trocaram
um olhar de espanto. Uma negra ao lado de brancos! Era um fato sem exemplo nas tradições
coloniais. Houve protestos contra a monstruosidade e o negociante censurou vivamente o
comandante a esse respeito.
Fruchot, interessado no debate, tomou o partido da passageira bronzeada.
O negociante, indignado com a afronta feita aos senhores brancos, não guardou reservas e
aplicou à negra o epíteto esmagador de cachorra.
Era o mesmo que jogar pedras.
A negra, que até então não abrira a boca, fez um sinal ao meu amigo. Depois dirigiu-se
ao negociante, proferindo as palavras que já repeti.
O capitão não podia esconder o seu embaraço. A preta encaminhou-se então gravemente
para o negociante de carne seca, que a esperou de pé firme. Era um homem de pequena
estatura, magro, seco, mas, como todos os colonos, enfatiados da superioridade que lhe
dava, sobre as pessoas de cor, a brancura da pele.
A negra avançou para ele com intenções inequívocas. O português atirou-lhe um olhar
desdenhoso que não produziu efeito.
Vá aprender a viver com os porcos! berrou ela.
E agarrando o português, levantou-o, apesar de seus gritos, até a balaustrada.
Foi então que o tumulto se tornou ensurdecedor. Pálido de medo, o português sentiu a
sua audácia enfraquecer diante do perigo que o ameaçava. A sua resistência desesperada
não pudera sobrepujar o vigor da negra. Esta, grande, de compleição robusta, parecia
ter nas mãos uma criança. Pendurado na popa da embarcação, o negociante humilhou-se e
pediu perdão.
A negra aproximou-o da cara, como teria feito a um boneco de Nuremberg, e percorreu toda a
sua mesquinha pessoa com um olhar tão calmo que o fez estremecer. Depois, colocou-o sobre
o convés.
Dê-me o braço!- disse ela tranquilamente.
Não houve que hesitar. O negociante concertava o desalinho da vestimenta, enxugando as
grandes gotas de suor que lhe escorriam da fronte. Esforçava-se por sorrir e, curvando o
braço, ofereceu-o à sua perigosa inimiga.
A negra dignou-se aceitá-lo. Dirigiu-se afinal para a mesa com Sua Senhoria, o negociante
de carne seca.
Durante a conclusão da paz, o cabeleireiro, músico como todos os seus colegas, correra
para buscar a sua clarineta a fim de celebrar o vencedor. A força muscular da negra
acabava de impor silêncio à voz ruidosa dos preconceitos.
Então, o artista, ameigando a atitude, levou à boca o instrumento e seguindo o par
reconciliado entoou a contradança do Tambor Real.
Nada faltava ao sucesso da negra. O português tomou lugar à mesa, e a partir desse
momento não teve senão atenções para com a valorosa senhora.
(EXPILLY, Charles. Mulheres e costumes do Brasil) |
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