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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
O CAPITÃO-DE-CAMPO

O capitão-de-campo fez-se dentro desse meio de aguda opressão. Geralmente era um tipo possante. Homem corpulento que se encarregava de caçar o escravo fugido. Seu todo bem revelava a desumanidade com que agia na captura dos párias autenticados com o auxílio da memória.

Sem dúvida que o capitão de campo é a figura mais interessante criada pelo regime da escravatura no Brasil e, particularmente , no nordeste, porque tudo indica ser uma como espécie de cangaceiro, obra regional, sem pontos de contatos com os celerados de outras partes, diferentes no trajar, mas bem iguais nos sentimentos inferiores.

Com o seu chapelão acabanado, feições de cabra mal-encarado, o capitão de campo chegava no terreiro da casa de engenho à procura do senhor e, tal como fazem hoje os compradores de garrafas vazias, gritava a bons pulmões: "tem escravos fugidos pra procura?" Em caso afirmativo, recebia todos os sinais do evadido. Não tomava nota, por ser analfabeto, porém guardava tudo de memória, sem nada esquecer, e, já conversado, saía para bater a porta de outros engenhos. Montava o seu cavalo e, levando ao lado um facão e uma garrucha, seguia para lugares de seu conhecimento, onde presumia "achar serviço".

Henry Koster andou por estes lados do Brasil e deu o desenho do capitão-de-campo em colorido.

Efetivamente, o caçador de escravos montava a cavalo para realizar o seu trabalho, trazendo uma espingarda a tiracolo, além do negro à frente, andando a pé. Apenas difere, do que temos conhecimento por informações de venerandos amigos, na parte que diz respeito à condução do negro fugido. Este quase sempre era transportado em burro vagaroso emparelhado com o seu guarda de cara fechada.

Havia, entretanto, outra forma mais rude de viajar com o pobre prisioneiro. Ouvimos de Gentil Lins que no engenho de seu pai, no Maravalha certa vez chegou um capitão-de-campo conduzindo o escravo fugido de nome Manuel Francisco. Vinha de Pernambuco e destina-se a um senhor da Várzea. O negro estava dentro de um caçoá e no outro se achava a grossa corrente que lhe prendia pernas e braços para equilíbrio no dorso do animal; o velho Joca da Maravalha ( João Cavalcanti Lins de Albuquerque) condoeu-se e o capitão-de-campo deu liberdade à presa infeliz. Foi preciso que a corrente se cortasse a cinzel. O negro Manuel Francisco todo inchado, ficou por acolá de doente, vários dias, estendido no chão.

O capitão-de-campo não perdeu vasa. Tratou de receber o quinhão em paga de seu gosto. Apresentava ares de arrogância perante os inferiores, porém muito submisso quando em frente do maioral que não lhe dava confiança, só fazia ordenar e tratá-lo de resto.

E, depois de pôr o negro em liberdade, o seu benfeitor escreveu a chamada "carta de padrinho" muito em voga. Feliz de quem tinha por si o amparo de uma carta de padrinho, que de ordinário começava assim: "Com padre, releve desta vez o castigo...", etc. estava salvo aquele que lograsse uma providência dessas. É conhecido o adágio de que "felizardo do fugido que contasse com a carta de padrinho". O capitão-de-campo este saltava de contente se a sua presa obtinha tamanha graça. Isto porque recebia gorjeta de ambos os lados pelo serviço prestado na faina de polícia amador. Cabra ganancioso, sangue mau, tinha muito de cangaceiro.

Agia o capitão-de-campo de conformidade com os costumes da casa grande. Se conseguia uma dormida, muito bem, se não conseguia, "adeus, até amanhã, se Deus quiser", como na canção carnavalesca. Aventureiro completo amava certamente a profissão que lhe rendia o meio de subsistência. Descansava a cabeça quase sempre pelas moitas de mato com o fim de pôr sentido nos passos de lã por entre as folhas murchas. Tinha sono leve, mal dormia e assim era preciso: tão áspera a vida que levava, cheia de surpresas e de crimes legalizados.

Acontecia conhecer algum negro nos engenhos que visitava, em razão mesmo de seu ofício, perguntado logo por ele quando não o via em derredor. "Fulano, aonde está?" foi fazer isto, foi fazer aquilo, era a resposta. Às vezes, porém, lhe chegava aos ouvidos a informação: "Foi tirar cipó por sua conta". Fugiu, eis o que significava a expressão "tirar cipó". E, com estas palavras, vinham estas outras: "Foi descansar, meteu-se no mato".

Alguns desses negros fugidos iam dormir e comer nas fazendas vizinhas. As suas amásias sempre alimentavam do melhor quinhão que lhes cabia na senzala aqueles que tinham ido tirar cipó . Mesmo que fosse de suas relações de amizade o capitão-de-campo punha o dever acima de tudo, isto é, a sua subsistência a renda para o seu viver de soldado montado. Somente descansava quando o agarrava pelo cós da calça.

Nessa vida de judeu errante, o capitão-de-campo era judeu no negócio, pois ganhava de todos os lados e, ainda por cima, ajuntava o indispensável para "garantir algum imprevisto". Tinha as suas amantes espalhadas por todo canto. Os presentes choviam às escondidas. Além de perseguir os negros, ainda lhes perseguia as mulheres de peitos pulados. Estas corriam para saber notícia do amante evadido logo que avistavam a figura arrogante do capitão-de-campo. Obtinham informações imprecisas e nesse contato ligeiro ficava a marca de uma promessa a realizar-se em futuro próximo. Cediam aos desejos do polícia na esperança de que este se interessasse mais pela captura dos seus maridos e amantes.

Forneciam também dinheiro roubado dos cofres das sinhazinhas com o auxílio de dormideiras provenientes dos cafunés, às primeiras horas mornas da tarde. E se as servas saudosas nada tinham de atração sexual podia ter-se a certeza de que os seus homens que andavam fugidos seriam mais hoje ou mais amanhã encafuados. Ocorrendo, porém, o contrário, o melhor se eram donas de belas formas, podiam rezar um Padre Nosso e uma Ave Maria pela alma de seu apaixonado, pois que ela jamais aparecia.

Enquanto isto, o capitão-de-campo ia gozando os favores da senzala por conta do contrato, sucedendo que a abandonada de tanto esperar acabasse o caçador lhe preenchendo o lugar vago pela deserção de antigos amores. Também acontecia que, quando menos se esperava, lá uma noite surgia o Otelo retardatário disposto a vingança. As tragédias eram freqüentes, e como conseqÜência a cadeia da capital vivia repleta de condenados por homicídio.

Nas fazendas os senhores mantinham uma espécie de caixa para a manutenção dos serviços prestados pelo capitão-de-campo e outras despesas mais ou menos semelhantes. Não havia disciplina nem organização nessa ordem de serviço . tudo marchava à vontade dos acontecimentos. Mas nessa aparente desordem se integrava o destino dos negócios com um equilíbrio completo: a planta, a limpa, a colheita, as obrigações financeiras, a vida da família na casa grande, a senzala, tudo obedecia a um ritimo natural. Este quebrava-se quando acontecia, por exemplo, fugir um escravo, mesmos dos ruins, tanto cavaco dava o senhor no empenho de agarrá-lo, fosse por meio que fosse. Se o momento ou nos dias seguintes não aparecia notícia do evadido, começava então a circular entre os engenhos o bilhete do proprietário indagando de algum capitão-de-campo para ocupar os seus serviços profissionais.

Na sua atividade, o caçador de escravo fugido não perdia tempo, nem lugar para escavar, contanto que descobrisse o paradeiro da vítima. Por ocasião da guerra do Paraguai muitos desses capitães foram à capital no intuito de olhar os recrutados pela força da linha. Queriam surpreender aqueles que procuravam com tanto interesse. Nos recrutamentos que se fizeram, os negros perseguidos aproveitaram a hora de sair de seus esconderijos satisfeitos de enfrentar as incertezas da luta, mesmo que fosse para morrer longe das senzalas , cuja significação econômica e sentimental era a razão de ser da existência que levavam.

Deu-se na provisória o estouro de várias rebeldias. Nesses movimentos revolucionários do primeiro quartel do século XIX o escravo fugido tomou parte. E o capitão-de-campo se infiltrava também nas colunas de combate, à procura da sua presa. Muitos foram aqueles que deixaram a peleja, regressando sob as vistas impiedosas do algoz, montado a cavalo, com o seu chapéu de vastas abas para se amparar da soalheira de verão.

E chegando que fosse, depois de perguntas e reperguntas, sem haver bebido e nem comido, calcanhares rachados de tanto andar, o pobre diabo ainda ia direto para o açoite. Se o senhor recebia a carta do padrinho, suspendia imediatamente qualquer penalidade. Neste caso vinham as promessas de futuros ajustes de contas. Além da possibilidade de ser vendido ao rebanho de Ursulino – ameaça de perspectivas pavorosas.


(VIDAL, Adhemar. Três séculos de escravidão na Paraíba. In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro. 
Ediouro)

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