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O MACACO E O ALUÁ
(Sergipe)
Um macaco, querendo uma vez
fazer um aluá, mas não tendo dinheiro, foi à casa do amigo galo e pediu-lhe para este
vender-lhe meia mão de milho, que ele o pagaria em tal dia e a tal hora. Obtendo a compra
do milho, despediu-se e foi à casa da amiga raposa e pediu-lhe para esta vender-lhe a
mesma quantidade de milho, marcando para pagamento do mesmo, o dia em que tinha também de
pagar ao galo, sendo porém meia hora depois da marcada para este.
Da casa da raposa dirigiu-se o macaco para a morada do amigo cachorro, onde fez a mesma
compra de milho, marcando para pagamento o mesmo dia designado para o galo e a raposa,
porém meia hora depois.
Ainda não se achando satisfeito, foi à casa da onça, a qual por sua vez também
vendeu-lhe o milho fiado, tendo o macaco dito antes de sair que ela fosse buscar o
dinheiro no mesmo dia em que marcou para o galo, a raposa e o cachorro, porém meia hora
depois.
Daí saiu o macaco muito satisfeito e foi para casa onde fez uma grande quantidade de
aluá, guardando-o em um pote. Fez também de uns jiraus uma cama muito alta de deitou-se
nela, amarrando a cabeça com um pano, fingindo estar doente.
No dia do pagamento bateu-lhe o galo na porta e, quando entrou, encontrou o macaco gemendo
muito e dizendo que estava muito doente. Logo que o amigo galo descansou, mandou o macaco
um menino servi-lo de aluá, do qual muito gostou o amigo galo.
Nisto bateu na porta a amiga raposa. O galo ficou muito assustado e com medo, então
disse-lhe o macaco: "Não tem nada, compadre, esconda-se aí debaixo da cama." O
galo escondeu-se, e entrou a raposa, dizendo-lhe o macaco que estava muito doente e
gemendo muito. Descansando a raposa, ofereceu-lhe o macaco o aluá de que ela se serviu,
perguntando-lhe depois que tal o achava. Ela respondeu que estava muito bom, ao que disse
o macaco: "Assim o achou o compadre galo." Aí diz a raposa: "Oh! e este
homem andou por aqui!" Respondeu-lhe o macaco: "Não, há muito que ele já
foi", e apontava para debaixo da cama mostrando o galo. Trava-se uma grande luta da
raposa com o galo, sendo este comido por ela. Quando o macaco viu o barulho dos dois,
gritava: "Ai, minha gente, não me acabem de matar".
Nisto bateu na porta o amigo cachorro. Repetiu-se a mesma coisa, acabando ele por comer a
raposa. Nesta ocasião entrou a amiga onça, que também serviu-se do aluá, e que depois,
sabendo que o cachorro estava debaixo da cama, avançou para ele e o devorou. Acabada esta
cena, foi a onça justar contas com o macaco, o qual negou-se a pagar-lhe, alegando que
ela já lhe tinha comido o aluá, e que além disto estava mais com três animais na
barriga.
A onça ficou muito furiosa e quis avançar para o macaco, mas este deu um pulo e
trepou-se numa árvore. Ela vendo que não o pegava, foi embora jurando vingar-se, e para
isso preveniu todas as onças e reuniu-as perto de uma fonte, dizendo que não deixassem o
macaco ir ali beber água. Este já estava morto de sede e não podendo ir à fonte beber
água, atirou-se sobre uma cabaça que um carreiro trazia em um carro, mas que em vez
dágua vinha cheia de mel.
O macaco não desanimou; lambuzou-se todo de mel, foi adiante onde tinha muitas folhas
secas e esfregou-se nestas. Ficando completamente transformado, dirigiu-se para a fonte,
passando por todas as onças que o saudaram deste modo: "Adeus, amiga folhagem!"
ao que ele não respondeu. Chegando à fonte bebeu água a fartar-se e depois sacudiu
todas as folhas que tinha no corpo e passou na carreira pelas onças gritando:
"Piticau, piticau!..."
A onça, ainda mais furiosa com esta astúcia do macaco, abriu um grande buraco no lugar
por onde ele sempre costumava passar, entrou para o tal buraco e mandou as outras cobri-la
de terra, deixando apenas os olhos e os grandes dentes de fora. O macaco, que desconfiou
da história, muniu-se de uma grande pedra e atirou com ela em cima dos dentes da onça,
dizendo: "Nunca vi chão ter dentes."
A onça morreu e o macaco continuou a fazer suas artes e estripulias.
(ROMERO, Sílvio. Contos
populares do Brasil) |
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