| 1. Características Gerais Os músicos da África negra repetem muito os motivos que, às
vezes, não têm encanto, e em geral, são demasiadamente curtos. Embora seja rudimentar a
orquestra negra, produzindo mais ruído que harmonia, os movimentos dos dançarinos e das
danças e cantos se fazem notados por harmoniosos. Sem dúvida alguma cabe a música e a
dança da primazia nas manifestações artísticas dos negros. Muita coisa do nosso canto
religiosos popular vem do elemento negro. A sua rítmica vinha diretamente da prosódia.
Haveria muita coincidência com a rítmica do cantochão. Ao se meter na nossa formação,
o negro deixou esta rítmica que muito diz também da influência destacar o elemento
africano, conforme já observado em cocos e outras canções populares.
O negro influenciou na formação de danças e cantos. Trouxe-nos também os seus
instrumentos que se congregaram na nossa orquestra popular, principalmente nas danças
puramente africanas em que são imprescindíveis e a que muitas dão nome.
2. Danças
As danças têm um caráter importante na vida dos
negros, como em geral de todos os povos de civilização atrasada. São elas que fazem o
que Deniker chama la joie en comum . Motivo para reunir as tribos os grupos de
indivíduos sem escolha de sexo, refletem um espírito coletivo, uma solidariedade.
Um sacrifício da individualidade para uma só comunhão de idéias. Uma disciplina do
pensamento. Pelas danças refletem os povos seus sentidos de sociabilidade reunião social
que elas são, e, sobretudo, seu espírito religioso.
Aliás, neste ponto é que é interessante observar a música afro-brasileira. Sua parte
religiosa, entre nós é possivelmente a mais curiosa a estudar. O sentido do ritual, a
significação dos passos, o bamboleio do corpo, da queda para a direita ou para a
esquerda.
A dança, principalmente, que os negros nos trouxeram com caráter religioso é que se tem
mantido na mais rigorosa pureza. Observa-se isso assistindo a um toque.
Observação, aliás, fácil. Porque os negros quando realizam a sua cerimônia nada
percebem do mundo exterior. Espiritualizam-se. O seu interior domina o ambiente e
lhes orienta o desenvolvimento da dança.
São estes motivos religiosos do africano que se têm mantido mais integralmente puros.
Fernando Ortiz, estudando a influência negra na música de Cuba, confirma lá o que
observamos aqui. Escreve ele: "... la mayor parte de la música que se conserva
exenta de deformaciones, es de caráter religioso, viva aun, principalmente en esos ritos
de los negros lucumis y ararás y en las cerimonias de los nenigos".
Mas os negros influenciaram também nas músicas profanas. As danças populares mais
caracteristicamente nordestinas nos vieram do negro. São as que mais se fizeram ao
contato da terra e da gente. As danças nascidas no nordeste são: o coco, dança
socializada, o quilombo, dança dramática, o samba do matuto, próximo da dança
dramática e transição do maracatu, e o frevo, dança generalizada. Outras muitas com
caráter nordestino também foram no entanto transplantadas de outras terras. Quer negras,
quer de influência índia ou portuguesa. Assim o maracatu, os congos, outras danças que
não são legitimamente nascidas no Nordeste embora nela existam e floresçam.
a) O coco. O negro foi quem fez nascer o coco, parece até que sem querer
Gilberto Freyre assentou o nascimento do coco. Diz ele, na Casa Grande & Senzala,
referentemente às festas de casamento , de batismo, etc.: "Danças européias na
casa grande. Samba africano no terreiro".
O coco nasceu daí: desse samba africano referido por Gilberto Freyre, dançado por negros
e mestiços que compartilhavam da alegria vinda da casa grande, foi esse samba
misturando-se com outras danças. Essas danças se iam chocando. Negro mais índio; negro
mais português; português mais índio.
O coco possuiu lembrança de índio. Mas, o domínio do africano é tão maior que, sem se
observar detidamente, não se enxerga a influência bugre.
Há ainda quem dê coco como integralmente indígena. Justificando esse tese, os seus
defensores expõem que os índios faziam as suas danças em círculo sapateando, etc.,
semelhanças estas que há no coco. Este nasceu mais foi do negro nos dias ruidosos de sua
alegria na senzala, derretendo-se pelo engenho todo até a casa grande quando participavam
do alarido prazeroso dos seus senhores.
O coco nasceu em Alagoas opinião esta ainda não contestada. Depois se estendeu a todo
nordeste. O notável psicanalista J. P. Porto Carrero quando estudante, de pasagem por
Alagoas, assistiu a um coco, dançado no arrabalde de Bebedouro, e chamou-o o
"celebrado coco de Alagoas". E acrescentou que também é pernambucano mas ali,
(referindo-se a Maceió) se dança "com mais fervor, direi mesmo com algum rito de
religião tradicionalmente venerado".
Confirmava assim o que mais ou menos na mesma época, escrevia Duque Estrada: estava o
coco tão radicado nas Alagoas que "até nas casas de primeira sociedade de Maceió
não raramente se improvisam essas funções populares". Este mesmo escritor assinala
que se sentiu atraído pelo "tradicional baile de coco alagoano, muito mais
característico e mais tradutor dos costumes do norte que os celebrados descantes da
Bahia, monótonas melopéias entoadas em torno de um tema eterno e invariável: o louvor
do Bom Jesus ou do Senhor do Bonfim."
Os negros transformaram o seu samba no coco sem caráter estritamente africano e com
influência das casas grandes, fazendo uma dança que todos pudessem dançar sem se sentir
que aquilo era negro. Feria o seu preconceito. Feito ao senhor de uma evolução de raça,
toda cheias de quês pitorescos e de choques culturais, pegou o coco parte de uma e de
outra. Do negro maior quinhão. Isto mesmo porque até a plasticidade que se nota
em toda a sua evolução ele herdou do negro.
O fator étnico que concorre para a formação do coco, não é só o negro puro. Sabe-se
que os velhos senhores de engenho, depois de comprar suas remessas de Angola ou de Guiné,
viam essas se reproduzirem no desbragamento sexual das senzalas. As negras viviam de
barriga cheia; os filhos de família, criados soltos, apreciando aquela liberdade que lhes
dava o regime escravocrata eram uns verdadeiros pais de chiqueiros, os homens de família
viviam nas camas ou nas esteiras de pipiri das escravas. Por tudo isso, que era mesmo
incentivado pelo instinto multiplicador do senhor de engenho, desejando numerosa
quantidade de escravos (demonstração de riqueza), aumentava assombrosamente o número de
negros e mulatos. Iam nascendo e se desenvolvendo nas senzalas. Às vezes, não raro,
subiam à casa grande onde cresciam como da família, servindo de companhia ao
sinhô-moço. Um filho de escravo perdido, por aborto ou morte, era um abalo na fortuna do
senhor. Era de se ver o escarcéu que um proprietário de escrava grávida fazia por tal
coisa. Perder um escravo por aborto então!
Ora, esses subprodutos multiplicados, iam formando-se nos engenhos. Aí misturavam a
língua embaralhando palavras portuguesas com africanas. Foi mais mesmo desses subprodutos
que nasceu o coco. Menos nostálgicos que os seus antepassados avô ou mesmo pai -
se chegava, mais à alegria lusa da casa grande de que participavam com gozo. Dançarinos
em que houvesse um misto das outras gentes. Em que pudessem também tomar parte sem sentir
que estavam dançando dança negra. Dessa alegria das senzalas, desse choque de dança e
canto, nasceu o coco.
O coco tem um ritimo muito variado, que ás vezes vai de cantador a cantador. Muitas,
portanto, são as formas. Tem o agalopado, sem número certo de pés, o salto antigo, já
pouco usado, o de entrega, o tapado, o remado. Dois cantadores alagoanos criaram formas
interessantes: o negro Jacu, de Viçosa, o tranquiado, e o Manuel Catuaba de Anadia, o
dobrado.
b) Quilombo. Esta dança dramática pertence ao ciclo histórico colonial
na nossa formação demológica. Os quilombos representam a luta entre os negros foragidos
que procuravam abrigo no quilombo dos Palmares, e os indígenas que os encontravam, essa
tradição a respeito da dança. Tem se mantido sem influência degenerativa de sua
formação e se representa sempre nas festas do Natal. Escasseando aos poucos tende a
desaparecer completamente.
É também originalmente alagoano, não se tendo irradiado da Bahia para o Nordeste, como
quer Melo Morais Filho para as nossas danças.
Viçosa, cidade do interior de Alagoas é um dos poucos lugares onde ainda se encontra o quilombo
dançado com toda pureza e originalidade. Na festa do Senhor Bom Jesus do Bonfim é
costume ele aparecer. O rei, trajando gibão e calções brancos e de manto azul bordado,
de coroa dourada e longa espada, dirige as danças dos negros ao som de adufos ,
pandeiros, ganzás e mulungus. Depois chega a rainha, vestida de branco. E os cantos
prosseguem até que cheguem os caboclos, trajando tangas e cocar de penas e palhas,
armados de arcos e flechas. Começa o combate. De um lado os negros, de outro os caboclos.
Estes dançando e cantando o toré, música selvagem, com instrumental monótono, rude
atacam os negros. Era o aceso da luta.
De um lado:
Dá-lhe toré, dá-lhe toré
Faca de ponta não mata muié
E de outro:
Folga negro
Branco não vem cá
Se vier
Pau há de levar
Termina a luta com a vitória dos caboclos subalugando o rei e os guerreiros negros. O quilombo
é cercado e destruído, e os negros vendidos. Como se vê tudo procura mostrar a luta
entre os negros palmarinos e os guerreiros coloniais com os seus índios, os paulistas de
Domingos Jorge Velho, as tropas de Bernardo Vieira de Melo e Sebastião Dias. O quilombo
tende a desaparecer e com ele uma das mais legítimas expressões da música popular no
Nordeste.
c) Samba do matuto. Quase já dramatizado em dança quer me parecer
também uma coisa bem do Nordeste. Pelo menos apresenta cantos mais chegados às coisas
nordestinas. E mesmo o seu jogo de formas melódicas, está bem impregnado na música do
Nordeste. Nasceu das horas de divertimento de escravos trabalhadores que se encontravam
mais com os índios. Foi do maracatu que transitou a influência do negro para o samba do
matuto. Outra coisa que concorre para dar ao samba do matuto esse caráter de divertimento
de escravos trabalhadores são os cantos de usina que , em geral. Fazem parte dele.as
cantigas são sempre lembrando os trabalhos do dia, os acontecimentos que se deram, etc.
d) O Frevo. No frevo é onde melhor se apresenta a influência do ritmo
africano. Ritmo sincopado quase violento mesmo, puramente negro, o frevo é
característico. É uma abundância de ritmos sem limites. É uso de síncopa forte e até
violento. Nas marchas dos clubes carnavalescos o ritmo do frevo, ritmo verdadeiramente do
nordeste, está melhor acentuado. É preciso antes de tudo frisar um ponto: a diferença
entre a marcha do Sul e a do Nordeste. A do Sul se marca por quase sempre descendente,
coisa, aliás, muito notada na música brasileira. A do Nordeste é mais vibrante (Quando
falo em marcha do Nordeste me refiro, em particular, ao frevo). Mais sensual. Animada de
um sabor tropical.
Dão ainda ao frevo o nome de passo. Passo se exemplificaria melhor ser o ritmo que
movimenta o povo, dançando as marchas carnavalescas. O frevo, o conjunto desses passos.
Os passos é que são vários: dobradiça, chã de barriguinha, tesoura, evoluções
aviatórias, contorsões, etc. esses ritmos são os mais curiosos possíveis.
Infelizmente, os compositores ainda não pegaram com habilidade os ritmos do frevo. Há
neles muita influência das marchas do sul. Em alguns se observa o ritmo do frevo somente
na introdução. Nas partes de canto geralmente a influência sulista absorve o
característicos nordestino. Justamente porque o frevo não tem canto. É dança pura.
Os ritmos do frevo são inteiramente novos, originais, na música brasileira. O seu papel
na música do Nordeste destaca-se justamente pela sua vibrante intensidade. O seu desenho
melódico muitas vezes acentuadamente sincopado, traz uma descendência de notas um tanto
curiosas. O seu relevo está em que depois de descer acentua a nota dentro da tonalidade.
Esta forma é abundante no frevo.
O frevo vive menos nas músicas dos compositores e mais, muito puramente nas ruas do
Recife ao som das marchinhas dos clubes carnavalescos: dos Lenhadores, dos Vassourinhas,
dos Pás, dos Toureiros.
3. Orquestras
Os instrumentos negros em sua maioria, são de percussão.
Sua lista é longa, e Manuel Querino e Luciano Gallet já enumeraram os principais e mais
conhecidos.
É preciso salientar, como o fez Pereira da Costa, que os instrumentos usados pelos negros
eram fabricados por eles.
Delafosse, em apreciação sobre a música negra, diz não colocar os tambores, caracas e
trompas na categoria de instrumentos de música, argumentando que servem somente para
ritmar a dança a que os negros são tão afeiçoados. Consideramos porém, os tambores
instrumentos e para tal temos a autoridade de Nina Rodrigues a afirmar, "o tambor é
o instrumento musical por excelência dos pretos". Para Delafosse os instrumentos que
acompanharam os cantos negros são o xilofone africano e diversas classes de harpas e
guitarras de riquíssimas gama de semitons.
Com os instrumentos característicos de sua música puderam os negros organizar as suas
orquestras típicas. As orquestras negras por excelência são as que acompanham as suas
danças religiosas, e daquelas em que o negro influenciou duas se destacam. Uma é a
carapeba, orquestra típica de instrumento de metal e percussão. Outra ainda mais curiosa
é a chamada esquenta-mulher, que muita gente confunde com a carapeba. Compõe-se
geralmente, de três pífaros e um zabumba. Possui músicas características já
tradicionais afora o seu repertório de ocasião que é interessante pelo mesmo ritmo
usado para todas as músicas.
(Manuel Diegues Júnior, In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro) |
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