Ir para a página principal


Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente


Folhinha

Arquivos

Outras Edições

Busca

Retornar para Festança
Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
FANDANGO

Tia Chica estava pimpona naquele dia.

E com razão.

Depois de algumas semanas de trabalho resolvera inaugurar festivamente os novos galpões e ramadas anexos ao seu boliche.

A pulpeira era uma velhusca paraguaia, de origens duvidosas, de quem diziam, sem resguardo, que tinha uma panela de dinheiro enterrada e que havia posto a perder, com viajantes a escoteiro, e a troco de patacões do Império, as duas filhas do agregado da estância em cujos campos morava ali nos Banhados. De tais arreglos reuniu alguns cobres e instalou, há anos, nos distrito, o popular boliche que se anunciava ao longe sob o contínuo ruflar da bandeirola branca sacudida ao vento, na ponta dum bambu.

Dia e noite enchia-se a casa de empregados das fazendas próximas e de viandantes que ali estacionavam horas a fio, matando o bicho, contando aventuras e gauchadas, histórias de carreiras, de rinhas e pelejas, misturadas com episódios românticos de amor, com lances heróicos da revolução de 93. E muitas vezes se travavam lá dentro discussões violentas, terminando quase sempre por cruzas de ferro, agressões a facão e disparos de armas...

Era sempre assim. Mas de quando em quando, principalmente aos sábados, um baile, por desfastio. Nessas ocasiões a venda tomava outro aspecto, outra animação, outro proscênio ruidoso. Afluíam ao local conhecidos e comadres de todos os recantos da sesmaria.

Aquela tarde, porém, o fandango ia tomar o caráter de grande festa. Lá estaria o chinaredo vizinho, muchachas experimentadas nos balaios do sul, nos rasgados e volteios afrodisíacos de que Chica era perita, apesar de velha. Aos presentes não faltariam assados com couro, matambres recheados, bebidas, doces e outras iguarias a mais, preparadas de véspera, em abundância.

Os convidados começavam a chegar aos grupos, de todos os lados, a cavalo ou a pé, e à maneira que paravam à frente, entre as mangueiras e ramadas iam boleando perna, soltando caalos, recolhendo arreios sob as atenções de Chica, a correr de um lado para outro, dando ordens, determinando serviço, enquanto alguns pares já enlaçados esperavam os primeiros compassos musicais da viola ou da concertina para darem começo às danças populares da campanha.

- Vão se achegando no mais, moçada guapa! Nada de cerimônias no meu rancho...

E todos alegres, entravam um a um para a larga varanda nos fundos da venda dubiamente iluminada por um sujo lampião belga.

Joca, um dos convivas, ao avistar o companheiro esperado bradou, à porta:

- Cuê-pucha! Vancê pelos modos ia perdendo a festa!... apeie-se e vá soltando o flete que o fandango está aceso que nem fogo nas macegas...

- Que culpasse o caalo, da embroma. Estava maceta das duas patas. Um estrupício!

Boleou-se logo Zeferino, caboclo novo e baixo que há tempos estivera envolvido num entreveiro violento com os inspetores de quarteirão, saindo incólume. Desd’isso começaram a lhe respeitar com valiente, cuja fama crescia para uns ao passo que outros lhe chamavam à queima-roupa de sotreta.

Zeferino tinha, realmente, à beira dos mostradores extenso cadastro de peleias e de impertinências de valentão. Por tais fatos tia Chica olhava-o submissa, com verdadeiro respeito e temor, não o recusando nunca nos bailados, embora reconhecesse a sua disposição para armar tempestades e acabar com os prazeres das brincadeiras.

Ele próprio se tinha na conta de chiru quebra no ferro. Fazia alarde de seus pendores e, de quando em vez, em quadrinhas anônimas, sacudia o pó das suas arrogâncias:

Quando o ato a cola do pingo,
E ponho o chapéu do lado,
E boto o laço nos tentos,
Por Deus, que sou respeitado!

Eu sou índio polvadeira
Como potro no palanque;
Quando entro num salseiro
Ninguém há que me desbanque!

- Gosto disso, ermão. Gente maula não é comigo...

E continuava:

Eu sou um quebra largado,
Por Deus e um patacão
E se duvidam perguntem
À moçada do rincão!

- Aí caboclo! Não afrouxa o garrão!...

Não há quem me desbanque,
Aqui nem noutro lugar.
Quem quiser que exprimente,
Quem procura há de achar!

(Risos, cochichos, dichotes, chufas)

Ser monarca na coxilha,
Foi sempre meu galhardão;
E quando alguém me duvida
Descasco logo o facão!

- No fundo aquilo é só pêta, - disse Manduca, com desprezo, arrancando as primeiras notas da gaita.

O fandango lá dentro crescia pouco a pouco de animação. Estrugia na nova varanda de pau-a-pique a gargalhada feliz dos convivas. Formavam todos uma mescla confusa de brancos, caboclos e chinas, enlaçados na violência lasciva das habaneras e polcas, em saracotes destros e leves, com requebros de rins, balanço oscilante de quadris, ao arrastar monótono das "chilenas" marcando o compasso das marcas. Na ramada contígua a gaita gemia dolenciosos acordes nas mãos ágeis de Manduca, enquanto Chico Viola exausto, estirado de bruço, descansava no verdeio do capim sob os remoques inofensivos da moçada.

- Ora chô-mico!... Este flanco não qué vê... Arriô mesmo a muchila que nem matungo abombado!...

Outros ditos pilhéricos choviam sobre o velho tocador dormindo profundamente sob a branca carícia do plenilúnio. A noite estendia-se num cicio branco de aragem numa tépida maciez de veludo envolvendo o pampa imobilizado, os aclives e declives das coxilhas, os lençóis das planícies, num largo abraço caricioso, quebrado de quando em quando pelo despertar dos quero-queros, anunciando algum viandante que se aproximava ao tranco, assobiando, ou melodiando para si, na dolência das horas mortas, alguma toada crioula aprendida por certo na rústica mas feliz infância longínqua, na existência nostálgica do rancho...

Nada mais se ouvia na solidão, no deserto, no ermo adormecido do campo. Apenas, lá dentro da taberna, em todas as suas dependências, continuava o mesmo ruído, misturado ao zoar da sanfona roufenha distribuindo cadência aos pares agitados. Chinas e chinocas, de risos à flor dos lábios avançavam para os seus preferidos aos abraços, aos pulos, agoniadas pelos primeiros vapores eróticos das bebidas. Sucediam-se, animadas, as contradanças. Rodopios, sapateios, agachadas felinas, ora breves, ora demoradas, mas sempre na cadência da música amorosa, agitavam febrilmente a casa, e, todos, a um tempo só, entrecortando ais e suspiros perdiam-se, voavam no largo varandão da pulpeira, na langue efervescência dos bailados. Os homens, uns em mangas de camisa, outros de ponchos e palas atirados para as costas, de sombreiros de aba larga enterrados na cabeça; outros ainda de xiripá, de largos tiradores de couro de lontra, ao constante ruflar dos lenços colorados, assim, em plena liberdade como se estivessem nos seus ranchos ou nos galpões das fazendas, iam e vinham, ágeis e coleantes, em procura do par perdido, propositalmente, em meio do varandão envolto em densa poeira. Variavam também as mulheres de uma a outra no jeito dos trajes. Fitas de mil cores, cores vivas e berrrantes, pendiam em grandes topes de blusas de cassa, das gandolas de germânia, deixando ver, nas crespas cabeleiras negras, amarradas em coques, com ligeiras franjas a cair pela testa, galhos espetados de arruda, alecrim e manjericão miúdo. Os acordes da música se evaporavam na alegria da noite clara. Poucos eram os intervalos de descanso para a gaita de Manduca; o fole arfava com desespero vencendo todas as dificuldades, enquanto os improvisos, as quadras, as oitavas e as décimas borboleteavam à flor da boca dos trovadores em toadas ora sentimentais, melodiando o desprezo das tiranas, o travo das desditas, ora alegres e entusiásticas decantando audácias e valentias dos obscuros gaúchos d’antanho, velhos e heróicos patriotas que à pata de cavalo conquistaram e consolidaram a gleba cobiçada pelo estrangeiro audaz... Era uma poesia nova que surgia, cristalina e vibrante, entre sonhos cavalheirescos de uma idade de iniciação, liricamente sentimental, bela e gloriosa. A rapsódia gauchesca encerra assim toda a história aventureira da raça. Ela é a glorificação do homem fronteiro cuja alma audaciosa e nobre descamba até o sacrifício e é capaz dos mais alevantados cometimentos.

Na ramada ao lado, dois piazinhos atentos assavam, em valetas, outra gorda terneira mamona, carneada momento antes para regalo dos novos convivas que chegavam. Corriam de mão em mão as cuias de mate, de cabeça em porongo com o delicioso amargo de erva barbaquá. De vez, para variar a canguara, lá vinha para as morochas altaneiras uma garrafa de licor de pêssego. E nos agrupamentos dos pares, surgiam torneios de frases ambíguas, nesse calão que não é natural na simplicidade patriarcal das estâncias mas que é um patente reflexo da influência de elementos intrusos. Despachadas e arrogantes, as mulheres que a princípio pareciam ariscas e esquivas, fraseavam ofensivos e bárbaros palavrões. Diante delas nenhum taura ficava sem resposta. – Que se agüentassem; era toma lá e dá cá – diziam. Quanto ao medo de uma reação só temiam o Zeferino que, segundo se falava, não era de seca. Mercê as suas amabilidades refugavam, desconfiadas, o carinho do caboclo, afastavam-se dele, fugiam.

No campo, a claridade do luar destacava entre as macegas de maria-sol e as touceiras de barba-de-bode, vultos a se rebolcarem acossados pela violência do cio, como os animais. Saíam os pares, uns para frente, outros para os fundos da venda, pretextando cansaço. Voltavam depois, e o baile prosseguia na mesma animação de começo, com igual alegria e ruído.

Zeferino, lá dentro, acocorado a um canto fumando um crioulo, não perdia vasa para disparar motejos. Joca acompanhava-o no mesmo palavreado chispante contra o mulherio que de sobejo conhecia a força atrevida daqueles sem-modos que só serviam para arruinar os brinquedos...

- Oigalê! Eguada linda...- chasqueava o Joca, contemplando com olhar lascivo o requebro das morenas apinhadas pelos cantos que nem carrapato no gado.

- Chê: bombeia no mais a cara daquela potranca baia passarinheira – advertiu Zeferino, chamando a atenção do seu amigo.

- Mui miche – respondeu o outro.

Os companheiros, sentados, riam-se das largadas e dos desaforos dos dois trabusanas.

- Tem espírito esse cuera!

- E esta que aí vem c’uns modo de potranca sura!...

- Pois que seje, seu cara de terneiro mamão...

- Havemos de vê... Ficasse sabendo que chinoquinhas flacas, sem caracu, não formam em festas.

- Sai, tinhoso!...

E Antônia Gorda, comprando a parada da outra, adiantou-se para o caboclo:

- O que não forma é gurupi sem tapete... Fosse permero endireitar as crinas...

Zeferino não gostou. Mudando de posição, resmungou para si, entredentes: - que por uma daquelas e outras, la marcaria na paleta.

Os pares se cruzavam em entreveiros cerrados, entre gritos delirantes, dominados por intenso entusiasmo, procurando cada um marcar o compasso a seu modo, com a palma das mãos, com a dura pancada das botas no chão seco. Assim ia a mesma luta, o mesmo avança, até o final de cada marca, sem que ninguém, jamais, homem ou mulher, se acobardasse pelo excesso.

Chica, visivelmente entusiasmada, não se continha em repisar o mesmo estribilho:

- Aí, moçada! Ansim me gusta... Nada de cerimônias no meu rancho!

Depois de uma schottisch-lasqueada, alguns peões da fronteira resolveram cair no airoso piricon aprendido em dias divertidos de Corrientes.

Chico Viola já estava de pé, de instrumento em punho dedilhando recuerdos do seu tempo quebra de moço quando ninguém lhe pisava no poncho.

- Tempos lindos moçada! Havera de vê... Nunca encontrei tonante que me quebrasse! Agora, não, tou velho; um flaco; matungo pesteado... Inté dá pena!

E nos seus olhos fundos, num vivo clarão de fogo, brilhou a saudade do tempo que se foi, saudade melancólica do passado, se reanimando por estranhas reminiscências naquela quase mumificada figura de veterano do Paraguai, caldeada ao fogo das guerrilhas e das cargas inimigas. Empenhado desde a sua primeira mocidade, no perigo da guerra, na vida dos acampamentos, aprendera assim a decantar a Pátria distante, de quem voluntariamente se apartara, embora amordaçado pela idéia de que nunca mais tornaria a vê-la na grandeza de suas imensas campanhas verdejantes... Foi, e voltou! Era ainda o mesmo homem desprendido e bom, o mesmo Chico Viola sempre rogado com simpatia para todos os divertimentos ali nos Banhados.

Tocava-lhe então quartear Manduca na música da acordeona. Os pares se agitavam em tumulto. Iam agora dançar ao ar livre, no gramado à frente da venda. Às vezes, entre eles cortando a cadência das passadas, aparecia tia Chica pedindo permício, oferecendo um amargo ou um trago de cana da legítima como afirmava garantindo a excelência do produto.

Zeferino repelido pela Josefa, do posto do Água-Pé, andava pelos cantos a repetir valentias e que não agüentava carona dura. Contentava-se em atirar dichotes, principalmente às que o recusavam para as danças. Negaciava o momento propício e vingava-se atirando impropérios ferinos. Conheciam todas as suas manhas. Depois de horas inteiras tentando uma a uma, sem resultado, voltou-se para Antônia Gorda, decisivo:

- Que visse bem... A manada estava refugando pastor mas ela era sua, ficasse sabendo...

Antônia recusou-se sem delongas:

- Que ultimamente não podia; que ele se conhecesse permero; que se enxergasse; que não fosse ofricido...

A justificativa da escusa era uma insolência frente a frente. Zeferino não se conteve: pegou-a pelo braço num ímpeto de violência, trazendo-a para junto de Joca.

- Olhasse bem – disse o campeiro – nunca fui chiru de meias tricas e bobages... Que pensava dele uma china reúna que dormia c’os baianos na cidade... Traste ruim!... Se duvidasse o rabo de tatu estava ali mesmo pra uma vaca daquelas. Visse bem – acentuou – e não se metesse, não se passasse...

Zeferino quis ainda continuar o sermão, mas a mulher num violento esforço de desprendeu de suas mãos possantes, e instintivamente, com os olhos a saltarem das órbitas, numa explosão de pudor ofendido que nasceu ali, momentâneo, brusco, impetuoso, vibrou-lhe a mão fechada no rosto!

Houve por toda a sala um reboliço geral. Ele, porém, não reagiu; não teve jeito; olhou-a murcho, sob um mal disfarçado sorriso amarelo e afirmou "que estava caçoando, que aquilo era um brinquedo..."

As outras mulheres, vítimas de todas do guasca atrevido, aplaudiam, estrepitosas, a audácia de Antônia.

- Era isso mesmo que ele estava querendo, comadre Nica... Foi bem feito!

Antônia deu as costas, desdenhosa:

- Quebrei o corincho desse maula!... Comigo é assim. Não sou brinquedo de bagual...

Ainda no outro dia lá estavam os pares alegres, nos mesmos requebrados, na vertiginosidade das contradanças, nos sapateios cadenciosos dos piricons, desfigurados pelo excesso, iluminados pelos primeiros raios do grande sol pampeano surgindo triunfante, por entre as grandes rosas vermelhas do nascente. E no meio daquele quadro em desordem rompendo à luz da manhã, destacava-se com sua encarquilhada velhice, sobraçando a gaita, a figura babara e mutilada de Chico Viola, o veterano da memorável campanha paraguaia...


[1924]
(CALLAGE, Roque. In RIEDEL, Diaulas (org.) O pampa e os cavaleiros)

Este conto foi extraído do livro Rincão; cenas da vida gaúcha, publicado em 1924. Sobre motivos rio-grandenses escreveu ainda Roque Callage os livros de ficção Terra Gaúcha(1914) e Quero-Quero (1927).

Topo

Jangada Brasil © 2000