Ir para a página principal


Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente


Folhinha

Arquivos

Outras Edições

Busca

Retornar para Festança
Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS

Existe no Rio de Janeiro, como em outras cidades do Brasil, uma pequena capela consagrada a São Jorge considerado o defensor de Portugal e do Brasil. Essa capela, no dia da festa do corpo de Deus torna-se o ponto de reunião do povo, que, desde nove horas da manhã, aflui para ver sair o cortejo grotesco acompanhando a imagem do Santo, de tamanho natural e feita de papelão coberto de pano. Colocam-na sobre um belo cavalo branco, conduzido pela rédea por um picador da Casa Imperial. Mas o que mais diverte o enxame de mulatinhos e negrinhos que o acompanham são os foguetes que o negro fogueteiro, marchando à frente, solta durante o trajeto da capela de São Jorge até a capela Imperial.

É aí que o santo a cavalo espera, diante do pórtico, a saída da grande procissão que ele encabeça.

Lá pelas dez horas da manhã, o carrilhão da Capela Imperial, três girândolas soltas no largo do Palácio, e as salvas de artilharia de quatro peças de campanha, colocadas diante da fachada do palácio, anunciam a saída do cortejo. O mesmo barulho se renova à saída do pálio.

O fogueteiro negro marcha a uma grande distância na frente do cortejo, parando nas encruzilhadas onde o aguardam alguns camaradas que entregam os foguetes necessários transportados por uma besta de estrebarias imperiais. Um piquete de cavalaria vem atrás seguido por um picador a cavalo, vestido com a libré de gala da casa do soberanos. Segue-se um grupo de oito a dez músicos negros que compõem a orquestra de São Jorge(1) a qual se constitui de flautas, trompas, trombetas, e um tambor. O repertório comporta uma única marcha, repetida sem interrupção até o regresso da procissão, e cujo estilo monótono evidencia a mediocridade do compositor.

Logo em seguida vem São Jorge a cavalo. O manequim, de tamanho e cores naturais, é ricamente vestido e armado de um escudo e de um pequeno estandarte; usa um grande cordão da Ordem de Cristo (2); seu cavalo branco é magnificamente ajaezado, sendo conduzido pela rédea por um picador a (3). Dois outros lacaios marcham ao lado do cavalo para segurar as pernas do cavaleiro de papelão, que mantém com dificuldade seu equilíbrio durante a marcha. Atrás do santo vem um picador particular (4), a cavalo, precedendo outro cavaleiro armado dos pés a cabeça, porém com seu animal menos ajaezado(5). A cavalgada termina com doze cavalos riquissimamente ajaezados e conduzidos pela rédea, de dois em dois(6), por picadores a pé. Acaba assim o cortejo de São Jorge.

Começam a surgir então os doze estandartes e as deputações das doze irmandades seguidas pelos dignitários e cavaleiros de Cristo, com trajes de professos, e escolta habitual do imperador, vem a orquestra da capela Imperial e o clero da mesma, e finalmente o pálio, sustentado por oito varas; a primeira, à direita, é carregada por S.M.I.; e a da esquerda por seu capitão de guarda; os grandes dignitários carregam as outras. Agrupados atrás, seguem todos os indivíduos a serviço do palácio junto a marcha, como de costume.

Antes de regressar a procissão faz a volta do palácio do imperador, o qual, nesse momento, aparece ao balcão (?) com toda a sua família.

Sentinelas da milícia e do exército são colocados de distância em distância, formando ala, em todas as ruas percorridas pelo cortejo; reúnem-se em seguida na praça da Capela.

Três girândolas soltas no largo do Palácio, anunciam a entrada do pálio sob o pórtico da Capela Imperial sinal a que respondem as salvas de artilharia dos fortes e da marinha de guerra.

Três descargas de mosquetões, dadas pelo pelotões reunidos perto da igreja, anunciam o fim do serviço divino. O comandante das armas desce então do cavalo e a tropa se retira para seus quartéis.


(1) a indumentária desses músicos negros consiste em um enorme chapéu de feltro amarelado, de forma redonda e de grandes abas descidas, e de uma casaca de comprimento médio, com meias mangas cobrindo a parte superior das mangas mais compridas. A vestimenta é de sarja vermelha com um largo galão de lã amarela, a calça é de algodão branco; os sapatos brancos, de couro de veado, são enfeitados com rosetas vermelhas. (N. do A.)

(2) seu capacete, de mau gosto, é de papelão dourado e encimado por um grande penacho de três lindas penas brancas. A couraça é de lambrequins verdes, cobertas de ricos enfeites de ouro; as coxas e as pernas, que se supõem couraçadas são cobertas de veludo preto liso com as juntas desenhadas por galões de ouro. Seu manto, mesquinhamente ajustado, é de veludo verde com ricos bordados de ouro. Usa a tiracolo a condecoração de comandante da Ordem de Cristo com diamantes e grande cordão. O braço esquerdo sustenta um escudo de tamanho médio, sobre o qual estão pintadas as armas imperiais brasileiras; na mão direita segura a bandeira nacional virada em sinal de humildade ; a lança, também abaixada, apóia-se no pé direito, preso ao estribo. (N. do A.)

(3) a imagem é fixada solidamente na sela. A coberta e a manta são igualmente verdes e com bordados de ouro. Em torno da cabeça, da crina e da cauda, enorme laços de fitas de diversas as cores flutuam ao vento. (N. do A.)

(4) o picador, usando a libré comum do palácio, carrega na mão uma pequena lança na ponta da qual esta amarrada uma fita verde e amarela; à cintura usa uma espada e monta um cavalo enfeitado de fitas como os outros. (N. do A.)

(5) esse enorme cavaleiro porta-estandarte veste uma armadura completa, sem nenhum ornamento dourado, usa capacete com a grade da viseira descida. Felizmente tudo é de papelão pintado, imitando ferro, pois, apesar da leveza da indumentária , o ardor do sol provoca gotas de suor que escorrem pelo queixo, única parte do rosto descoberta. Há dez anos que o mesmo indivíduo representa a mesma personagem escravo de seu físico gigantesco, considerado ideal para o papel que lhe cabe na palhaçada; carrega um grande estandarte no centro do qual estão pintadas as armas do Brasil. Seu cavalo é inteiramente coberto por um manto de couro amarelo cor de camurça e a cauda é igualmente colocada dentro de uma bolsa da mesma cor. (N. do A.) o Ferreiro ou Homem de Ferro, segundo Mello Morais Filho, op. Cit. (N. do T.) .

(6) Admite-se que esses cavalos ricamente ajaezados carreguem cada qual um pequeno cofre chato, de forma oval, que encerra os tesouros e bagagens do santo protetor. A caixa é, aliás , escondida por um magnífico manto de veludo verde com ornamentos de prata. Um escudo grande guarnece a plataforma; os cantos pendentes são ornados de pequenos troféus militares e o fundo, semeado de grandes estrelas. (N. do A.)

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.)



Ajaezado - Adornar de jaezes (jaez: Aparelho e adorno para bestas)

Girândolas - Roda ou travessão em que se reúne certo número de foguetes que se acendem ao mesmo tempo

Pálio - Dossel portátil, com varas, usados em cortejos e procissões, que abriga pessoa grada ou sacerdote que leva a custódia

Professos - Que professou; Relativo a frades ou freira

Topo

Jangada Brasil © 2000