| Existe no Rio de Janeiro, como em outras
cidades do Brasil, uma pequena capela consagrada a São Jorge considerado o defensor de
Portugal e do Brasil. Essa capela, no dia da festa do corpo de Deus torna-se o ponto de
reunião do povo, que, desde nove horas da manhã, aflui para ver sair o cortejo grotesco
acompanhando a imagem do Santo, de tamanho natural e feita de papelão coberto de pano.
Colocam-na sobre um belo cavalo branco, conduzido pela rédea por um picador da Casa
Imperial. Mas o que mais diverte o enxame de mulatinhos e negrinhos que o acompanham são
os foguetes que o negro fogueteiro, marchando à frente, solta durante o trajeto da capela
de São Jorge até a capela Imperial. É aí que o
santo a cavalo espera, diante do pórtico, a saída da grande procissão que ele
encabeça.
Lá pelas dez horas da manhã, o carrilhão da Capela
Imperial, três girândolas soltas no largo do Palácio, e as
salvas de artilharia de quatro peças de campanha, colocadas diante da fachada do
palácio, anunciam a saída do cortejo. O mesmo barulho se renova à saída do pálio.
O fogueteiro negro marcha a uma grande distância na
frente do cortejo, parando nas encruzilhadas onde o aguardam alguns camaradas que entregam
os foguetes necessários transportados por uma besta de estrebarias imperiais. Um piquete
de cavalaria vem atrás seguido por um picador a cavalo, vestido com a libré de gala da
casa do soberanos. Segue-se um grupo de oito a dez músicos negros que compõem a
orquestra de São Jorge(1) a qual se constitui de flautas, trompas, trombetas, e um
tambor. O repertório comporta uma única marcha, repetida sem interrupção até o
regresso da procissão, e cujo estilo monótono evidencia a mediocridade do compositor.
Logo em seguida vem São Jorge a cavalo. O manequim, de
tamanho e cores naturais, é ricamente vestido e armado de um escudo e de um pequeno
estandarte; usa um grande cordão da Ordem de Cristo (2); seu cavalo branco é
magnificamente ajaezado, sendo conduzido pela rédea por um
picador a pé (3). Dois outros lacaios marcham ao lado do cavalo para segurar
as pernas do cavaleiro de papelão, que mantém com dificuldade seu equilíbrio durante a
marcha. Atrás do santo vem um picador particular (4), a cavalo, precedendo
outro cavaleiro armado dos pés a cabeça, porém com seu animal menos
ajaezado(5). A
cavalgada termina com doze cavalos riquissimamente ajaezados e conduzidos pela rédea, de
dois em dois(6), por picadores a pé. Acaba assim o cortejo de São Jorge.
Começam a surgir então os doze estandartes e as
deputações das doze irmandades seguidas pelos dignitários e cavaleiros de Cristo, com
trajes de professos, e escolta habitual do imperador, vem a
orquestra da capela Imperial e o clero da mesma, e finalmente o pálio, sustentado por
oito varas; a primeira, à direita, é carregada por S.M.I.; e a da esquerda por seu
capitão de guarda; os grandes dignitários carregam as outras. Agrupados atrás, seguem
todos os indivíduos a serviço do palácio junto a marcha, como de costume.
Antes de regressar a procissão faz a volta do palácio
do imperador, o qual, nesse momento, aparece ao balcão (?) com toda a sua família.
Sentinelas da milícia e do exército são colocados de
distância em distância, formando ala, em todas as ruas percorridas pelo cortejo;
reúnem-se em seguida na praça da Capela.
Três girândolas soltas no largo do Palácio, anunciam a
entrada do pálio sob o pórtico da Capela Imperial sinal a que respondem as salvas de
artilharia dos fortes e da marinha de guerra.
Três descargas de mosquetões, dadas pelo pelotões
reunidos perto da igreja, anunciam o fim do serviço divino. O comandante das armas desce
então do cavalo e a tropa se retira para seus quartéis.
(1) a indumentária desses músicos negros consiste em um
enorme chapéu de feltro amarelado, de forma redonda e de grandes abas descidas, e de uma
casaca de comprimento médio, com meias mangas cobrindo a parte superior das mangas mais
compridas. A vestimenta é de sarja vermelha com um largo galão de lã amarela, a calça
é de algodão branco; os sapatos brancos, de couro de veado, são enfeitados com rosetas
vermelhas. (N. do A.)
(2) seu capacete, de mau gosto, é de papelão dourado e
encimado por um grande penacho de três lindas penas brancas. A couraça é de lambrequins
verdes, cobertas de ricos enfeites de ouro; as coxas e as pernas, que se supõem
couraçadas são cobertas de veludo preto liso com as juntas desenhadas por galões de
ouro. Seu manto, mesquinhamente ajustado, é de veludo verde com ricos bordados de ouro.
Usa a tiracolo a condecoração de comandante da Ordem de Cristo com diamantes e grande
cordão. O braço esquerdo sustenta um escudo de tamanho médio, sobre o qual estão
pintadas as armas imperiais brasileiras; na mão direita segura a bandeira nacional virada
em sinal de humildade ; a lança, também abaixada, apóia-se no pé direito, preso ao
estribo. (N. do A.)
(3) a imagem é fixada solidamente na sela. A coberta e a
manta são igualmente verdes e com bordados de ouro. Em torno da cabeça, da crina e da
cauda, enorme laços de fitas de diversas as cores flutuam ao vento. (N. do A.)
(4) o picador, usando a libré comum do palácio, carrega
na mão uma pequena lança na ponta da qual esta amarrada uma fita verde e amarela; à
cintura usa uma espada e monta um cavalo enfeitado de fitas como os outros. (N. do A.)
(5) esse enorme cavaleiro porta-estandarte veste uma
armadura completa, sem nenhum ornamento dourado, usa capacete com a grade da viseira
descida. Felizmente tudo é de papelão pintado, imitando ferro, pois, apesar da leveza da
indumentária , o ardor do sol provoca gotas de suor que escorrem pelo queixo, única
parte do rosto descoberta. Há dez anos que o mesmo indivíduo representa a mesma
personagem escravo de seu físico gigantesco, considerado ideal para o papel que lhe cabe
na palhaçada; carrega um grande estandarte no centro do qual estão pintadas as armas do
Brasil. Seu cavalo é inteiramente coberto por um manto de couro amarelo cor de camurça e
a cauda é igualmente colocada dentro de uma bolsa da mesma cor. (N. do A.) o Ferreiro ou
Homem de Ferro, segundo Mello Morais Filho, op. Cit. (N. do T.) .
(6) Admite-se que esses cavalos ricamente ajaezados
carreguem cada qual um pequeno cofre chato, de forma oval, que encerra os tesouros e
bagagens do santo protetor. A caixa é, aliás , escondida por um magnífico manto de
veludo verde com ornamentos de prata. Um escudo grande guarnece a plataforma; os cantos
pendentes são ornados de pequenos troféus militares e o fundo, semeado de grandes
estrelas. (N. do A.)
(DEBRET,
Jean-Baptiste. Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil.) |

Ajaezado - Adornar de jaezes (jaez: Aparelho e adorno para
bestas)Girândolas
- Roda ou travessão em que se reúne
certo número de foguetes que se acendem ao mesmo tempo
Pálio - Dossel portátil, com varas, usados em cortejos e
procissões, que abriga pessoa grada ou sacerdote que leva a custódia
Professos - Que professou; Relativo a frades ou freira |