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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
JANTARES

Um jantar! Quem há por aí que não tenha recebido este amável convite: "Amigo F... Amanhã faço anos; vem comer comigo um peru. Não faltes. Teu do coração – N..."

Pois bem, por minha vez digo ao leitor:

- Venha comer comigo um peru em casa de pessoas que nos são íntimas. Não há necessidade de envergar a casaca. Lá não há pomposo menú doré sur tranche ao lado de cada convidado; não se bebe o louro vinho do Reno depois do peixe, e o ponche entre o primeiro serviço e os assados é um mito. É a burguesia fluminense em todo o seu puritanismo, que ainda não conhece as sutilezas da cozinha francesa e os estilos alambicados da velha Europa.

Venha comigo e verá.

Eis-no na sala do banquete. Ninguém ousa sentar-se, porque incontestavelmente há mais convidados que lugares. O dono da casa não pensou sequer nesta hipótese e grita com ar jovial:

- Sentem-se, meus senhores, sentem-se.

Um arrasta a cadeira indeciso, outro executa o mesmo movimento, este chama uma senhora, aquele vê se há alguma cadeira vaga... E afinal, depois de muitas instâncias, sentam-se quase todos, conservando-se alguns de pé, por não haver lugares.

O dono da casa salva a situação, dirigindo-se àqueles e dizendo-lhes:

- Nós cá ficamos para a segunda mesa; melhor, porque comeremos mais à vontade.

Felizmente nem eu nem o leitor fazemos parte desse assinantes da série B.

Já estamos sentados.

Todas as iguarias estão sobre a mesa e cada qual mais suculenta.

Dois moleques encadernados em alvos paletós, empunhando cada um viçoso galho de pitangueira, limitam-se apenas a enxotar as moscas com a serena imperturbabilidade de estátuas de ferro fundido.

Serve-se a sopa.

O convidado que está à cabeceira vai passando os pratos, que giram de mão em mão, como espécie de jogo de anel.

Agora o leitor há de ter a bondade de servir o peixe.

E a sua missão não pára aí.

Há de servir também o peru, o leitão, a torta...

- Tudo quanto está em cima da mesa, enfim?

- Sim, senhor, porque para isto é que foi convidado.

- E o que fazem aqui esses dois moleques, como Morfeu agitando o seu ramo de dormideiras!

Estão aí só para abanar.

- Mas no fim de contas eu vim para comer e ainda não comi nada!

E o leitor lança as suas vistas para uma torta, disposto a saboreá-la, como um bom gastrônomo que é.

Neste momento um sujeito ergue-se e grita:

- Meus senhores: em pé. Vou fazer uma saúde obrigatória.

- Levantemo-nos todos.

- À saúde do homem eminentemente honrado, do amigo zeloso e dedicado, do pai de família extremoso, desse belo caráter, em suma, que...

Entre esse que, pronunciado com ênfase gutural, e o que se vai seguir há sempre uma pausa, martírio de todos, inclusive do orador.

- ...não poupando sacrifícios de qualidade alguma, sabe obsequiar os amigos e dar-lhes momentos de inefável prazer. À saúde do recém-nascido, o nosso idolatrado F... (o dono da casa), Ip! Ip! Ip! Húrrah! Húrrah!

- Sr. F...

- Sr. F...

- À mesma Sr. F...

- À razão da mesma.

Sentemo-nos.

- Ora graças a Deus, vamos ver que tal está a torta.

Levanta-se um velho e bate palmas:

- Em pé, meus senhores. Levantemo-nos.

- Eu peço um aditamento. À saúde de sua digna consorte, modelo de virtude, a Sr.ª D. N...

- Apoiado!

- Muito bem.

O leitor senta-se com o resto da sociedade, e já não encontra o prato que havia preparado. Dispõe-se a comer o arroz, única iguaria que tem em frente.

Outra saúde, e desta vez cantada:

"Aos amigos
Um brinde feito;
Reina a alegria
Em nosso peito".

E o leitor entra no coro com o estômago vazio. Senta-se. O prato de arroz já desapareceu como a torta.

Estamos à sobremesa. Outro brinde:

- À saúde daqueles, que longe de nós, de nós se lembram.

A dona da casa que é a amabilidade em pessoa, passa-lhe uma compoteira especial, para que prove daquele doce e diga de que é.

Esta adivinhação é um requinte de bom tom nos jantares da boa burguesia.

- É abóbora, diz este.

- É maracujá, grita aquele.

- É manga.

- Pois não é: é ananás.

- Não vê, é jaca.

- Qual jaca, é carambola.

Ah! Ah! Ah! ninguém adivinhou – é melancia!

As saúdes continuam; e no meio de grande algazarra, arrastando-se as cadeiras, levantam-se todos.

A segunda mesa é a imagem viva do pandemonium de que nos fala o poeta. Os tais assinantes da série B são endiabrados e nunca deixam pedra sobre pedra.

Agora um conselho ao leitor.

- Dispa o rodaque de riscadinho cor de rosa, ensaie um riso jovial, despeça-se do dono da casa e repita comigo:

- Não há nada como jantar fora!


(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Política e costumes; folhetins esquecidos (1867-1868))

Aditamento – Acrescentamento, suplemento.

Gutural – Diz-se da voz ou som que se emite pela garganta que tem entonação rouca.

Obsequiar – Tratar agradavelmente.

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