Um jantar! Quem há por aí que
não tenha recebido este amável convite: "Amigo F... Amanhã faço anos; vem comer
comigo um peru. Não faltes. Teu do coração N..."
Pois bem, por minha vez digo ao leitor:
- Venha comer comigo um peru em casa de pessoas que nos são íntimas. Não há
necessidade de envergar a casaca. Lá não há pomposo menú doré sur tranche ao
lado de cada convidado; não se bebe o louro vinho do Reno depois do peixe, e o ponche
entre o primeiro serviço e os assados é um mito. É a burguesia fluminense em todo o seu
puritanismo, que ainda não conhece as sutilezas da cozinha francesa e os estilos
alambicados da velha Europa.
Venha comigo e verá.
Eis-no na sala do banquete. Ninguém ousa sentar-se, porque incontestavelmente há mais
convidados que lugares. O dono da casa não pensou sequer nesta hipótese e grita com ar
jovial:
- Sentem-se, meus senhores, sentem-se.
Um arrasta a cadeira indeciso, outro executa o mesmo movimento, este chama uma senhora,
aquele vê se há alguma cadeira vaga... E afinal, depois de muitas instâncias, sentam-se
quase todos, conservando-se alguns de pé, por não haver lugares.
O dono da casa salva a situação, dirigindo-se àqueles e dizendo-lhes:
- Nós cá ficamos para a segunda mesa; melhor, porque comeremos mais à vontade.
Felizmente nem eu nem o leitor fazemos parte desse assinantes da série B.
Já estamos sentados.
Todas as iguarias estão sobre a mesa e cada qual mais suculenta.
Dois moleques encadernados em alvos paletós, empunhando cada um viçoso galho de
pitangueira, limitam-se apenas a enxotar as moscas com a serena imperturbabilidade de
estátuas de ferro fundido.
Serve-se a sopa.
O convidado que está à cabeceira vai passando os pratos, que giram de mão em mão, como
espécie de jogo de anel.Agora o leitor há de ter a bondade de servir o peixe.
E a sua missão não pára aí.
Há de servir também o peru, o leitão, a torta...
- Tudo quanto está em cima da mesa, enfim?
- Sim, senhor, porque para isto é que foi convidado.
- E o que fazem aqui esses dois moleques, como Morfeu agitando o seu ramo de dormideiras!
Estão aí só para abanar.
- Mas no fim de contas eu vim para comer e ainda não comi nada!
E o leitor lança as suas vistas para uma torta, disposto a saboreá-la, como um bom
gastrônomo que é.
Neste momento um sujeito ergue-se e grita:
- Meus senhores: em pé. Vou fazer uma saúde obrigatória.
- Levantemo-nos todos.
- À saúde do homem eminentemente honrado, do amigo zeloso e dedicado, do pai de família
extremoso, desse belo caráter, em suma, que...
Entre esse que, pronunciado com ênfase gutural, e o
que se vai seguir há sempre uma pausa, martírio de todos, inclusive do orador.
- ...não poupando sacrifícios de qualidade alguma, sabe obsequiar
os amigos e dar-lhes momentos de inefável prazer. À saúde do recém-nascido, o nosso
idolatrado F... (o dono da casa), Ip! Ip! Ip! Húrrah! Húrrah!
- Sr. F...
- Sr. F...
- À mesma Sr. F...
- À razão da mesma.
Sentemo-nos.
- Ora graças a Deus, vamos ver que tal está a torta.
Levanta-se um velho e bate palmas:
- Em pé, meus senhores. Levantemo-nos.
- Eu peço um aditamento. À saúde de sua digna consorte,
modelo de virtude, a Sr.ª D. N...
- Apoiado!
- Muito bem.
O leitor senta-se com o resto da sociedade, e já não encontra o prato que havia
preparado. Dispõe-se a comer o arroz, única iguaria que tem em frente.
Outra saúde, e desta vez cantada:
"Aos amigos
Um brinde feito;
Reina a alegria
Em nosso peito".
E o leitor entra no coro com o estômago vazio. Senta-se. O prato de arroz já desapareceu
como a torta.
Estamos à sobremesa. Outro brinde:
- À saúde daqueles, que longe de nós, de nós se lembram.
A dona da casa que é a amabilidade em pessoa, passa-lhe uma compoteira especial, para que
prove daquele doce e diga de que é.
Esta adivinhação é um requinte de bom tom nos jantares da boa burguesia.
- É abóbora, diz este.
- É maracujá, grita aquele.
- É manga.
- Pois não é: é ananás.
- Não vê, é jaca.
- Qual jaca, é carambola.
Ah! Ah! Ah! ninguém adivinhou é melancia!
As saúdes continuam; e no meio de grande algazarra, arrastando-se as cadeiras,
levantam-se todos.
A segunda mesa é a imagem viva do pandemonium de que nos fala o poeta. Os tais
assinantes da série B são endiabrados e nunca deixam pedra sobre pedra.
Agora um conselho ao leitor.
- Dispa o rodaque de riscadinho cor de rosa, ensaie um riso jovial, despeça-se do dono da
casa e repita comigo:
- Não há nada como jantar fora!
(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Política e costumes; folhetins
esquecidos (1867-1868)) |
 Aditamento
Acrescentamento, suplemento.
Gutural Diz-se da voz ou som que se emite
pela garganta que tem entonação rouca.
Obsequiar Tratar agradavelmente. |