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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
AS COISAS DO MEU SERTÃO

Acauã e papa-sêbo
Nas selvas do cariri

Lá também tem bentiví
O craúna e o bauá
Canário e cabocolinho
Nos ramos do jatobá
Curió e patativa
Vem-vem e anumará

Vê-se ali o mangangá
Na flor do pau-d’arco roxo
E a ovelha pastando
Junto ao carneiro mocho
E o gado pela tarde
Bebendo água no cocho.

O dinheiro corre frouxo
Lá naquela região
Muita gente do agreste
Passa por lá o verão
Comendo coalhada e leite
E apanhando algodão.

Meu pajeú meu sertão
Terra santa idolatrada
A saudosa vila-bela
Hoje é serra-talhada
Passou de vila a cidade
E está mais elevada

Ainda há vaquejada
Rala-bucho e sanfoneiro
Pastoril, João-redondo
Pandeirista e zabumbeiro
Reisado, São João da roça
E cantador violeiro

Tem cavalo pra vaqueiro
Gibão e sela inglesa
Festa de apartação
Cada um com mais destreza
Na pega do barbatão
Ali não se vê moleza

Vila-bela é a princesa
Do meu pajeú de flores
E São José do Egito
Rainha de meus amores!
É trono da poesia
E berço de cantadores.

Lá deu Maria das Dores
Poetisa de primeira...
Arrudinha e ‘Cancão’
Catôta e Zé Ferreira
E Manoel Valentimm
Dos lares da ingazeira.

Quem visitar uma feira
Do meu belo pajeú
Encontra carne e queijo
Carneiro, bode, zebu
Para comer com feijão
Cuscuz, xerém e angu

Meu sertão tem canguçu
Onça pintada valente
E a mão-torta também
É bastante renitente
Porém a suçuarana
Devora bode somente

O sol parece mais quente
Porém com toda quentura
Tem João mole e baraúna
De variável grossura
O pau mais mole do mundo
E a madeira mais dura.

Por ali a criatura
Vê coisas que admira
Qualidades de abelhas
Uruçu e jandaíra
Moça-branca e tubiba
Italiana e cupira

Nas selvas tem macambira
E mandacaru cardeiro
Chique-chique e alastrado
Crôa de frade e facheiro
Jucuri e amorosa
Favela pau, marmeleiro.

Ali existe vaqueiro
Que o boi não o afronta
Enfrenta garrote brabo
E agarra-o pela ponta
Bate com ele no chão
E no cachaço se monta

Do sertão o que se conta
É uma verdade pura
Tem setores abrejados
Onde não falta verdura
Tem cana e engenhoca
Caldo, mel e rapadura.

A serra tem mais altura
O rio tem mais cascatas
As águas têm mais rumores
Por cima das cataratas
As fontes são mais potáveis
Para banhar as mulatas

Por ali há serenatas
Na madrugada serena
Festa, retreta e baile
Procissão, terço e novena
E moças com a beleza
De Maria Madalena

No pajeú tem verbena
Bogari rosa e jasmim
Lírio, papoula, angélica
Manjerona e alecrim
Manjericão, assucena
São flores do meu jardim

No meu sertão para mim
A vida tem mais fulgores
O jardim tem mais canteiros
Os canteiros têm mais flores
E as flores têm mais pétalas
As pétalas têm mais olores

Meu sertão deu cantadores
De estilos naturais
O velho Antônio Marinho
Lourival e outros mais
Otacílio, Jó e Dimas
E o Clodomiro Páes

Em diversos arraiáis
O poeta toca e canta
As belezas naturais
E muito se adianta
No campo da poesia
Para colher o que planta.

Por lá o vate decanta
O que escreve proclama
Aproveitando o dom
Que a natura derrama
Como fluido magnético
Na mente de quem proclama.

No sertão o povo ama
A poesia e participa
Da influência poética
E com ela se equipa
Para cantar qualquer coisa
Bastante se antecipa.

Lá o cavalo esquipa
E o jumento galopa
Na hora que o tropeiro
Vai tangendo sua tropa
Por cima de pau e pedra
E tudo mais quanto topa

Por ali se vê na copa
Das oiticicas frondosas
Os enxames de abelhas
Sugando flores cheirosas
Para trasformar em mel
As substâncias gostosas.

As mulheres são formosas
Têm mais vigor e saúde
Sossego, paz, alegria
Gozam de grande virtude
E cantam glórias a Deus
Pela santa plenitude.

Meu pajeú tem açude
Com dez léguas de represa
E peixe com abundância
Descendo a correnteza
Em procura de refúgio
Nos vales da redondeza

Tudo por lá é beleza,
De setembro a janeiro
Há boi de rei e ciranda
Coquista e violeiro
Cantando as maravilhas
Do folclore brasileiro

Lá se conta no terreiro
Estorinhas engraçadas
De gigantes-feiticeiros
E princesas encantadas
Que viveram muitos anos
Sob mistérios de fadas.

Naquelas longas estradas
Vê-se bonitos traquejos
De boiadeiros montados
E tangerinos andejos
Conduzindo as boiadas
Por diversos lugarejos

A vida dos sertanejos
Para que eu bem explique
É trabalhar em cercado
De ramos e pau-a-pique
E correr atrás de boi
Por dentro do chique-chique.

Meu sertão tem moça chique
Amorosa e bem fiel
Mais linda de que Dalila
E boa igual Raquel
Mais formosa que a índia
Virgem dos lábios de mel.

Na praça tem carrossel
Pela festa de Natal
Vai do sítio pra cidade
Quase todo pessoal
E passa a noite brincando
O prazer é sem igual.

Ali o povo em geral
Não fala mal de ninguém
Rapaz namora e casa
Mas grande respeito tem
E quem chegar por ali
Tem de ser assim também.

Aquele povo de bem
À noite depois da ceia
Faz ciranda no terreiro
Ao claro da lua cheia
E o batuque do bombo
Estronda com légua e meia

Ali em qualquer aldeia
Quando o sol esparge a luz
A moçada se levanta
Confiante em Jesus
Tira o leite das cabras
Pra ensopar os cuscuz.

Ali também os nambus
Apitam de hora em hora
O burro zurra no campo
E ao romper da aurora
A passarada alegre
Trina por dentro da flora.

No meu pajeú não mora
Cafajeste enxerido
Moça se casa donzela
Mulher respeita marido
Homem respeita esposa
Tem conceito definido.

Meu sertão é conhecido
Através do horizonte
Tem planície e espelunca
Estrada rio e ponte
E também água potável
Jorrando naquela fonte.

No meu pajeú tem monte
De maior elevação
Desaba pedra de cima
Com o rumor do trovão
E no local onde passa
Faz uma escavação.

No meu querido sertão
Muitas coisas inda tem,
Há montanhas cavernosas
Conhecidas por alguém
E terras desocupadas
Que nunca morou ninguém

Lá a chuva quando vem
O prado seco se veste
De uma forragem verde
Enquanto pelo nordeste
Retalhos de nuvem parda
Cobrem todo azul celeste

O costume do agreste
Difere do sertanejo
No sertão se come carne
Coalhada manteiga queijo
E no litoral se come
Uruá e caranguejo

No pessoal sertanejo
Não há nenhum preconceito
Mas aqui é diferente,
A gente vive sujeito
A tanta pornofonia
E não há quem dê um jeito!

No sertão tudo é direito
Ali em qualquer aldeia
O povo é bom e ordeiro
Não usa de ação feia
Quem ali chega com fome
Só sai de barriga cheia

Lá almoça, janta e ceia
E na hora da dormida
Tem rede e cobertor
Nada falta na guarida
Para que o visitante
Tenha mais prazer na vida.

E na hora da saída
No outro dia cedinho
O dono da moradia
Prova que não é mesquinho
Dar-lhe um queijo de coalho
Pra lanchar no caminho.

Meu sertão tem porco-espinho
E onça suçuarana
Cascavel e jararaca
Corre-campo e caninana
E o melhor papagaio
Do oco da imburana

Tem aguardente de cana
E vinho de jurubeba
Tatu china e verdadeiro
Também o bola e o peba
Pra se comer com farinha
De mandioca manipeba

Da cidade para a gleba
Como foi ainda é
Tem pavão, cisne e galinha
Peru, patori, guiné
Tem até preá da índia
Saruê e punaré.

Eu nasci em um chalé
Do lado da vila-bela
E muitos danos vivi
Naquela casa singela
No momento que recordo-a
Choro com saudades dela

Meus pais faleceram nela
Eu fiquei vivo porém
Abandonei minha terra
De lá estou muito além
Mas ainda voltarei
Pra morrer ali também

Lá não tenho mais ninguém
Vivendo a minha espera
Com o tempo acabou-se
Quem de mim parente era
Até meu pobre casebre
Dele só resta a tapera!

A primeira primavera
Eu passei sem consciência
Dela não estou lembrado
Por causa da inocência
Mas o resto é de saudade
Para toda a existência.

Com dez anos de freqüência
Eu montava num cavalo
E corria atrás do boi
Com vontade de pegá-lo
Porém a falta de força
Não podia derrubá-lo.

Ao amiúde do galo
Eu logo me acordava
Ia direto ao curral
E chegando lá tomava
Um copo de leite cru
Que o vaqueiro me dava

Hoje eu não tenho nem fava
Quanto mais leite de gado,
Tudo pra mim acabou-se
Só me resta do passado
A saudade de meus pais.
E de meu berço adorado!

Longe do torrão amado
Um instante eu não esqueço
Inda mais o enalteço
Zelo seu nome sagrado
Deus para isso tem dado
Esta minha vocação
Lavra da inspiração
Indispensável sistema
Ritmado no poema
As coisas do meu sertão.


(MAIOR, Mário Souto; VALENTE, Waldemar (org.). Antologia da poesia popular de Pernambuco)
LUIZ RODRIGUES LIRA (1921) nasceu em Moreno, Pernambuco.
Abandonado pelo pai, passou a viver em companhia de seu avô e, com onze anos de idade já trabalhava nos engenhos, já era dono de seu nariz. Com 16 anos passou a exercer a profissão de encunhador, tirador de pedras para as estradas de ferro, construção, meio-fio, paralelepípedos. Com 18 anos passou a cantar e a vender folhetos no Recife. Em 1949 foi morar na Paraíba e chegou a possuir uma folhetaria (1950-1952) que faliu fazendo com que o poeta fosse trabalhar na agricultura, nas pedreiras. Foi ainda ferreiro, guarda-noturno. Publicou vinte folhetos entre os quais
João Muleque e a princesa Lindalva, Aureliano e Doralice, A Vingança do Sertanejo no Engenho Pirapama, As Proezas de João Malasarte, A Pedra Misteriosa e os Ladrões de Bagdá, As Coisas do Meu Sertão. Tem 17 histórias que ainda não foram impressas.

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