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NUM CARTÓRIO DA CORTE
(esta poesia foi escrita de
improviso pelo poeta que, horrorizado, mas constrangido pelo dever, lavrou a escritura)
Era um ato solene! O Branco e o Negro
Faziam transação!
"Senhor
do cativeiro libertai-me
E qual for a condição
Quimpuserdes a mim eu, por vós livre,
Darei satisfação!
"Sou escravo, senhor, doutro senhor
De fera crueldade!
Emprestai-me o valor que exige ele
Pra minha liberdade
Que prometo servir-vos esse tempo
Com toda lealdade!"
E sobre a mesa o Livro estava aberto
E o ato já lavrado;
Mas ainda incompleto, pois o Branco
Nõ o tinha assinado
Exigindo maiores garantias
Do pobre escravizado!
"Se ferir-te a moléstia e não puderes
Teus serviços prestar-me
Quem há de, em teu lugar, então servir-me
E assim indenizar-me
Do tempo que eu perder? sim, porque tu
Não tens com que pagar-me"
qui baixou a fronte o pobre Negro
E fundo aí soltou;
Depois
com ar humilde e respeitoso,
De novo suplicou;
Mas em vão, que a exigência do usurário
De pé inda ficou!
"Mas de que tratais vós? isto interroga
Alguém que percebera
O pedir e o negar dos contratantes
E então sintrometera
Contando proteger ao mísero escravo
Do qual se condoera
"Subscrevo o adendo do contrato
Podeis, senhor, firmá-lo!"
"Porém
(objetou ainda o Branco)
Se a morte libertá-lo
Muito antes do tempo
?" "Oh! vos prometo
Farei por completá-lo!"
E o ato consumou-se! e a heroína
De tão briosa ação
Fora uma preta, há pouco libertada
Que dava uma lição
De amor e caridade ao Branco avaro,
De negro coração!
(MORAES FILHO, Melo. Os
ciganos no Brasil) |
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