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Fio com detalhes de litografias de Johann Moritz Rugendas
NUM CARTÓRIO DA CORTE

(esta poesia foi escrita de improviso pelo poeta que, horrorizado, mas constrangido pelo dever, lavrou a escritura)

Era um ato solene! O Branco e o Negro
Faziam transação!
"Senhor… do cativeiro libertai-me
E qual for a condição
Qu’impuserdes a mim – eu, por vós livre,
Darei satisfação!

"Sou escravo, senhor, d’outro senhor
De fera crueldade!
Emprestai-me o valor que exige ele
Pra minha liberdade
Que prometo servir-vos esse tempo
Com toda lealdade!"

E sobre a mesa o Livro estava aberto
E o ato já lavrado;
Mas ainda incompleto, pois o Branco
Nõ o tinha assinado
Exigindo maiores garantias
Do pobre escravizado!

"Se ferir-te a moléstia e não puderes
Teus serviços prestar-me
Quem há de, em teu lugar, então servir-me
E assim indenizar-me
Do tempo que eu perder? sim, porque tu
Não tens com que pagar-me"

qui baixou a fronte o pobre Negro
E fundo aí soltou;
Depois… com ar humilde e respeitoso,
De novo suplicou;
Mas em vão, que a exigência do usurário
De pé inda ficou!

"Mas de que tratais vós? isto interroga
Alguém que percebera
O pedir e o negar dos contratantes…
E então s’intrometera
Contando proteger ao mísero escravo
Do qual se condoera

"Subscrevo o adendo do contrato
Podeis, senhor, firmá-lo!"
"Porém… (objetou ainda o Branco)
Se a morte libertá-lo
Muito antes do tempo…?" "Oh! vos prometo
Farei por completá-lo!"

E o ato consumou-se! e a heroína
De tão briosa ação
Fora uma preta, há pouco libertada
Que dava uma lição
De amor e caridade ao Branco avaro,
De negro coração!


(MORAES FILHO, Melo. Os ciganos no Brasil)

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