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GALINHA GORDA

Ilustração de Marcos Jardim

Todo menino de família, todo moleque que tomou banho no rio Potengi ou nas nossas praias, brincou fatalmente de Galinha Gorda. É uma das velhas manifestações folclóricas ligadas à agua no Nordeste.

A meninada se reúne dentro d’água. Um dos garotos, antes de lançar uma pedra ou um caco de telha lá adiante, grita para os outros, que respondem em coro:

- Galinha gorda!

- Gorda ela!

- Vamos comê-la?

- Vamos a ela!

E mergulham todos à procura da galinha gorda (a pedra ou caco), em meio a gritarias e batidas de pernas dentro d’água. O felizardo que a encontra, sobe logo à tona d’água, vitorioso, com a galinha gorda simbólica na mão. Será o que iniciará a brincadeira na vez seguinte, e assim sucessivamente.

No Rio de Grande do Norte, Manuel Rodrigues de Melo registrou a galinha-gorda, no Açu: "Efetuava-se, quase sempre, nas épocas de rio cheio, e nos lugares mais fundos do leito. Formavam os banhistas aqueles grandes círculos dentro d’água, com água pelos ombros, e não pelo pescoço, ficando todos atentos às palavras finais do declamador, a fim de que pudessem apanhar de um salto o caco de telha ou o bolão de lama que representava a galinha gorda e era jogado de sopetão no fundo do rio: Galinha gorda / Gorda ela / Vamos comê-la / Pois bumba nela!"

No romance Menino de Engenho, José Lins do Rego refere-se à brincadeira identicamente como a recolhemos em Natal.

No município de Augusto Severo, ainda no Rio Grande do Norte, segundo Antônio Melo, os meninos conhecem o jogo com o nome de Galinha- d'água. Os gritos diferem daquele que anotamos, assim: "Galinha d’água / Capão cozido! / - Morreui de véia / - Com o c… encuido!"

O poeta norte-rio-grandense Jaime dos G. Wanderley, no seu livro Espinho de Jurema, alude ao jogo num dos seus poemas: "No alto da ribanceira / um magote de moleques ardilosos / se prepara / com inquietação / para o mergulho da Galinha-Gorda / Um magricela espivado / talvez o mais travesso da Ribeira / levanta a pedra rara / na mão: / Galinha Gorda! / - Gorda ela. / - Que comeu? / - Fui eu e Mateu…"

É outra versão da brincadeira, indicando sua popularidade e persistência no gosto infantil.


(MELO, Veríssimo de. Folclore infantil)