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Minha Nossa Senhora

A devoção mais profunda e popular no Brasil é dedicada a Nossa Senhora, cuja invocação implica o possessivo no singular porque o plural daria a função maternal genérica e o fiel pretende possuir o direito privativo da unidade afetuosa. Daí Minha Nossa Senhora!

Portugal do século XIV estava povoado de igrejas, capelas, altares à Santa Mãe de Deus e para ela dirigiam a quase totalidade das rogativas. Os séculos XV e XVI foram fervorosos, dando o santo patrocínio aos instrumentos da atividade nacional. As naus ostentavam o nome preferido na variedade das invocações protetoras. Entre 1496 e 1650, na carreira da Índia velejaram 29 naus Conceição. Apenas perdia para Santo Antônio, padrinho de 31. Mas no Brasil o santinho de Lisboa alcançou 228 paróquias e a Divina Conceição vence por sessenta, titular de Bispados e catedrais, entronada em 288 paróquias (1947) e 38 municípios (1965), não contando 16 com o Nossa Senhora seguindo-se o topônimo. Mais do que o filho, a mãe intervém na confiança das súplicas. O culto de Nossa Senhora em Portugal começa pela sua história política e uma bibliografia emocional exalta a divina presença, incalculável na toponímia infinita nos versos anônimos. Motiva as romarias mais antigas, ardentes, movimentadas. Cantava, há seis séculos, o trovador Afonso Lopes de Bayam:

Hyr querój, fremosa de coraçom
Por fazer romaria e oraçom
A Sancta Maria das Leiras
Poys meu amigo hy vem!

Conceição é a vila de Itamaracá, altares em Pinheiro, Itanhaém, trinta lugares quinhentistas, com procissão e festa em lembrança da Purificação, Candelária, 2 de fevereiro; Natividade, 8 de setembro; Apresentação, 21 de novembro; Assunção, Glória, Vitória, 15 de agosto; Conceição, 8 de dezembro. Desde primeiras décadas do II século (grande época dessa literatura exaltada e fantasista), vibrou uma delirante simpatia pela Mãe de Deus, resgatando-a do laconismo dos Evangelhos canônicos quanto a sua infalível intervenção junto ao Filho. O Proto-Evangelho de Jacó é um índice desse fervor anônimo pela Virgem Maria, mantido, em espírito apologético, pela ternura coletiva cristã, até a contemporaneidade veloz. O povo defendia pela intuição filial as cinco prerrogativas especiais da Madre-Deus: - maternidade divina; virgindade perpétua; conceição imaculada; assunção corporal; intercessão universal. Arrastaria os teólogos desavindos e turbulentos a unidade dogmática da Imaculada em oito séculos disputadores vencendo o onipotente Santo Tomás de Aquino, na definição de Pio IX (1854). Pio XII fá-lá-ia Rainha do Mundo (1942) e Paulo VI, Mãe da Igreja (1964). Mãe do Povo em Jaraguá, Alagoas, Mãe dos Homens no paulistano Porto Feliz, norte-rio-grandense Baixa Verde (João Câmara), duas outras em Minas Gerais. Nossa Senhora das Orações em Rio Turvo, Florianópolis, Divina Pastora em Sergipe, Nossa Senhora do Brasil na Urca, desde 1934. O pequenino vulto de barro escuro deparado em 1717 no rio Paraíba é Nossa Senhora Aparecida. Pio XI proclamou-a Padroeira Principal do Brasil (1930) e a capelinha humilde de 1745 é suntuosa basílica, título de Pio X em 1909. Mas o cardeal Leme amava que a dissessem Conceição Aparecida, como em Lourdes em 1858 e em Beauraing, Bélgica, em 1932. Nossa Senhora dos Humildes em Alto Longá e Paulista, Piauí; dos Mares no Salvador. É a Auxiliadora no voto de Pio V depois de Lepanto; da Esperança, que Pedro Álvares Cabral conduziu na câmara da capitania a pimeira imagem vista pelos olhos brasileiros; Piedade, Ajuda, nome da nau que trouxe Tomé de Souza em 1549; Socorro, Necessidades, Remédios, Livramento, Alívio, Boa Viagem, da Luz, da Guia; as padroeiras das futuras mães, das Dores, Consolação, Boa Hora, Bom Parto, Bom Sucesso, Bom Despacho, do Ó, da Expectação ansiosa pelo momento feliz; e as clássicas, Carmo, tirando as almas do Purgatório, Mercês, Rosário, Assunção gloriosa, Mãe de Deus; pelo Concílio de Éfeso em 431. Apresentação, padroeira da minha cidade, Pilar; Penha, Patrocínio, Soledade, Desterro, da Glória, reverência do Brasil Imperial, quantas, na indecisão luminosa dos nomes incontáveis? As auspiciadoras da tranqülidade, Nossa Senhora da Paz, do Sossego, do Descanso, das Graças. Em 1641 os holandeses puseram a pique nas águas de Goa a nau portuguesa Nossa Senhora da Quietação de utilidade indispensável nesse século ofegante.

As confrarias organizavam-se no século XVI na Bahia e Pernambuco. Os jesuítas mantinham a devotada assistência marial. Anchieta escreve louvor insígne. O padre Nóbrega, em julho de 1559, conta que o padre João Gonçalves, devoto da Conceição, insistira para que pregasse na aldeia do Espírito Santo, ao derredor do Salvador: nesse dia me pedira que pregasse em seu dia as grandezas desta Senhora e que dissesse que soubessem negociar com Nosso Senhor por meio dela que não podia haver outro melhor negociar! Anunciava a suprema medianeira que Paulo VI divulgaria em 1964. De 1848 a 1960, 77 aparições em crianças e populares, pelo mundo, 10 aprovadas pela decisão episcopal positiva. Omnia voluit nos habere per Mariam, Dei genitrix Virgo! cantava-se quando a Virgem Mãe era louvada em latim.

Existe entre o povo um Evangelho oral, apócrifo, sedutor pela vivacidade dos episódios, destinado à sublimação carinhosa das entidades divinas. Minha avó materna, Maria Ursulina da Câmara Fernandes Pimenta (1835-1929), foi uma das minhas Camenas informadoras. Seus lúcidos 94 anos de absoluta fé sertaneja guardavam fragmentos sinópticos de uma tradição imemorial da Sagrada Família, evocando palavras e atos que os Evangelhos canônicos desdenharam recolher. Antes da Ascensão, Nosso Senhor apanhando um leve punhado de areia, disse aos discípulos: - Até mil e pouco! e atirou-o ao vento. Nossa Senhora, apiedada da brevidade do prazo concedido, encheu a santa mãozinha de areia e jogando-a também ao ar, suplicou: E mais estes, meu Filho! Nós vivemos essa dádiva suplementar da Mãe de Deus.

Numa festa votiva pela Anunciação de Nossa Senhora, 25 de março de 1646, dom João IV proclamava, com aplausos das Cortes, a Virgem da Conceição "Padroeira e Defensora dos Reinos e Senhorios de Portugal". Ele e seus sucessores seriam vassalos e tributários de Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa. "Desde então, nunca mais os Reis de Portugal se apresentariam ou representariam coroados, por haver sido transferido para a Mãe de Deus, o símbolo da sua realeza", informa o historiador Hipólito Raposo. Nem mais um rei de Portugal, em 264 anos submissos, poria na cabeça a coroa real. Oito anos antes, Luís XIII, rei de França, fez le voeu placant son royaume sous la protection de la Vierge. Motivará o quadro de Igres e o mármore de Costou. Em 13 de maio de 1931 Portugal foi consagrado pelo Episcopado ao Coração Imaculado de Maria, sinônimo litúrgico de Nossa Senhora da Conceição, que possuía domínio 285 anos antes, em visível usucapião jurídico.

Aprendemos a temer a Deus e amar Nossa Senhora. O poeta Lourival Açucena (1827-1907), de unânime admiração no velho Natal, fez-se pastor protestante, batizando os catecúmenos por imersão nas águas do Baldo. Apesar do fervor luterano não abandonara a preferência sentimental, cantando em versos a Mãe do Céu. Glosando mote desrespeitoso, "Escorei Nossa Senhora / Com bacamarte na mão". improvisou resposta feliz:

Contra a Virgem que se adora
Renhida questão se trava
Mas eu, tomando a palavra
Escorei Nossa Senhora
Os ímpios saem, vão embora
Sem esperar a conclusão
Por que eu lhe disse então
Que afinal sustentaria
A pureza de Maria
Com bacamarte na mão!

Nossa Senhora Mãe RainhaRainha dos Anjos e dos Santos, o trono situa-se logo depois da Santíssima Trindade, governando pela irresistível doçura persuasiva. Nenhuma criatura humana alcançou os poderes quase participantes da onipotência. A função materna envolve-a de compreensão, entendimento, misericórdia. O povo confia na piedade ilimitada de quem trouxe ao mundo a redenção de Cristo. Utiliza o infalível processo da exploração sentimental talqualmente as crianças tudo obtêm da ternura materna. Açaimo as interpretações psicanalíticas dessa incessante percepção tolerante da Mater Castíssima ao Refugium Peccatorum. É a mais íntima das potestades celestiais [1].

Conceição divina e bela
Recebeu divina graça
Que entrou e passou por ela
Como o sol pela vidraça

A invocação ao Coração de Maria, posterior ao século XVII, não é popular entre os homens do povo brasileiro. É devoção feminina. Jamais a ouvi pronunciar pelos lábios machos. Decorrentemente, o mesmo ocorre com o Coração de Jesus, sem circulação na prática masculina. De tão alta e constante exegese teológica e decidido amor de papas e episcopado, o Coração de Maria não se inclui nas rogativas tradicionais dos homens, lembrados dos nomes familiares no uso secular: - Nossa Senhora, Carmo, Dores, a onipresente Conceição, Piedade, Bom Conselho, Rosário, Madre-Deus, vivendo a vaga impressão de santas distintas numa única e verdadeira mãe.

A velha Chica Cardosa lavadeira em Campo Grande (Augusto Severo, RN), explicava, com um saber só de experiências feito, que "o coração de mãe é mais mole!" Para a possível meiguice de Jesus Cristo opunha temerosa ressalva: - Nosso Senhor é Pai mas é homem! Arrebatamentos. Restrições. Mistérios. A deusa Tétis já dissera a Vasco da Gama, o que é Deus ninguém o entende!

Mãe e Filho constituem os pais eternos e generosos. O cantador Jacó Passarinho, num auto-elogio, declamava:

Nossa Senhora, é Mãe Nossa
Jesus Cristo é Nosso Pai!
Repente na minha boca
É tanto que sobra e cai!

São José, l’ombre du Père! como diz Ernest Hello, a quem pertence o mês de março e as quartas-feiras, patrono da Igreja Católica por Pio IX, anunciando inverno se chove no seu dia 19, esposo da Santa Virgem, não é nosso castíssimo progenitor, mas o Filho, numa mística e luminosa concepção que somente o povo seria capaz de imaginar e defender para sempre.

Imaculada Conceição

As promessas à Santa Virgem distinguiam-se pela delicadeza intencional, acentuando a sentida oblação. As meninas usariam unicamente a cor branca nas vestes, até a nublidade. Branco com leves ornatos azuis, lembrando a coloração simbólica do firmamento. O delegado fiscal Luís Emídio Pinheiro da Câmara (1849-1916), abençoou dezessete filhos, cinco homens e doze moças, entre elas sete Marias, Alvina Maria, Maria do Carmo, de Belém, de Nazaré, de Bajé, do Céu, da Conceição. O comerciante Joaquim Policiano Leite (1858-1930), batizou todos os rapazes com o nome de José, José Estelita, José Alcides, José Zacarias, José Péricles, José Carlos, os dois últimos meus companheiros de infância. Das seis filhas as primeiras serão Alice e Ester, e as demais louvarão Maria, usando-lhe o doce nome: - Maria Leocádia, Maria de Lourdes, Maria das Dores, Maria Bernardina. De amplidão nacional os Macedos Soares, José Carlos, José Roberto, José Eduardo. Uma família sem Maria na descendência seria uma comprovação pagã. Impunha-se a inclusão mesmo nos meninos, João Maria, José Maria, Luiz Maria. Constitui amuleto verbal pela simples enunciação. "Aqui tem Maria!" gritava-se na aproximação do pé-de-vento impetuoso. E o turbilhão desviava-se, reverente. O cabelo solto, atributo virginal, ou preso em uma ou duas tranças, com lacinhos de fita azul, ostentado até noivado podia constituir "voto à Maria". Mês de Maria, Mês Mariano, maio era festivo e a noturna cerimônia religiosa atraía assistência numerosa, notadamente rapazes e moças, para o enleamento recíproco. Os pontos de encontro eram fortuitos e raros. Quantos casamentos tiveram velocidade inicial nessas noites de incenso e canto? Apesar de lido e corrido, o padre José Severiano de Rezende não informou a origem: "Onde começou este costume e donde veio esta tradição? Ninguém o sabe." (Meu Flos Satorum, 1908). As primeiras indulgências foram concedidas pelo papa Pio VII em 1815. Pereira da Costa cita 1850 como a data de sua introdução em Pernambuco, realizado na igreja do Carmo no Recife. A divulgação pelos sertões nordestinos foi tarefa dos capuchinhos nas Santas Missões correndo um versinho alusivo:

Neste mês de graças cheio
Que o Brasil desconhecia
Das culpas o vem livrar
O Coração de Maria!

Coincidiria com o início do culto ao Coração de Maria, antes ignorado até meados do século XIX no Brasil.

Portugueses e brasileiros cantam o mesmo versinho:

Nas horas de Deus, amém
Padre, Filho, Espírito Santo!
Essa é a primeira cantiga
Que nesse auditório canto!

Mesmo sabendo identificar a unidade trinitária, o português inclui a Virgem Maria na Santíssima Trindade e também no Santíssimo Sacramento: (Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, I, 1926, III, 1929):

Santíssima Trindade
Jesus, Maria e José
Tomais conta da minha alma
Que ela vossa é!
Santíssimo Sacramento
Jesus, Maria e José

A réplica brasileira é solidária na interpretação profundamente sincera.

Bendito, louvado seja
A honra da nossa fé
A Santíssima Trindade
Jesus, Maria e José

Bendito, louvado seja
O Santíssimo Sacramento
Jesus e a Virgem Maria
Que nos dão o alimento

Nossa Senhora das Graças

12 de setembro é dedicado ao Santíssimo Nome de Maria e as pragas irrogadas nesse dia virão por cima de quem as diz. São incontáveis os privilégios do nome, atribuindo à portadora poderes especiais ao pronunciar ensalmos, aplicar ungüentos com orações, afastar redemoinhos e ventanias uivantes, curar ínguas, hérnias, quistos sebáceos. As Marias-virgens transmitem sorte. Pão mordido por elas garante abundância. Mordido o lobinho da orelha, este murcha e desaparece. Cuspindo nas frieiras, mata-se. Para fazer a cama dos recém-desposados ou benzê-la, indicam uma Maria bem-casada. Não morrem afogadas porque Maria é Estrela do Mar, suprema invocação dos templários em perigo de morte. A tradição de Míriam é debatida e confusa e a imaginação borbulhante do padre Antônio Vieira não fixou fiel sinônimo desse profundíssimo e fecundíssimo nome no famoso sermão quando a festa foi instituída. Devia-lhe o grande jesuíta, na invocação de Nossa Senhora das Maravilhas, pequenina imagem de prata no curato da Sé do Salvador, o estalo na cabeça, tornando-o prodigioso de eloqüência e memória.

A letra inicial de Morte, Mãe e Maria nós ostentamos na palma da mão.


1. Renato Síldon, Verve cearense, 185, Rio de Janeiro, 1969, informa: "Os jornais haviam noticiado que certo prefeito do interior goiano catolicíssimo, passara o exercício do cargo à padroeira do município…"

De um outro, baiano, dizia o cônego Marcolino Dantas: - "o prefeito do meu município é Sant’Antônio!" O cônego Marcolino seria o 4º bispo de Natal e seu primeiro arcebispo, de 1929 e 1961. Faleceu em 1967. Foi meu informador.


(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil)

 

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