Jangada Brasil, nº 21, maio de 2000: Catavento – Buricas

BURICAS

O termo burica vem da infância, foi assim que conheci e conheço até hoje as tais bolinhas de gude.

Pra falar a verdade, no popular do dia a dia era burca, uma abreviação rápida. Era comum os amigos chegarem em casa e convidarem para jogar burca. Lembro-me das modalidades:

Jogar lóca: se faz um buraco pequeno no chão, toma-se distância de mais ou menos 3 metros, escolhe meia dúzia de buricas cada jogador, preferencialmente diferentes umas das outras. A partir disso, atira-se as buricas em direção ao buraco, o objetivo é enlocar. Começa quem conseguiu ficar mais próximo do buraco, cada vez que isto acontece (acertar o buraco), o dono da burica tem direito a retirar uma peça de cada jogador e torna-se o proprietário dela. Por isso que se dizia, “vamos jogar a ganhe [valendo] ou a brinques [não valendo]?” Quando os jogadores não eram tão bons em acertar a lóca, fazia-se um buraco maior e aí era comum alguém da roda dizer: – nossa, você fez um cu de boi… desse jeito qualquer um acerta.

Jogar triângulo: desenha-se um triângulo no chão e cada jogador põe 3 buricas dentro do desenho, pode ser nos vértices ou dentro do espaço das 3 linhas. Tomada a distância novamente, atira-se as buricas em direção ao triângulo. Se acertar uma burica de um adversário e tirar ela para fora do triângulo, ela passa a ser sua. Na jogada, a sua burica tem que bater na outra e sair junto do espaço do desenho, senão perde a vez.

Esse jogo tinha ainda outras curiosidades quanto ao nome das diferentes buricas, vamos lá:

Batatão: era a burica em tamanho maior que as outras, geralmente utilizada como apelo para retirar mais peças do jogo de triângulo ou para afastar o inimigo que se aproximava da lóca. Tinha que ser combinado antes se poderia ser usado ou não.

Pioim: ao contrário do batatão, era uma burica menor que as demais. Também usada para defesas estratégicas durante o jogo, como proteção do ataque do batatão.

São-paulina: tamanho menor que o padrão, colorida em vermelho, branco e preto, era a figurinha carimbada dos jogos de burica. Ter uma dessas no bornal era distinguir-se entre os demais. “Voce viu a sãopaulina do fulano ?”… é demais.

Burica sortera: uma espécie de talismã que todos possuíam, utilizada sempre que o jogador estava na pior e perdendo muito no jogo. Apelava-se para a sortera (derivado de sorte/azar) e, em caso de peder-se o jogo, a consolação era não tirar do adversário a tal burica.

Olho-de-cabra: as buricas mais comuns eram verdes e transparentes. Na coleção, o importante era ter peças mais diferentes do que o comum. De vez em quando, no bazar chegava uma ou outra olho-de-cabra. Era da mesma linha das verdes mas vinham com uma lista branca dentro, e de longe, olhando-se bem, parecia um olho de cabra. Só meninos do interior sabem fazer esta comparação.

Copo-de-leite: era opaca, na cor branca puxando um pouco para o esverdeado. Eram raras também e consideradas mais fortes que as demais. Digo forte porque numa jogada bem feita, um bom jogador era capaz de estilhaçar a burica do adversário tamanha a força que punha nos dedos para dar impulso. Daí surgir mais uma regra que era combinada antes do jogo: – vai ter troques ou nada troques. No momento em que se sentia ameaçado em ter uma das suas preferidas rachada ao meio, o jogador grita: Troques! Substitui-se por uma comum e o jogo segue.

Outra regra bem interessante deste jogo: – vai ter corras ou nada corras. O corras corresponde a dois passos largos dados em direção desejada que o favoreça no momento de fazer a jogada. É como num jogo de sinuca, que aliás o de buricas lembra muito em todos os aspectos. Se você se via sinucado podia pedir corras e achar uma posição mais confortável para a jogada.

No jogo da lóca, o objetivo era acertar o buraco e, para isso, você podia atacar as bolinhas dos adversários. Mas a regra dizia que você deveria acertar a que mais próxima estivesse do tal buraco e o palmo de mão era a medida utilizada.

As brigas eram constantes, cada garoto tinha um tamanho de mão e lá vem discussão sobre quem vai levar a chumbada que poderia significar a perda de mais uma burca. Quando a coisa não chegava a um final comum usávamos como medidor a haste de um capim muito comum no interior, o margoso, que chega a medir 40 centímetros de comprimento.

JOGOS DE BURICA, uma tradição interiorana que mantinha os garotos nos quintais/terreiros das casas, bem perto das vistas de suas mães.

(Ivan Evangelista Júnior, em colaboração com a Jangada Brasil)

 

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