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O lugar onde havíamos chegado, calcula-se distar de Natal quarenta léguas. A légua do sertão não tem jamais menos de quatro milhas. Há léguas grandes, léguas pequenas e léguas de nada, as quais achei muito longas, não obstante sua encorajante denominação. Pai Paulo é situado a oito ou dez léguas de Natal, o que deixa trinta ou trinta e duas léguas para a travessia. Avançávamos cerca de três milhas por hora ou pouco mais, viajando de cinco e meia às dez da manhã, e, passando o meio dia, das duas às seis horas.

Tínhamos enfim reentrado em terra habitada pelo homem. O terreno apresenta ainda o mesmo aspecto árido, mas os poços eram tratados, a água melhor e, embora ressequida, a relva era encontrada. Desejava acompanhar o major em parte do caminho para sua fazenda, mas era preciso aconselhar-me com as circunstâncias, sabendo o estado da região que ia percorrer. Íamos em nossa maneira do costume, apenas com maior repouso ao meio-dia. Passávamos umas terras inteiramente planas, vendo duas ou três fazendas por dia, onde o gado era bem miserável e o povo meio extenuado.

Depois de haver seguido o major durante quatro dias após ter deixado o Ceará–Mirim, notei que não seria prudente continuar-me adiantando. As notícias vindas do interior eram más. Chegamos a uma propriedade onde o gado estava morrendo e os homens pensavam abandonar as moradas se não chovesse. Julguei estar distanciado do litoral umas duzentas milhas. Havia ido para o norte e oeste, e devia estar um tanto alongado da margem meridional do Açu, que devia ficar a leste.

Deliberei rumar nessa direção porque meus cavalos fraquejavam e a região estava tão esgotada que não encontraria outros em condições de substituí-los. Demais, viajava para me distrair e meu guia temia seguir para a frente, não encontrando vantagem em obstinar-me nessas condições. Se pudesse ter segurança nesses momentos, o caso seria diverso e correria, de bom grado, todos os riscos. Mas aqui a deserção é mais fácil durante a noite. A dificuldade era avançar e não recuar.

Cada fazenda possuía uma casa de tolerável decência, onde residia o dono ou o vaqueiro e, de ordinário, havia muitas casinhas espalhadas no campo circunjacente. Os currais são próximos à casa principal e habilitam o viajante a distinguir, logo e à distância, uma fazenda.

Ouvi falar em um hábito curioso que existe nessas regiões onde as moradas são tão afastadas umas das outras. Certos padre obtém licença do bispo de Pernambuco e viajam nesses lugares com um altar portátil, construído para esse fim, conduzido por um cavalo, assim como todos os objetos para as missas. Esse é dirigido por um rapaz que ajuda nas missas, e em outro animal vêm o padre e sua pequena bagagem. Esses padres, no curso de um ano, ganham de cento e cinquenta a duzentas libras, renda considerável para o Brasil, mas conseguida com dificuldade, se pensarmos nos sofrimentos e privações que foram obrigados a suportar. Eles param, erguem o altar onde existe um certo número de pessoas que podem pagar para ouvir a missa. É dita o mais das vezes por três ou quatro xelins; mas quando há um homem rico que tem o orgulho de possuir um sacerdote, ou é muito devoto, dá oito ou dez mil-réis, duas ou três libras, e há quem chegue a pagar cem mil-réis para ouvir uma missa, mas é raro. Presenteiam, às vezes, com um boi, um ou dois cavalos. Esses padres tem sua missão no mundo. Se essa tradição não existisse, todo culto era impossível para os habitantes de muitos distritos, ou bem, eles não podiam assistir a um serviço religioso senão uma ou duas vezes por ano, porque é muito para lembrar que algumas partes ficam a vinte e trinta léguas da igreja mais próxima, e nessas paragens em que não há lei nem religião real e racional, alguma coisa é melhor que coisa alguma. Seus batizados e casamentos guardam o ritual religioso e preservam do desaparecimento total as regras estabelecidas na sociedade civilizada. É o liame que prende todo esse povo e o sustenta, no fio das idéias recebidas, junto às populações maiores de outros distritos.

Deixei o major prosseguir sua jornada para casa enquanto eu recuei, ou melhor, avancei na direção oposta, batendo em retirada destas inóspitas regiões. Nada mudou durante o dia e estaríamos pessimamente com a falta de água se não encontrássemos um vaqueiro amável e com outras pessoas igualmente bem dispostas. Perguntei o caminho para a fazenda mais próxima e me indicou. Quando inquiri se encontraria água, disse-me que, a não ser que conhecesse bem o lugar, não acharia o poço. Terminou a conversação oferecendo-se para ir mostrar-me a água, não vendo que alongaria seu caminho por mais quatro ou cinco milhas.

Logo que chegamos ao poço convidei-o para jantar comigo, mesmo não tendo finas iguarias para dar-lhe. De sua parte levava víveres nas boroacas. São pequenos sacos de couro, pendurados um de cada lado da sela. Não quis, entretanto, desmontar e, imediatamente, voltou o cavalo, seguindo o seu caminho. Meu guia, que ficara atrás porque o cavalo coxeava, reuniu-se ao grupo. Era em um campo pedregoso e o poço era cavado entre as pedras, entre duas das quais os cavalos passaram e descemos todos.

Vou dar uma descrição do meu amigo que se afastou da estrada para indicar-me o poço. É a figura comum do sertanejo em viagem. Montava um pequeno cavalo com cauda e crinas compridas. A sela era um tanto elevada adiante e atrás. Os estribos, de ferro ferrugento e os freios, da mesma forma. As rédeas eram duas correias estreitas e longas. Sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro taninado, mas não preparado, de cor suja de ferrugem, amarrados na cinta, e por baixo víamos as ceroulas de algodão onde o couro não protegia. Sobre o peita havia uma pele de cabrito, amarrada para trás, com quatro tiras, e uma jaqueta, também feita de couro, a qual é geralmente atirada em um dos ombros. Seu chapéu, de couro, tinha a forma muito baixa e com as abas curtas, tinha calçados os chinelos da mesma cor, e as esporas de ferro eram sustidas nos seus pés nus por uma correias que prendiam os chinelos e as esporas. Na mão direita empunhava um longo chicote e, ao lado, uma espada metida em um boldrié que lhe descia da espádua. No cinto, uma faca; e um cachimbo curto e sujo na boca. Na parte posterior da sela estava amarrado um pedaço de fazenda vermelha, enrolada em forma de manto, que habitualmente contém a rede e uma muda-de-roupa, isto é, uma camisa, ceroulas e, às vezes, umas calças de nanquim. Nas boroacas que pendiam de cada lado da sela; e o isqueiro de pedra (as folhas servem de mecha), fumo e outro cachimbo sobressalente. A todo esse equipamento, o sertanejo junta ainda uma pistola, cujo cano lingo desce pela coxa esquerda, e tudo seguro.

A cor do sertanejo é morena, e mesmo os que nascem claros se tornam depois, com a diária exposição ao sol, completamente taninados, como as roupas que usam.

(Histórias e Paisagens do Brasil, O Sertão, o Boi e a Seca. Organização de Diaulas Riedel.)
 

É de Viagens ao Nordeste do Brasil esta narrativa de uma excursão através das terras rio-grandenses-do-norte; seu autor Henry Koster, filho de ingleses, nascido em Portugal, chegara a Pernambuco em 1809, retornando a Inglaterra em 1811 mas no mesmo ano vindo de novo para o nordeste do Brasil onde permaneceria até 1815.

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