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O VALONGO 
1º de maio
Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta
longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na
maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas
estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de
sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente
muito fracos para sentarem-se. Em uma casa as portas estavam fechadas até meia altura e
um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito
menos, debruçavam-se sobre a meia porta e olhavam a rua com faces curiosas. Eram
evidentemente negros bem novos. Ao aproximar-me deles, parece que alguma coisa a meu
respeito lhes atraiu a atenção; tocavam-se um nos outros para certificarem-se de que
todos estavam me vendo e depois conversaram no dialeto africano próprio com muita
vivacidade. Dirigi-me a eles e olhei-os de perto, e ainda que mais disposta a chorar. Fiz
um esforço para lhes sorrir com alegria e beijei minha mão para eles; com tudo isso
pareceram eles encantados; pularam e dançaram, como que retribuindo as minhas cortesias.
Pobres criaturas! Mesmo que pudesse eu não diminuiria seus momentos de alegria,
despertando neles a compreensão das coisas tristes da escravidão; mas, apelaria para os
seus senhores, para os que compram e para os que vendem, e lhes imploraria que pensassem
nos males que traz a escravidão, não somente para os negros, mas para eles próprios e,
não somente para eles, mas para suas famílias e para suas descendências.
Afinal de contas, os escravos são os piores e mais caros empregados, e uma prova disso é
o seguinte: - O pequeno terreno que cada um é autorizado a cultivar para seu próprio uso
em muitas fazendas geralmente produz, pelo menos, o dobro em proporção do que a terra do
senhor, apesar das poucas horas de trabalho que lhe são dedicadas [1]. Desde então procurei, sem êxito, obter um quadro
correto do número de escravos importados em todo o Brasil. Temo realmente que será
difícil para mim consegui-lo, em vista das distâncias de alguns portos; mas não
descansarei até que obtenha, ao menos, um quadro do número das entradas nas alfândegas
daqui durante os últimos dois anos. O número de navios da África que vejo
constantemente entrando no porto, e as multidões que se atropelam nas casas de escravos
nesta rua, convencem-me de que a importação deve ser muito grande. A proporção
ordinária das mortes na travessia é, estou informda, cerca de um em cada cinco.
Nota:
1. Só na minha volta à Inglaterra vim
conhecer o resultado das atividades de Josué Steele em Barbados. Não preciso acrescentar
uma palavra desta parte do assunto, mas forneço ao leitor os quadros seguintes da entrada
de negros na alfândega do Rio nos anos de 1821 e 1822:
1821 |
JANEIRO
Moçambique: 483
Moçambique: 337
Ambris: 352
Cabinda: 409
Cabinda: 348
Luanda: 549
Benguela: 396
TOTAL: 2.874 |
FEVEREIRO
Cabinda: 193
Cabinda: 342
Cabinda: 514
Moçambique: 277
Moçambique: 600
TOTAL: 1.926 |
MARÇO
Quilemani: 311
Quilemani: 385
Quilemani: 342
Quilemani: 257
Quilemani: 260
Quilemani: 291
Quilemani: 287
Angola: 345
Angola: 433
Angola: 259
TOTAL: 3.170 |
ABRIL
Angola: 430
Quilemani: 280
Cabinda: 287
Cabinda: 451
TOTAL: 1.448 |
MAIO
Angola: 342
Angola: 361
Angola: 231
Quilemaani: 225
Moçambique: 122
TOTAL: 1.281 |
JUNHO
Angola: 680
TOTAL: 680 |
AGOSTO
Luanda: 514
Luanda: 460
Luanda: 734
Luanda: 304
Luanda: 227
Benguela: 339
TOTAL: 2.578 |
SETEMBRO
Angola: 685
TOTAL: 685 |
OUTUBRO
Angola: 452
Angola: 375
Benguela: 510
TOTAL: 1.337 |
NOVEMBRO
Ambris: 220
Benguela: 390
Angola: 579
Angola: 544
Angola: 388
Quilemani: 446
TOTAL: 2.567 |
DEZEMBRO
Angola: 516
Angola: 523
Angola: 309
Moçambique: 394
Moçambique: 330
Cabinda: 562
TOTAL: 2.634 |
TOTAL
DE 1821: 21.199 |
1822 |
JANEIRO
Cabinda: 744
Cabinda: 417
Cabinda: 459
Cabinda: 144
Moçambique: 305
Moçambique: 278
TOTAL: 2.347 |
FEVEREIRO
Moçambique: 421
Moçambique: 419
Moçambique: 399
Moçambique: 520
Angola: 406
Angola: 400
Angola: 406
Quilemani: 436
Quilemani: 446
Benguela: 420
TOTAL: 4.273 |
MARÇO
Cabinda: 667
Cabinda: 400
Quilemani: 504
Quilemani: 487
Quilemani: 406
Moçambique: 452
Moçambique: 455
Angola: 305
Angola: 354
Angola: 371
TOTAL: 4.401 |
ABRIL
Quilemani: 323
Quilemani: 203
Angola: 519
Angola: 418
Cabinda: 291
Cabinda: 377
TOTAL: 2.131 |
MAIO
Angola: 398
Benguela: 388
TOTAL: 786 |
JUNHO
Cabinda: 432
Cabinda: 533
Angola: 302
Angola: 761
Benguela: 390
TOTAL: 2.418 |
JULHO
Cabinda: 427
Angola: 691
TOTAL: 1.118 |
SETEMBRO
Angola: 572
Angola: 534
Cabinda: 466
Benguela: 524
Benguela: 298
TOTAL: 2.394 |
OUTUBRO
Luanda: 467
Benguela: 428
Cabinda: 434
Cabinda: 337
TOTAL: 1.666 |
NOVEMBRO
Cabinda: 417
Cabinda: 499
Luanda: 561
Benguela: 425
TOTAL: 1.902 |
DEZEMBRO
Luanda: 514
Cabinda: 534
Quilemani: 450
TOTAL: 1.498 |
TOTAL
DE 1822: 29.934 |
(GRAHAM, Maria. Diário de uma visita ao Brasil e
de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823) |
Veja também:
- Como se há
de haver o senhor de engenho com seus escravos.
- Os vários
trabalhos dos negros
- Nobreza e
elegância dos minas, as impressões da viajante Elizabeth Cary Agassiz.
- Valongo,
Mercado de Vidas, por Jean-Baptiste Debret.
- Permutas
alimentares afro-brasileiras, por Luís da Câmara Cascudo.
-
A brincadeira
Capitão-de-campo-agarra-negro. |