Retornar para PalhoçaRetornar para Palhoça
Ir para a página principal

 

O VALONGO

EARLE, A. Valongo, ou mercado de escravos no Rio, 1824. In GRAHAM, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil...

1º de maio
Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se. Em uma casa as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debruçavam-se sobre a meia porta e olhavam a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos. Ao aproximar-me deles, parece que alguma coisa a meu respeito lhes atraiu a atenção; tocavam-se um nos outros para certificarem-se de que todos estavam me vendo e depois conversaram no dialeto africano próprio com muita vivacidade. Dirigi-me a eles e olhei-os de perto, e ainda que mais disposta a chorar. Fiz um esforço para lhes sorrir com alegria e beijei minha mão para eles; com tudo isso pareceram eles encantados; pularam e dançaram, como que retribuindo as minhas cortesias. Pobres criaturas! Mesmo que pudesse eu não diminuiria seus momentos de alegria, despertando neles a compreensão das coisas tristes da escravidão; mas, apelaria para os seus senhores, para os que compram e para os que vendem, e lhes imploraria que pensassem nos males que traz a escravidão, não somente para os negros, mas para eles próprios e, não somente para eles, mas para suas famílias e para suas descendências.

Afinal de contas, os escravos são os piores e mais caros empregados, e uma prova disso é o seguinte: - O pequeno terreno que cada um é autorizado a cultivar para seu próprio uso em muitas fazendas geralmente produz, pelo menos, o dobro em proporção do que a terra do senhor, apesar das poucas horas de trabalho que lhe são dedicadas [1]. Desde então procurei, sem êxito, obter um quadro correto do número de escravos importados em todo o Brasil. Temo realmente que será difícil para mim consegui-lo, em vista das distâncias de alguns portos; mas não descansarei até que obtenha, ao menos, um quadro do número das entradas nas alfândegas daqui durante os últimos dois anos. O número de navios da África que vejo constantemente entrando no porto, e as multidões que se atropelam nas casas de escravos nesta rua, convencem-me de que a importação deve ser muito grande. A proporção ordinária das mortes na travessia é, estou informda, cerca de um em cada cinco.


Nota:

1. Só na minha volta à Inglaterra vim conhecer o resultado das atividades de Josué Steele em Barbados. Não preciso acrescentar uma palavra desta parte do assunto, mas forneço ao leitor os quadros seguintes da entrada de negros na alfândega do Rio nos anos de 1821 e 1822:

1821

JANEIRO

Moçambique: 483
Moçambique: 337
Ambris: 352
Cabinda: 409
Cabinda: 348
Luanda: 549
Benguela: 396

TOTAL: 2.874

FEVEREIRO

Cabinda: 193
Cabinda: 342
Cabinda: 514
Moçambique: 277
Moçambique: 600

TOTAL: 1.926

MARÇO

Quilemani: 311
Quilemani: 385
Quilemani: 342
Quilemani: 257
Quilemani: 260
Quilemani: 291
Quilemani: 287
Angola: 345
Angola: 433
Angola: 259

TOTAL: 3.170

ABRIL

Angola: 430
Quilemani: 280
Cabinda: 287
Cabinda: 451

TOTAL: 1.448

MAIO

Angola: 342
Angola: 361
Angola: 231
Quilemaani: 225
Moçambique: 122

TOTAL: 1.281

JUNHO

Angola: 680

TOTAL: 680

AGOSTO

Luanda: 514
Luanda: 460
Luanda: 734
Luanda: 304
Luanda: 227
Benguela: 339

TOTAL: 2.578

SETEMBRO

Angola: 685

TOTAL: 685

OUTUBRO

Angola: 452
Angola: 375
Benguela: 510

TOTAL: 1.337

NOVEMBRO

Ambris: 220
Benguela: 390
Angola: 579
Angola: 544
Angola: 388
Quilemani: 446

TOTAL: 2.567

DEZEMBRO

Angola: 516
Angola: 523
Angola: 309
Moçambique: 394
Moçambique: 330
Cabinda: 562

TOTAL: 2.634

TOTAL DE 1821: 21.199

1822

JANEIRO

Cabinda: 744
Cabinda: 417
Cabinda: 459
Cabinda: 144
Moçambique: 305
Moçambique: 278

TOTAL: 2.347

FEVEREIRO

Moçambique: 421
Moçambique: 419
Moçambique: 399
Moçambique: 520
Angola: 406
Angola: 400
Angola: 406
Quilemani: 436
Quilemani: 446
Benguela: 420

TOTAL: 4.273

MARÇO

Cabinda: 667
Cabinda: 400
Quilemani: 504
Quilemani: 487
Quilemani: 406
Moçambique: 452
Moçambique: 455
Angola: 305
Angola: 354
Angola: 371

TOTAL: 4.401

ABRIL

Quilemani: 323
Quilemani: 203
Angola: 519
Angola: 418
Cabinda: 291
Cabinda: 377

TOTAL: 2.131

MAIO

Angola: 398
Benguela: 388

TOTAL: 786

JUNHO

Cabinda: 432
Cabinda: 533
Angola: 302
Angola: 761
Benguela: 390

TOTAL: 2.418

JULHO

Cabinda: 427
Angola: 691

TOTAL: 1.118

SETEMBRO

Angola: 572
Angola: 534
Cabinda: 466
Benguela: 524
Benguela: 298

TOTAL: 2.394

OUTUBRO

Luanda: 467
Benguela: 428
Cabinda: 434
Cabinda: 337

TOTAL: 1.666

NOVEMBRO

Cabinda: 417
Cabinda: 499
Luanda: 561
Benguela: 425

TOTAL: 1.902

DEZEMBRO

Luanda: 514
Cabinda: 534
Quilemani: 450

TOTAL: 1.498

TOTAL DE 1822: 29.934

(GRAHAM, Maria. Diário de uma visita ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823)

 

• Veja também:

- Como se há de haver o senhor de engenho com seus escravos.

- Os vários trabalhos dos negros

- Nobreza e elegância dos minas, as impressões da viajante Elizabeth Cary Agassiz.

- Valongo, Mercado de Vidas, por Jean-Baptiste Debret.

- Permutas alimentares afro-brasileiras, por Luís da Câmara Cascudo.


- A brincadeira Capitão-de-campo-agarra-negro.

Palhoça

Folhinha | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Colher de Pau | Panacéia | Catavento | Almanaque
Candeeiro | Mural | Expediente
| Busca | Outras Edições