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Ir para a página principal MUTIRÃO

É instituição universal, resultante do instinto gregário do homem. Cada grupo social organiza-se segundo seus hábitos e tendências, de acordo também com o ambiente onde vive.

Quem conhece o Brasil, quem estuda sua evolução social e econômica, certo conhece o mutirão.

À forma brasileira de auxílio mútuo entre vizinhos, dá-se o nome de mutirão ou adjunto. Este auxílio mútuo não tem origem local. É antes uma conseqüência do instinto gregário do homem. Uma resultante da vida em sociedade. A unificação de esforços no sentido econômico.

O povo une-se para enfrentar o trabalho, como se une para enfrentar o inimigo ou para apagar o incêndio da casa do vizinho.

Apenas cada grupo social o organiza, segundo seus hábitos e suas tendências peculiares.

Plínio Ayrosa observa que não é original do Brasil esse costume, e que todos sempre o praticaram, sob vários nomes e aspectos. Sendo o "mutirão" um fenômeno universal, existente ainda hoje em muitas sociedades primitivas, é um traço cultural que mostra a solidariedade humana de todos os povos. No Brasil é uma amálgama de várias culturas.

Dava-se origem ameríndia ou africana ao mutirão, quando tudo que se pode admitir, neste particular, é que, só em determinados casos, houve maior influência cultural deste ou daquele povo, no costume.

Há, naturalmente, uma série enorme de variantes de mutirão. Ora, próximas das origens ameríndias como: putirão, muquirão, putirum, puxirum, etc. No sul e no vale amazônico, designações regionais que denunciavam a procedência portuguesa do costume, como: arrelia, bandeira, batalhão, boi-de-cova, faxina…

Duas são as maneiras por que se manifesta a solidariedade entre os membros do grupo: a solicitada e a espontânea.

Na primeira, o que necessita de ajuda para levar a cabo determinado trabalho, apela com antecedência para a vizinhança. O convite é feito diretamente mas, por vezes, de modo indireto; o que é convidado para o serviço, geralmente convida outros que, a seu ver, podem comparecer à reunião, no dia combinado.

Na segunda modalidade, a cooperação nasce do impulso instintivo de socorrer alguém que se encontra necessitado e que, por este ou aquele motivo, deixou de solicitar ajuda. É uma manifestação de espírito fraternal do grupo, um meio talvez, de reafirmar, para que não pereçam os sentimentos solidários.

Em ambas as modalidades, tanto o que pede ajuda, como o que recebe auxílio espontâneo, embora nenhuma disposição contratual a isso os obrigue, ficam no dever de retribuir a prestação de serviço, na primeira oportunidade, quando for solicitado o concurso, ou se apresentar ensejo de colaborar espontaneamente.

Essa obrigação, consagrada pelo costume, é uma norma de natureza puramente moral. Muito embora não se disponha de informações sobre a escala em que as mulheres participam destes trabalhos, parece que a participação do elemento feminino é, principalmente, indireto e, só em determinados casos e circunstâncias, é direto.

O canto é muito importante. Amadeu Amaral, aludindo a este aspecto escreveu: "Quando um ajuntamento de pessoas do povo se ocupa no transporte de objetos pesados, derrubada de uma árvore, se entrega à fúria dos "mutirões", todos sentem a irresistível necessidade de cantar. Muitas vezes, o canto não tem palavras e se resume na repetição de gritos alongados a intervalos regulares".

Às vezes, as palavras aparecem, mas nada exprimem de inteligível, outras vezes, enfim, esse sentido se manifesta.

A festa, que geralmente arremata o mutirão, constitui um dos elementos estruturais, revestindo, além daquele caráter de compensação imediata, um sentido essencialmente comemorativo.

Em vários pontos do nordeste, no sudeste (sobretudo em Minas Gerais) e do Centro-Oeste (Goiás) recebe o nome de pagode.

(RUIZ, Corina Maria Peixoto. Didática do folclore)

 

Ajudai-me companheiro
Na empreitada deste dia
Trabalhemo o dia inteiro
Com fé na Virgem Maria

Nasce a força, da união
Do trabalho, o progresso!
O amigo, do coração
A vitória, do sucesso!

Da saúde, nasce a vida
Da terra, as plantações
Da pátria, mãe querida
Nascem novas gerações

***

Mutirão: Auxílio gratuito que se prestam os lavradores, reunindo-se todos os da redondeza e realizando o trabalho em proveito de um só, que é o gratificado, mas que nesse dia faz os gastos de uma festa ou função. Esse trabalho pode ser a colheita, ou queima, ou plantio, ou taipamento de uma casa (Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, 710).

Em meados do século XVI e princípios do imediato, o jesuíta Fernão Cardim e o franciscano Ivo d’Evreux registravam esse processo de cooperação agrícola na Bahia e no Maranhão, enre os indígenas, afastando a possibilidade determinante de uma influência alienígena. Há, naturalmente, forma idêntica de auxílio entre os agriculores de todo o mundo: Carreto, na Beira, e Bessada, no Minho (Portugal). Filouas, na Bretanha. Combite, no Haiti. Mauri, na Guiana Francesa. Rafael Damiron assistiu a ele no sul da República Dominicana, e Vicente T. Mendoza do estado mexicano de Sonora.

No Brasil o mutirão, que é o nome mais conhecido, com aplicação em dez estados, tem os sinônimos de ajuri e putirum (Amazonas); mutirão, mutirom, mutirum, putirão, putirom, putirum (Pará); mutirão, estalada (Maranhão); adjutório (Piauí); adjunto (Ceará); adjunto, ajuda, arrelia, faxina (Rio Grande do Norte); arrelia, bandeira, batalhão (Paraíba); adjunto, corte (Pernambuco); adjunto (Alagoas); adjutório, batalhão (Sergipe); adjutório, batalhão, boi-de-cova (Bahia); mutirão (Espírito Santo); mutirão, putirão (Rio de Janeiro); mutirão (São Paulo); mutirão, pixirum (Paraná); mutirão, pixirum (Santa Catarina); adjutório, pixurum (Rio Grande do Sul); batalhão, mutirão, pixirão (Minas Gerais); mutirão, suta (Goiás); mutirão, traição (Mato Grosso).

Há um ensaio de Hélio Galvão (‘Mutirão e adjunto’, Boletim geográfico, 29, p. 723-731) com a informação mais completa na espécie.

Morena minha morena,
Rainha do mutirão
Não há ninguém que te iguale
Nas rodas deste sertão

Quadrinha mineira, Mil quadras populares brasileiras, Carlos Góes, nº 453. Rio de Janeiro, 1916.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)

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