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OS VÁRIOS TRABALHO DOS NEGROS 
Gostais da África? Ide, pela manhã, ao mercado próximo
do porto. Lá está ela, sentada, acocorada, ondulosa e tagarela, com o seu turbante de
casimira, ou vestida de trapos, arrastando as rendas ou os andrajos. É uma curiosa e
estranha galeria, onde a graça e o grotesco se misturam, Povo de Cã, debaixo de sua
tenda.
Há também as negras vendedoras, matronas do lugar, patrícias da manga e da banana, com
o seu rosário de chaves. Essas damas mercadoras têm seus escravos que lhes arrumam as
quitandas, vigiam, vendem ou vão colocar seus grandes cestos nas esquinas das ruas
freqüentadas, tentando a curiosidade do passante. Não acrediteis que essa aristocracia
do comércio negro, que tem prerrogativas e patentes, se deixe arrastar pelas suaves e
santas piedades a ponto de socorrer os pés descalços da África, seus irmãos ou
irmãs. Ela é avara e implacável. Só ama e compreende o dinheiro, e os próprios
portugueses a respeitam em negócios.
A segunda classe de quitandeiras não tem mais que um tamborete e um tabuleiro sobre
estacas e debaixo de um toldo, nas horas de muito sol. Algumas são graciosas, pelo
turbante, pelo xale que flutua, pelos dentes, olhos vivos e profundos, talhe esbelto e
flexível, o olhar pesquisador e a chinela que arrasta. Graça, indolência, por vezes
porte de rainha, é o que se encontra nessas filhas das Minas e da Bahia. Mais tipo
oriental do que africano. Se Décamps, o colorista núbio, viesse algum dia comer banana e
se inspirar no Rio de Janeiro, acharia coisa melhor que os seus turcos. As minas e as
baianas são as circassianas da velha África.
Agachadas ou marchando atrás das senhoras, vão as negras do Congo, de Moçambique, de
Anguiz e de Benguela. É o proletariado negro, em saias amarrotadas, bochechas tatuadas e
anéis de cobre. Algumas delas têm filhos carapinhentos e nus que brincam pelo chão; e quando levam o cesto à cabeça,
carregam às costas o seu querubim negro enrolado com sua manta azul, como um esquilo na
folhagem. O seio o nutre, o dorso o conduz, o olho o acaricia. O petiz crescerá. Tanto
pior para a mãe: mais depressa será vendido. "Um moleque bem desenvolvido, não
percam a ocasião!"
Esses negros que passam, cesto à mão, ou esses outros, imóveis aos cantos dos
corredores, atrás das portas, são os pretos do ganho à vossa espera. Percorrem a
cidade, as ruas comerciais, as praças públicas. Fazem mudanças. A qualquer hora vergam
sob o fardo. Quando este é por demais pesado, formam grupo, cada qual com o seu mister, e
lá se vão ao som cadenciado de uma canção breve e triste. Às vezes tangem um chocalho
para regular a marcha. Música de cariátides!
Os que ficam nos mercados são os velhos, os débeis, os enfermos, que não têm força
senão para carregar cestos de frutas, provisões, ou para os pequenos transportes.
Enquanto os outros, os mais moçcos e robustos, fazem o serviço entre os armazéns e o
porto, carregam e descarregam os navios. Dificilmente se encontrariam mais belos grupos de
estivadores, vivos e velozes, em Marselha ou nas docas de Londres. É verdade que lá o
grande comércio tem todos os seus apetrechos os guindastes, os moitões, as polias,
os cabrestantes, os pequenos caminhos de ferro, e não se tem tanta necessidade de atrelar
o homem.
Perde com isso o pitoresco, é possível; porém lucram a circulação e a dignidade
pública. O transporte é mais rápido e barato. A máquina substitui o animal de carga, e
eu estou para a máquina como os filósofos e os negociantes, que, em vários pontos,
nunca estão de acordo.
A quem reverte o salário, o ganho do negro?
O senhor taxa o escravo a tanto por dia ou por semana. Ele precisa da sua ração. E como
ela é regulada pela sua força, atividade e inteligência, é difícil para o negro
ajuntar seu pecúlio ou gastá-lo com as dançarinas.
Há no Rio proprietários que mantém no ganho até trezentos escravos, e cada noite
aferrolham tranqüilamente um rendimento de lista civil. Por que não? Compraram a
ferramenta, o instrumento. Carne, suor e sangue, tudo lhes pertence. No entanto, são
católicos, membros de várias irmandades, acompanham as procissões, tocha na mão,
visitam as igrejas e fazem a sua páscoa. Santos homens!
A segunda divisão do povo negro, no Rio de Janeiro, constitui a classe numerosa dos
criados de aluguel. Abri os jornais, lede os anúncios. Os aluga-se, vende-se,
precisa-se fervilham. Predomina o aluga-se. Aí encontrareis domésticos de
mesa ou de quarto, trabalhadores, amas de crianças, lavadeiras, mucamas, cozinheiros,
moços de cozinha, pajens. Há de tudo, para todas as necessidades, nessas tabuletas
mercantis que choram, muita vez, na primeira página, sobre as desgraças sagradas da
Itália ou da Polônia.
É uma lista detalhada de todas as funções servis, como nunca existiu nos arquivos da
velha Roma.
Ó Guttenberg, filho de Prometeu, estás feito arrolador!
Sapateiros, alfaiates, funileiros, pedreiros, pequenos industriais e fabricanes, que não
podem adquirir o instrumento negro, alugam-no e lhe pagam os serviços. Para quem os
salários desses obreiros e empregados? Para os senhores, integralmente. Compete a renda
àquele que possui o imóvel, a propriedade, a coisa. Nesse caso, o senhor Dupin,
que outrora implorava por Pilatos, contra Cristo, nada teria a dizer. Essa classe de
negros alugados, os escravos que servem nas casas ricas e os do ganho formam o conjunto
das diversas colônias africanas no Rio. Ora, conquanto o tráfico não abasteça mais os
mercados e o cólera, há cinco anos, haja dizimado a população, esta, em lugar de
descrescer, aumentou, pelo menos, de cem mil.
[1859]
(Charles Ribeyrolles. In. BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso) |
Veja também:
- Como se há
de haver o senhor de engenho com seus escravos.
- O Valongo,
descrito pela viajante inglesa Maria Graham.
- Nobreza e
elegância dos minas, as impressões da viajante Elizabeth Cary Agassiz.
- Valongo,
Mercado de Vidas, por Jean-Baptiste Debret.
- Permutas
alimentares afro-brasileiras, por Luís da Câmara Cascudo.
-
A brincadeira
Capitão-de-campo-agarra-negro. |