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A MÃE-DÁGUA Ah! Danada gritou. É você quem carrega as minhas melancias. Pois agora você vai para minha casa, para se casar comigo. Eu não gritava a moça. Eu não. Mas o homem era forte e ela foi. Bem feito para mim, que roubava as frutas disse ela. Você então se casa comigo? perguntou o homem, embevecido com a sua beleza. Caso. Mas tem uma coisa. O que? - Nunca arrenegue de gente debaixo dágua. Pois sim. Nunca arrenegarei. Foram para a cidade, num domingo, para se casar. Juntou gente para ver moça, tão linda, com seus cabelos verdes, e olhos de água verde, tão linda! Entrou na casa do pobre e com ela o milagre. E com ela a fartura. O melancial deu de arrebentar em melancias de arroba. O arrozal pendia de espigas enormes. Nas laranjeiras era preciso pôr escoras, pois vinham abaixo com as laranjas. E as vacas tinham bezerros formosos. As ovelhas, tanta lã que as maçarocas tiradas cada verão deram um fabuloso lucro. E era tudo assim. O homem fazia um negócio, ganhava um mundo de dinheiro. Comprou escravos, comprou terras, aumentou as plantações. Adquiriu mobílias, louças, jóias, roupas. O gado inumerável, dinheiro de não se acabar, escravaria, tudo que tinha se multiplicado. Tudo que não tinha lhe veio ter às mãos. Corria tudo muito bem, quando a moça começou a se desleixar. Andava pela casa com os vestidos esfrangalhados, emaranhada a bela cabeleira. Como não tomava conta de nada mais, os escravos também nada faziam. E era uma sujeira de dar nojo, pela casa toda. Os filhos de carinha suja choramingavam de fome. O marido pedia: - Mulher, tome conta da casa. O que foi isso? Você era tão prestimosa A moça nem respondia. E a casa e ela e os filhos continuavam na mesma. Um dia, o homem, arreliado, falou: - Arre, também, que já estou perdendo a paciência. Arrenego de gente debaixo dágua. A moça, que estava sentada, levantou-se mais que depressa e foi andando em direção ao rio, ao mesmo tempo que cantava: "Zão, zão, zão, zão Calunga, Olha o munguelendô, Calunga, Minha gente toda Calunga Vamos embora, Calunga" O homem gritou: - Não vai lá não, mulher. E ela, sem olhar para trás, ia andando. Atrás dela foram saindo os filhos, os escravos, o pessoal jornaleiro das roças: "Zão, zão, zão, zão Calunga, Olha o munguelendô, Calunga, Meus bichos todos Calunga Vamos embora, Calunga" Com vagaroso passo foram os rebanhos se dirigindo para o rio. Foram as vacas de leite, os bois de carros, as ovelhinhas brancas de neve, cabras e cavalos e burros, bestas de carga, até o cachorrinho, até o gato, até a tartaruguinha com que as crianças brincavam, e o papagaio. Alcançaram a Mãe dÁgua, passaram adiante dela, foram andando para o rio e entrando nágua como se pisassem no terreno limpo, e desaparecendo aos poucos, sem alarido. "Zão, zão, zão, zão Calunga, Olha o munguelendô, Calunga, Meus "terens" todos Calunga Vamos embora, Calunga" - Não vá embora não, minha mulher o homem gritava. Os móveis, as jóias, a louça, os baús, começaram a pular em direção ao rio. Até a casa se sacudiu e pulou. Cercados, telheiros, galinheiros, cercas de divisa, plantações, foi tudo engolido pelas águas. Dentro em pouco, a moça, cantando, mergulhou também. Quando o homem viu, estava sozinho, na margem tranqüila, com as suas roupas de pobre, e na terra somente havia uma plantaçãozinha reles de melancia. Ele foi viver de novo pobremente, de vender as frutas, mas também nunca mais a Mãe dÁgua buliu na sua roça. (GUIMARÃES, Ruth (org.). Lendas e fábulas do Brasil) |
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