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CONGADAS Lá vem! Lá vem! Lá vem! Descendo a rua do Rosário, pela altura da dos Latoeiros, caminho do terreiro do Paço, a tropilha folgaz dos negros vem cantando, a dançar, ao som de adufos, caxambus, chequerês, marimbas, chocalhos e agogôs, seguida, açulada, aplaudida pelo poviléu garrulo e jovial que com ela faz mescla e se expande feliz. Nunca se viu na rua tanto negro! São negros de todas as castas e todas as ralés, despejados pelas vielas e alfurjas em redor, atraídos pelo engodo da folia: congos e moçambiques, monjolos e minas, quiloas e benguelas, cabindas e rebolos, de envolta com mulatos de capote, com ciganos e moleques, a turba multa dos quebra-esquinas, escória das ruas, flor da gentalha e nata dos amigos do banzé. O reboliço cresce, referve, explode, continua Nos interiores das casas, a famulagem, ouvindo fora o ruído das músicas, desencabestada e candente, abandona o trabalho, deserta cozinhas, vara corredores, derribando móveis, batendo portas, saltando janelas, caindo na rua Não há escravo que atenda amo, que obedeça a senhor nesse minuto de desabafo e embriaguez. É uma loucura! O que ele quer, o negro, é aturdir-se na folia, mergulhar na folgança, integralizar-se no ritmo do samba, fazendo um pião do tronco, e das pernas dois molambos, que se confundem em delírio coreográfico. É um desengonço macabro, em que a gente sente o negro desanatomizar-se todo, desarticulando o braço, cabeça, pé, perna, pescoço e mão. Isso tudo aos guinchos, aos assobios, aos berros, aos aia! oia! eia! São as congadas! Para ver o rei em charola, vêm até os mendigos escravos do Arco do Teles, elefantíacos, mutilados, chagosos, saltando em muletas, às costas de validos, ou, como répteis, de rastros Vamos encontrar nos tempos coloniais a Igreja intervindo e animando essas folias africanas, que aqui se revestiam de caráter cristão. Igrejas como a do Rosário e da Lampadosa mostram, ainda, nos seus arquivos, notícias de animação e parceria a essas fantochadas pagãs, feitas sob a égide de São Benedito, de São Baltazar e de outros santos de tez carregada. É que a bandeja das esmolas, pela hora da folgança, dentro ou fora da igreja, era sempre uma bandeja admirável, garantidora não só do custo de toda a cera do santo como ainda do desafogo e de muitas aperturas da irmandade. O senso prático dos homens, como se vê, não é privilegio destes tempos. Já o conheciam os irmãos das confrarias coloniais. As coroações de reis congos faziam-se nas próprias igrejas. Coroava-se o negro e disso se lavrava um termo. Em 1811 coroou-se a Caetano Lopes dos Santos, rei, e a Maria Joaquina, rainha, ambos da nação Cabundá, diz o termo lavrado na Lampadosa, "por estarem eleitos e por terem as respectivas licenças do senhor Intendente da Polícia". O papelucho histórico traz a assinatura de um íntegro sacerdote, o reverendo padre capelão Tomás Joaquim de Melo. Para tais solenidades, em tudo copiadas das que serviam à coroação dos verdadeiros reis, enfeitava-se toda a igreja, acendiam-se os altares e até repicavam os sinos. Não esquecer que a bandeja das esmolas, avantajada e funda, para melhor funcionar era posta à prova das mais violentas esfregações, areiada, brunida, espelhada, posta como nova em folha Vejamos, porém, o préstito, que já dobrou a rua Direita, passando pela igreja da Cruz, caminho do palácio vice-real. A um silvo agudo dado pelo capataz, diretor do folguedo, com dois dedos à boca, refreia-se enfim o estouvado entusiasmo, açaima-se o regabofe. Há no préstito mais ordem. As músicas vão à frente. Dominando a massa, no alto, em vistosos andores o rei e a rainha, sob pálios carmezins, as pontas das varas enfeitadas de plumas e laçarotes. Vestem seda, tanto um como outro. Para isso, tirou-se uma licença especialíssima no Senado da Câmara, uma vez que a aplicação das leis suntuárias é rigorosa, quando se trata de gente de cor. Negro e mulato, segundo a pragmática de 1749, na verdade, não podiam sequer usar lãs e algodões de certa categoria. Sedas, então Nem sedas, nem ornatos de ouro e prata, embora falsos. Traz o rei negro sobre a encanecida cabeça uma coroa de papelão dourado, que nem por isso deixa de ser trazida com menos dignidade e grandeza. Veste uma casaca de chamalote marrom, véstia amarela, calções e meias cor de telha, trazendo sobre os ombros um manto rubro todo feito de belbute e recamado de estrelas e meias luas de latão. Ao sol canicular que esplende e que castiga, sentindo da terra em fogo os bafos e as quenturas que esbraseiam e sufocam, el-rei Beiçola, dentro do inferno de sua indumentária, desaparecido sob um mundo de sedas e belbutes, todo sarapontado de placas metálicas, é no entanto, o homem mais feliz e mais refrescado do mundo, pois de emoção nem sofre o forno em que o meteram. Olhem-lhe os pés enormes, enfiados numas sapatarras de vaca. Debaixo daquele couro que queima, há uma meia de seda que escalda, e debaixo da meia, sobre cada dedo do pé, uma braza Sente-as, porém, o negro rei? Pois sim! O que ele sente nesse minuto histórico é a importância da figura que vai fazendo, debaixo da sua coroa de papelão. O que o preocupa e impressiona é a majestade do porte, esquecendo o tronco, em que de tempos a tempos o metem, coitado, olvidando o relho do feitor, e, até, a marca do Senado da Câmara, feita a ferro em brasa na espádua esquerda Não há em toda terra monarca mais altivo. Nem negro mais feliz. Vem, após, a rainha. Também traz coroa, roupas de seda, um merinaque estupendo, armado de barbadas e, sobre tudo isso, o manto pesadíssimo de belbute. No couce do préstito, então, as figuras menores, e que devem depois viver o poema coreográfico, que será exibido diante das janelas do vice-rei. No largo, em frente ao palácio, estaca o préstito. Baixam, dos andores reais, os negros soberanos. Já o principal, sempre ao som da música, agitando o seu bordão enfitado, marcou o campo das danças, agitado e loquaz: - Vai começar! Vai começar! Erguendo-se do trono de improviso e posto à flor da terra, o rei, aí, resvalando o pernil cinqüentão ataca um bailado curioso, sempre envolto na capa pesadíssima, fazendo chocalhar as estrelas e as luas de metal: Sô rei du Congo Quero brincá; Cheguei agora De Portugá O coro: É Sambangalá Chegado agora De Portugá |
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