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OS DOIS REPENTISTAS
(Lira e viola)
Desafio sertanejo para ser representado em teatro ou simplesmente lido.
Cenário
Paisagem do sertão. Uma choça, e, à porta, um violeiro tocando viola, o qual, momentos
depois, será surpreendido pelo doutor que o está ouvindo detrás de uma árvore e que
veio expressamente da capital, (A Corte) para se bater com ele em desafio. O sertanejo,
depois de muitas recusas feitas com timidez aos reptos orgulho provocador,
atira-lhe estas frases decisivas: "Apois vamo lá, seu doutô! Quem tem seu vintém,
bebe logo",
E começa o desafio falado, podendo ser em alguns trechos florescido com uns toques de
viola.Doutor:
Caboclo, edulcora o estro
Alça o teu filosofismo
E num prelio de lirismo
Vamos ver quem é mais destro
Caboclo:
Seu doutô, eu tôu lhe uvindo
Mas não posso arrespondê!
Fale língua de caboclo
Que eu nunca prendi a lê
D:
Se eu não falo a tua língua
E tu não falas a minha
Nós dois não nos entendemos
Que a gente não se adivinha
C:
Fale ansim, que eu lhe arrespondo!
Fale ansim! Tá munto bão!
Remexa no seu quibambo
Que eu troceio meu cambão
D:
Eu cheguei hoje da Corte
E vou ter o alegrão
De cantar um desafio
Com um cantador do sertão
C:
Eu não sei cantá, seu moço
Canto só de vadiação
D:
Eu já sei que tu não podes
Sair hoje vencedor
Cantando com um homem culto
Que além de poeta é doutor
C:
Um doutô é um hôme grande
E eu sou um hôme pequeno
Mas, cumo lá diz o outro
"Quem tá moiado de chuva
Não tem medo de sereno"
D:
Entendo a tua ironia!
Estás muito entusiasmado!
Mas, se eu quiser, em três tempos
Tu ficas estrangulado
C:
Eu sou cumo caranguejo
Que nasce descabeçado
E aniceto sem cabeça
Não pode sê inforcado!
D:
És esperto como um gato
Mas hás de ficar pacato!
C:
Seu moço, intremo num trato
D:
Tu és fino, como um rato!
C:
Óie aqui! Eu tôu cum a mão!
Eu canto as coisa do mato
As coisa cá do torrão
E vasmincê vai cantando
Tudo que fô trabaiando
Na sua maginação
D:
Bravo, caboclo! És um poeta!
Só te falta ilustração!
C:
Pra cantá numa peleja
Não perciso disso, não!
D:
Não precisas? Mas por que?
Deixa de ser paspalhão!
C:
Ora! Os livro, esses tanguinha
Ensina só a sabê
Mas porém o pinho, a viola
Ensina a gente a gemê
D:
O livro é o sustento dalma
O livro é quem nos consola
C:
Pode sê, mas o meu livro
É a viola, é sempre a viola!
D:
Mas quem foi que te meteu
Estas coisas na cachola?
C:
Foi Deus, que tá mais num pinho
Do que nos livros na escola!
D:
Caboclo, vamos pra Corte
C:
Credo em cruz! Nunca! Não vê!
Eu não troco este mucambo
Este, que me viu nascê
Pru todos esses palaço
Das terra de vasmincê!
D:
Minha terra tem encantos
Que inspirariam teus cantos!
Tem teatros, tem monumentos
Mulheres belas aos centos
Largos, praças, avenidas
De luzeiros incendidas
E toda a sua alegria
Toda essa grande folia
Quando de lá tu voltasses
Tua viola cantaria
C:
Seu doutô! Vige Maria!
Sai capeta! Eu te arrenego!
Lá na Corte eu morreria!
Voute! Voute! Ante sê cego!
D:
Deixa-te lá de impostura!
C:
Juro a vossa sinhoria!
D:
Se o sertão é a natureza
A cidade é a formosura!
C:
Eu já vi pulas pinturas
Isso tudo, sim sinhô
D:
Mas tu só viste em figura
Que um homem fotografou
C:
Não quero não, seu doutô!
D:
Pois tu, um poeta espontâneo
Rude, sim, mas eloqüente
Viver miseravelmente
Dentro deste buraquinho?!
C:
Isso nunca foi buraco!
D:
Mas isto é casa de gente?
C:
É a casa dum passarinho!
D:
Caboclo, não dês cavaco!
C:
Seu doutô, pru caridade
D:
Eu não disse por maldade!
C:
Esse mucambo é um ranchinho
Mas mermo pequinininho
Cabe Deus bem à vontade
D:
Mas a civilização?!
C:
É moça munto bonita
Mas não vai cumigo, não
D:
Mas, por que? Fala a verdade!
C:
É fia da escravidão!
D:
Pois, olha, este teu mocambo
Me parece uma prisão!
C:
É a prisão da liberdade
Que véve aqui no sertão
D:
Tudo que há por estas brenhas
Na capital também há!
C:
E os pásso, e os musgo, os violêro
Daqui destes matagá?!
D:
Lá no Rio de Janeiro
Também canta o sabiá!
C:
A natureza varêa!
O sabiá que lá grogêa
Não grogêa, cumo cá
D:
É presunção manifesta!
No Brasil os passarinhos
Tanto vivem na cidade
Como vivem na floresta
C:
Pásso da Corte não presta!
Canta cum malicunia
E, aqui, nestas mataria
Toda minhã, todo dia
Parece dia de festa
D:
Você já está caducando!
C:
Óie! Os pásso tá cantando!
Aquele que tá triscando
É que se chama o chorão!
Escute! Não tá uvindo
fazê "tim tim", retinindo?
É o canto do pinchanchão!
Óie o outro! É o "pingo-pingo"
Passarinho que só canta
Nos dia santo e domingo!
D:
E aquele que está fazendo
pi, pi, pi, pi, pi, pi, pi?
C:
Tôu uvindo! Eu já uvi!
É fío de vira bosta
E neto de bem-te-vi!
D:
Isso tudo eu já senti
Nos próprios versos que faço!
C:
Vasmincê pode sê pásso!
Eu não lhe tiro a rezão!
Mas é pásso só de pena
Taliquá cumo pavão
D:
Você tem muita cachaça
Mas é bem pouco engraçado!
C:
Mas que qué váincê que eu faça?
D:
Um verso metrificado!
C:
Pode sê verso bonito
Mas é verso acabijado!
D:
Tu nunca ouviste um poema
Do poeta Guerra Junqueiro?
C:
É côco? É samba? Embolada?
Reco-reco? Passo de ema?
Ou é coisa de istrangeiro?!
D:
É o poeta de Portugal
O grande poeta imortal
Da morte de dom João
C:
O que?! É poeta assassino?!
Eu não conheço, nhôr, não!
D:
Tu nunca ouviste falar
Em Alberto de Oliveira?
C:
É o fio do Zé Pindóba
Que dexo a Ginuveva
Pru via das bebedera!
D:
É um poeta da Academia!
O que escreveu a poesia
Em que ele quer ser palmeira!
C:
Esse hôme quer ser parmêra?!
Ora dá-se! Que bestêra!
D:
Deixa de ser trapalhão!
Isso já passa de abuso!
Agora vê se respondes
A esta interrogação:
Tu sabes quem foi Caruso?
C:
Já vi falá nesse bicho
Cumo cantadô frexado
De musga de catatáu!
D:
Foi um cantor afamado!
C:
Mas perde no desafio
Cum o Chico Orêia de Pau!
D:
Ora, vejam! Vejam só!
Maior tolice haverá?!
C:
Fique lá cum o rixinó
Que eu fico cum o sabiá!
D:
Como tu vives na infância
Como é triste a ignorância!
Esta só de um pobre poeta
Cantador destas bibocas
Deste céu sempre nublado!
C:
Vasmincê tá ispritado?!
Eu não sei o que é nubrado
Mas eu garro noutra rima
Varejo outro verso em cima
E digo que o céu da Corte
É que é céu esbagaçado!
D:
Tu estás muito enganado!
O céu de lá é tão quente
Como o beijo transparente
Lá das nossas melindrosas
Que é o beijo mas perfumado
C:
Vasmincê tá sabugado!
Não hai bêjo cumo o bêjo
Duma cabôca piaba
Que chêra a capim mimoso
E tem chêro de mangaba
D:
Beijo matuto é pesado!
O beijo da melindrosa
É um beijo cristalizado!
C:
É bêjo de songa-monga!
Não é cumo o da cabôca
Que sai gritando da boca
Que nem que fosse araponga
D:
Mas as moças da cidade
Quando a gente pede um beijo
Elas dão logo, à vontade
C:
Vaincê tá aqui, tá na maca!
Seu doutô tá barrigado!
Vaincê pode sê bêjado
Pula boca duma faca!
D:
Oh, que terra de assassinos!
Bem me disseram que os homens
Cá do sertão são ferinos!
C:
Vaincê em terra alêia!
Aqui nós não tem cadeia!
Vasmincês lá pula Corte
Tem juiz pru toda parte!
Nós só tem cá pulos mato
Um juiz: - É o bacamarte
D:
Caboclo, eu já estou doente
E por isso vou deixar-te
Com toda a satisfação
C:
Ué! Seu doutô tá doente?!
Vá ô Chico Kelemente
Que seu doutô fica bão
D:
Não digas mais heresias!
Eu sou médico e não creio
Nas tuas feitiçarias!
C:
Ah! É doutô de curá?!
Apois eu lhe digo agora
Que é percizo ixprimentá
D:
Minha doença é doença
Apenas do pensamento!
C:
Vaince percure o cabôco
Que eu lhe juro que o cabôco
Vai lhe sirvi de ixcremento
D:
De que? De que? Só me rindo!
C:
Que que vaincê tá sentindo?
D:
Tratemos do que convém
C:
Carrapato é carrapato
E o Chico é um doutô dos mato
Cumo na Corte não tem
D:
Tratemos do que convém
C:
Sou doutô, óie, ingrimente
Me arresponda: dróme bem?
D:
Sim, senhor! Otimamente
C:
Discome bem o que come?
D:
Sim, senhor! Como convém!
C:
Disbebe bem o que bebe
Cum perdão desse "porém"?
D:
Sim, senhor! Como convém
C:
Vaincê vendo uma cabôca
Daqui ou lá da cidade
Vaincê não sente vontade
De garrá e dá um bêjo
Um abraço de inxirida
D:
Como não? Mas você sabe
Que isso é proibido
C:
Seu doutô! Pru minha vida!
Vaincê tá malacafento!
Tá cum a ispinhela caída!
D:
Então, vê-se uma mulher
Dá-se um abraço, dá-se um beijo
Sem mais esta ou mais aquela?!
C:
Percure o Chico, seu moço
Que ele lhe assunga a ispinhela
D:
Fico-lhe muito obrigado!
Parto amanhã, inda mesmo
Que o tempo esteja embruscado
Pois desde que aqui cheguei
Não vi um céu estrelado!
C:
Tire o cavalo da chuva
Que seu doutô nunca viu
Um céu todo inluminado
D:
O céu lá da capital
É claro como cristal
E outro céu há na cidade
O céu da eletricidade
Maravilha que em verdade
Tu pasmarias de vê-la!
C:
A mió litricidade
Tá lá em riba! As istrela!
D:
Mas a ciência se revela
Nessa luz alviçareira!
C:
A luz da litricidade
É luz morta, sem sodade!
Não é a luz verdadêra!
D:
Por que?
C:
Quando a gente morre
A luz santa, a luz da fé
A luz, nossa cumpanhêra
Vasmincê sabe qual é?
É as duas vela dos pé
E as duas da cabecêra
D:
Bem! A noite se insinua
E hoje eu quero ver a lua
De que vocês falam tanto!
A lua cheia de encanto
Essa lua feiticeira!
C:
Seu doutô, hai duas lua!
D:
Não há mais do que uma lua
Que ilumina a terra inteira
C:
Seu doutô quêra ou não quêra
Ha de vê que a sua lua
É lua sassariquêra
D:
Aceitando esta besteira
Direi que a lua da Corte
É mais formosa e fagueira
C:
Lua da Corte é porquêra!
Não tem a quilaridade
Desta lua tafulêra
Quando ela nasce nos mato
Os rio, os córgo. Os regalo
As gebarra, as capuêra
Tudo chêra, tudo chêra
E fica a noite tão branca
Que inté parece que a noite
É uma frô de laranjeira
D:
Não dirias mais tolices
Mais bobagens, mais sandices
Se fosse comigo e visses
As canduras, as ternuras
As doçuras, as tristuras
Da lua, lá numa praia
Beijando o mar, que desmaia
Sob um luar de lua cheia!
C:
Vaincê tem voz de sereia!
Mas não se afobe, apois, não
Que seu doutô há de vê
Quando a lua aparecê
Que não hai lua bonita
Fermosa, linda e catita
Cumo a daqui do sertão
D:
Caboclo, deixa de prosa!
Deixa de ser charlatão
C:
Apois bem! Vaincê vai vê!
Eu nunca fui gingaião!
D:
Mas vai ver? O quê? O quê!
C:
Não tarda a lua nacê!
Vaincê já não tá sentindo
Uma comichão de bêjo
Um trundundum, um desejo
Um coité no coração?!
D:
Sim! É verdade! Confesso!
Mas não sei qual a razão
C:
Apois eu sei, seu doutô!
D:
Se sabe, diga-me então!
C:
Eu sei, eu sei, sim, sinhô!
D:
Sei que minhalma está calma
E no entanto eu sinto nalma
Tudo quanto estás sentindo!
C:
Vasmincê não tá mintindo?!
D:
Se estou dizendo a verdade
Porque motivo estás rindo?!
C:
Sim! Eu tôu rindo, é verdade!
Sim, seu doutô, eu tôu rindo!
Óie! Vêje! Cumo é lindo!
Inté parece a sôdade!
Lá vem a lua assubindo!
D:
Como ela vem tão formosa!
Como ela vem tão dengosa!
Como ela vem tão saudosa
Carinhosa e religiosa
Na sua etérea ascensão!
C:
Parece a boca da noite
Que tá fazendo oração!
D:
Caboclo! Eu peço perdão!
Observação:
O final deste desafio deve ser dialogado com lentidão. O caboclo ficará meio abstrato,
de vez em quando olhando o horizonte, sem que o doutor o perceba. A cena, que está em
leve penumbra, pois o desafio começa ao cair da tarde, gradualmente irá se aclarando,
até o momento em que o violeiro, puxando o doutor pelo braço, lhe disser:
"Lá vem a lua assubindo!"
Depois de proferido pelo doutor o último verso, - Caboclo, eu peço perdão
enquanto fitam o horizonte do lado direito, estáticos, (principalmente o doutor) pelo
nascimento da lua, ouvir-se-a o Luar do Sertão, ao longe, ou, se preferirem, em
cena pelos dois repentistas, não devendo passar de uma estrofe, cantada enquanto o
velário serenamente vier caindo.
(CEARENSE, Catulo da Paixão. Meu Brasil) |
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- Catulo da
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- Catulo da
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