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O CANTADOR JOSÉ DA ROCHA FREIRE
(Zé Melancia)

Já fui cantador destemido
Cantador de alta classe...
Já cantei face a face
Com poeta garantido...
Com rima e verso medido,
na matéria e em repente,
Quem fui eu antigamente,
Quem estou sendo hoje em dia,
Só resta da melancia
a casca e uma semente

(Zé Melancia)

A lagosta de repente, no Ceará, de refeição de pobre, passou à de rico. Houve tempo, e não está distante, que a unidade podia ser adquirida ao preço de cinco cruzeiros velhos. Mas bastou que barcos franceses, de pesca, se aproximassem do nordeste, por volta de 1960, para que o crustáceo, localizado nas águas da costa marítima, atiçasse a gula do pescador profissional a soldo de firmas de grandes capitais. A pesca de lagosta é realizada com o jereré, este mede aproximadamente um metro de boca, e um metro e trinta de saco, o que se entende como "corpo de jereré". À boca, um cordão corre em forma de cruz, e aí estão colocadas as iscas que distam umas das outras sete centímetros aproximadamente. De preferência, de sapuruna, sendo as de cação, às vezes, também utilizadas. O pescador escama o peixe; dá-lhe no lombo um talhe, tornando-o apetecente. Cada covo ou jereré "arrasta", isto é, aprisiona até sessenta lagostins. Para içá-lo, faz-se necessária a corda, geralmente o cabo grosso em que é preso. Nos jererés de arame, a isca utilizada quase sempre é feita de canela de boi (mocotó). O arco-da-boca é de piquiá ou cipó de mufumbo.

Pescam-se nas costa do Ceará três qualidades de lagosta: 1) lagosta comum; 2) lagosta verde, cor de lodo, apelidada de "lagostim chorão". Esta não é produto comercial. 3) O tipo italiano, o lagostim verdadeiro. A terceira espécie é raríssima, não tem "chifres" mas nadadeiras.

O pescador, principalmente da zona do Aracati, demanda ao mar às seis da manhã para apanhar a isca. Preparando-a na forma anteriormente descrita, parte para o mar alto, indo de pernoite, o que implica dizer que só regressa no dia seguinte.

Logo que o comércio de Fortaleza foi invadido pela lagosta, já aí oferecida ao público a preço elevado, o cego Aderaldo improvisou:

Dizem que a lagosta é
Muito rica em vitamina
Seu valor alimentício
Em muitas mesas domina
Antes, foi da classe baixa
Hoje, é da classe fina

Noutro tempo os pescadores,
Quando nas águas pescavam,
Só pelos peixes comuns,
Seus pensamentos vagavam,
E o que se chama lagosta
Só por descuido pegavam...

Hoje, estão abandonando
Os peixes na pescaria
Envolvidos na lagosta
Pescam de noite e de dia
É esta a justa razão
Da tamanha carestia!

Só se fala na lagosta
Onde vive o pescador,
Pois a pescaria dela
Oferece mais valor
Hoje, é pra presidente,
Deputado e senador

O preço duma lagosta
Agora se representa
Como uma coisa medonha,
Que todo mundo comenta;
Custava vinte cruzeiros,
Agora custa sessenta!

Em Canoa Quebrada, praia de Aracati, quando escrevo estas notas, exerce a pesca mais de uma centena de pescadores que utilizam aproximadamente trinta e cinco jangadas. O presidente da colônia de pescadores da área é o poeta popular José da Rocha Freire, vulgo Zé Melancia. Zé Melancia é "historiador" e cantador aplaudido na orla marítima. É o "cantador das lagostas", pois não se sabe notícias de outro bardo popular que tenha demonstrado maior interesse pela pesca desse crustáceo. Foi cantador aos oito anos, como "fruta que vinga cedo". E disse também em versos que, quando morrer, e deixar a praia de Canoa Quebrada, a sua viola deverá ser depositada em seu túmulo, "onde chorará uma alma sem vida". É homem rude, cheio de melancolia:

Já fui cantador destemido
Cantador de alta classe...
Já cantei face a face
Com poeta garantido...
Com rima e verso medido,
na matéria e em repente,
Quem fui eu antigamente,
Quem estou sendo hoje em dia,
Só resta da melancia
a casca e uma semente

O pai, o velho Melancia, veio de Orós; foi lá que aprendeu a pescar. A família gosta de mar, afeita à arte de pescar. Até Lourdinha Melancia, a esposa, aprecia navegar também na jangada em hora de muito trabalho.

Zé Melancia proclama-se o "poeta da lagosta"; dos vates populares, como referimos, é quem mais verseja sobre o assunto. São de sua autoria os folhetos: Os insultos da política da lagosta em Canoa Quebrada, Segunda história da lagosta, em que se tem descrita a condenação das "miúdas e das ovadas"; e Exemplo aos pescadores de lagosta miúda e ovada.

É nesse tom que o poeta começa os versos, em seis pés, da última história:

Ó meu Deus, pai sacrossanto,
Dai-me fortes aspirações
Para eu elevar meus versos
Com métrica nas orações.
Dai-me o saber que deste
Ao grande Luís de Camões

Ó Virgem Mãe de Jesus,
Seja meu farol de guia...
Levai ao porto seguro
O pescador Melancia,
Abra os caminhos poéticos
Onde trilha a poesia.

Eu te peço, humildemente,
Ouvi, senhor, quem te clama!
Me responde de teu reino
Por carta ou telegrama
Que eu seja um grande poeta
Quando morrer, fica a fama.

Vou levar outra história
Da lagosta brasileira
Alguém disse que a segunda
Foi melhor que a primeira
Agora, vou ver o que dizem
Sobre essa, que é a terceira...

José da Rocha Freire, líder da comunidade a que pertence, funciona também como conselheiro dos pobres. Tem a palavra ouvida em todas as ocasiões, principalmente quando existem problemas de ordem moral. É deficiente de estudos, mas inteligente. Escreve com dificuldade, mas se expressa firme. É curioso como, amiúde, está implorando a proteção dos deuses e das circunstâncias para escrever versos:

Ó Providência, dai-me
Uma aspiração ativa,
Para eu fazer os meus versos
Com base e rimas vivas
Com a oração poética
De uma lira aspirativa!

Vinde, oh sábios da Grécia,
Me dai força aspiratória.
Salomão, rei do saber,
Transmite a tua memória
Dai-me conforto e ciência
Para elevar minha história!

No folheto Exemplo para toda humanidade, o poeta narra a história do rico que desejava fabricar aguardente, sem conseguir o intento. É quando lhe surge um negro, retinto como carvão – e o leitor logo descobre ser o próprio satanás – disposto a ajudar, obtendo o grau exato da bebida.

Quando o rico satisfeito quer entender-se outra vez com o negro, este já desapareceu:

O ricão soltou um grito
Dizendo, eu sei que me acabo
Quero tomar providência
Porém não posso dar cabo
Eu tenho certeza pura
Que aquele negro era o diabo

Vejam se não é verdade
O que nosso passado traz
Provo que a cachaça
É o suor do satanás
Além disso acompanhada
Com o sangue dos animais

Vejam os que bebem e cantam
Provem do sangue do galo
os que se queixam e dão patadas
Têm o sangue do cavalo
É pra saber que o álcool
Dá no ébrio um grande abalo

Aqueles que bebem e rodam
Tem o sangue do peru
Os que fazem palhaçada,
Imitam o papangu
Os que soluçam e vomitam,
Fazem parte com o urubu

Aqueles que pulam muito,
Têm parte do macaco
Também têm parte do bode,
Um bicho de sangue fraco
São os efeitos do álcool
Pra saber que ele é buraco.

Também os que se enlameiam
Têm o sangue do suíno
Os que têm sangue de onça
É o pior assassino
Os que têm sangue do gato,
É perverso e ratuíno

Os que salta e esturram,
Valente como o leão...
Aqueles que uivam e ladram
Provém do sangue do cão
Os que bebem e ficam tristes,
São comparados com o pavão

Os que têm sangue do touro
Só brigam de cabeçadas...
Os que imitam o carneiro
Quebram porta de marradas,
Outros ondulam como cobra
Que solta o bote, enrolada

Ao final dos curiosos versos, em que se sente o poder de inventiva do autor, Zé Melancia descreve como os ébrios de sua comunidade serão transportados para o inferno:

Eu vou avisar, de momento,
A todos que tomam cana:
Que breve vai para o inferno
Uma forte caravana,
Já fretaram o caminhão,
O chefe do lotação
É meu cumprade João Viana
Vai o convite pra todos,
Amigos da pagodeira,
Um passeio no inferno
É uma viagem ligeira
Vai de sábado prá domingo
Pra poder pegar a feira

Dá conselhos e reprimendas que não atingem somente a quem se entrega ao vício da embriaguez. Vale a pena ouvir-lhe os versos escritos no Combate contra as irregularidades do mundo moderno, onde o poeta vergasteia seguro os desmandos da modernidade.

Hoje calça é prá mulher
E homem usa calção
Além disso, sem camisa,
E vai fazer oração,
Quer invadir a igreja
A fim de assistir sermão

Hoje em dia é o que se vê
Homem de calção na rua,
A mulher já é demais,
Já passa semi-nua
Todo mundo com a vista
Retratando as carnes suas

Veja a mulher de maiô
Examine a coisa certa
Meça o corpo e veja a roupa,
Que tem menos parte coberta
Inda usa um feche-eclair
Prá ficar de porta aberta

Finalmente, o mundo moderno
Está num escandalismo
Ainda terá quem diga
Que não é comunismo
Estou vendo que em breves dias
Vai entrar o animalismo


Poeta de poucas letras, dissemos, mas de muito sentimento. Há versos de grande comunicabilidade em seus folhetos. Glosador emérito, exibe toda a sua inspiração ao glosar o mote que lhe ofereceram para um improviso: "Chora a mãe do assassino/ Junto à mãe do assassinado"...

Houve um crime na cidade...
Lá vai o prisioneiro
Abalou o mundo inteiro
Aquela barbaridade
Oh triste infelicidade!
Pelo crime praticado
Lá vai o preso amarrado
Com o seu gênio ferino...
Chora a mãe do assassino
Junto à mãe do assassinado

As duas mães eram manas
De tristeza, se abraçaram,
Unidas ali pranteiam
Aquelas mágoas tiranas...
Pelas notícias profanas
Um morto, o outro condenado
Quando o réu foi julgado
Levado pelo destino
Chora a mão do assassino
Junto à mãe do assassinado

Quando o juiz se erguia
Condenando o criminoso,
Já vi ato doloroso...
Sua mãe não resistia
No meio do salão caía,
Por ver o filho acorrentado,
Pela voz do triste sino
Chora a mãe do assassino
Junto à mãe do assassinado

Por volta de 1961 expressivo cantador do Ceará, João Siqueira, que pontificou em famosos desafios no Ceará, brilhando pelos dotes de inteligência e argúcia, perdeu a voz, vítima da insidiosa moléstia. O fato, como não deveria deixar de ser, constrangeu os amigos principalmente aqueles que estavam acostumados a ouvir-lhe o estro fácil, reto e equilibrado. Compadecido pela infelicidade do amigo, que estivera antes em Canoa Quebrada, o poeta escreveu estes versos em dez pés:

Era grande maestro violeiro,
Entoava as mais belas canções...
Nas rimas, compunha as orações
Como didático poeta brasileiro
Era grande trovador e seresteiro,
Forte na matéria e no repente,
Como uma estrela que veio do oriente
Esse planeta, com anos, foi mudado...
Quem foi João Siqueira, no passado,
Quem está sendo na data, atualmente

Passou tempos em Canoa Quebrada;
Seu nome ficou bem conhecido,
Cantou muito meu Ceará querido,
Ao lado de sua eterna admirada
Era uma noite bonita, enluarada,
Para um jovem feliz e sorridente,
Vendo a brisa soprando lentamente...
Ele deve, de tudo, estar lembrado
Quem foi João Siqueira, no passado,
Quem está sendo na data, atualmente

Só pode sentir grande saudade
De sua amiga viola, pioneira,
Quando ele abraçava a regra inteira
Com quem mais desfrutou a mocidade
Hoje, se abraça com a adversidade,
Mas tem guardado em sua mente,
Pra ele tem caso, e caso tão recente,
Parece estar vendo retratado
Quem foi João Siqueira, no passado,
Quem está sendo na data, atualmente

A natureza não tem prodigalidade;
Acostuma retomar o que já deu,
Esta dor sente tu, sente eu,
O sofrimento pertence à humanidade...
Não há gozo perfeito, é verdade,
A mocidade de nós, já está ausente,
Para nós já passou esse presente...
Eu também já me acho encostado
Quem foi Melancia, no passado...
Quem está sendo na data, atualmente!

Esses versos de solidariedade ao poeta que perdeu a voz, demonstram claramente a nobreza de sentimentos de José da Rocha Freire. Quem o escutar, não poderá deixar de comover-se. Os seus pensamentos são sublinhados por um profundo respeito aos semelhantes. Honra-se em ser pescador, e, muito mais trovador, capaz de tomar o melhor lugar numa sala, em noite de alegria, em que os bons versos são requisitados.

Amigo, dai-me atenção...
A um poeta de classe
Que no Ceará não nasce
Outro de igual perfeição
Sim, que usei a profissão
Da Arte da Cantoria
Por uma forma educada...
Moro em Canoa Quebrada
Sou eu, José Melancia

(CAMPOS, Eduardo. Cantador, musa e viola)

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