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(Catulo da Paixão Cearense) Se tu queres ver a imensidão do céu e mar Refletindo a prismatização da luz solar Rasga o coração, vem te debruçar Sobre a vastidão do meu penar Rasga-o, que hás de ver Lá dentro a dor a soluçar Sob o peso de uma cruz De lágrimas chorar Anjos a cantar preces divinais Deus a ritmar seus pobres ais Sorve todo o olor que anda a recender Pelas espinhosas florações do meu sofrer Vê se podes ler nas suas pulsações As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer E que não pode a tia dizer nas palpitações Ouve-o brandamente, docemente a palpitar Casto e purpural num treno vesperal Mais puro que uma cândida vestal Hás de ouvir um hino Só de flores a cantar Sobre um mar de pétalas De dores ondular Doido a te chamar, anjo tutelar Na ânsia de te ver ou de morrer Anjo do perdão! Flor vem me abrir Este coração na primavera desta dor Ao reflorir mago sorrir nos rubros lábios teus Verás minha paixão sorrindo a Deus Palma lá do Empíreo Que alentou Jesus na cruz Lírio do martírio Coração, hóstia de luz Ai crepuscular, túmulo estelar Rubra via-sacra do penar (Catulo da Paixão Cearense / Anacleto de Medeiros) Quando um deus cruento Vem sangrar meu sentimento E do meu tormento Põe as cordas a vibrar Solto o pensamento Que se perde no infinito Desse azul bendito Que te luz no olhar Se teu nome pulcro Em devoção desfio em prece Frio em seu sepulcro Me estremece o coração Pedras de cristal sentimental Correm fugaces Pelas minhas faces A brilhar, rolar Brilhas entre as gemas Dos poemas dos meus prantos Choras nos quebrantos Destas lágrimas supremas Tu sorris das rosas Policromas nos aromas Fulges no cismar Da minha dor, do meu penar Cantas nos enleios Dos gorjeios mais insones Corres pelos veios Da campina esmeraldina Gemes pelos seios Esteríssimos das fontes Pelos horizontes No arrebol ao pôr-so-sol Em vestes celestes Nos ciprestes de minhalma Ergues uma palma De martírio a meu penar Brilhas como um círio Iluminando sobre flores Minhas agras dores Cor do azul do mar (Catulo da Paixão Cearense / Irineu de Almeida) Pudesse esta paixão na dor cristalizar E os ais do coração em pérolas congelar De tudo o que sofreu na tela deste amor Faria ao nome teu divino resplendor Pudesse estalma assim com a tua entrelaçar E aos pés de Deus num surto ao fim voar E as nossas almas transmutar Numa só alma de um insonte querubim Lá, lá nos céus então Contigo ali Do amor na pura e etérea floração Lá, junto a Deus então Cantar uma canção De adoração a ti Lá eu diria aos pés do Redentor Perante os imortais: Senhor, eu venero muito a ti Mas confessor sem temor Que a ela eu amo mais Minhalma ascende além, que Deus já te esqueceu E a terra não contém afeto igual ao teu Procuras, mas em vão, na térrea solidão Ouvir a pulsação do coração do amor Num raio inspirador, no plaustro do luar Percorre o céu, o inferno, a terra e o mar Não acharás, não acharás amor igual Que o teu amor é imortal (Catulo da Paixão Cearense / Albertino Pimentel) Olha estes céus, ó anjo, iluminados De corações sofrentes e magoados E o teu candor na tela cérula a brilhar sob um trasflor de madrepérola De versos consagrados Com camafeus, opalas e turquesas E as ametistas que tu exalas no falar Com o éter da saudade, eterno marmor do sofrer Um templo ideal eu vou te erguer A teus pés terás a hiperdúlia da poesia Ave-Maria dos meus ais! Consagração do pranto deste santo coração Virgíneo escrínio da ilusão Ó, teus pés florei! Com os meus extremos Que são fluidos crisântemos Deste amor com que te amei Mandei a minha dor soluçar Num resplendor de diademar Do coração de essências lacrimosas Que eu marchetei de rimas dolorosas Fiz um missal espiritual que adiamantei Filigranei com os alvos lírios Destas lágrimas saudosas O teu altar num pedestal de mágoas Eu fiz das águas do Jordão do meu penar Tens uma grinalda em tua fronte constelei Versos passionais Meigas violetas, borboletas Das idéias, orquídeas dos meus ais Voai, saudosos, primorosos Dulçorosos beija-flores Dos tristores que eu lhe fiz dos amargores Doces hóstias multicores E um turíbulo de dores Cujo incenso é a inspiração Com amor e pura santidade Guardo o culto da saudade No meu coração Eis o teu templo de aurirais fulgores Que eu perfumei só com o ideal das flores Arcanjos de ouro tendo às mãos ebúrneas liras E a teus pés cantando em coro Sobre um trono de safiras Nos pedestais dos róseos alabastros Verás dois astros: Tasso e Dante a soluçar! Sobre o teu altar e debruçado em áurea cruz Meu coração numa explosão de luz (Catulo da Paixão Cearense / José Kallut) Não há dor que sangre mais A devoção do coração Que o negror da crúcia ingratidão Como a tua que não tem perdão Eu te juro sem temor Que tu não me tens amor Não me tens amor, bem sei Eu te juro e jurarei Tu sorris? Por que razão de mim sorris? No jardim do coração infeliz Um buquê das minhas lágrimas fiz Já te dei as rosas que em minhalma achei Se são flores lacrimosas São as rosas dalma Que eu por ti chorei O beijinho da traição Eu dei em ti, talvez cruel Só porque cerraste o coração Transformou-se em um jasmim de fel Beijo dado sem amor É o licor de mais travor Sem perfume, sem calor Beijo assim não tem odor Se tu tens De me esquecer, por que viver? Dize, ordena como hei de morrer Que as vontades tuas hei de fazer Mas um beijo com prazer Tu tens de dar Quero após o beijo dado Nele sepultado e nunca mais beijar Fui poeta sem querer Só para te obedecer Tu não tens, não tens amor de Deus Pois sorris dos pobres versos meus Tem um dia compaixão Dessa genuflexão Fui poeta sem querer Fui e sou e hei de ser! (Catulo da Paixão Cearense) Quando tu passa nus mato, meu bem Cantando pulos caminho Vai seguindo atrás de ti, meu bem Um bando di passarinho Ai, caboca bunita Mi da um beijinho! Quando tu inda vem de longe, meu bem Eu já di longe adivinho Eu sinto istremecê, meu bem As corda desse meu pinho Ai, caboca facera Mi dá um beijinho! Quando tu samba nus samba, meu bem Parece um beija-frozinho Qui avoa di frô in frô, meu bem Cumo a percura di um ninho Ai, caboca dengosa Mi dá um beijinho! (Catulo da Paixão Cearense) Foi um sonho te querer com doido amor Foi loucura penhorar-te o coração Dá-me mesmo assim ferido esse penhor Não te peço nem te imploro gratidão Guardo dentro deste peito por te amar Uma dor que sempre e sempre cresce mais Nem a tua ingratidão me vem matar Nem a tua ingratidão me abranda os ais Ai de mim! Ai de mim! Por que matar-me assim? Por que matar-me assim? Este amor, ó este amor, me foi fatal Nunca mais o meu sossego encontrarei Tu, travessa, sorridente e jovial Eu, em busca de minhalma que te dei Mas não posso te dizer por que razão É mais doce o azedume desta dor Serei teu e teu será meu coração Não te posso, ó não, negar tão santo amor! (Catulo da Paixão Cearense) Vê que amenidade Que serenidade Tem a noite em meio Quando em brando enleio Vem lenir o seio De algum trovador! O luar albente Que do bardo a mente No silêncio exalta Chora tua falta Rutilante estrela De eteral candor Vem meu anjo agora Recordar nesthora Nosso amor fanado Quando eu a teu lado Mais que aventurado Por te amar vivi! Quero a fronte tua Ver à luz da lua Resplendente e bela Descerra a janela Que eu não durmo as noites Só pensando em ti! (Catulo da Paixão Cearense / Irineu de Almeida) Tu, tu não queres crer como eu te quero! Venero o teu amor, que é minha vida Tudo nesta dor do mundo espero Sou poeta e sou cantador, ó alma infinda! Sobre o coração que me consome A rutilar luz diamante do teu nome Sei que o meu penar será infindo Irei cumprindo o que Deus determinar Hás de chorar a minha desventura Quando eu repousar na gelidez da sepultura Hás de lamentar os sofrimentos Tantos tormentos que sofri Enquanto vivo aqui por ti Vai, vai ó meu amor ao campo santo Verás a minha cruz lá num recanto! Vai, que lá verás cheias de odores Numa genuflexão algumas flores Vai e uma por uma sem ter medo Colhe essas flores a meiguice de um segredo São os versos dalma que eu não disse E enfim dizer, dizê-los só, quando eu morrer (Catulo da Paixão Cearense / Luiz de Souza) Clélia adeus! Adeus, minha doce Clélia adeus! Desce à praia e vem calmar o verde mar Que em breve irei sulcar além Clélia, ó vem! Adeus, vou me separar de ti Vem. Ó vem meu bem! Vem ouvir-me aqui Vou singrar a vastidão do mar A imensidão do mar, do mar Vou cantar a minha dor Sob este céu primaveril Clélia, adeus! Que o céu é todo puro anil, gentil Beija a lua o verde mar Na areia a se enrolar Ai, que lancinante é o meu sofrer! Ai, pensar em nunca mais te ver! Ó, são horas de partir meus ais! A vela a desfraldar Pede um sorrir, um teu olhar Ó vem, ó minha Clélia, adeus! Vai meu coração em chaga De vaga em vaga À solidão do mar clamar Clélia adeus! Adeus, vem dizer-me o eterno adeus! Desce à praia e vem calmar o verde mar Que em breve irei sulcar além Vem, ó vem! Por Deus, vem me dar um beijo aqui Vem, ó vem, Clélia meu bem! Vem meu ouvir aqui (Catulo da Paixão Cearense) Eu te respondo mesmo assim cantando Exacerbando os sonhos meus de então: Lágrimas frias, creias ou não creias Tantas chorei-as que fiz um Jordão Tu me perguntas por que, solitário Inda mais vário sou que um beija-flor Ai, quantas vezes cumprindo o fadário Fui ao calvário do falsário amor! Quando a primeira confessei que amava E ela jurava eterno afeto a mim Senti minhalma tão feliz, vaidosa Mais orgulhosa que a de um querubim Para ofertar-lhe desprendi a rosa A mais formosa do espiritual jardim Rosas, camélias, dálias, açucenas Lírios, verbenas, cravos, resedás Íris, violetas, manacás, mil flores Tantos primores dispensei em vão Jardim não teve nenhuma rainha Como a que eu tinha no meu coração Vieste tarde! Nem agora existe Um golvo triste de funéreo dó De tantas flores que eram meus carinhos Só vejo espinhos, folhas secas só O amor-perfeito que eu tinha em meu peito Perdeu a vida, emurcheceu por fim Mas essa flor modou-se, emurchecida Numa ferida que viceja em mim Eis minha vida, a minha história é esta Nada mais resta, fecho o meu jardim (Catulo da Paixão Cearense / Viriato Figueira da Silva) Senhor Tréguas a meus ais! Mata-me esta dor De não vê-la mais Volve piedoso o teu olhar Para o meu sofrer Vê que a padecer Venho te implorar Senhor, faze adormecer Meu peito a doer Tu que és todo amor! Tem compaixão Da minha dor Pára o coração Faze-o descansar Basta de ansiar Pensar que nunca mais verei O anjo que adorei Por quem choro e chorei E em cujo altar me ajoelhava E em que em extremos cultuava E que era tudo quanto amava E que era tudo quanto amei Pensar Em não mais me orvalhar Não me sacramentar Nos olhos que adorei Naqueles olhos que eu magoado Sobre um leito debruçado Num suspiro prolongado Com as minhas mãos fechei Tão só O que hei de fazer? Mais do que gemer Mais do que gemer Até que de mim tenhas dó Volvas teu amor Teu sagrado amor Sobre mim Senhor Em prece, ajoelhado A sua sepultura Que lágrimas transuda Já tenho interrogado A sepultura é muda Não quer me responder Meus Deus, que hei de fazer? Senhor, meu Deus, que hei de fazer? Contrito, ajoelhado Em lágrimas desfeito Já tenho interrogado A pedra de seu lado A pedra friamente Silêncio só transuda E impiedosamente muda Nada diz ao infeliz Às horas fulgurantes Das noites palpitantes A lua macilenta Tristonha e sonolenta O azul do firmamento E a própria solidão Entendem minhas queixas E esta dor do coração Só Tu, Senhor, em calma Não ouves meus gemidos Gritando por sua alma Cansados, languescidos Em pleno cemitério Revela-me o mistério E vem agora me dizer: O que é viver, o que é morrer? Senhor Tréguas a meus ais! Mata-me esta dor De não vê-la mais Volve piedoso o teu olhar Sobre o meu penar Vê que a soluçar Venho te implorar (Catulo da Paixão Cearense / Ernesto Nazareth) Sestrosa, dengosa Derriçosa, odorosa flor Maldosa, formosa Sertaneja, meu lindo amor! Anjinho, benzinho Meu carinho, meu beija-flor Condena sem pena Que minhalma te adora o rigor Quando tu passas na orla do monte Caminho da fonte, da tarde ao morrer Meu pranto rola por sobre a viola Que a noite consola no seu gemer Provocante, radiante Fascinante, ondulante Num teu fado ritmado Tu nos fazes até chorar Logo a gente, a gente sente Uns desejos dos teus beijos Uns desejos dos teus beijos Que até nos fazem delirar Ingrata, ingrata Volve a mim um teu doce olhar Teu riso me mata Me maltrata, me faz banzar Desata, desata Esse olhar do meu coração Ingrata, ingrata Suspirosa irerê do sertão Também se passas Formosa e tirana Por minha choupana Da tarde ao cair Vou te seguindo Na estrada arenosa Qual rola saudosa A carpir, carpir Na dança deslizas E assim pisas mil corações Teu peito é o leito Doce leito das tentações Teus olhos, teus olhos Vaga-lumes de ingratidões Teus olhos, teus olhos Os queixumes das nossas paixões |
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