


Meu sertão
Sertão em flor, 1919
Poemas bravios
Mata iluminada
Os pescadores
Evangelho das aves
Meu Brasil, 1928
Fábulas e alegorias
Desafios
Lira dos salões
Alma do sertão, 1928
Modinhas, 1945
 

"Catulo é um poeta e
um pensador que faz pensar"
(Heitor Villa-Lobos)
***
"Catulo escreve no dialeto do sertão
nortista. E, entretanto, esse homem, que é um gênio notável, tem as mais belas
narrativas que eu tenho lido e as mais deliciosas notações de cor, de psicologia que um
notável escritor desejasse assinar".
(João do Rio)
***
"Ninguém há que, ao ler os poemas
de Catulo Cearense, não se tome de admiração por esse homem de talento invulgar que se
impõe aos de seu tempo, como das mais legítimas afirmações intelectuais da nossa
terra".
(Francisco Prisco)
***
"O Brasil dá de tudo. Só não dá
Justiça. Desse, e o grande poeta nacional, esse Catulo que ninguém ouve sem sentir
dentro de si o arrepio da raça, não estaria de barbas postiças num teatro, a trocar o
arrepio de seus versos pela magra subsistência. Catulo é bem a voz da terra brasileira.
A Catulo ouvimos tomados de um estranho transtorno interno. Uma coisa grande, uma coisa
vaga, informe, monstruosa, cresce dentro de nós, expulsa o "moderno" de
importação e nos deixa sozinhos com a raça! Catulo conclui um dos seus poemas com um
grito dalma verdadeiramente sublime:
"Meu Deus, por que não fizeste os homens irracionais?"
Quem grita assim, quem atinge tais alturas, merece, como ganha-pão no fim da vida, não
uma, mas duas barbas postiças."
(Monteiro Lobato)
***
Não
se dá muita atenção à noite de 5 de junho de 1908, quando Catulo da Paixão Cearense
cantou modinha e tocou violão no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro. Pela
primeira vez o violão aparecia numa escola oficial de ensino musical, valorizado pela
audácia do sereneiro espantoso que o arrancara do plano ínfimo em que fora relegado.
Tocar violão era uma denúncia deplorável de desajustamento social, inferioridade
manifesta, depravação artística. Era, como nos velhos tempos de Plauto, a desconfiança
romana ao tamborim. Instrumento de cultos orgiásticos, podia o cidadão ser da melhor
espécie mas ostentar um tamborim era desaparecer no conceito público em Roma,
republicana ou imperial. Era um homem muito bom, mas estava com o tamborim na mão, sed
in manu tympanum est! Estava perdido! Talqualmente, o violão comprometia quem o
amava.
Ninguém sentirá a metamorfose nos dias presentes, com o violão prestigiado, clássico,
superior, concertista, aplaudido, glorioso. Mas em 1908
Catulo carregou-o para o
palco e fê-lo contracantar, não árias e romanzas, mas suas modinhas inesquecíveis,
musicadas por Luís de Souza ou Anacleto de Medeiros, magistrais
(Luís da Câmara Cascudo, na introdução de MOTA, Leonardo. Cantadores)

O
século nascente já testemunha a fama de Catulo da Paixão Ceraense como poeta, com
vários livros de modinha publicados, ótima voz e talento para se acompanhar ao violão.
Com Catulo, o violão desprezado e perseguido, vai adquirindo prestígio nos salões da
elite. Dois marcos dessa escalada do instrumento são as apresentações que faz no
Instituto Nacional de Música, em 1908, e no Palácio do Catete, em 1914, a convite de
Nair de Tefé, mulher do presidente Hermes da Fonseca.
É então reconhecido e aplaudido como o grande poeta nacional, o mais autêntico. "Catulo
é bem a voz da terra brasílica". (Monteiro Lobato)
Não se pode afirmar, porém, que Catulo tenha em algum momento escrito uma melodia. Era,
sim, poeta, caudaloso e delirante, que explodia seu estro de imagens apaixonadas em
linguagem preciosa, ao gosto da época, com a singular habilidade de saber encaixar versos
em quaisquer melodias conhecidas. Era preciso às vezes que lhes desse novos títulos, a
fim de que se adequassem aos temas que ia desenvolvendo em longuíssimos versos. Não
tivesse sido Catulo, e muitas dessas músicas instrumentais teriam logo caído no
esquecimento absoluto, apesar de belas.
Ao Catulo-modinheiro seguir-se-ia o Catulo-sertanejo, embora sua vivência sob o luar do
sertão tenha sido apenas aquela do Ceará. Catulo, homem de cidade, idealizava e
idealmente cantava a natureza e nossa gente. "O meu grande mérito está nisso:
em não conhecer o sertão e descrevê-lo tão admiravelmente". Tão grande
quanto o seu talento era sua notória vaidade.
(Extraído do encarte do CD Catulo da
Paixão Cearense nas vozes de Paulo Tapajós e Vicente Celestino. Revivendo, RVCD-069)
***
CATULO CEARENSE NO CATETE
Um esplêndido festival de arte, na véspera de São
João.
No palácio do Catete, com a presença do Senhor Presidente da República e
Excelentíssima Senhora, de todos os ministros de Estado, prefeito do Distrito Federal,
presidente da Câmara dos Deputados, marechal chefe de polícia, chefes e mais membros das
casas civil e militar, diretor geral dos Telégrafos e famílias da intimidade do casal
Artur Bernardes houve no dia 24 último uma festa encantadora.
Catulo Cearense, com o seu cunho de poesia regional e do seu estro bravio, a todos encantou,
conquistando sempre ao terminar cada uma de suas produções palmas de contentamento e
louvor.
Essa fina reunião festiva trouxe a quantos ali acorreram uma lembrança inapagável de
emoção artística.
(Jornal do Commercio. In CEARENSE, Catulo
da Paixão. Meu Brasil)
***
O marruêro
... Nas marvadage do amô
não ai cabra que não caia
quando o diabo tira a roupa
tira o chifre e tira o rabo
prá se visti cuma saia!
Se adisfoiando no samba
cantando uma louvação,
eu vi a frô dos cabórge
das morena do sertão!
Trazia dentro dos zóio
istrepe e mé como as abeia!
Oiou-me cumo uma onça!
E, depois, cumo uma oveia!
Aqueles zóios xingoso
eu confesso a vosmincê
ruia a gente pru dento
que nem dois caxinguelê!
Sem mardade, um bejo dado
naquela boca orvaiada,
havera de tê marruero
o chêro das madrugadas!
Era o gemê do regato,
que vai beirando as foiage,
que cai da boca dos mato!
As duas rôla morena,
pru dibaixo do cabeção
trimia, cuma água fresca
quando o vento beja as água
das lagoa do sertão!...
Pruquê os dois peito alembrava
dois maduro cajá-manga
e a boca toda vremeia,
parecia uma pitanga.
Cherava as mão da cabocla
cumo us verde maturi!...
Era talequá, marruêro,
dois ninhos de juriti!
Os pezinho da curumba,
quando dançava o baião
paricia dois pombinho,
a mariscá pelo chão!
Eu me alembro!...A saia dela,
cô das pena do irerê,
tinha sodade dos mato,
quando vai anoitecê!
Aqueles braço de fogo
(Deus não me castigue, não!!)
Queimava, cumo as fuguera
das noites de São João!...
Marruêro!... Os cabelo dela
tinha o calô natura
da pomba-virgem dos mato,
quando começa a aninhá!..
Apois, os cabelo dela
tão preto pru chão caía
que toda frô que butava
nos cabelo, a frô murchava
pensando que anoitecia!!
O suó que ela suava
no samba, cherava tanto,
que inté a gente sentia
um chero de igreja nova,
um chero de dia santo!
As anca, as cadera dela
currupiando no coco,
toda a se tamburilá
a mode que parecia
um xaquaiá de uma onde
que vem jupiando, redonda
na praia se derramá!
Japiaçoca do brejo
no arrastado do rojão,
cantava com tanta mágoa,
com tanto amô e paixão
que ispaiava, no terrero,
o oroma do coração!!
O coração das viola
aparava, de mansinho,
seus dois fiote de rola
quando ela tava sambando,
pulava fora dos ninho!
Veja também:
- Os dois
repentistas, uma peça de autoria de Catulo da Paixão Cearense.
- Catulo da
Paixão Cearense: 24 letras de músicas. |
O tempo reconhece e perpetua. Assim foi com
Catulo da Paixão Cearense, homem de muitos inimigos e adorado pelo povo. Inimigos porque
desfiavam dele um rosário de malversão que ia do vaidoso, passando pelo mulherengo, até
chegar ao cabotino. Adorado por ter sido um
dos poucos, talvez o único, poeta popular no Brasil que, em vida, recebeu todas as
glórias, todas as honras e uma adoração popular tão grande. Isso porque Catulo usou e
abusou de toda a sonoridade que o sotaque nordestino lhe proporcionou, soube colocar em
versos simples onde era o lugar de por versos simples. Tinha faro. Sabia ouvir, como
ninguém mais, o rumor da terra.
Catulo da Paixão Cearense era maranhense de São Luís, onde nasceu em 8 de outubro de
1863 em um sobrado de frente azulejada na antiga rua Grande, número 66, hoje rua Oswaldo
Cruz. Alguns de seus biográfos dão como data do seu nascimento 31 de janeiro de 1866,
mas por equívoco: essa data foi arranjada para uma nomeação no serviço público, pois
ele precisava remoçar três anos para conseguir a nomeação.
Ainda menino, Catulo, com 10 anos, mudou-se com o pai, o ourives e relojoeiro Amâncio
José da Paixão Cearense, a mãe, Maria Celestina Braga da Paixão e os irmãos para o
sertão do Ceará. Esse tempo que ficou no Ceará deixaria marcas profundas que,
posteriormente, se converteriam em poesias e canções de rara beleza e de apurado
trabalho de registro da língua brasileira, isto é, aquela escrita do jeito que se fala e
que serviria de inspiração para o tema de sua mais conhecida peça: Luar do Sertão.
Aliás, essa melodia, gravada nos primeiros anos deste século, época em que a
indústria fonográfica engatinhava, custou alguns problemas ao seu autor: apesar de
Catulo negar sempre, existe a possibilidade de que a melodia tenha sido adaptada pelo
violonista João Pernambuco a partir de um tema folclórico nordestino. Mas, fato é que
esta canção, composta originalmente com 10 estrofes com rimas emparelhadas, recebeu,
além de inúmeras outras gravações nos mais diversos estilos, a consagração popular,
a ponto de ter sido chamada de segundo hino nacional. Em 1880, com 17 anos de idade, sua
família mudou para o Rio de Janeiro que começava a substituir Salvador como principal
cidade brasileira. Nessa nova cidade, a família foi morar na rua São Clemente, numa casa
quase igual à de São Luiz, três portas no térreo, três janelas em cima, com sacadas.
Ali mesmo funcionava a joalheria e a ourivesaria de seu pai. O poeta adotou a cidade e
criou problemas com o pai. Por essa época Catulo tocava flauta e travou conhecimento com
algumas pessoas que moravam numa república na rua Barroso, em Copacabana. Essas pessoas
eram Antônio Calado e Viriato, flautistas, Anacleto de Medeiros e Quincas Laranjeiras,
que, exímio violonista, ensinou Catulo tocar violão. Daí para a boemia e as serenatas
foi um pulo. É também dessa época a sua primeira modinha, Ao Luar "Vê
que amenidade/ que serenidade/ tem a noite em meio/ quando em brando enleio/ vem lenir o seio/
de algum trovador". E, em seguida, o velho Amâncio espatifa um violão na
cabeça do filho. Ele seguira-o e, desaprovando o comportamento de Catulo, resolvera
castigá-lo. Tempos depois, Catulo tocaria violão e declamaria e violão ainda era
um instrumento maldito pela sociedade no Palácio do Catete para a mais seleta
pláteia da República Velha. Também é dessa época uma história contada pelos seus
inimigos envolvendo Catulo e Rui Barbosa: dizem que Catulo encontrou um amigo na rua e
falou: "acabo de sair da casa do ministro Rui Barbosa. Recitei o meu Hino
às aves e o baiano chorou. Só hoje é que vim a ter certeza de ele é realmente um
gênio".
Autodidata, aprendeu português e matemática, depois francês, língua que conhecia bem,
a ponto de fazer traduções de poetas que estavam em moda na mudança do século.
Entretanto, o gosto pela literatura francesa não fez com que ele se transformasse em um
parnasiano a mais, Catulo havia guardado a influência da adoslescência passada no
nordeste e, ao contrário do que então se cantava, compôs modinhas bem brasileiras.
Quando cantou e declamou pela primeira vez para um chefe de Estado, Nilo Peçanha, seus
críticos espalharam que Catulo havia entrado no Catete pelos fundos.
Mas em 1914 ele dá o "cala boca". Convidado pelo então presidente da
República, marechal Hermes, o poeta sobe, de violão em punho, as escadarias do Catete
para um novo momento de glória.
Anos depois, a mulher do presidente, Nair de Tefé (que se tornou conhecida como
caricaturista sob o pseudônimo de Rian) deporia sobre os momentos passados em Palácio
pelo poeta: "Essa audição de Catulo, no Palácio do Catete, constituiu o maior
sucesso a que um verdadeiro artista poderia aspirar em toda sua vida. Catulo, ao término
de cada canção que interpretava, recebia da culta assistência uma ovação delirante.
Todos o aplaudiram de pé". Essa audição valeu-lhe um emprego na Imprensa
Nacional.
Retornando um pouco no tempo, nos anos que antecederam a virada do século, convém
ressaltar que a vida de Catulo não era só composta de serestas, novas amizades, boemia e
violões quebrados na cabeça. Logo depois da chegada ao Rio de Janeiro, morre sua mãe e,
três anos depois, o pai. De repente, o poeta e seresteiro viu-se na obrigação de
trabalhar, é só conseguiu vaga na estiva do cais do porto, pegando no pesado. E a rotina
de sua vida sofreria alguma alteração. De dia, a estiva. À noite, o estivador todo enfatiotado partia para as
serestas. Assim foi até que o poeta deu sorte.
Convidado para uma festa na casa do senador Gaspar de Silveira Martins, ele agradou e, a
mulher de Silveira Martins, em retribuição, quis ajudá-lo. Catulo arriscou um pedido de
emprego. Ganhou um convite para ser professor dos filhos do casal. Aceitou o emprego e
mudou-se para a casa do senador, na Gávea. Enfim, uma vida melhor. De dia, aulas; à
noite, seresta.
Tudo ia bem, até que Catulo, que já tinha fama de mulherengo, encontra em seu quarto uma
moça semi-despida que faz um verdadeiro escândalo se dizendo violentada pelo poeta.
Depois de uma passagem na delegacia e outra na igreja, Catulo casa. Só depois fica
sabendo que tudo não havia passado de brincadeira de amigos. Era uma farsa, sendo que seu
casamento nem constava nos assentamentos da igreja paroquial.
A partir de então, é a vez das musas. "Coleira", único amor de sua vida, cujo
nome não se conhece, era segundo o próprio poeta, linda, de olhos angelicais, filha de
um senador de Goiás. Para ela, Catulo escreveu entre outras Ave Maria Humana e Imortalidade.
Mas houve outras musas. E outras poesias. Para a atriz Apolônia Pinto, sua conterrânea,
ele escreveu Os olhos dela, que por azar teve que dedicar a mulher de um amigo,
pois este seu amigo chegou em casa junto com Catulo de madrugada e a mulher começou a dar
a bronca. Catulo para aliviar a situação, cantou a canção Os olhos dela. Isso
serviu de carta de alforria para o amigo, pois o poeta, após ter cantado, falou que havia
feito a música para ela.
Todos os cronistas e contemporâneos dizem que "Coleira" foi de fato o grande
amor do poeta mas nada conseguindo, ele acabou por isolar-se no subúrbio de Piedade, onde
passou a lecionar num colégio que fundou. Na enciclopédia Abril de MPB, consta que
Catulo da Paixão Cearense era conhecido pelos seus "recitais e audições que
dava, pelas serestas que fazia naquele fim de século marcado por tantos acontecimentos: a
Proclamação da República, a revolta da Armada, as crises dos governos Deodoro da
Fonseca e Floriano Peixoto". Com o começo das gravações mecânicas, o novo
século aumentaria sua fama. Em 1906, o cantor Mário Pinheiro (1880-1921) grava Talento
e Formosura para a casa Edson, de Fred Figner & Cia., a pioneira do mercado
fonográfico do Brasil. No mesmo ano, grava também Resposta ao talento e formosura;
em 1907. O que tu és; Até as flores mentem e Célia; em 1909, Choça ao monte
e Cabocla bonita; em 1910, Adeus da manhã e a grande criação de Catulo: Luar
do sertão.
Talento e formosura, feita em parceria com Edmundo Otávio Ferreira, foi uma das
mais sarcásticas criações do poeta, cujo ressentimento desenvolvia-se ao longo de 10
estrofes, reduzidas nas gravações a três ou quatro. A letra, cheia de desprezo, entre
outras coisas, dizia que: "Mas quando a morte conduzir-te à sepultura/ o teu
supremo orgulho em pó reduzirá". Mais além continua: "E eu, morto
embora/ nas canções hei de viver".
Flor amorosa foi composta originalmente como polca por Antonio Calado, flautista,
compositor e amigo de serestas de Catulo, que colocou letra na melodia por volta de 1890.
Já Cabocla di Caxangá foi gravada pelo selo Odeon em 1912. Sobre esta melodia
falou-se que, como Luar do Sertão, teria sido adaptada de tema folclórico, mas
fato é que esta música, para tristeza de Catulo, que não queria ser sucesso assim,
acabou virando sucesso no carnaval carioca de 1913.
Independente das críticas, o nome de Catulo não parava de crescer. Ele conseguia o que
parecia impossível. Em 1908, por exemplo, por intermédio do maestro Alberto Nepomuceno,
Catulo conseguiu a cessão do antigo Instituto Nacional de Música para dar uma audição.
Houve protestos, principalmente do crítico Oscar Guanabarino, um dos mais respeitados de
então. Ele considerava uma profanação a presença de um violão num salão de música
erudita.
No prefácio do seu livro Modinhas (Livraria do Império, 1945) o poeta conta, com
sua peculiar vaidade, como foi aquela sessão: "Músicos, literatos, médicos,
jornalistas, advogados, engenheiros, professores, pintores, o escol de nossa sociedade,
diplomatas como o conde Prozoor, então ministro plenipotenciário da Rússia, tudo
se encontrava ali no meio da massa popular. Inúmeras pessoas ficaram de pé, por não
haver mais lugar.
Os aplausos eram tão retumbantes que se ouvia da rua. O crítico musical Oscar
Guanabarino, que havia escrito um artigo atacando o maestro Nepomuceno, por haver
permitido que eu introduzisse o violão naquele templo onde só pisavam celebridades,
depois do meu triunfo, confessou sua falta, saudando-me com palmas delirantes".
E a estrela do poeta continuava a brilhar. Bastos Tigre, em texto publicado no livro Noite
de São João, disse que "Catulo foi, é e será sempre o poeta do sertão; e
o próprio sertão o reconhece como tal. É o único poeta integral ainda existente em
nossa terra. Porque para ele nada existe além de poesia. Se lhe falarem na guerra
européia, sai-se com um verso de Hugo a propósito da Guerra de Beresina; e também se
conversarem a respeito de modas, salta ele com o soneto célebre de Nicolau Tolentino".
Contando que há tempos não via o poeta, Tigre diz que o achou remoçado e que o ar de
mocidade "provinha-lhe da ausência de cabelos brancos, pois ele trazia o crânio
raspado a máquina duplo-zero". Respondendo o porquê daquilo, Catulo disse a
Bastos Tigre que o seu busto no jardim do Monroe (onde funcionava o Senado Federal), não
mais se parecia com ele. "E como eu amo e respeito todas as artes, faço o
possível para me parecer com o busto. O meu crânio assim raspado dá mais a impressão
de granito, você não acha?"
Com relação à careca de Catulo, Tigre conta que ele fazia a barba e o cabelo sem a
ajuda do espelho, "de cabeça", como dizia. Se a lâmina era nova, cortava-se
todo. E quando isso acontecia, esquentava água, lavava-se, enrolava uma toalha na cabeça
e antes do sangue coagular, passava talco na cabeça. Ao ver Catulo com a cabeça cheia de
traços brancos, Bastos Tigre gozava e dizia: "Lá vai o mapa-mundi com todos os
rios da Terra". Quanto ao busto no Monroe, ele só foi erguido por graça e
força do próprio poeta que, vaidoso, no final da sua vida, cobrava homenagens a sua
grandeza. E assim foi feita a campanha "O tostão do povo", para construção de
uma herma, que é como se dizia então. Isso aconteceu em 1940. E Catulo cobrava a todos a
subscrição de sua campanha, irritando-se com quem não o houvesse feito.
Guimarães Martins organizou um vá lá Poliantéia Sobre Catulo,
publicada no livro O milagre de São João (Editora Para-Todos, Rio de Janeiro) de
autoria do poeta. Nessa Poliantéia, Martins transcreve o que publicou o jornal carioca A
noite, sobre a inauguração do busto do poeta. Diz o jornal que "uma
compacta multidão" se reuniu próxima ao busto que estava coberto com uma
bandeira brasileira, "e depois de muitos discursos, o poeta sobe o degrau do
pedestal da sua herma. Vai falar. Todos os presentes o aclamam. Ouve-se uníssono o grito
de alegria de todos quantos ali estão para homenagear o excelso cantor do sertão: -
Catulo! Catulo!
As suas palavras são espontâneas, cheias de sinceridade. Di-las num arroubo. São as
seguintes: "Bem sei que esta homenagem é uma demonstração da simpatia que mereço
dos meus compatriotas.
Se algum deles quiser desaprová-la, não me condene! Condene o povo! Antes de
agredir-me, considere que desde S. Excia. O senhor presidente da República, até o mais
humilde brasileiro, todos contribuíram com o seu tostão para que ela se realizasse.
Antes de terminar, quero dirigir-me a V. Exma., senhor presidente da República, como o
primeiro magistrado da nação, senhor presidente! Amo todas as pátrias, amo todos os
homens e rogo a Deus, de joelhos, que os conduza para o paraíso da felicidade. Mas à V.
Excia. sustento o que já disse nestes versos do meu último livro Um caboclo
brasileiro. São eles, senhor presidente, todo o entusiasmo, todo o delírio, toda a
loucura do meu incomensurável patriotismo". A seguir, o poeta lê os
versos. Tecendo elogios, aclamado publicamente, nada mais óbvio que Catulo recebesse as
benesses do poder traduzida em empregos públicos. Sobre estes empregos, Bastos Tigre
narra um anedotário bastante interessante: conta ele que, quando Catulo assumiu seu cargo
de datilógrafo na Imprensa Nacional, só aparecia lá uma vez por mês. E no dia do
pagamento. Os inimigos fizeram chegar ao presidente esse fato mas ele desfazia a intriga,
chamando Catulo de maluco e arrematando: "mas quem mandou ele ir tanto ao
serviço".
Uma outra vez, depois da revolução de 1930, o poeta foi surpreendido por um telegrama
que exigia sua presença no seu posto. Lá chegando, conta Bastos Tigre, "um cerbérico porteiro
vedou-lhe a passagem. Que vinha fazer ali, à sala privada dos datilógrafos?"
Sou funcionário desta casa, retrucou o poeta.
Funcionário, o senhor? Menas essa. Eu estou aqui há 25 anos e não o
conheço.
Pois saiba que sou,- e Catulo tomou, - o melhor que pode, uma atitude
datilográfica.
Como se chama o cavalheiro?
Catulo.
De quê?
Da Paixão Cearense.
Da Paixão Cearense? É parente do outro?
Não, senhor, Sou... o outro.
Depois que entrou na repartição, o poeta foi levado até a presença do diretor-geral,
que muito solícito, perguntou a ele que tipo de máquina preferia.
Qualquer uma doutor.
Sim, mas há de ter alguma de sua predileção...
O poeta pensou, revolveu a memória à procura de um nome de máquina e, afinal, atirou,
corajosamente, a marca que lhe veio à lembrança:
- Prefiro uma Singer.
Finalmente quando se aposentou, o poeta ficou furioso, pois quando se aposentou acharam
que ele só tinha 10 ou 12 anos de trabalho e deram-lhe na época, 300 mil réis, um salário que, como dizia o próprio poeta, era " um verso
de pé quebrado". A queixa foi tão grande que Vargas presidente na época, mandou
publicar decreto devolvendo integralmente os vencimentos do poeta. No últimos dias de
vida, Catulo morou num barracão na rua Francisco Méier, hoje rua Catulo da Paixão
Cearense, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro. Ao barracão deu o nome de
"Palácio Choupanal" e nele o poeta recebia velhos amigos, antigos companheiros
da estiva e visitantes ilustres, entre eles, Monteiro Lobato, o poeta espanhol Salvador
Rueda, o tenor e médico mexicano Alfonso Ortiz Tirado. Grande conversador, bom bebedor de
cerveja, Catulo vivia sempre com a mesa cheia, e recebia as visitas de pijama e chinelos.
Aliás, ele só conhecia dois trajes: ou o pijama ou o terno e gravata, nada de meios
termos.
Em 1939, o violonista e compositor Paraguaçu promoveu alguns recitais de Catulo em São
Paulo. A série de récitas incluía uma para o interventor de São Paulo, então Ademar
de Barros, no palácio dos Campos Elíseos. A série de recitais foi um sucesso absoluto,
seus livros esgotaram-se, pois todos queriam obter seu autógrafo. Para dar um exemplar à
dona Leonor, mulher de Ademar, o poeta teve que mandar buscar um livro no Rio de Janeiro.
Entretanto, esta série de recitais foi o resultado de uma carta em que o poeta apela ao
amigo: "A minha situação é crítica, muito crítica, só pessoalmente posso
explicar para você. Preciso que me arrume alguma coisa em São Paulo para melhorar a
minha situação". Em parte o apelo deu certo, pois Ademar entregou a Catulo um
envelope com 20 contos de réis, uma fábula na época. Matreiro, o poeta agradeceu:
"Eu sabia que V. Excia. não ia deixar por menos". Mais nada disso
adiantou. Catulo acabaria morrendo pobre a 10 de maio de 1946. Seu corpo foi embalsamado e
o escultor Flory Gama modelhou-lhe a máscara mortuária.
Em depoimento para a História da MPB da Editora Abril, o seu amigo Carlos Maul
contou que o enterro do poeta não foi um fato comum na cidades. "A banda do
Corpo de Bombeiros ia tocando a Marcha Fúnebre e atrás da carreta com o corpo
ia a massa popular. Quando o corpo chegou ao Cemitério São Francisco de Paula, no
Catumbi, havia milhares de pessoas. Os discursos de personalidades fizeram com que a
cerimônia entrasse pela noite. Uma lua imensa começou a luzir no céu e,
espontaneamente, o tenor Alfonso Tirado começou a cantarolar Luar do Sertão. Em
pouco milhares de vozes dominavam a noite" |